O texto a seguir foi publicado originalmente na revista The Atlantic em outubro de 2013 e recebeu autorização da própria autora para a republicação em português. Achamos interessante traduzi-lo porque ele discute temas importantes para o jornalismo hoje, mas que, em geral, ainda não são contemplados nas nossas faculdades. Sabemos que a mudança de currículo dos cursos de graduação não é simples, e não achamos que este texto seja um guia. Mas talvez seja um bom começo. A autora, ao conversar com colegas, levanta tópicos relevantes, e que precisam ser levados em conta ao se discutir a profissão hoje.

Antes de começar, notem que alguns termos são próprios dos contextos profissional e acadêmico dos Estados Unidos. Mas não é algo que comprometa a leitura ou a compreensão geral das ideias da autora e das pessoas com as quais ela conversou. 

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Por Olga Khazan

Em um texto recente, argumentei que estudantes de jornalismo que querem escrever não devem mergulhar em coisas como CSS e JavaScript, como eu tentei fazer durante o curso de jornalismo. Ouvi de tudo como resposta, desde “Você está totalmente certa! (de repórteres), passando por “Como assim!?” (de jornalistas de dados e infografistas), até chegar em “Espera um pouco, por que mesmo vocês todos estão tentando mexer em código?” (de desenvolvedores que não trabalham com jornalismo).

Interessada em ser parte da solução, pensei que eu poderia entrevistar alguns dos meus colegas aqui na Atlantic Media que se formaram recentemente em escolas de jornalismo para ver o que eles gostariam de ter aprendido, sem ser programação. Ninguém com quem conversei são repórteres tradicionais de impresso, mas, cá entre nós, o trabalho que fazemos escrevendo, editando e analisando dados é o tipo de trabalho que muitos repórteres aspiram.

Aqui está o que gostaríamos de ter aprendido antes de nos tornarmos jornalistas:

  • Estatística

É impressionante quantas vezes eu me peguei desejando saber fazer uma análise de regressão. Eu tive um pouco de economia e estatística na graduação, mas na escola de jornalismo (nota de tradução: a escola de jornalismo, ou j-school, aparece aqui como uma pós-graduação) elas mal foram mencionadas, embora a maioria dos jornalistas tenham que analisar números para saber se é o caso de relatá-los e como fazê-lo.

Jordan Weissmann, que cobre economia, concorda:

De fato, tudo é estatística. [Meus professores] nunca me disseram – e honestamente, eu não acho que eles tenham entendido – o quão crucial pode ser uma boa compreensão de matemática para ser bem sucedido em alguns tipos de trabalho hoje. Você não necessariamente precisa estar apto para fazer tudo em matemática – é para isso que serve o Excel –, mas você precisa entender o básico. Isso é muito mais importante do que fazer “fala povo” nas ruas.

E pode ser ainda mais valioso se você estiver planejando cobrir entretenimento. Ashley Fetters me disse o seguinte:

Eu tenho um tio que defende que todos os jornalistas deveriam aprender macroeconomia – de modo que todos esses “jornalistas liberais de coração mole” que pensam que toda a causa merece mais dinheiro entendam de onde o dinheiro vem. O que é … em um nível, algo válido.

  • Análise de dados

Análise de dados é um dos melhores jeitos de encontrar pautas, especialmente se você é, como muito repórteres que ainda estão estudando, alguém sem muitas fontes. O conteúdo das disciplinas mais básicas de online mudaram – eu acredito que para melhor – desde que eu saí do curso. Agora há um módulo que inclui uma seção de Google Fusion Tables, que eu aprendi sozinha quando eu estava na graduação e de vez em quando ainda uso. (Eu classifico isso como “não é programação” porque envolve usar planilhas e uma aplicação já existente, que, por sua vez, gera um código embedável para você.)

