E aí vocês devem estar se perguntando: por que um site que se propõe a falar sobre tendências no jornalismo publica um post sobre o TweetDeck, um programa lançado lá em 2009? Vocês também podem estar pensando: “ah, TweetDeck não é aquele programa que permite administrar várias contas de Twitter e que todo mundo já usa?” Pois é, o TweetDeck é isso, mas não só isso. Essa definição não é capaz de explicar o potencial jornalístico que ele tem.

De fato, muita gente conhece e usa o TweetDeck há anos. Mas tenho a impressão de que ele ainda não tem o alcance que deveria entre jornalistas. E os que já o utilizam, talvez não saibam do que ele é capaz. Além disso, sei como é difícil introduzir uma ferramenta como essa na rotina de trabalho. Exige tempo, dedicação e organização. Elementos que não são e nunca foram abundantes na vida de um jornalista, principalmente o que trabalha com internet.

Com tantas matérias para publicar, tantos live blogs para atualizar, não sobra muito tempo para estudar as potencialidades dessas ferramentas. Muito menos compartilhar suas impressões com colegas ou no próprio Twitter, algo bastante comum entre jornalistas americanos. Eu mesmo, que uso TweetDeck há anos, fui descobrir alguns truques só agora, lendo coisas para escrever este post.

Mesmo sendo uma ferramenta comum na profissão, acredito haver um conhecimento sobre o TweetDeck que precisa ser afirmado entre quem produz jornalismo digital aqui no Brasil. Sem falar em quem está entrando no mercado agora. Este post, ao trazer um pouco do que anda sendo discutido lá fora (um dos objetivos do Farol Jornalismo), tenta fazer isso. E de maneira geral, é mais um esforço para consolidar as atividades dos jornalistas de web, algo que merece mais reflexão.

Dito isso, vamos adiante.

Peraí, deixa eu apresentar o TweetDeck para quem ainda não conhece.

Print screen do meu TweetDeck

Meu TweetDeck: jornalismo, Síria, Ucrânia e umas bananas de pijama perdidas no canto inferior direito

Muito prazer.

E antes de seguir, um parêntese.

(Além do TweetDeck, há outros clientes de Twitter. Como o Hootsuite, mais indicado para quem precisa administrar contas de diferentes redes sociais no mesmo lugar. Ao contrário do TweetDeck, que só trabalha com contas do Twitter, o Hootsuite permite acrescentar perfis do Twitter, Facebook, Google+, Foursquare, LinkedIn, Instagram, entre outras. Eu prefiro do TweetDeck porque ele entende melhor as possibilidades do Twitter, já que é subproduto do próprio Twitter.)

Agora sim.

À medida que vamos seguindo pessoas e organizações, nossa lista de followings vai se tornando difícil de administrar. Quanto mais perfis seguimos, mais intenso fica o fluxo da nossa timeline, e cresce a possibilidade de perdermos informações importantes (afinal, não é à toa que escolhemos aqueles perfis para seguir!). Mas também não dá pra simplesmente decidir acompanhar menos gente, principalmente se o nosso trabalho exige atenção a diversos assuntos.

É aí que entra o TweetDeck e sua clássica interface em colunas. Elas organizam toda essa bagunça, colocando as informações relevantes em uma única tela. Se a limitada interface web só mostra a nossa timeline (e ainda precisamos clicar atualizar para entrar tuítes recentes), no TweetDeck, a timeline convive lado a lado com as interações com outros usuários, as direct messages (DMs), os trending topics e, o melhor de tudo, as listas que criamos e/ou assinamos.

Opções para adicionar colunas no TweetDeck

Opções para as colunas no TweetDeck

Elas são as salvadoras da pátria para o jornalista. Com listas (dá pra criar na interface web ou direto no TweetDeck), é possível acompanhar determinados assuntos sem necessariamente precisar seguir todos os perfis envolvidos. Além da nossa timeline, onde estão os perfis que queremos de fato acompanhar, podemos ter uma lista para, digamos, deputados federais brasileiros, para quem cobre política nacional. Ou uma lista de críticos de cinema, ou de jogadores de futebol.

