A Mariana me concedeu esta entrevista no dia 12 de fevereiro via Hangout do Google. Ela fez parte do material de apoio do Twitter para Jornalistascurso de extensão que eu dei na Unisinos entre o final de março e o começo de abril deste ano, agora disponível aqui no Farol Jornalismo.

Abaixo está a transcrição (quase) fiel da nossa conversa. Alterei poucas coisas para a leitura ficar mais agradável. Às vezes tirei expressões que estavam sobrando, às vezes inseri – entre colchetes – palavras que auxiliam a entender melhor o que foi dito. Mas no geral procurei apenas transformar em texto o conteúdo do vídeo. Inclusive mantendo a flexão verbal coloquial na segunda pessoal do singular, típica aqui no Rio Grande do Sul. Além de oferecer a entrevista de outra forma, a transcrição permitiu inserir links em alguns trechos, possibilitando a contextualização da fala do entrevistado.

Antes de começar, um breve currículo da entrevistada.

Mariana Paniz é jornalista formada pela Unifra, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Durante a faculdade teve experiência na mídia impressa e assessorias de imprensa. Em 2007, fez um curso de telejornalismo na Universidad Complutense de Madrid e desde então, atua em televisão. Entrou no Grupo RBS em 2008, pelo Projeto Caras Novas, atuando na emissora de Porto Alegre como repórter. Depois, passou pela serra gaúcha, trabalhando durante três anos como apresentadora do Jornal do Almoço de Caxias do Sul. Pausa na prática e Mariana se arrisca no mundo acadêmico  – iniciou o Mestrado em Jornalismo e Informação na Universidade do Minho em Portugal. No retorno ao Brasil, passou a trabalhar no projeto multimídia do Grupo RBS Trânsito 24 Horas (@t24horas), com atuação em TV, Rádio, Jornal e Internet. Trabalho que já dura dois anos.

Boa leitura 🙂

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Quais foram as tuas impressões iniciais sobre o Twitter e como ele funciona no teu trabalho?

Eu tinha uma conta no Twitter, uma conta não onde eu produzia conteúdo, mas onde eu recebia informação. Efetivamente trabalhando com Twitter foi no projeto Trânsito 24 Horas. A minha primeira impressão foi engraçada: ele é [o Twitter] decisivo para o meu projeto. Mas no início eu não encarava ele assim.

O que acontece? Uma jornalista, que veio da televisão, apresentando um telejornal, editando um telejornal, cai na frente de um computador, onde o seu veículo principal está em 140 caracteres. No início parecia que eu estava sendo subaproveitada, cheguei a comentar isso duas ou três vezes com o meu chefe. “Bom, mas eu tô aqui, só tuitando, 140 caracteres…” Eu não conseguia enxergar a dimensão que o Twitter tinha dentro do projeto. O tempo foi passando, o número de seguidores foi aumentando, e aumentou muito rapidamente. Hoje, em dois anos, a gente tem 36 mil e poucos seguidores. Claro, dentro de um projeto que é setorizado, é um número bem expressivo. A gente tem aqui, por exemplo, o Leandro Kuchalski, que é meteorologista, tem 14 mil, por exemplo.

Só para dar uma ideia geral do projeto, do Trânsito 24h, o que ele representa?

É um projeto multimídia que o Grupo RBS lançou, pensando no serviço de trânsito. Todo mundo que já passou por Florianópolis, sabe que o problema principal é o trânsito caótico. Isso se agrava na temporada. Mas durante o ano ele é assim também, até pelo fato da geografia, é uma ilha, então não tem muita alternativa, não tem muito caminho. O que as pessoas sentiam falta? Eu tô parada no trânsito, eu tô na fila, mas o que tá acontecendo? Eu não sabia. Hoje, as pessoas sabem. Elas continuam não tendo o caminho alternativo, porque isso a gente não conseguiu mudar ainda, mas a gente conseguiu levar a informação até essa pessoa. Então ela tá lá no congestionamento, mas pelo menos ela tá sabendo que é porque ali na frente aconteceu um acidente entre um ônibus e um caminhão e eles estão esperando vir o socorro para tirar esse caminhão e que a fila já tá a tantos quilômetros atrás dele. Ele se sente mais confortável porque sabe o que tá acontecendo. Quando a gente tem informação, a gente se sente mais seguro.

