O texto a seguir foi publicado nos dias subsequentes à cobertura das explosões na maratona de Boston, há mais de um ano, no Nieman Journalism Lab. Resolvi traduzir e publicar aqui no Farol Jornalismo agora porque acho que, independente do contexto ao qual está ligado, o texto apresenta reflexões interessantes a respeito de ambientes de breaking news online. Os diversos erros cometidos naquela semana de abril de 2013 geraram autocríticas interessantes por parte da imprensa – várias delas aparecem nos links ao longo do texto. Outro motivo é o meu interesse em breaking news, assunto que é meu objeto de pesquisa e tema de um curso de extensão oferecido na PUCRS no entre maio e junho deste ano (o material pode ser encontrado aqui: 1, 2, 3 e 4)

Antes do texto, breves comentários sobre a tradução.

Algumas URLs relacionadas estão quebradas ou tiveram o conteúdo removido – um sintoma da postura em relação a alguns materiais publicados na época. Resolvi manter os links por uma questão de coerência com o texto original. Nele, o autor destacou algumas palavras e/ou expressões usando itálico. Eu substituí essa formatação pelo bold, pois usei itálico para destacar algumas expressões em inglês que preferi não traduzir, como breaking news e timing. Essa escolha se deu por eu achar que, ao buscar uma versão em português, parte do sentido original das expressões se perderia. De qualquer maneira, para facilitar o entendimento, poderíamos traduzir breaking news como uma notícia urgente que quebra o fluxo do noticiário, e timing como o bom e velho deadline, ou o tempo de publicação da notícia, dependendo do contexto.

Por fim, agradeço a gentileza do professor Mike Ananny por permitir a tradução do texto para o português. Annany, aliás, é professor assistente na USC Annenberg, onde pesquisa jornalismo em rede. Ele também está ligado ao Berkman Center for Internet & Society, em Harvard, possui doutorado em Comunicação por Stanford, mestrado no MIT e bacharelado na Universidade de Toronto.

Boa leitura. 🙂

Moreno Osório


Por Mike Ananny

A cobertura do que aconteceu em Boston na semana passada (obs: a tradução manteve os tempos verbais do texto original) mostrou como a imprensa em rede precisa entender melhor duas coisas: silêncio e timing.

A internet possibilita que outras pessoas – além dos jornalistas tradicionais – se expressem de um jeito rápido e com o potencial de atingir grandes audiências. Mas uma imprensa ideal deve ser mais do que isso. Ela deve dar respostas robustas a duas questões inseparáveis: Por que você precisa saber de algo agora? E por que você precisa dizer algo agora? Ambas as questões sugerem a sabedoria do que não dizer e quando não dizer – conhecimento que a imprensa em rede está recém começando a desenvolver.

O que significaria criar ambientes de breaking news cuidadosamente marcados pela ausência de informações?

A definição mais aceita de imprensa em rede é um sistema que observa, representa, faz circular e amplifica perspectivas significativas. Na semana passada, em Boston, este sistema incluiu: repórteres de grandes e tradicionais organizações de notícias; usuários do Twitter e Facebook que fizeram circular informações em tempo real; agentes de governo, trânsito e das forças da lei que forneceram informações e alertas; espectadores de TV, rádio e scanners da polícia; e usuários do Reddit e 4Chan, que tentaram, e falharam, identificar os responsáveis pelos atentados.

Por um lado, a imprensa em rede forneceu às pessoas informações importantes e em tempo real; fomentou empatia e ações bem pensadas; e ajudou a criar um público sofisticado, pronto para absorver a tragédia e prevenir futuros eventos semelhantes. Mas, tristemente, houve muitos momentos em que esse sistema falhou espetacularmente:

Mas sejamos justos, houve posts brilhantes. Algumas organizações de notícias e de mídias sociais foram mais contidos, tentaram educar suas audiências, e refletiram (ainda que tarde) sobre o seu próprio trabalho. De maneira habilidosa, alguns repórteres entraram no ar sem alimentar especulações, e um deles chegou a admitir abertamente que “não sabia nada”. A Sociedade de Jornalistas Profissionais alertou sobre informações prematuras, e alguns acadêmicos se debruçaram sobre como esforços de crowdsourcing podem ser melhorados.

