“Uma redação é uma organização, e não um lugar”, escreveu o jornalista Shane Snow em matéria publicada no Poynter em julho passado. No texto, o co-fundador da Contently, empresa que desenvolve plataformas para ajudar a comunicação entre jornalistas e publishers, ouve editores e estrategistas de marcas inovadoras na produção, publicação e distribuição de conteúdo, como Mashable e Vox Media, para saber quais seriam os atributos de uma redação digital do século XXI.

(Desculpem, mas preciso abrir um parênteses logo no início. A Contently oferece dois recursos legais para jornalistas freelancers. O primeiro é um portfólio virtual. A interface é bem parecida com o currículo do LinkedIn, com a possibilidade de anexar PDFs e puxar links externos. A vantagem é estar um ambiente criado especificamente para quem é da área. O segundo é o The Freelance Strategist, blog que se propõe a ser parceiro do jornalista que se livrou do chefe, mas que não possui mais um ambiente propício para coleguismo e aprendizado mútuo. Fecho parênteses e seguimos.)

A frase me chamou a atenção.

Em anos recentes, testemunhamos algumas remodelações das redações de veículos tradicionais (leia-se, os grandes jornais) aqui no Brasil. Junto vieram as discussões, as polêmicas, os traumas. Repórteres mais antigos com dificuldade de se adaptar a um ritmo acelerado de produção jornalística que nem sempre privilegia a apuração, resistência às novidades tecnológicas, choque geracional, enfim, um monte de problemas. Pra ter uma ideia disso, sugiro a leitura do artigo “A integração da redação de O Globo: questões sobre jornalismo na era da incerteza“, de Sylvia Debossan Moretzsohn e Felipe Pontes Teixeira, apresentado no encontro da SBPJor de 2012.

Com a frase de Snow, fortalece-se uma desconfiança de que se trata de uma questão maior do que decidir se o “online” vai ficar junto ou separado do “impresso”. Não que eu tenha uma solução definitiva para a integração das redações. Longe disso. Tendo a achar que há um processo de amadurecimento pelo qual é impossível não passar. Mas ao ler artigos e entrevistas sobre redações nascendo e/ou se adaptando a um ambiente em que verificação digital e coberturas em tempo real precisam conviver com a produção de conteúdo exclusivo e inovador, gostaria de compartilhar algumas impressões que obtive e também uma ou outra tendência que se desenha.

Como a versão inicial deste post era sobre a Storyful, é com ela que eu começo. Não conhece a Storyful? Bueno, a Storyful se diz a primeira agência de notícias da era das mídias sociais. Foi fundada em 2010 com o objetivo de verificar o conteúdo gerado pelo usuário (UGC, na sigla em inglês), licenciando-os para seus clientes. Desde lá, se tornou referência mundial em UGC e acompanhamento de notícias em tempo real, principalmente via Twitter. No fim de 2013 foi comprada pela News Corp, de Rupert Murdoch, por US$ 25 milhões.

Feita a devida apresentação, vamos em frente.

Em meados do ano passado, a Storyful lançou uma iniciativa que talvez seja uma definição interessante para a frase que abre este texto, a Open Newsroom. A proposta da Redação Aberta é simples como a tradução para o português: abrir a discussão sobre assuntos comuns em uma redação jornalística a pessoas interessadas em participar dos fluxos de produção da notícia. Os encontros acontecem via Hangout do Google e em geral reúnem outros jornalistas, os chamados jornalistas-cidadãos, agentes humanitários, representantes de ONGs e de instituições de emergência. Cada participante pode estar em uma parte diferente do mundo.

Como disse o jornalista Markham Nolan, na época um dos editores da Storyful e hoje um dos integrantes da equipe do Vocativ, “nós temos uma equipe muito talentosa aqui, mas nós somos limitados em número e obviamente há um mundo de pessoas online que deveria poder entrar na conversa“. Eu cheguei a participar como observador de um dos primeiros bate-papos via Hangout da Open Newsroom. Eu estava em Porto Alegre, o pessoal da Storyful em Dublin, na Irlanda, onde fica a sede da agência, e havia pessoas conectadas dos Estados Unidos e do Oriente Médio. Ninguém trabalhava para a mesma empresa.

