O texto abaixo foi publicado originalmente no Medium no dia 24 de abril de 2014 com o título de “Social Journalism – Proposing a new degree at CUNY”. Nele, o jornalista e professor de jornalismo Jeff Jarvis conta por que ele está propondo um curso de pós-graduação em jornalismo social na The City University of New York (CUNY).

O texto é interessante pela preocupação crescente em transformar a definição “social” em algo que realmente faça diferença socialmente. No caso do curso proposto por Jarvis, isso seria feito com a aproximação de fato do jornalismo a comunidades, ajudando-as a agir a partir de habilidades comunicacionais. O texto repercutiu bastante nos Estados Unidos, a ponto de Jarvis disponibilizar em seu site o documento em que detalha melhor o curso.

O Farol Jornalismo obteve autorização do autor para publicar a tradução em português. Nosso objetivo é sublinhar um movimento no ensino do jornalismo nos EUA. Não se trata de sugerir que o mesmo seja feito no Brasil. Tratam-se de duas realidades diferentes, tanto na educação quanto na prática jornalística. Mas achamos legal que essa discussão chegue até o Brasil, para que possamos pensar nossas próprias soluções para o ensino do jornalismo num momento em que os currículos necessitam de oxigenação. 

Nós, leitores brasileiros, encontraremos no texto alguns detalhes pouco relavantes, como os nomes de pessoas envolvidas no processo e informações sobre o mercado de trabalho em jornalismo nos EUA. Mas nada que interfira na ideia geral.

Boa leitura!

Por Jeff Jarvis

Grandes notícias na The City University of New York (CUNY): estamos desenvolvendo um novo curso de pós-graduação em jornalismo social. Estamos pensando em chamá-lo de uma formação em informação e engajamento comunitário. Além disso, vou argumentar que se trata de uma formação baseada em jornalismo de resultados. Deixe-me explicar.

Há algum tempo eu defendo que o jornalismo precisa deixar de se considerar fundamentalmente um produtor de conteúdo para as massas para começar a se tornar, de maneira mais clara, um serviço para indivíduos e comunidades. Conteúdo preenche espaços; serviço realiza coisas. Fornecer um serviço com relevância e valor exige conhecer quem você serve, e para fazer isso é preciso construir relações com essas pessoas. Ou seja, nós precisamos desenvolver habilidades para construir essas relações.

Eu escrevi sobre essas ideias na primeira parte de um relatório sobre novas relações, novas formas e novos modelos de negócio para notícias no qual venho trabalhando há um tempo. (Eu publiquei esse trecho, sobre relações, no Medium.) Em uma viagem para a Califórnia para conversar com Reid Hoffman, Ev Williams, Dick Costolo, Vic Gundotra, Bradley Horowitz, e outros líderes em tecnologia sobre o futuro do jornalismo, eu mostrei este trabalho não finalizado para a minha nova coordenadora, Sarah Bartlett, para que ela soubesse sobre o que eu andava falando. No voo de volta, depois de ter cumprido todas as suas obrigações, além de enfrentar um atraso de três horas e um bebê que não parava de chorar, ela não tinha nada para fazer a não ser lê-lo. Na saída do avião, Sarah disse concordar com muito do que eu havia dito. Mas ela também perguntou se nós precisaríamos encontrar novas maneiras de ensinar as novas habilidades que eu havia sublinhado.

Então ela sugeriu criar um novo diploma – que se juntaria aos nossos cursos de jornalismo e empreendedorismo em jornalismo – e rascunhou mais ou menos como ele deveria ser. Eu escrevi uma proposta, esboçando o currículo e os objetivos. Então ela apresentou à faculdade. Meu colegas fizeram um trabalho incrível escrevendo o programa de estudos, que o nosso comitê curricular recém aprovou. Ainda há mais dois passos – buscar aprovação junto à universidade e às autoridades estatais – antes de anunciar o curso formalmente e selecionar estudantes. Mas, uma vez que nós nos colocamos nesse caminho, pensei que era hora de estabelecer um marco inicial e dar boas-vindas a uma discussão sobre jornalismo social e o que de fato ele é.

Primeiro, deixe-me dizer o que ele não é. Em uma série interessante de posts, Ed Sussman rotulou jornalismo social o trabalho que veículos como Forbes, Gawker, Guardian, entre outros, vêm fazendo, abrindo espaço para contribuições em seus sites. Eu não concordo. Essa ideia faz com o foco do jornalismo continue em nós, nossos produtos, nosso conteúdo; é uma forma mais aberta (em relação aos créditos) e menos confiável (em relação ao seu frequente descrédito) de alimentar o monstro da mídia.

Não, eu digo que o jornalismo social precisa girar o seu telescópio e começar com o público, com as pessoas sendo assistidas. A primeira habilidade que nós vamos ensinar no novo programa é ouvir a comunidade, prestando atenção em suas necessidades e então pensando qual é o melhor jeito de ajudar seus integrantes a saná-las. Algumas vezes (ou muitas vezes) a resposta estará na reportagem, no conteúdo. Mas ela também pode significar conectar membros da comunidade uns aos outros para que compartilhem informações. Isso significa mais compartilhar dados e ferramentas do que desenvolver narrativas. Isso pode significar ajudar uma comunidade a se organizar para partir para a ação (sim, isso é organização comunitária). Isso pode ser educação. Isso precisa ser colaborativo.