Mas os maiores erros da semana – que ficam de legado para organizações de notícias e usuários de mídia social – aconteceram quando aqueles que falaram ajudariam mais se tivessem ficado quietos.

SILÊNCIO

Eu me refiro a silêncio como uma reflexiva ausência da fala. Sugerir que de vez em quando as pessoas não falem, compartilhem interpretações ou se engajem em uma comunicação visível e aberta significa questionar ideias arraigadas na sociedade norte-americana: de que é sempre melhor quando há mais vozes, de que uma multiplicidade de pontos de vista são capazes de diminuir os erros, de que a luz do sol é o melhor desinfetante. Nós somos encorajados a nos expressar, evitar calúnias, e acreditar que um balaio de ideias vai, de algum modo, produzir a resposta correta. Empresas de mídias sociais cultivam esses hábitos e atitudes quando nos encorajam a comentar, curtir, taguear, tuitar, fazer check in e seguir sem maiores responsabilidades. Enquanto nossa movimentação cria valor para essas companhias e seus anunciantes, elas acintosamente fazem-nos testar nossas opiniões uns contra os outros.

Então, quando acontecem momentos como o da semana passada, a imprensa em rede se vê despreparada para o silêncio. Sofremos com uma dupla condição estrutural – fomos prejudicados por forças sociais e econômicas que nos encorajam à expressão e por tradições políticas que esperam que a verdade emerja do confronto com os erros. Mas a semana passada mostrou que, às vezes, eventos precisam ser expostos sem que haja comentários. Como um modelo de negócio, sites de redes sociais tem como premissa a expressão constante, mas isso significa que a imprensa também precise segui-la?

Como nós podemos fazer esse silêncio fazer sentido? Ele pode ser interpretado como um ato de confiança em quem está falando – mas essa suposição só funciona se quem falar houver ganhado legitimamente o direito de fazê-lo em nosso favor. Silêncio também pode ser interpretado como um ato de confiança em poderes não monitorados (por exemplo, oficiais da polícia ou do governo, ou organizações de notícias com acesso especial a eles), confiando naqueles que não podemos ver ou ouvir para que ajam por nós. Mas essa suposição só funciona se aqueles que detém o poder saibam a diferença entre privacidade e sigilo – entre a confidencialidade que protege do escrutínio improdutivo versus a censura que alimenta a corrupção. Críticas inteligentes à abertura radical e à transparência da internet estão começando a nos ajudar a entender o significado do silêncio; mas nós precisamos de mais críticas como essas, especialmente em relação a breaking news.

Os riscos de verdades mal colocadas são reais. Mas nós estamos em um momento histórico em que a imprensa está amadurecendo para um redesign radical – um momento em que é possível criar as condições sob as quais a imprensa em rede opera de modo a nos ajudar a entender o significado e o valor do silêncio online durante eventos de breaking news.

TIMING

Uma maneira de confiar no silêncio é entender por que as pessoas falam quando elas o fazem.

Na sociologia dos veículos noticiosos há uma rica literatura sobre o papel do timing nas notícias. Muitas vezes, notícias vêm à tona porque conjecturas, tecnologias e práticas se alinham: jornalistas consideram alguma coisa importante o suficiente para ser chamado de “evento”; acontece em algum lugar em que os veículos estão acostumados a observar; quando fontes confiáveis estão à disposição para fornecer aspas previsíveis; e os leitores estão prontos para receber as notícias daquele momento, sobre aquele lugar, dentro daquele contexto.