Hoje, a participação é restrita a uma comunidade, pessoas cujas credenciais não deixem dúvidas de que podem ajudar. No texto para o qual remete o link da aspa, publicado no Journalism.co.uk em agosto de 2013, Nolan explica a necessidade de ser seletivo na hora de convocar pessoas para fazer parte do Open Newsroom. Ele diz que “às vezes, abrir demais a discussão, trazendo todo mundo para dentro, pode resultar em mais notícias do que é preciso”. E nem sempre a disposição para ajudar se traduz em uma ajuda de fato. Em um post no blog da Storyful, ele cita aquele clássico caso do Reddit na maratona de Boston como exemplo.

No mesmo post, Nolan conta como foi feita a verificação de um vídeo que mostra um manifestante sendo alvejado na cidade egípcia de Ismailia. Aconselho ler, é inspirador. Nolan, inclusive, apresentou uma conferência TED em Londres, em 2012, na qual ele mostrou como separar notícia de ruído – aliás, este é o slogan da Storyful (news from noise). Sugiro que vocês assistam.

Esses dois processos ilustram o que Mark Little, um dos fundadores da Storyful, define como “algoritmo humano”. Em outro post no blog da Storyful, ele explica o conceito (recomendo). Mas eu faço um resumo rápido. É a capacidade de usarmos a tecnologia para auxiliar a nossa inteligência ímpar na hora de verificar fatos que podem virar notícia. Muito amplo? Uma frase do próprio Little pode ajudar. “É o velho modo de fazer reportagem ajudado por ferramentas avançadas de análise de redes sociais e uma pitada de jornalismo de dados”. Sacaram?

Outra hora falamos mais sobre as ferramentas as quais ele se refere, mas já deixo umas dicas: TweetDeck, Panoramio, Geofeedia, Google Maps, YouTube, Topsy, DataWrapper, NewsDiffs, MentionMap, Document Cloud, Trendsmap, TinEye, WolframAlpha, e por aí vai. Agora ficou mais claro o motivo de termos levantado as discussões que levantamos nos primeiros textos publicados no Farol, sobre as habilidades necessárias para jornalistas em programação e ferramentas digitais? Afinal, é preciso saber usar todos esses recursos, certo? Pra se aprofundar no assunto, deem uma olhada no Verification Handbook, que reúne as principais técnicas de apuração digital.

“Uma redação é uma organização, e não um lugar”. Não te parece?

Seguindo o raciocínio.

Se adotarmos a frase de Shane Snow, poderíamos repensar também o que significa ser um “jornalista sentado”. Pelo menos em algumas situações. Nos exemplos apresentados aqui, o profissional trabalhando atrás de um computador não parece uma vítima da precariedade das práticas e rotinas jornalísticas dos últimos anos. Mas talvez estejamos discutindo uma exceção.

A situação geral das redações online ainda parece ser a definida pelo jornalista e professor de jornalismo Roy Greenslade no texto “A realidade das redações digitais: ‘copie e jogue na rede com uma foto’”, publicado no The Guardian há algumas semanas. Além disso, a redefinição do conceito como um todo passaria por outras esferas da sociologia da profissão. Se quiserem se aprofundar, pesquisem por “jornalista sentado” no Google. Se for pra indicar algo, passem os olhos na dissertação de Fábio Henrique Pereira. É de 2003, mas garanto que muito do que ele escreveu segue atual, principalmente em relação às condições de trabalho nas redações online.

Voltando à frase e à exceção da qual eu falava, convenhamos que um participante da Open Newsroom, por exemplo, não nos remete a um sujeito apático sentado em frente a uma tela, usando e abusando do tradutor do Google e da combinação Ctrl+C – Ctrl+V. Hoje, um jornalista tem condições de, em certas circunstâncias, ser mais poderoso do que um colega com o pé no barro. Se não dá pra ter sempre alguém on the ground – e com muita gente em condições de fazer uma cobertura global, não dá mesmo -, que pelo menos haja condições de se fazer um bom trabalho de apuração remotamente. Não se trata de negar o valor da reportagem in loco, ela segue indispensável. Trata-se de apontar e valorizar as diferenças entre uma e outra.

