Nos próximos 12 mil caracteres aproximadamente, você vai encontrar algumas reflexões sobre três iniciativas que apostam no contexto, elemento caro ao jornalismo e que, nos últimos tempos, vem sendo oxigenado pela tecnologia. Quando eu falo em contexto, me refiro àquelas informações essenciais para explicar determinado fato. Talvez os exemplos mais evidentes sejam as matérias de “entenda”, presentes em coberturas extensas e/ou complexas, como é hoje a da Ucrânia.

Bueno, vamos lá.

No dia 26 de janeiro, Ezra Klein, fundador do Wonkblog, badalado blog de política e economia do Washington Post, publicou um post no The Verge, o site de tecnologia da Vox Media, acabando com um zum zum zum no mercado de mídia americano sobre qual seria o seu próprio destino (no dia 21, a diretoria do jornal anunciara a saída de Klein, antecipando que ele estava partindo para fundar seu “próprio veículo de notícias”). No texto, ele faz a seguinte pergunta:

Por que a internet ainda não achou um jeito de fazer a notícia melhor, entregando junto da informação nova o contexto crucial para entendê-la?

Para Klein, nem sempre a última informação sobre um assunto é a melhor informação para entendê-lo. E que a lógica do novo fez sentido durante a hegemonia da mídia impressa. Com o espaço limitado, segundo ele, não dá para contar tudo o que os leitores precisam saber para entender o mundo, mas dá para explicar o que aconteceu ontem.

Na internet não existe essa limitação. Só que o jornalismo feito na web, mesmo com toda a tecnologia que o envolve, esteve até agora amarrado a fluxos dos meios antigos. Para Klein, nós estamos subaproveitando as possibilidades tecnológicas para contar histórias.

Hoje, nós estamos melhores do que nunca em contar às pessoas o que está acontecendo, mas nem perto de sermos bons o suficiente em dar a informação contextual crucial e necessária para entender o que aconteceu. Nós tratamos a ênfase em informações novas como uma virtude importante, e não como um compromisso doloroso. (…) Nossa missão é criar um site tão bom em explicar como o mundo é quanto narrar o que acontece nele.

(A saber: o zum zum zum não é modo de dizer. Ezra Klein é tópico polêmico. Há quem não curta ele e desconfie de seus movimentos. Por outro lado, há quem goste do seu estilo e veja nele a chance de revolucionar uma profissão que quer olhar pra frente, mas não consegue abandonar as fórmulas sagradas do século XX. Gostando ou não, o fato é que ele já foi comparado com o jornalista Walter Lippmann, o autor de “Opinião Pública”, que também fez história quando ainda era jovem – Klein tem 29 anos. Quer saber mais sobre ele? Aqui tem um perfil longo. Aqui, um menor.)

Explicar o mundo na internet? Foi o que George Packer se perguntou em um artigo publicado na New Yorker alguns dias depois. Desconfiado com palavreado bonito e as promessas de revolução no jornalismo feito na web, ele questiona como Klein vai obter algo que, em geral, veículos mais tradicionais só alcançaram depois de muito trabalho: qualidade.

No dia 9 de março, Klein deu mais detalhes sobre o até então apelidado Project X. Ele vai se chamar Vox e tem um propósito “simples”: explicar as notícias. (Aspas no simples porque foi o termo usado pelo próprio Vox e porque não parece nada simples explicar as notícias.) No site vox.com há um vídeo e nove perguntas e respostas que tentam esclarecer o que, de fato, é o Vox.

“Nosso objetivo final não é contar para você o que acabou de acontecer, ou como nos sentimos com o que acabou de acontecer, é ter certeza de que você entendeu o que acabou de acontecer. Nós vamos entregar um monte de informação contextual que as matérias tradicionais não possuem porque não foram desenvolvidas para entregá-las, e nós estamos contratando jornalistas que realmente conhecem as suas áreas de cobertura”, diz uma das respostas.

Ezra Klein usou a resistência que as pessoas têm para comer legumes como metáfora para explicar como o Vox quer melhorar nossa “alimentação” noticiosa. Há notícias que as pessoas deveriam ler, mas não querem, diz ele no vídeo (abaixo). “Legumes podem ser cozidos de qualquer jeito. Mas também podem ser assados com um fio de azeite de oliva e uma pitada de sal marinho”, acrescenta o texto do site, sugerindo que a experiência de consumir certas notícias pode ser muito mais saborosa. “É o nosso trabalho experimentar todos os tipos de receitas”.