A melhor crítica ao meu texto era de que jornalistas precisam de habilidades de programador para encontrar histórias “raspando” dados. Eu fiz minha reportagem de dados da pós-graduação em jornalismo usando Excel, mas hoje eu adoro estar mais familiarizada com plataformas como MySQL (que não é mencionada no currículo mais recente). Eu não estou certa, na verdade, se MySQL é considerado “programação”. Escrever fórmulas no Excel é programar?

Ferramentas online fáceis de usar, desenvolvidas para não-programadores, como import.io e Google Scraper, podem ajudá-lo a fazer a “raspagem” necessária para a maioria dos projetos envolvendo dados. Mas é verdade de que informações mais complexas ou mais difíceis de acessar requerem linguagens de programação como Ruby e Python.

David Yanofsky, um repórter especializado em visualização de dados no nosso site irmão, Quartz, explicou como ele usa “raspagem” de dados para encontrar histórias. Ele estudou em uma escola de design, e não jornalismo, mas ele tem bons insights para aqueles que querem aprender um pouco de Python ou R (N.T.: outra linguagem de programação):

Com Python eu posso “raspar” informações de websites (foi como consegui os dados da matéria sobre apostas na NFL da última semana) e também analisar e calcular dados complexos, como o centro de gravidade das rotas de aviação comercial.


Efetivamente, programação se transformou na minha confiável, reproduzível e poderosa calculadora.


Especialmente sobre como eu uso a linguagem conhecida como R. Eu usei R para todos os cálculos da minha matéria sobre preços dos ingressos de basquete. Algumas vezes durante a redação da reportagem, eu ou quem me forneceu os dados encontrava imprecisões. Desde que todos os meus cálculos passaram para o formato de script, quando chegam novos dados, todos os números já calculados antes podem ser adaptados em questão de segundos.

Se eu tivesse um ou dois anos da graduação para me tornar uma repórter eficiente, no entanto, eu economizaria tempo usando amplamente ferramentas de raspagem de dados voltadas para não programadores, a menos que eu realmente necessitasse de competências de programação para um projeto ou reportagem específicos. (Neste caso, “todo mundo precisar saber um pouco de programação” é um argumento falho, desde que você não possa saber “um pouco” de raspagem de dados.) E em uma redação profissional, eu poderia deixar a criação de um gráfico sobre dados para alguém com treinamento em design.

  • Estudos

É quase certo que quase todos os dias TheAtlantic.com terá uma reportagem sobre ao menos um estudo. Muitos de nós concordam que seria muito mais fácil avaliar sua validade se nós tivéssemos tido um curso rápido de design experimental (expressão que define um tipo de abordagem estatística. O quão grande é o tamanho de uma amostra suficientemente grande? Quais estudos possuem um processo de peer-review (avaliação de suas competências por diferentes profissionais) forte? Quais achados são significantes, e quais são lixo?

  • Vender pautas

Várias pessoas desenvolvem a delicada arte de oferecer pautas como freelancers. A maioria dos escritores trabalham no mínimo um pouco como freelancers quando estão começando, mas em invés de “apertar enviar e rezar”, em geral há pequenas estratégias para treinar essa prática.

Minha colega de trabalho Julie Beck, que cobre a área de saúde, gostaria de ter sabido antes como propor uma pauta que realmente iria chamar a atenção de editores:

Nós não gastávamos muito tempo naquilo que faz uma boa pauta (que provavelmente é a razão de que não muita gente teve coisas publicadas). Se eu falar a verdade, havia muito de… tipo conselhos, “você só precisa se mudar para Nova York e se manter sem ganhar por uns três meses, fazer toneladas de entrevistas e eu tenho certeza de que você encontrará algo”, e não conselhos para aqueles cuja realidade financeira não permitia fazer isso. Ter tido uma disciplina com dicas para trabalhar como freelancer, escrevendo e enviando pautas, teria sido realmente muito útil (incomodar os editores que recebiam as pautas, talvez, mas ainda assim, ajudaria). Ou mesmo que essas dicas fizessem parte de um tópico de outra disciplina.