Por que essas plataformas todas? Justamente pra atingir todos os campos. Porque o trânsito ele atinge pessoas… eu acho que é uma das editorias que atinge todo mundo. Por quê? Quem usa carro, quem usa ônibus, quem tá a pé, o trânsito afeta todo mundo. Então, no jornal a gente tem uma coluna que roda no Diário Catarinense, em todo o Estado. Ali a gente aborda ali a questão de serviço, rodovias que vão fechar, que tão abrindo, alguma obra, e principalmente a questão cultural e de comportamento – que eu acho que daqui 20 anos pode fazer a diferença no nosso trânsito, criar essa consciência. O interessante é que nesses dois anos, as pessoas começaram a criar essa consciência de fiscalizadores. Hoje são eles, os leitores, que abastecem a coluna. Porque eles mandam foto de imprudência, foto de um buraco, foto de um asfalto que a prefeitura não arrumou. Eles estão fiscalizando a sua região, o seu bairro, e eles acabam mandando isso pra gente, e a gente dissemina e transforma essa informação muitas vezes em resultados, é claro.

E nesse momento o Twitter tem um papel decisivo?

Nesse momento o Twitter tem. Também. Dentro do projeto. Elas usam o Twitter para chegar mais rapidamente até a gente. Eu tô passando pelo local, eles pegam o celular, já tiram a foto e mandam pra gente. Então é uma conversa, uma relação muito forte. É engraçado isso. E, hoje, a gente sabe que tem aplicativos, muitos aplicativos tão surgindo em relação ao trânsito, mas o que eu sinto ainda é que… apesar de muita gente falar que o Twitter nem funciona muito mais, porque as pessoas usam o Face, usam outras mídias, eu ainda acho que não, eu ainda acho que o Twitter faz com que você tenha uma relação. Eu sei que tem alguém digitando aquilo ali, não é um computador falando comigo. É uma pessoa que escreveu 140 caracteres, então parece que é uma relação de confiança muito maior, e isso dá muito mais credibilidade.

Aconteceu um caso muito interessante, já faz uns oito ou nove meses. Foi por volta da uma e meia da manhã, pegou fogo num carro na ponte Pedro Ivo Campos, a ponte que dá entrada à ilha de Santa Catarina. A gente não tem, obviamente, uma pessoa aqui a madrugada inteira. Salvo algumas épocas, temporada, um feriadão, aí a gente tem alguém na madrugada, mas num dia normal a gente não tinha ninguém na madrugada. Quando eu cheguei aqui às 5h30 da manhã, os tuítes eram falando sobre esse carro pegando fogo, fotos do carro pegando fogo, e os comentários assim: “eu acho que é mentira porque o @t24horas não deu nada. Isso mostra a credibilidade que o veículo já estava tendo entre os seguidores. Se a gente não deu é porque não aconteceu. E eles mesmos abastecendo, eles estavam esperando o retorno daquela mão que digita aquela informação. Isso me mostrou esse outro lado do Twitter.

Porque quando eu comecei a gente tinha dúvidas: será que a gente faz uma página no Face? Será que a gente fica só com o Twitter? Será que ainda é o mercado, é o caminho? E a gene pode ver que ainda é. Justamente por causa dessa relação que se cria entre o usuário e o que coloca a informação.

Muita gente fala do grande potencial do Twitter, à medida que ele foi amadurecendo, desde a sua criação, que é o potencial de engajamento. Eu acho o trânsito, como tu bem disse, que envolve todo tipo de pessoa, ele tem um potencial de engajamento muito importante, muito interessante, e a tua experiência mostra isso. Que é, como tu dizia, as pessoas estão esperando o diálogo com vocês, estão esperando a confirmação daquele acidente, ou seja, estão esperando essa conversa, esse diálogo constante que o Twitter possibilita.

Exatamente. Às vezes acaba sendo até um problema pra gente. No inicío, eu comecei a criar como se fosse mesmo essa relação. Hoje, com o grande número de seguidores, 36 mil, tem horas que eu digo, “gente, eu não vou conseguir responder um por um”. Porque todo mundo quer a sua informação. Então pensa num ano-novo, todo mundo vai querer saber como tá Laguna. E a cada um minuto tem cinco tuítes perguntando como tá Laguna, e cada um quer a sua informação.