Embora eu ache interessante criar listas, às vezes pode ser mais prático assinar listas de outros perfis, basta que elas sejam públicas (na hora de criar uma lista, dá pra escolher entre mantê-la privada ou pública). Digamos que, de uma hora para outra, um escândalo envolvendo o Obama vire manchete mundial. Se formos designados para cobrir o caso, é interessante acompanharmos o que jornalistas e veículos de imprensa andam dizendo sobre essa cobertura no Twitter.

Mas fazer uma lista selecionando os perfis mais relevantes que cobrem a política americana vai levar um tempo. Por que não buscar ajuda com alguém que já tenha feito isso? O NYT, por exemplo, mantém uma lista da sua equipe. O The Guardian, além das equipes, tem listas de vários assuntos. Já a agência Storyful possui listas públicas relacionadas a várias coberturas internacionais (imagem abaixo). Por que não usar o know-how que eles possuem para ajudar na nossa cobertura?

Por esse mesmo motivo é interessante criar e manter listas públicas de assuntos sobre os quais temos interesse e/ou conhecimento. Porque assim como seria ótimo para nós usar a lista do NYT para a nossa cobertura do escândalo político nos EUA, aposto que os colegas do NYT ficariam felizes em encontrar a nossa lista de deputados federais, por exemplo, caso seja necessária para uma cobertura no Brasil. E não se trata de dar informação de mão beijada. Trata-se de colaboração.

Listas públicas da Storyful

Listas públicas da Storyful

Não vou me alongar muito porque o principal objetivo deste post é reunir algumas opiniões sobre os recursos e listar exemplos de bom uso da ferramenta. Vou mostrar um pouco do básico: como começar a usar, os primeiros passos, etc. Depois, listo alguns os exemplos mais específicos sobre o TweetDeck aplicado do jornalismo. Antes de começar, lembro que os links estão em inglês.

O começo
Bueno, em primeiro lugar, a página oficial do TweetDeck. Lá vocês podem baixar o programa na versão Mac ou Windows, pegar a extensão para Chrome ou acessar a versão web. Eu nunca usei a versão web e tenho pouca experiência com a extensão para Chrome. Mas me arrisco a dizer que a melhor opção é instalar o software. Ele é mais robusto e tem mais recursos. Mas nem sempre estamos na nossa estação de trabalho, nessas ocasiões a versão web vai bem.

Ainda nos domínios do Twitter, recomendo dar uma olhada nesse Getting Started do TweetDeck. Ele responde as perguntas básicas sobre como começar a usar a ferramenta. Sobre o uso específico de colunas, esse link pode ser útil. Ele explica, por exemplo, o que é possível inserir em cada coluna. E esse outro link dá dicas um pouco mais avançadas. Uma interessante é fazer busca utilizando filtros. Por exemplo, apenas os tuítes que possuem imagens de Porto Alegre.

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Dicas de quem usa
Outra coisa legal é o blog do TweetDeck. Lá eles anunciam novidades e dão dicas. Mas o mais massa são as recentes entrevistas com jornalistas heavy users da ferramenta sobre como eles a utilizam. Até agora, o blog já conversou com quatro pessoas: Zach Seward, do Quartz, Laura Davis, do LA Times, Anthony De Rosa, do Circa, e Andrew Moon, da Australian Broadcast Corporation (ABC). Eu selecionei e traduzi alguns trechos interessantes do que eles falaram.

Zach Seward:

Quando eu era editor de mídias sociais no Wall Street Journal, eu cometi o erro de achar que TweetDeck era uma ferramenta profissional voltada apenas para usuários avançados do Twitter. Então eu tinha pessoas novas naquela função começando a trabalhar com o twitter.com [interface web do Twitter]. Mas para muitos jornalistas, pelo menos, o TweetDeck se transformou na ferramenta que, na verdade, fez o Twitter fazer sentido para eles – talvez porque seja parecido com um feed de notícias e ajuda a diminuir o ruído. 

Anthony De Rosa:

Eu estava envolvido em manter live blogs na Reuters, e o TweetDeck foi essencial para encontrar tuítes importantes que eu poderia trabalhar para verificar e inserir na nossa cobertura em tempo real. Eu adicionei colunas com listas que criei ao cobrir vários assuntos: política, notícias locais de eventos importantes (Newtown e Boston, por exemplo), e eu também procuro outras em outros perfis de Twitter boas listas para adicionar às colunas do TweetDeck.

