Este post faz parte do curso Twitter para Jornalistas, realizado entre 29 de março e 12 de abril de 2014 no campus Porto Alegre da Unisinos. Abaixo, uma breve sistematização de algumas reflexões a respeito do Twitter, bem como dicas e boas práticas de jornalistas que o utilizam no seu dia a dia.

Reflexões

Twitter é público?
Após o BuzzFeed publicar uma polêmica conversa no Twitter sobre abuso sexual, Hamilton Nolan, do Gawker, publicou um artigo no dia 13 de março argumentando que o Twitter é público, e que as pessoas devem levar isso em consideração na hora de publicar seus posts.

“As coisas que você escreve no Twitter são públicas. Elas são publicadas na world wide web. Elas podem ser lidas quase instantaneamente por qualquer pessoa que tenha uma conexão de internet no planeta Terra. Isso não é um bug do Twitter; é uma funcionalidade. Twitter é uma algo que permite a você levar coisas rapidamente a público.”

No dia 18, o Global Voices entrou na discussão com um post que reúne algumas opiniões publicadas no Twitter a respeito. Tornar algo público no Twitter significa achar ok que isso possa ser colocado na capa de um portal? Considerar o Twitter público é uma equação exata?

A maturidade do Twitter e sua função pública.
No dia 12 de março, o site moxphere publicou uma análise sobre a diminuição do crescimento do Twitter. Mas o que à primeira vista poderia ser motivo de preocupação, estaria muito mais ligada à maturidade da plataforma. Assim escreveu Cassiano Gobbet, autor do post.

“A desaceleração do crescimento do Twitter é, sob o ponto de vista do produto e da experiência, um acontecimento esperado e até desejado. Houve uma mudança no perfil. O Twitter não é mais uma ferramenta dependente dos early adopters.”

Um artigo publicado na Wired no mesmo dia complementa o texto do moxphere. Para exigir que o Twitter não caia tão seguido, como havia acontecido dias antes, o autor, Mat Honan, diz que o Twitter não é uma rede social para bater papo com os amigos. “(…) mas sim um sistema de entrega de informações globalmente distribuído e em tempo real. É a definição de breaking news“.

Há ainda uma entrevista no Estadão com o diretor-geral do Twitter no Brasil, Guilherme Ribenboim, que fortalece ainda mais a essa noção. “Somos uma rede de interesses”, disse ele. Embora no Brasil, em geral, o uso do Twitter ainda tenha mais um caráter de entretenimento do que de serviço. Pra completar, uma pesquisa do Pew Research Center que indica que os 8% dos americanos que usam o Twitter são mais jovens, usam mais tecnologias móveis e tem grau mais elevado de educação quando comparados aos 30% que usam Facebook.

Confiabilidade no Twitter.
Artigo de Ben Adler na Columbia Journalism Review discute o comportamento no Twitter. Apesar de a recomendação geral ainda ser ter um pé atrás em relação às informações disponibilizadas nele, ganha força a ideia de que as pessoas em geral, mas principalmente jornalistas, não devem abandonar seus padrões éticos e técnicos na hora de tornar algo público.

O mesmo sugere Anthony De Rosa no artigo “The network effect of bad information” quando diz que o problema não está no Twitter, mas em você. Cristalizar esse tipo de comportamento significa ajudar o Twitter a amadurecer, fortalecendo a noção de que ele possa ser o lugar onde acontecem diálogos vivos e dinâmicos em que seus participantes possam trocar informações e que, a partir dessa movimentação, se destaquem os maiores conhecedores de cada um dos assuntos discutidos, como escreve Maria Bustillos nas previsões para o jornalismo em 2014 do Nieman Lab.


Práticas

Sobre como se comportar no Twitter.
Não são poucas as pessoas que vêm dando dicas de comportamento para jornalistas no Twitter. Há, inclusive, a máxima “ao abrir uma garrafa, feche o Twitter”, que, de tanto ser repetida, já nem sei quem é o autor original. Um dos que usam essa frase é o jornalista Steve Buttry, grande referência em jornalismo em redes sociais (no site dele há vários posts sobre Twitter).

A famosa frase está em uma das 74 lâminas apresentadas por ele no encontro deste ano American Copy Editors Society (ACES), no fim de março, em Las Vegas. Vale a pena conferir.

Mas na verdade gostaria de destacar outro conteúdo produzido por Buttry. É uma lista com com oito dicas que podem servir como ponto de partida para jornalistas pensarem sobre comportamento e posicionamento estratégico do seu perfil no Twitter. Aqui está a lista em inglês, onde ele também fala mais sobre cada um dos itens (em inglês). Tomei a liberdade de traduzir apenas os tópicos.

  1. Tuíte frequentemente
  2. Tenha algo interessante a dizer
  3. Faça livetweet de eventos e breaking news
  4. Ache e siga pessoas com as quais você compartilhe interesses
  5. Faça parte da conversa
  6. Ofereça mais do que pede
  7. Participe de chats via Twitter
  8. Seja você mesmo

Não por acaso alguns desses tópicos foram citados pelos entrevistados para o curso Twitter para Jornalistas. Mesmo sozinho, um usuário mais ativo acaba chegando a conclusões parecidas sobre boas práticas de comportamento ou para obter mais seguidores (tuitar frequentemente e participar de conversas, por exemplo). Para concluir, duas fontes alternativas para esse tipo de dica: 12.