E o que eu acho mais legal dessa relação é que é justamente isso, parece bobo o que eu vou falar, mas aí eu vou entrar mais numa questão mais do ser humano: o Twitter me possibilita… eu tô na TV, eu tô vendo a TV eu tô fazendo outras coisas, o rádio é mais nessa linha, eu tô ouvindo rádio, eu tô dentro do carro. O jornal, o que eu li, provavelmente é o de ontem ou o de amanhã, tá trazendo alguma coisa que aconteceu ou tá antecipando. E a internet é o momento, é o agora. Então às vezes eu tô dentro do carro, pensa uma pessoa que tá há cinco horas num congestionamento, o que ela quer? Ela quer a informação e ela quer essa relação que a gente tá falando. Ela quer essa conversa. “Ah, olha, vai liberar a pista daqui a 20 minutos, eles tão fazendo o sistema siga e pare”. A pessoa responde assim: “Nossa muito obrigado”. “Ah, então tá, eu vou continuar cuidando pra vocês e vou dando essa informação”. Ela constrói junto contigo essa rede, é muito interessante a gente perceber isso.

Com o tempo, eu também fui percebendo aqueles seguidores que fazem parte também do nosso dia a dia. Então a gente já sabe que o seguidor fulano é aquele cara que é um taxista executivo, então ele tá sempre circulando por aquele lado de lá da ilha. Então eu já confio na informação dele, eu sei eu posso retuitar, ligar para a polícia, criando essa relação de confiança. Porque também tem que ter esse cuidado, não é qualquer coisa que as pessoas colocam ali que a gente vai dar como verdadeira. Esse eu acho que é ponto principal de ter atenção do Twitter. Porque é muito fácil eu colocar na rede. Então, o nosso papel de filtro, e é por isso que cria essa credibilidade pros usuários que é justamente essa, a gente não retuíta qualquer coisa, a gente vai confirmar, a gente vai conferir. Mas é essencial a participação deles.

Exato. Esse diálogo ele constrói o engajamento que faz com que se fortaleça ou se confie mais no chamado jornalismo cidadão, que é uma coisa que a gente vem falando já há alguns anos, com a consolidação da internet, principalmente das redes sociais, que é aquela coisa meio desconfiada, o que o cidadão tem a contribuir, como a gente vai confiar nas informações de uma “pessoa comum”. E eu acho que esse exemplo é um exemplo importante de jornalismo cidadão.

Bem isso que tu falou. E a gente fala muito isso aqui dentro. Como é um projeto muito grande, que envolve muitos meios, a gente de tempos em tempos senta para conversar, pra que lado ele tá indo. Esse jornalismo colaborativo é muito forte aqui. Não só na questão de informação que traz o Twitter, que é essencial para girar toda essa rede de informação de trânsito, como para a ampliação do nosso projeto. O projeto começou na Grande Florianópolis. Hoje, as pessoas nos seguem de Chapecó, da Argentina. Eles colocam: “estou saindo da Argentina, vou pra Santa Catarina, como estará a BR-101?” Então também trabalha na questão da ampliação. E o jornalismo colaborativo acaba sendo muito forte também com a questão do comportamento. Essa coisa de se sentir um pouco jornalista, um pouco repórter, faz parte de todo mundo. Se tem um acidente, qual é a maior causa de congestionamento? A curiosidade. As pessoas querem reduzir pra dar uma olhadinha, pra tirar uma foto, pra mandar pra alguém, pra postar na sua rede social. Elas fazem isso, mas aqui, quando elas nos passam, o conteúdo vai para o jornal, esse conteúdo vai para a TV, esse conteúdo é retuitado na internet. Então elas também acabam se sentido um pouco parte da mão na massa desse projeto, eu também faço o t24horas. Isso também é legal. O momento que a gente consegue colocar essas pessoas com parte disso, não só como receptores da informação, mas também dentro da informação, junto com a gente. Isso fortalece ainda mais a nossa marca, e a gente consegue alcançar ainda mais o nosso objetivo.

Tu tava falando que o t24horas tem 36 mil seguidores. Como funciona a operação de vocês, quantas pessoas estão atrás desse perfil pra dar conta de tanto trabalho?