Jornalistas sociais julgarão seu sucesso não a partir de métricas antigas, como alcance e frequência – ou, traduzidas para a gíria digital, visitantes únicos e pageviews –, medidas que ainda dizem respeito às nossas coisas e quem as vê. Ainda que o jornalismo social possa soar como aquilo que convencionou-se chamar de mídias sociais e utilize muitas de suas ferramentas, eu também direi que as medidas adequadas de sucesso não serão likes, amigos, compartilhamentos ou quanto tempo e atenção nós conseguimos do público – o que estamos chamando de engajamento –, essas também dizem respeito ao engajamento conosco e com as nossas coisas.

Em vez disso, jornalistas sociais julgarão seu sucesso ao verificar se o público que eles servem e seus membros atingiram seus objetivos, tiveram suas necessidades sanadas, melhoraram suas comunidades – e se eles se conectaram para buscar uma melhor compreensão através de discussões e informações. Além disso, eu vejo isso como a disciplina do jornalismo baseado em resultados: nós assumimos a responsabilidade não apenas por fazer um produto chamado notícia, esperando que as pessoas a consumam e então tendo esperança que elas e suas comunidades fiquem melhores por isso. Isso é o que fazíamos antes, na mídia impressa, no rádio e na TV. Agora, online, nós temos novas ferramentas e novos meios para ouvir o público, servir ao público, e medir o nosso impacto e o nosso valor. Aí está a essência do jornalismo social.

Então, sim, é social, mas não se trata apenas de mídias sociais. Sim, é sobre engajamento, mas não engajamento conosco, e sim engajamento da comunidade com o seu próprio trabalho. É sobre resultados, êxitos, impacto.

Para ensinar essas habilidades, nós estamos propondo um programa com duração de um ano contendo o seguinte:

  • dois módulos jornalísticos – um para identificar, encontrar e ouvir comunidades, o próximo para apresentar informações e ajudar a informar a comunidade;
  • dois módulos de escuta – o primeiro para ajudar estudantes a aprender com diversas comunidades, interagindo com elas, o segundo sobre ética (e aspectos legais) de trabalhar com a comunidade e assisti-la;
  • dois módulos sobre dados – sobre como usar dados para escutar e aprender sobre uma comunidade, como obter informações em conjunto com a comunidade ou informações sobre ela, apresentar informações a uma comunidade, e medir o impacto de trabalhar com uma comunidade;
  • dois módulos de ferramentas – entender como usar melhor as muitas plataformas que as comunidades usam e vão usar para se conectar e compartilhar, e também aprender como trabalhar com pessoas ligadas à tecnologia para adaptar ferramentas às comunidades;
  • treinamento intenso em negócios (uma parte do treinamento em negócios que nós oferecemos este verão na CUNY – mais sobre isso em breve); e
  • uma intensa prática servindo uma comunidade de escolha do estudante, trabalhando para atingir os objetivos definidos pela comunidade.

Nós traremos professores com várias habilidades para trabalhar com estudantes – jornalistas, claro, mas também especialistas em dados, líderes comunitários, antropólogos e mais.

Se aprovado, este novo curso vai ser ensinado junto da pós-graduação em jornalismo e da pós-graduação e da certificação em empreendimento em jornalismo oferecidos na CUNY. Cada um deles atrairá grupos distintos de estudantes em busca de diferentes tipos de empregos (observe que o Centro para Reportagem Investigativa conta com seis “editores em engajamento” e o novo AJ Plus da Al Jazeera está contratando 13 pessoas para esse tipo de atividade) ou começando seus próprios negócios. Nós conversamos com muitos líderes na área e eles nos convenceram de que há necessidade e demanda por esse programa e seus egressos. Cada um dos nossos programas terá um impacto positivo nos outros, trazendo novas habilidades e perspectivas à escola e oferecendo novos módulos e opções para todos os estudantes. Na CUNY, nós nos orgulhamos de ainda ser uma startup, aprendendo à medida em que avançamos e adaptando nosso currículo às novas necessidades e oportunidades. Este novo programa também é parte desse processo.

Nós estamos trabalhando em cima de algo que acontece – na nossa área de atuação – muito rápido. Se nós passarmos por todos os nossos testes, esperamos oferecer o novo curso em 2015 (ainda não decidimos exatamente quando). Até lá – e aqui está a razão de eu estar escrevendo isso – eu gostaria de ouvir de vocês sugestões e questões sobre o que e como nós devemos ensinar. Nós recebemos observações muito úteis da direção da escola e de outros amigos. Nessa viagem a Bay Area, Sarah e eu discutimos nossa ideia com quase todos que encontramos, sempre recebidos com grande entusiasmo.

Além disso, eu estou honrado de dizer a vocês que Reid Hoffman – que me deu conselhos muito úteis sobre o programa de empreendendorismo em jornalismo desde sua concepção – está generosamente contribuindo para o desenvolvimento do novo curso. E nós recém soubemos que a Knight Foundation – o proeminente financiador do jornalismo nas Américas – também vai ajudar. Obrigado a ambos.

Nós vamos levantar mais dinheiro para financiar bolsas, pesquisa em impacto e engajamento, e eventos, trazendo pesquisadores e profissionais de várias áreas para discutir jornalismo e engajamento sob os cuidados do Tow-Knight Center.

Justamente quando eu pensei que as coisas estavam começando a se acalmar em nossa escola startup de jornalismo de oito anos de idade…