O texto a seguir foi publicado originalmente no site Poynter.org em novembro de 2012. Acreditamos que sua idade avançada para os padrões da internet não compromete uma reflexão sobre o processo de verificação de conteúdo gerado por usuário de maneira geral e da Associated Press (AP), em particular – a despeito de haver alguns poucos dados pontuais já datados. Também é possível que, desde o momento em que Craig Silverman, autor do texto, conversou com o editor Fergus Bell, os processos de verificação da AP tenham mudado ou evoluído. Ainda assim, acreditamos que a discussão é válida. Ademais, trechos dessa entrevista foram incluídos no prefácio do Verification Handbook, publicação que reúne as principais técnicas de verificação digital, disponibilizada em janeiro deste ano. Ou seja, o que vocês vão ler, cá pra nós, é bem atual. 🙂

Antes de começar, duas observações. Vamos usar UGC (user-generated content) como abreviação de conteúdo gerado por usuário por não existir sigla equivalente em popularidade em português. E o texto foi traduzido para o português pelo Farol Jornalismo com a devida autorização do autor.


Por Craig Silverman

O furacão Sandy foi o tipo de evento que ajuda entender a promoção conquistada por Fergus Bell.

Bell foi recentemente nomeado Editor Internacional de Mídias Sociais e Conteúdo Gerado por Usuário (UGC, na sigla em inglês) da agência de notícias Associated Press (AP), graças ao seu trabalho checando esse tipo de conteúdo.

Então, quando o Sandy chegou, ele e o editor de mídias sociais da AP Eric Carvin trabalharam para peneirar o que chamaram de “dilúvio de fotos e vídeos mostrando momentos dramáticos e genuínos da tempestade” somado a “uma extraordinária quantidade de conteúdo fabricado”.

Foi onde o processo de verificação de UGC desenvolvido por Bell se mostrou especialmente útil.

Em entrevista recente, Bell me contou que o processo de verificação de UGC da AP foi construído em total alinhamento com as políticas e os processos de verificação já existentes na agência. UGC pode exigir práticas de verificação especiais, mas, no fim, precisa fechar com os padrões da AP.

“A AP sempre teve seus padrões, e eles realmente não mudaram, e foi especificamente trabalhando com esses padrões que nós conseguimos criar fluxos e as melhores práticas para lidar com mídias sociais”,  diz Bell. “A AP sempre se esforçou para encontrar a fonte original, para que então pudesse haver o trabalho de reportagem. E esse sempre é o jeito que nós verificamos o UGC. Nós não podemos verificar algo a não ser falando com a pessoa que o criou, na maioria dos casos”.

Dado o alcance da AP e o grande número de clientes e membros que confiam no conteúdo da agência, um erro cometido por Bell ou por seus colegas pode se espalhar amplamente. Eu perguntei a ele como lidar com um risco como esse.

“Nós levamos isso em conta”, ele diz.

A primeira parte de “levar isso em conta“ é usar o processo de verificação que a AP vem aperfeiçoando por muitos anos. A segunda parte é desenvolver um novo processo de verificação de UGC baseado nas melhores práticas existentes. A terceira parte é se agarrar a esse sistema, o que significa sempre dar tempo ao processo, e não ser influenciado pela urgência ou pela novidade de um conteúdo.

“Mesmo se algo for incrivelmente convincente mas não passar por um dos nossos passos, então não é publicado”, diz Bell. “Foi assim que nós diminuímos os erros, o que é difícil às vezes, especialmente quando trata-se de algo realmente muito bom. Mas nós simplesmente não publicamos, porque o sistema [de verificação] cresceu organicamente e ainda não nos traiu, então nós confiamos nele”.

Bell diz que um dos maiores objetivos do processo é entender o contexto da informação.

“Como uma organização de notícias, nós precisamos dar o contexto, e você só pode fazer isso verificando e entendendo exatamente o que está vendo”, ele diz. “Isso fez com que nós fôssemos de apenas possuir a capacidade de monitorar as mídias sociais a achar formas que nos permitissem contextualizar e dar valor à história, para que então as pessoas soubessem o que elas estavam vendo”.

Para ajudar a dar contexto aos seus membros e clientes, a AP recentemente adicionou um aviso a alguns conteúdos que produz. A nova informação descreve o processo de verificação usado para validar qualquer conteúdo gerado por usuário presente nos materiais da AP.

“Até recentemente nós mantínhamos tudo isso conosco, mas nós sabemos que as pessoas atualmente querem muito ver essas coisas, então nós começamos a inserir essas informações em todos os nossos formatos”, afirma Bell.

Ele forneceu uma amostra do texto que pode acompanhar um vídeo da AP.

