Ok, o assunto não é novo. Mas achei que valia a pena abordá-lo novamente depois que li uma entrevista com Sérgio Mattos, professor que ajudou o MEC a elaborar as novas diretrizes dos cursos de Jornalismo no Brasil. Iniciativa que vai permitir que as faculdades atualizem seus currículos, deixando-os mais sintonizados com a evolução tecnológica das últimas décadas. Além do mais, é sempre bom organizar discussões sobre determinados assuntos, uma das coisas que o Farol Jornalismo se propõe a fazer. Neste caso, pinçar o que anda se falando no exterior, principalmente nos Estados Unidos, onde o debate parece estar mais avançado.

Bueno, então repito a pergunta: jornalistas devem saber programar? Sim.

Mas antes que tu me diga que largou o curso de computação porque era impossível aprender Java em duas semanas, e aí foi fazer jornalismo, como aconteceu comigo, talvez primeiro devêssemos nos perguntar o que entendemos por “programar” no contexto da nossa profissão. Seria programar mesmo, como um desenvolvedor profissional, que domina os parâmetros de uma linguagem e sabe escrever poesia através de códigos? Ou seria ~simplesmente~ saber olhar um trecho desse mesmo código e conseguir compreender minimamente a lógica por trás daqueles caracteres estranhos?

Tendo a achar que estamos falando, em geral, da segunda opção. Claro que, quanto mais o jornalista souber de programação, mais capacitado ele estará para atuar em situações em que este conhecimento lhe for exigido. Mas convenhamos que não é tão essencial para a profissão quanto escrever corretamente, por exemplo. Portanto, embora seja óbvio, é interessante esclarecer do que estamos falando quando nos perguntamos se jornalistas devem saber programar.

Encarando dessa maneira, a jornalista multimídia americana Jennifer Palilonis vê necessidade de jornalistas conhecerem programação. Em um painel da conferência da AEJMC (Association for Education in Journalism and Mass Communication), realizada em agosto do ano passado em Washington, ela defendeu que esse conhecimento deve fazer parte da profissão, mas deixou em aberto que nível é necessário para a prática jornalística e para os currículos das universidades.

Segundo Jennifer, que estava representando a Ball State University no evento, conhecer código é importante porque permite ao jornalista ao menos saber o que é possível fazer quando estiver trabalhando com seus colegas designers e programadores. “Eu acredito que todos os jornalistas deveriam ser programadores porque acredito que, mesmo se sua função primária não é programar, se você é repórter ou fotógrafo, você não saberá o que é possível, não poderá fazer parte de um bom trabalho colaborativo [se não conhecer programação]”.

Na mesma conferência, Robert Hernandez, professor de jornalismo na USC (University of Southern California), foi mais claro: ele não acha que os jornalistas precisem saber programar de fato, mas reconhece que a programação é uma das técnicas com as quais jornalistas precisam ter contato. “Eu não quero code monkeys, eu quero jornalistas modernos”, disse, enfatizando que os novos profissionais não podem fechar os olhos para as tecnologias, e que um bom jornalista segue precisando saber onde está uma história, para então apurá-la e contá-la.

Em um post publicado no Poynter em setembro de 2013, Hernandez foi ainda mais didático (e divertido) ao explicar qual é a resposta dele para a pergunta: jornalistas devem saber programar? Com uma série de gifs animados em que cita Caça-Fantasmas e Gonnies (sabem Goonies, né?), ele constrói a ideia The Power of Code (O Poder do Código). Nela, em resumo, ele diz o seguinte: códigos estão aí para resolver problemas. Pra nós, jornalistas, a programação é apresentada como algo complicado e futurístico, mas na verdade não é. Basta adentrar um pouco no mundo das linhas de código para saber. E como fazer isso? Busque ajuda, ouça, pergunte, discuta. E o mais importante – e aí vem a referência aos Goonies: nunca desista (Goonies never say die!).

Em outubro, a jornalista Olga Khazan publicou um artigo na revista americana The Atlantic no qual ela afirma que jornalistas não precisam aprender código. “Se você realmente quer competir com as centenas de focas por um emprego como repórter, você deveria escrever até começar a sonhar em verbos na voz ativa, e não criar códigos horrorosos”, escreveu. O texto gerou uma discussão polêmica, com bons argumentos de ambos os lados. Olga chegou a escrever um novo artigo, no qual perguntou para colegas da Atlantic o que eles achavam que os jornalistas deveriam aprender no curso de jornalismo – o Farol traduziu este texto na íntegra, com autorização da autora.