Sigo como o Packer, do artigo da New Yorker: sem entender muito bem o que de tão revolucionário Klein vai aprontar. Mas há algumas pistas, e elas apontam para a tecnologia.

David Carr, do NYT, anota que “cada vez mais, os veículos de mídia digital têm vida própria, não são só uma plataforma adicional de empresas de notícias estabelecidas”. E diz que investidores como Kenneth Lerer, um dos homens por trás do Buzzfeed e do Huffington Post, quando apresentado a alguma proposta editorial, sempre pergunta quem cuida da parte de tecnologia. “Como algo é feito e publicado é muitas vezes tão importante quanto o que é feito”, diz Carr.

Imagino que Klein vá desenvolver uma ferramenta inédita para revolucionar a entrega de contexto junto às notícias que são produzidas pelo Vox. Assim, entenderemos melhor o mundo.

Bastante pretensioso, no meu entender. Enfim, segue o baile.

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Como estamos falando de contexto, e não de Ezra Klein, gostaria de gastar alguns parágrafos com duas iniciativas que já estão por aí.

Circa: cada pontinho (rolagem à direita da tela) traz um pequeno parágrafo com o contexto necessário para um melhor entendimento do fato noticiado

Circa: cada pontinho (rolagem à direita da tela) traz um pequeno parágrafo com o contexto necessário para um melhor entendimento do fato noticiado

Uma delas é o Circa, um app (e apenas app) de notícias cujo diferencial é trazer o essencial sobre determinado fato junto dos principais highlights da cobertura da qual o fato faz parte. Esses highlights são divididos em pequenos “pontos” – algo como uma subunidade noticiosa dentro da própria notícia e simbolizada por uma espécie de linha do tempo vertical posicionada bem à direita da tela. À medida que rolamos a notícia, o parágrafo lido dá lugar a um novo “ponto” importante para compreender a informação recém absorvida. Tudo de maneira rápida e concisa. Em poucos minutos de leitura, o Circa entrega o necessário para se entender minimamente o fato e seu contexto.

Por exemplo, em uma notícia sobre o Putin dizendo que não decidiria nada sobre a Ucrânia até o referendo na Crimeia, o Circa mostra o contexto que orbita este fato. Ao deslizar os dedos pelos “pontos”, o app mostra tanto os últimos acontecimentos – declarações da Merkel, do Cameron e da Casa Branca, manchetes anteriores sobre o assunto – quanto informações mais gerais, como o fato de que a Crimeia fazia parte da Rússia até 1954. No fim da rolagem, antes de chegar a outros artigos, o app oferece um pequeno “entenda” editado de maneira semelhante: oito pequenos parágrafos (“pontos”) ilustrados com fotos e um mapa da região informam sobre o referendo, a frota russa em Sevastopol, a predominância étnica russa na região e o que rolou por lá no século XVIII.

Ao invés de entregar ao leitor uma matéria clássica, onde todas essas informações estariam encadeadas em um texto dividido em grandes blocos, o Circa propôs apresentá-las de maneira diferente, atomizadas, como já disseram. O diretor do Circa, David Cohn, em artigo publicado no Poynter no dia 7 de fevereiro, fala em uma nova estruturação da notícia.

Assume-se que o trabalho final de um repórter seja a “matéria”. Isso é o que os repórteres deveriam fazer durante o seu dia de trabalho, e é a unidade padrão na qual jornalistas organizam seus dados. Há uma abundância de informações no texto produzido, mas o quanto dessas informações estão estruturadas? Em um publicador de notícias tradicional [Content Management System – CMS, na sigla em inglês], você vai encontrar um campo para a manchete, outro para o texto principal, informações sobre o autor, data da criação do artigo e talvez algum espaço para metadados – basicamente palavras -, inseridos posteriormente para melhorar o desempenho de SEO.

No Circa, as coisas são diferentes. Escrever uma matéria implica também “‘taguear’ as informações de maneira estruturada”. As aspas do Cameron ou da Merkel na matéria da Ucrânia, por exemplo, vão para um banco de dados com outras aspas deles. Quando necessário, basta um comando para tê-las em mãos novamente. Daí para usar em uma nova matéria é um abraço.