E ainda, dois infográficos publicados pelo Social Times: qual é a melhor hora de tuitar e 5 práticas e 1/2 no Twitter.


TweetDeck e busca avançada
Já falamos sobre TweetDeck aqui no Farol Jornalismo, mas há outros materiais interessantes, muitos deles no próprio Twitter, sobre ele e também sobre o uso da interface web.

Pra começar, o básico da busca avançada: o artigo “Using advanced search” mostra todos os operadores aceitos tanto pela interface web quanto pelo TweetDeck. Por exemplo, a busca avançada: near:”porto alegre” acidente since:2014-03-20 busca todos os tuítes com a palavra acidente publicados nos arredores de Porto Alegre (apenas geolocalizados ou cujos usuários tenham escolhido Porto Alegre como cidade, embora isso deva mudar) desde o dia 20 de março.

Com os recursos do TweetDeck, aumentam as possibilidades de refinar as buscas. Este artigo, escrito por Mark S. Luckie, do Twitter (aliás, bom perfil para seguir: @marksluckie), mostra várias maneiras de usar filtros no TweetDeck (verificar se algum perfil verificado citou você, descobrir vídeos populares no Vine, ver as matérias mais populares de determinado veículo de notícia, etc).

O “Step one for using Twitter as a reporter: Master advanced search“, do Steve Buttry, também é legal. O texto é longo, mas vale a pena porque aprofunda vários pontos, como o uso de operadores. Pra finalizar, este outro longo artigo da BBC dá várias dicas. Uma das mais legais é acessar o MyGeoPosition para obter coordenadas geográficas e usá-las para buscar tuítes de uma determinada região.

Twitter e algoritmos
Em meados de março, uma explosão destruiu dois prédios no Harlem, em Nova York, deixando mortos e feridos. Muitas pessoas testemunharam o incidente e, claro, compartilharam o que estavam vendo nas redes sociais. Evidentemente, os veículos de imprensa utilizaram todo esse material nas suas coberturas. Até aí tudo bem. A novidade é que, acredito que pela primeira vez, o próprio Twitter foi capaz de confirmar ele próprio que aquela explosão realmente ocorreu.

Bem a grosso modo, aconteceu o seguinte: um algoritmo desenvolvido pela empresa Dataminr percebeu que havia uma movimentação anormal de dados provenientes do Harlem e “foi checar”. Ao ler essas informações, o código analisou fotos publicadas, proximidade geográfica entre os tuítes, palavras-chave, entre outros elementos, colocou tudo na mesa e chegou à conclusão com quase 100% de certeza de que a explosão havia acontecido de fato. Ted Bailey, CEO da Dataminr, escreveu sobre isso.

Como fazem os grandes
Já lemos o que vários jornalistas dizem sobre o Twitter e sobre como se comportar ao usá-lo. Mas e os grandes veículos da imprensa mundial? Como eles instruem seus funcionários a se comportar nas redes sociais, principalmente o Twitter? É sempre bom dar uma olhada nos manuais que jornais e agências disponibilizam em seus sites. Separei trechos da AP e da Reuters sobre a postura dos seus jornalistas nas redes sociais, já que discutimos isso acima. Sugiro também dar uma olhada no da BBC, que é bem completo.

Abaixo, a tradução livre de um trecho sobre o que a Reuters espera de seus jornalistas nas redes sociais. O parágrafo foi retirado das páginas 550 e 551 do manual da agência (publicado em 2008 e revisado em 2012).

Uma das características que distinguem a Reuters é a confiança depositada no julgamento dos seus jornalistas – e nós vamos seguir contando que nossos jornalistas usem seu bom senso para ligar com esses novos desafios [as redes sociais]. Nós esperamos que nossos jornalistas cheguem a conclusões através da apuração, mas eles também precisam demonstrar a disciplina intelectual para manter suas conclusões suscetíveis a uma apuração ainda maior, o que requere uma postura aberta porém cética. Isso é difícil de demonstrar nas redes sociais, um ambiente de pressão onde pensar, escrever e postar acontecem em tempo real. Mas manter essa postura crítica é essencial para a nossa credibilidade e reputação como jornalistas. Quando em dúvida em relação a um post, tuíte ou qualquer outra ação nas redes sociais, nós devemos checar novamente, mesmo que isso cause algum atraso.

Abaixo, trecho do guia de redes sociais da AP para os seus funcionários, publicado em 2012.

Todos os jornalistas da AP são encorajados a ter perfis em redes sociais. Trata-se de ferramentas essenciais para repórteres da AP apurarem notícias e compartilharem links onde nosso material está publicado. Nós recomendamos ter um perfil por rede social para uso tanto pessoal quanto profissional.

Muitos jornalistas da AP têm tido muito sucesso com essa estratégia.

Empregados devem se identificar como sendo da AP se os perfis forem usados para qualquer tipo de trabalho. Você não precisa incluir AP no seu Twitter ou outros usernames, e você deve usar uma foto pessoal (não um logo da AP) na sua imagem de perfil. Mas você deve se identificar como um membro da AP na descrição do seu perfil.

Publicar material da AP patenteado ou confidencial é proibido.

Empregados não devem incluir suas preferências políticas em seus perfis e não devem expressar sua visão política em suas postagens.

Encerro este post com um texto do Nieman Lab que repercutiu bastante em 2013: as lições no NYT para mídias sociais. “Se um tuíte funcionou uma vez, publique-o novamente“.