No dia a dia, de segunda a sexta, a gente tem 3 pessoas. Eu e mais três assistentes de conteúdo. A gente se reveza durante o dia pra estar sempre tuitando. No final de semana é um sistema de escala. Em alta temporada, em grandes eventos, carnaval, feriadão, que a gente sabe que muita gente vai buscar Santa Catarina como destino principal, a gente tem o apoio do Diário Catarinense. Então os repórteres do Diário Catarinense, que vão estar, por exemplo, na BR-101 em Laguna fazendo uma reportagem pro online. Eles tem um Twitter, eles tem a nossa senha e eles tão tuitando in loco. Então eles também nos auxiliam nesse papel de tuitar lá do lugar pra trazer a informação com foto, uma informação mais real, como é a que o nosso usuário nos manda. Quem nos manda é quem tá no trânsito.

E uma outra questão que eu acho bem legal é a questão do processo que a gente conseguiu juntos com as parcerias, que é a Polícia Militar Rodoviária (@P_M_S_C), PRF (@PRF191SC), Guarda Municipal (@GMF153). Foi fazer com que eles entendessem a importância do Twitter. E hoje, depois de dois anos… que não é um processo fácil, a gente sabe que, por exemplo, um posto às vezes tem um computador, que é difícil pra eles também se adaptarem a uma tecnologia, hoje eles tão tendo cursos pra Twitter, e eles tão focados em colocar a informação no Twitter. Eles têm contas, onde eles estão abastecendo muito em função do trânsito 24 horas. Que é pra poder nos abastecer de uma forma melhor, porque a gente atinge muito mais pessoas, então a gente tem uma parceria bem forte e bem legal a construção dessa credibilidade unificada, que é a fonte oficial com a empresa que vai distribuir toda essa informação.

Mariana, tu já falou muito sobre as contribuições que o Twitter pode dar pro jornalismo no caso do trânsito 24 horas aí em Florianópolis. Que mais tu conseguiria perceber e acrescentar para gente de contribuições de uma maneira geral que, tu como jornalista, enxergar? O Twitter para o jornalismo.

A gente fala bastante sobre isso aqui, justamente como eu comentei antes, sobre a dúvida de ter ou não ter, por exemplo, uma página no Facebook, do Trânsito 24h, que a gente não tem. Mas eu acredito que o Twitter possa ainda contribuir muito, mas acredito que muito em questões de serviço, muito no que é agora. E também fortalecimento de marca. O que muitos anunciantes fazem é utilizar o Twitter justamente para isso.

Colocar o tuíte pra fazer aquilo girar e aquela marca chegar até a pessoa. Então acredito que também sirva para isso. Mas a questão de jornalismo, de informação, acho que tudo que for ligado a serviço, a utilidade, é muito importante. O que ele parece é que assim: as pessoas utilizam o Twitter do Trânsito 24 horas porque é um serviço, porque eu quero saber agora o que está acontecendo, quero dizer agora o que eu estou vendo. Por exemplo, o Jornal do Almoço, que é um programa que traz reportagens, e que também precisa dessa colaboração, desse jornalismo colaborativo, nós não temos um Twitter do Jornal do Almoço. A gente tem uma página no Facebook, que faz a vez desse diálogo.

Então eu acredito que a gente consiga tranquilamente, dentro do jornalismo, utilizar todas essas redes a que melhor convém para aquele veículo, para aquele programa, para aquele produto. O Jornal do Almoço não funciona no Twitter, mas o Twitter funciona muito bem no trânsito, no tempo, na meteorologia. As pessoas fazem com a meteorologia muito o que elas fazem com o trânsito: tiram foto, contam que tá nevando, falam que tá chovendo antes da gente saber. Auxilia muito o meteorologista também, também cria essa ligação – eu não sei se porque casualmente são dois serviços que as pessoas mais querem saber. Todo mundo quer saber do tempo e do trânsito, o que atinge todo mundo é o tempo e o trânsito. Pode ser também que a gente veja mais resultado nesse aspecto.

Falando especialmente do Twitter, assim, eu, Mariana, gosto muito porque eu escolho que informação eu quero que chegue até a mim. Eu gosto disso porque eu vou lá e escolho. Eu quero saber todos os dias sobre saúde, sobre política, quero ler frases de um poeta gaúcho. Então eu escolho e aquelas informações chegam até mim e não necessariamente eu preciso estar produzindo conteúdo. Isso é fascinante.