Aliar reportagem com um banco de dados voltado para o jornalismo simplifica o trabalho de oferecer a contextualização necessária a determinados fatos na velocidade que a web necessita (algo muito custoso para uma redação sem estruturação alguma fazer, diz Cohn).

Segundo ele, “o trabalho de um repórter é coletar, filtrar, organizar e então entregar as informações”. Hoje, fazer tudo isso rápido sem a ajuda da tecnologia é impossível. E, neste caso, tecnologia não é apenas um computador ligado à internet. É, por exemplo, um algoritmo desenvolvido para executar uma rotina pré-estabelecida por uma estratégia editorial, ou um banco de dados modelado para atender as necessidades de uma redação, como é o caso do Circa (e certamente de várias outras empresas de mídia).

Se isso lembrou jornalismo de dados, você está certo, mas vamos deixar esse assunto pra outra hora.

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Pausa na reflexão para uma situação fictícia:

Finalmente aquele candidato importante aceitou dar entrevista. Exclusiva, frente a frente. O que ele disser pode mudar o resultado das próximas eleições. Mas, claro, para que ele diga coisas importantes, é necessário que o repórter faça as perguntas certas. Afinal, o entrevistado é um sujeito calejado, experiente, esperto. Então, para que o repórter consiga o que quer, precisa antecipar os movimentos, como um bom jogador de xadrez. Isso só é possível com preparação, estudo, muita leitura. É essencial estar por dentro da vida do seu entrevistado, saber o que ele fez e o que ele não fez, tudo nos mínimos detalhes. Do contrário, será dominado.

Mas o repórter é esperto e perspicaz o suficiente, a ponto de elaborar perguntas certeiras a partir de uma informação recebida há poucos instantes. Sua experiência como entrevistador e por sempre ter gostado de ouvir as pessoas aguçou seus reflexos. Ao obter uma nova informação sobre determinado assunto, ele é capaz de processá-la rapidamente, relacionando-a com o conhecimento prévio e automaticamente gerando subsídios para fazer com que uma conversa sobre aquele assunto avance da maneira que melhor lhe convém. Foi assim que ele se tornou respeitado, pela habilidade ao conduzir entrevistas difíceis.

Imaginou a cena?

Agora imagine se um software pudesse ajudar esse jornalista a melhorar ainda mais a condução da entrevista, fornecendo subsídios contextuais os quais toda sua experiência e preparação não foram capazes de lhe dar (afinal, é impossível armazenar tudo). Um programa que ouve as falas do entrevistado, faz uma busca na internet usando como referência o que foi dito e retorna, em poucos segundos, informações que podem confirmar, desmentir ou contextualizar a declaração do interlocutor. Por exemplo, se o político cita algum debate antigo que o jornalista não lembra ou não conhece, o programa mostra na tela uma reportagem escrita na época.

É a computação antecipatória, apontada pela pesquisadora Amy Webb como um dos assuntos quentes para o jornalismo em 2014 durante a conferência da Online News Association (ONA), em outubro do ano passado (em novembro, o IJNet citou as dez tendências apontadas por ela na oportunidade). Amy sugere a possibilidade do uso jornalístico do app MindMeld, que “ouve” as conversas mantidas através dele e vai mostrando na tela dos participantes dados relacionados ao bate-papo. A grosso modo, ao “ouvir” dois amigos conversando sobre o bar x, localizado no bairro y, o programa busca informações que podem ser úteis ao diálogo, como a localização, o cardápio e o contato do bar (assista ao vídeo abaixo para entender melhor).

Agora imagina o MindMeld adaptado ao jornalismo (atualmente, programa é voltado para um uso, digamos, recreativo) aberto no iPad de um repórter entrevistando um político. Imagina a redação de um site esportivo equipada com um banco de dados onde estão todas as declarações dadas por, digamos, Neymar, separadas por assunto, desde o começo de sua carreira no Santos. Ou tenta imaginar o que Ezra Klein e sua turma estão desenvolvendo para nos ajudar a entender melhor as notícias e, consequentemente, o mundo.

Interessante, não?