Andrew Moon:

Não deixem as colunas na ordem em que foram criadas. Gaste um tempo pensando no que você precisa prestar mais atenção, ordenando as colunas com base nessas prioridades. Isso significa que você vai se acostumar a olhar para determinadas partes da tela de acordo com a informação que você estiver buscando, e isso economiza tempo. Também se acostume a arrastar as colunas, trocando-as de ordem… uma dádiva em coberturas de breaking news.

Olhando as fotos que ilustram as entrevistas, vocês vão notar o TweetDeck sempre em um segundo monitor. Seward, por exemplo, ordena as colunas pelo posicionamento do monitor auxiliar, que fica à direita do principal. Com a timeline na coluna bem da esquerda, diz ele, dá pra saber que algo aconteceu sem nem olhar para o TweetDeck, basta observar a aceleração do fluxo de informações. A segunda tela é indispensável para o jornalismo digital.

Abaixo, um tuíte do Andrew Moon mostrando o TweetDeck em dois monitores!


Buscas, listas e custom timeline
Seguindo o baile, esse post assinado pelo jornalista Félim McMahon no blog da Storyful contém dicas preciosas. A que mais me chamou a atenção foi a possibilidade de usar operadores de busca avançada (aqui tem uma lista dos operadores). McMahon dá o seguinte exemplo: buscar Aleppo, na Síria, a partir da grafia em árabe, acrescentando nomes de serviços de vídeo ou foto para encontrar conteúdos multimídia: “حلب‎” youtube OR twitvid OR yfrog OR qik OR vimeo OR video OR vid.

Também sobre buscas avançadas, Andrew Moon, da ABC, além ser entrevistado pelo blog do TweetDeck, deu dicas e detalhou algumas de suas práticas ao usar o TweetDeck nesse post. Um exemplo legal é uma coluna criada para emergências postadas por perfis de serviços públicos de emergência, como polícia, bombeiros, etc. Moon listou esses perfis e criou uma regra para alertá-lo toda vez que qualquer um deles tuitar algo com a palavra emergência.

Voltando ao texto da Storyful, McMahon também destaca as colunas atividade (Activity) e interação (Notifications). Na interação (“o lugar para se estar”), podemos observar como os usuários (seguidores ou não) estão recebendo nossas postagens. Se estão favoritando, retuitando, nos mencionando, nos adicionando. Também é o melhor lugar para se manter conversas. Já a coluna Activity é boa para saber o que as pessoas que nós seguimos estão fazendo.

Outra funcionalidade massa do TweetDeck é a possibilidade de criar timelines customizadas (custom timelines). Elas parecem listas, mas no fundo são bem diferentes. Ao criar uma lista, adicionamos contas de Twitter que acreditamos se encaixar no assunto da lista. É interessante que o correspondente do NYT em Moscou, por exemplo, esteja em uma lista sobre a situação política na Rússia. Ele vai tuitar sobre a política russa, mas também pode tuitar sobre outras coisas.

No caso da custom timeline, adicionamos não perfis, mas tuítes. Então, se por acaso acontece um atentado no metrô de Moscou, certamente vamos precisar das informações do correspondente do NYT em Moscou, mas também haverá fotos do local da explosão em perfis que sequer imaginamos, mas que encontraremos utilizando a busca avançada. A custom timeline é uma boa forma de juntar esses tuítes, fazendo uma edição do evento já no TweetDeck.

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Sabemos que muita informação mais atrapalha do que ajuda. Em ambientes em que ela é abundante mas nem sempre interessante, desenvolver métodos e dominar ferramentas que ajudem a colocar ordem no caos é fundamental. O texto vocês acabaram de ler é um pequeno guia conceitual e prático de como o TweetDeck pode auxiliar a transitar com mais segurança na web e a construir narrativas com sentido jornalístico, ajudando a contar histórias para o público.

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OBS: este texto é parte do material de apoio do Twitter para Jornalistas, curso de extensão que acontece em quatro sábados entre o final de março e o começo de abril na Unisinos de Porto Alegre.