Como resposta a Olga, Hernandez escreveu um novo artigo, agora para o Nieman Lab. No texto, o professor, uma referência em tendências de jornalismo, elabora o The Power of Code e o que ele quer dizer quando fala em “jornalista moderno”, e sua diferença em relação a “jornalista digital”. Leia o texto na íntegra aqui (em inglês), não é longo e vale a pena. Destaco dois trechos.

No primeiro, fica claro que não se trata de programar – algo que, como ele mesmo diz, pode causar pânico em alguns -, mas sim ter conhecimento do que se passa em um ambiente digital.

Nas palavras de Hernandez:

Conhecimento digital: o básico de como os computadores e a web funcionam. O básico de como os computadores estão ligados em rede, especialmente na internet. Em relação ao aprendizado, você ter contato com HTML, saber usar o FTP e publicar uma página na internet. Todo estudante ou jornalista precisa saber disso. Está dado, não é uma opinião. Estamos em 2013, por que mesmo estamos discutindo isso?


Saber programar: HTML e CSS são os tijolos da construção. Eu acredito que pessoas que não estudam jornalismo terão contato suficiente com isso se eles obtiverem o conhecimento digital adequado. Como jornalistas e criadores de conteúdo, no entanto, nossos estudantes precisam entender como as coisas são feitas no nível de código, e especialmente entender e respeitar o ofício. Mas para mim, saber programar é saber lidar com linguagens um nível acima do HTML: JavaScript, Python, Ruby, etc.

O outro trecho é a diferença, para Hernandez, entre “jornalista moderno” e “jornalista digital”.

Um jornalista moderno precisa saber como a web funciona, precisa ter contato e respeitar todas as funções dentro do jornalismo (incluindo programação), e precisa saber a função de cada um ao trabalhar em equipe. E este comportamento deve ser ativo, e não passivo. Eles precisam usar ferramentas digitais para produzir jornalismo relevante e de qualidade.


Um jornalista digital (ou web jornalista) foca na produção de jornalismo da web, não apenas na web. Isso se manifesta em diversos tipos de funções – sendo um editor de capa, alguém dedicado a reportagens multimídia ou desenvolvendo um app de notícias, sozinho ou em equipe. Eles usam as ferramentas, mas também as constroem se for preciso.

Programação e técnicas e ferramentas digitais volta e meia aparecem nas falas de Amy Webb, fundadora da agência de estratégia digital Webbmedia Group. Ela também tem uma visão parecida sobre o que os jornalistas precisam saber. Dá uma olhada nos tópicos abaixo. Eles foram tirados de uma apresentação que ela fez em dezembro passado na Sciences Po, na França, e resumem o que ela considera essencial jornalistas saberem atualmente.

  • Sistemas na nuvem: Google Docs, Dropbox, Evernote. Também, saber o que é a “nuvem
  • O fundamental de Twitter e Facebook
  • O fundamental de YouTube
  • Como buscar informações online
  • Técnicas básicas de dados (onde encontrar banco de dados e como achar informações neles)
  • Técnicas básicas de estatística
  • Técnicas básicas de matemática
  • Introdução à análise de dados
  • Técnicas de multimídia
  • Como saber onde estão os contatos que você vai fazendo; use algum tipo de banco de dados

No fim das contas, não tem muito mistério. O negócio é ficar esperto no que anda rolando. Afinal, como jornalistas, não podemos nos dar o luxo de não acompanhar as transformações do nosso próprio campo de trabalho. E isso, hoje, significa não só estar por dentro das notícias, mas também ficar de olho na tecnologia. E isso inclui um pouco de código, sim. Mas sem pânico, ninguém vai exigir que todo jornalista seja também um programador.

O problema é que isso não está muito claro, talvez porque ainda seja um assunto novo, ou melhor, não consolidado dentro da profissão. Ainda devemos acompanhar muitas discussões sobre como esse tipo de conhecimento deve aparecer no curso de Jornalismo. Mas não há dúvidas de que de algum jeito ele será incluído. Só não podemos esperar muito, afinal, sabemos bem que as coisas estão andando bem rápido lá fora.

Pra terminar, deixo essa brincadeira compartilhada no Twitter.