Mesmo veículos de notícias online trabalham com padrões de tempo. Um estudo descreve a cobertura hard news online como uma série de rotinas em que os eventos “forçam” os jornalistas a seguir o ritmo que a internet impõe a eles; outro descobriu que, apesar de existir uma ideia de atualização contínua na internet, a maioria das matérias não é atualizada passadas duas horas da publicação; e outro descreve como as redações online estão mais sujeitas a rotular uma notícia como “urgente” se acharem que ela vai dar audiência e as diferenciarem da concorrência.

Os ritmos das notícias reflete o que Émile Durkheim chamou de “consenso de temporalidade”. Isto é, eles dependem de as pessoas concordarem sobre a marcação do tempo – e de como e por que um momento é significativamente diferente de outro. Às vezes as marcas são biológicas – dias terminam com o sol se pondo e as pessoas indo dormir – mas às vezes elas são sociais, tecnológicas e organizacionais. Jornais matutinos e vespertinos refletem as necessidades dos anunciantes, o tempo livre dos leitores e a agenda de impressão e distribuição. Os ritmos das notícias são oriundas de tradições – não naturais –, e elas só “funcionam” devido a um grande número de acordos invisíveis que indicam quais mudanças são significativas o suficiente para serem consideradas notícias.

Assim, dado o caráter dinâmico e distribuído atual da imprensa em rede, quando uma notícia pode surgir a qualquer momento, quando ela deveria aparecer?

Se a imprensa considerar que uma mudança só é noticiável quando duas ou mais fontes de reputação concordarem, estabelece-se um padrão muito baixo. Seria muito melhor passar por um teste de pragmatismo: explicar qual diferença significativa faria expressar agora uma particular versão da verdade. Os moradores de Watertown precisavam saber sobre a orientação de permanecer em casa, mas qual foi a necessidade de algumas pessoas encherem o Twitter de especulações sobre a origem étnica dos suspeitos quando eles o fizeram? Se a imprensa tradicional não mais “possui a narativa”, então a imprensa em rede faria um trabalho melhor nos dizendo por que ela fala quando decide falar.

UM TESTE DE PRAGMATISMO PARA BREAKING NEWS¹

É extremamente difícil – qualquer que seja o momento – saber se um discurso é melhor do que o silêncio. Não é um teste fácil de passar.

William James, antigo pesquisador de Harvard e co-fundador da filosofia pragmática, sugeriu que, ao invés de perguntar “isto é verdade?”, seria melhor se perguntássemos “na prática, que diferença faria se considerássemos esta ideia verdadeira em relação àquela outra?” É uma pergunta truncada, é claro, mas oferece um novo tipo de ceticismo que pode ajudar significativamente uma situação de breaking news em rede. Ela sugere que a imprensa não só verifique a informação (por exemplo, encontrando duas fontes confiáveis que confirmem) mas também decida por si mesmo (e talvez compartilhe com a audiência) por que é essencial ouvir tal particular perspectiva naquele momento.

Editores experientes estão acostumados a se perguntar não apenas se algo foi verificado, mas se é noticiável. Minha impressão, no entanto, é que as falhas da imprensa na semana passada seriam atenuadas se a imprensa em rede (jornalistas e usuários do Twitter, Reddit e 4Chan) estivesse acostumada a passar pelo teste de pragmatismo – e se houvesse uma cultura de assumir tal postura. Ao invés de assumir de que quanto mais gente falando melhor – de que o público conectado vai julgar o valor das informações disponíveis –, talvez fosse um serviço público muito mais relevante falar e chamar atenção apenas se há uma razão clara e justificável para fazer isso. Na semana passada, nós vimos as consequências de deixar esse público descobrir por si mesmo, ou de deixar a imprensa classificar muito rápido certas coisas como verdade.

John Dewey, que também segue a linha da filosofia pragmática e atua como comentarista da imprensa, diz que a comunicação ideal deve possuir empatia e prudência. Já que cada enunciação ajuda a “tornar as coisas comuns”, quem fala está eticamente obrigado a imaginar as consequências de suas palavras. Este tipo de raciocínio requer saber com quem você está se comunicando e antecipar como as suas palavras podem se relacionar com as dele – dois tipos de conhecimento que são extremamente difíceis de desenvolver, rapidamente, na internet.