++CONTEÚDO GERADO POR USUÁRIO: UGC não pode ser totalmente verificado. Este vídeo foi autenticado a partir dos seguintes critérios de validação:
++ Vídeo e áudio traduzidos e conteúdo checado por especialistas regionais a partir dos locais e eventos conhecidos
++ Vídeo é consistente e bate com a verificação independente da AP
++ Vídeo liberado para todos os clientes da AP pelo criador do conteúdo

O texto acima é parte do que Bell diz ser a evolução do processo de verificação de UGC da AP.

Processo de UGC da AP

Então, como funciona o processo?

Abaixo, uma imagem do processo de verificação de UGC da AP tuitada por Liz Heron, do Wall Street Journal, durante um conferência da Online News Association Conference deste ano sobre ética em mídias sociais e conteúdo gerado por usuário.

Um ponto que Bell enfatizou durante nossa conversa: embora a imagem sugira, não quer dizer que o processo seja circular. Os dois elementos em negrito – “Confirmar & verificar a fonte original” e “Verificar conteúdo & contexto” – são partes separadas do processo.

O processo de verificação de UGC da AP possui duas linhas que precisam retornar um resultado aceitável independentemente. Se a AP consegue verificar o conteúdo mas não consegue localizar a validar a fonte, o conteúdo não é distribuído.

“É como se fosse um processo duplo, em que um precisa ser feito de forma independente do outro”, diz Bell. “…quando eu digo que nós confirmamos uma fonte, isso significa que nós encontramos a fonte original e conseguimos permissão para usar o conteúdo. Quando a confirmação é do conteúdo, significa que nós entendemos o que estamos vendo. Então, eu posso ter verificado a fonte, mas eu preciso confirmar também se aquilo que ela me diz é verdade”.

Uma das vantagens da AP é seu alcance mundial. Com frequência Bell pede ajuda para escritórios regionais para verificar conteúdos relacionados a áreas geograficamente específicas.

“Nós podemos ligar para o escritório e dizer, como está lá fora?”, diz Bell. “Ou, como estava ontem?”.

Mas ser a AP também impõe desafios.

Ao contrário de outros veículos de mídia, a AP não pode simplesmente embedar um vídeo do YouTube em uma publicação online. O conteúdo em vídeo da AP é transmitido e precisa ser entregue com os parâmetros e especificações da agência. Isso inclui ter uma fonte a creditar por qualquer material proveniente de fora, e ter as permissões necessárias para distribuir o conteúdo.

Isso pode significar algumas restrições, mas Bell também afirma que as regras reforçam a necessidade de localizar e verificar a fonte de qualquer conteúdo. Isso ajuda o controle de qualidade.

No universo da AP, não há tolerância para publicar uma foto ou um vídeo não confirmados, mas que podem ser verdade.

”Nós sempre colocamos avisos dizendo quando estamos trabalhando nas reportagens”, diz Bell, “mas quando se trata de UGC, nós publicamos apenas quando conseguimos confirmar”.

Isso significa que no começo do processo de verificação de UGC na AP, às vezes Bell e sua equipe levavam mais tempo que os outros veículos para fornecer conteúdos. Mas agora que eles vêm trabalhando no processo e nos fluxos consistentemente, Bell diz que eles estão aptos a se mover mais rápido sem grandes problemas.

“Eu acho que nós estamos chegando em um patamar em que não estamos presos à velocidade para dar uma história, porque agora nós estamos acostumados”, ele diz.

É bom lembrar: criar e instituir um processo como esse leva tempo, o que pode fazer com você seja batido por seus competidores. Mas velocidade a velocidade aumenta à medida que as pessoas adquirem as habilidades necessárias. Você pode ser rápido e preciso.

Ativistas permitindo verificação

Um fator que ajuda Bell e seus colegas a andar rápido são os ativistas e outras pessoas fornecendo UGC em países como a Síria. Eles estão contribuindo muito ao facilitar o processo de verificação para a AP e outros.

“Nós definitivamente vimos uma evolução do Egito até a Síria”, diz Bell. “Na Síria, os ativistas em geral têm páginas no Facebook [para o seu conteúdo] e eles são facilmente contatáveis; no Egito nós não vimos isso. Havia muito material pesado vindo a público muito rápido, e era realmente difícil de entrar em contato com eles”.

As táticas usadas na Síria, de acordo com Bell, incluem ativistas segurando “um cartaz em frente à câmera para provar que dia é hoje” e narrando um vídeo “para que nós possamos de fato entender o que eles dizem, e assim nós vamos compreendendo a informação acrescentada ao vídeo por quem o filmou”.

É um exemplo interessante de como pessoal on the ground (N.T.: profissionais que fazem o trabalho em campo) está se adaptando às necessidades de verificação das empresas de mídia para garantir que o seu conteúdo seja distribuído.

A emergência de boas práticas para a verificação de UGC está, aos poucos, melhorando a qualidade do UGC, e ajudando a espalhar maneiras éticas de compartilhamento de informações.

A mensagem maior é a mais poderosa: ao nos mantermos fiéis a padrões elevados, podemos encorajar outros a fazer o mesmo.