  • Informações públicas

Antes de Spencer Kornhaber se tornar um editor de entretenimento, ele foi um repórter de geral, um trabalho para o qual ele estaria bem melhor preparado com alguns conhecimentos de práticas policiais e judiciais. Aqui está sua lista:

Documentos jurídicos, procedimentos policiais, mais informações sobre dados públicos do que eu tive, um entendimento melhor de como agências governamentais, empresas e organizações não-governamentais funcionam, e quais informações você pode obter delas.

  • Escrita online

No curso de jornalismo, seus professores são todos jornalistas famosos aposentados, e eles são bons em ensinar você a como ter boas ideias para reportagens. Mas muito do jornalismo online de hoje se faz escrevendo muitos textos por dia. Seria muito bom participar de seminários sobre como dar uma navegada pela internet por 15 minutos e então ter uma ideia para uma matéria, a qual você escreve em uma hora.

E sobre isso, nem tudo o que você lê online é uma reportagem original. Mas também não quer dizer que é apenas uma colcha de retalhos. Muitas matérias vivem na metade do caminho, onde informações reunidas são aprimoradas com comentários ou contextualizadas. Seria legal ter manuais sobre como fazer isso de maneira inteligente antes de você fazê-lo profissionalmente.

  • A Internet – e por que as coisas são do jeito que são

Robinson Meyer, que cobre tecnologia, não esteve na escola de jornalismo, mas ele tem uma ideia interessante:

Escolas de jornalismo não têm de cobrir tudo, assim como nem todo jornalista deveria fazer o curso de jornalismo, e, com sorte, nem todos os jornalistas farão. Escolas de jornalismo precisam ser mais experientes tecnologicamente, mas deveriam sê-lo no método da práxis; elas deveriam ensinar filosofias e estratégias que sustentam todas as categorias de tecnologia, não apenas ferramentas. (Vamos velar, entre parênteses, as centenas de estudantes que aprenderam Flash em 2009.) Professores de jornalismo, em busca dessas estratégias, talvez as encontrem no mundo da programação, onde as ferramentas estão sempre mudando, mas alguns processos se mantêm firmes. Professores de jornalismo também talvez precisem entender que, para preparar seus estudantes para entender o mundo, eles precisam ensiná-los a como lidar com conjuntos grandes de dados usando Excel – ou, seu primo mais encorpado, a linguagem R – ao ponto de eles aprenderem código.

 

Eu talvez acrescentasse uma aula de história da mídia, de Gutenberg até agora, que não só transmite a fluidez dessa profissão produtora de efêmeras não ficções como também cobre o básico sobre como websites de hoje fazem dinheiro (focando tanto no IAB Standards [padrões de publicidade] como em Snowfall [reportagem premiada do NYT baseada em um roteiro multimídia). Minha “escola de jornalismo ideal” talvez fosse tão liberal como uma faculdade de artes, já que a maioria dos jornalistas não são nada além de generalistas.

Eu adicionaria que é cada vez mais importante entender a psicologia da web moderna. O que faz uma história se tornar popular? No que as pessoas estão prestando atenção? Eu deveria me importar? Como eu faço matérias saírem de uma homepage para o Facebook e para o Reddit? Essas são todas as coisas que nós pensamos todos os dias, mas ter essas conversas na academia antes de se enfiar nas trincheiras seria bem útil.

A última habilidade não tem a ver com Internet, e ninguém pode ensiná-la a você, mas é ela importante para escritores: resiliência. Se você quer escrever, haverá muitos “nãos” no seu futuro. Você precisa acreditar que, eventualmente, receberá um “sim” de alguém.

Quando eu olho para trás, para os meus dias na graduação, a coisa da qual eu me arrependo não é o cemitério de sites com barras de navegação em java. O que realmente me deixa mal é que eu era tão pessimista sobre o meu futuro escrevendo – não em relação ao jornalismo como um todo – que me fez tentar dominar quase todas as ferramentas digitais, apenas para garantir. ♥