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O que é preciso fazer? Primeiro, aqueles que desenvolvem as condições sob as quais a imprensa em rede trabalha – reguladores, publishers, financiadores – talvez precisem usar essas ideias sobre silêncio, timing e pragmatismo como ponto de partida para estabelecer regras e políticas. O que significaria criar ambientes de breaking news cuidadosamente marcados pela ausência de informações, com fluxos de notícias estruturados de acordo com o impacto que as informações possuem a cada dado momento, que permita que algumas informações recebam atenção mais tarde e não imediatamente, que dê às pessoas (em tempo real) a noção de como os seus tuítes e outras manifestações estão impactando a cobertura da imprensa?

Segundo, aqueles que publicam em um ambiente de imprensa em rede talvez precisem considerar dizer por que optam pelo silêncio em determinados momentos, sobre assuntos específicos. Imagine se a CNN tivesse dito para os seus telespectadores “nós estamos especulando sem considerar o impacto, então retornaremos à nossa programação normal por um momento, voltando quando houver algo importante a ser dito.” Ou imagine as pessoas que seguiam o scanner da polícia de Boston tivessem tuitado “não tenho certeza do que estou ouvindo ou transcrevendo, então vou ignorar o scanner até que as coisas fiquem mais claras”- e então eles deixam de ser considerados como ouvintes dos scanners.

De fato, em uma era de vigilância sobre consumidores e uma confiança quase cega no chamado big data, usuários precisam considerar o que significa estar em determinados ambientes – qual o significado de observar. Por que tantas pessoas sintonizaram o scanner na polícia de Boston? Como essa audiência foi levada em conta e interpretada? Será que eles não fariam um favor cívico não comentando o conteúdo do scanner, apontando seus browsers – e atenção – para outro lugar? É interessante que as pessoas fiscalizem as autoridades, mas se você ouviu o scanner, por qual motivo você o fez? Os scanners se tornaram uma nova moda porque muitas pessoas estavam ouvindo e os veículos de mídia noticiaram da maneira que fizeram porque havia muita gente acompanhando seus feeds?

Por fim, alguns acham que os veículos de imprensa deveriam ser mais transparentes, permitindo que a audiência saiba quais são seus procedimentos editoriais durante um breaking news. Como um objetivo educacional, isto teria valor real desde que as audiências saibam o quão difícil é tomar rápidas decisões editoriais. Mas dados os riscos da transparência (de não entender o que está visível) e seus às vezes questionáveis valores em contextos em que o tempo é sensível, eu suspeito que uma aproximação melhor e mais sistêmica seria descobrir como confiar na imprensa em rede quando ela não está falando. Tal confiança pode dar ao silêncio o tempo que ele precisa para ser significativo.

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Durante um breaking news – quando os eventos estão acontecendo agora, quando as pessoas estão competindo para serem as primeiras e as mais salientes, quando o scanner da polícia está cheio de áudios de difícil compreensão e quando os esforços de crowdsourcing são imaturos – talvez a imprensa em rede deva parar e se perguntar “e se a versão que estou prestes a publicar for tomada como verdade?“ Nesses momentos, parar, ouvir, observar e pensar não significa não agir – ao contrário, é um tipo de participação diferente e menos perceptível, e que precisa ser melhor entendida, avaliada e ter mais visibilidade.

Para ser claro, eu não estou sugerindo que todo mundo deve pedir permissão para falar, ou que essa fala deva ser tecnologicamente atrasada, moderada ou censurada. Fico imaginando como seria a imprensa em rede se as pessoas fossem mais prudentes antes de falar durante situações de breaking news, tornando os silêncios significativos em meio a tantas opiniões. Como seria essa imprensa? Como planejá-la? Certamente exigiria coragem para falar – mas exigiria um tipo diferente de coragem para silenciar, ouvir, confiar e falar quando for o momento certo.


1. Obrigado ao professor Ted Glasser por esta ideia e frase.