Basta que se crie uma cultura que permita isso. Uma cultura que supere a referência “Todos os Homens do Presidente” de redação, renovando aquela ideia de um lugar mitológico onde grandes jornalistas estão preocupados em mudar o mundo. Como mostra a Open Newsroom, essas pessoas podem estar em qualquer lugar do mundo, cada uma em uma pequena redação, ou mesmo em casa. A questão agora parece ser encontrar uma forma de organizar a redação que transcenda a herança secular do jornalismo impresso. Não vem sendo fácil, mas acho que estamos a caminho.

Em janeiro deste ano, a Digital First Media, uma organização que coordena mais de 800 produtos de mídia nos Estados Unidos, anunciou o Project Unbolt (Projeto Desaparafusar, na tradução livre), uma iniciativa que pretende renovar os fluxos das redações de alguns veículos do grupo para tentar achar um modelo de “redação do futuro”. Eu sei que é uma definição vaga, mas o que chama a atenção foi o cuidado em criar uma estratégia, uma teoria, digamos, do que é necessário fazer, para então testá-la na prática. A ideia foi lançada há pouco, vamos seguir de olho. Para saber mais, leiam este texto do Steve Buttry, um dos jornalistas à frente do projeto.

Há outras iniciativas para acompanhar. Embora elas sejam distintas dos exemplos deste post, servem para pensarmos na redação como uma organização. De bate-pronto, cito duas. A primeira é a revista The Intercept, encabeçada pelo jornalista Glenn Greenwald e financiada pelo fundador do eBay, Pierre Omidyar. A segunda, o novo e misterioso empreendimento jornalístico de Ezra Klein, que fez sucesso, fama e dinheiro no Washington Post com o Wonkblog.

No fim de janeiro, Klein rompeu com o jornal e assinou com a Vox Media, marca por trás de sites como o The Verge. Ainda não está muito claro o que ele vai fazer. Em seu primeiro post, Klein disse que vai criar uma publicação onde o contexto será chave. “Hoje, nós estamos melhores do que nunca em dizer para as pessoas o que está acontecendo, mas nem perto de sermos bons em dar a elas a informação contextual crucial para entender o que aconteceu”, disse ele.

Antes de seguir, deixa eu destacar outra frase de Klein:

“A web não tem limites. Há espaço para contar às pessoas tanto o que aconteceu hoje quanto os fatos que levaram ao que aconteceu hoje. Mas os softwares que as redações adotaram na era digital reforçaram os fluxos desenvolvidos nos meios antigos.”

Klein sublinha a importância de criar tecnologias que sejam determinantes para o trabalho do jornalista. Sobre como é essencial desenvolver softwares que atendam as necessidades de uma “redação do futuro”. E esse é o meu gancho para voltar à Storyful, especificamente às ideias de outro texto publicado no blog da agência: “Newsrooms as intelligence agencies” (Redações como agências de inteligência), assinado por Gavin Sheridan. Sugiro fortemente a leitura.

O título não deixa dúvidas. Sheridan compara os recursos tecnológicos disponíveis aos jornalistas em uma redação (ou o que ele entende ser uma redação ideal) com os utilizados por uma agência de inteligência, como a CIA. Há, claro, certo exagero na comparação. Mas o paralelo é válido. Por exemplo, quem, há alguns anos, imaginava que teríamos acesso (de graça) a fotografias via satélite de qualquer lugar do mundo, como nos filmes de espionagem ou em séries como Homeland?

Sheridan fala de computadores com grande capacidade de processamento e estações de trabalho com múltiplas telas de 24 ou 27 polegadas. “As redações não deveriam procurar equipar seu time com as melhores formas de gerenciar dados, especialmente devido ao crescimento exponencial de informações?”, questiona ele. De fato, não dá mais pra fazer jornalismo digital apenas com telefone e processador de texto, emulando uma redação offline.

Bueno, desculpem pelo texto longo, mas eu estava precisando concatenar algumas leituras. Mas não esperem uma conclusão revolucionária ou um manifesto em favor da modernização urgente de todas as redações do Brasil. Minha ideia foi expor algumas iniciativas que andam rolando lá fora para que possamos achar os nossos próprios parâmetros. Dar a devida atenção para a tecnologia sem cair no determinismo tecnológico. Afinal, ser jornalista segue sendo um cara que conta histórias. A questão agora é que há muitos jeitos de contá-las, e para isso precisamos dominar algumas ferramentas e oxigenar alguns conceitos, como a ideia que temos de redação e do perfil do profissional que faz a redação seu ambiente de trabalho, seja ela um lugar ou uma organização.