Texto originalmente enviado por email para os assinantes da Newsletter Farol Jornalismo (assine). Link original do texto.

Buenas!

Deixa eu dizer uma coisa pra vocês. A quarta edição da nossa newsletter chega em uma circunstância extraordinária. Ela foi enviada diretamente de Avanca, uma pequena cidade no interior de Portugal, onde estou participando de uma conferência sobre cinema. Nem tanto tempo atrás eu estudava cinema, vejam só. Esse evento – somado a uns dias de folga porque ninguém é de ferro – ainda é fruto dessa época.

Verdade que não é a melhor semana para estar afastado da observação do jornalismo – consequentemente de suas tendências no dia a dia. Afinal, esta foi uma das piores – se não a pior – semana para a aviação na história, Rússia, Ucrânia e Ocidente seguem se olhando feio e a ofensiva israelense em Gaza vem causando reações fortes.

Bueno, eu tô aqui em Avanca (onde quase todo mundo tem um milharal no quintal de casa) ouvindo e falando sobre cinema, mas com um canto de olho para o que andou rolando nos últimos dias, relacionados ou não aos fatos do noticiário hard news.

Começo pelo MH17.

Talvez vocês tenham visto que um jornalista da rede de TV Sky News pediu desculpas ao vivo, durante uma transmissão direto do local da queda do MH17, por mexer nos pertences das vítimas, que estavam espalhadas pelo chão. Pois é.

Colin Brazier, veterano em coberturas de conflito, escreveu no Guardian sobre o episódio. Ele reitera o pedido de desculpas, conta um pouco da sua trajetória e diz que, mesmo tendo experiência em situações extremas, não havia visto nada parecido. “É como um quintal de um açogueiro”, disse ele quando telefonou para a sua esposa.

O texto tem dois grandes méritos. O primeiro é reforçar o pedido de desculpas, algo não tão comum na profissão (embora tenha, segundo ele, sido considerado por alguns como um elemento ainda mais sensacionalista na cobertura ao vivo). O texto é a cristalização de uma reflexão sobre sua própria atuação e, mais do que isso, a necessidade de tornar essa reflexão pública. Não se trata de justificar o erro, e sim contextualizar uma atitude tomada em um momento extremo. Trata-se de pensar sobre ela, e convidar o público (e o jornalismo) a fazer o mesmo.

Na semana passada falei bastante sobre o processo de verificação realizado durante o breaking news do MH17, reunindo algumas iniciativas interessantes. Durante esta semana foi a vez da Storyful – agência especializada nesse tipo de cobertura – consolidar esses esforços. Principalmente as informações sobre a maior polêmica da cobertura até então: de onde saiu o tal sistema de mísseis Buk? E quem o operou?

Não vou comentar todos os procedimentos listados pelo post da Storyful. Se vocês se interessarem por detalhes, leiam o texto. Não é sempre que a Storyful compartilha conteúdos como esse. Prestem atenção especialmente em alguns conceitos interessantes: a atuação da Open Newsroom, uma rede de contatos mundial que funciona como uma redação virtual; técnicas que aparecem no Verification Handbook, como salvar informações que podem vir a desaparecer e extrair metadados de arquivos; a importância da geolocalização, e por aí vai. Muito bom mesmo.

Outro que reuniu o que de melhor em citizen journalism foi feito durante a cobertura do MH17 foi o Bellingcat, a iniciativa de jornalismo colaborativo de Brown Moses. Além de mostrar como um pouco de como foi feita a verificação em tempo real, o texto cita a checkdesk, um CMS que conecta redações com jornalistas cidadãos.

Pra finalizar o assunto MH17, dois links.

Um robô que verifica as modificações na Wikipédia feita por IPs russos descobriu uma tentativa de atribuir o ataque ao avião a soldados ucranianos: leia aqui.

“Não é hora para uma cobertura antiséptica”, disse diretor do NYT Dean Baquet sobre uma foto de um corpo de uma vítima do MH17 envolto em plástico, que estampou a capa do jornal no dia seguinte. Boa e velha discussão sobre “graphic images”.

Chega de MH17 por ora.

E aí, para vocês o Twitter é público?

Já levantamos essa discussão aqui um tempinho atrás. Pois ela voltou com a publicação deste texto no Medium. Anil Dash, o autor, sustenta que a questão sobre privacidade e publicidade no Twitter – e na rede de uma maneira geral – não pode ser tratada como algo preto no branco. Ele tem bons argumentos.

“A indústria de mídia se beneficia de coisas que estão em uma área cinzenta tida como ‘pública’, porque isso torna a discussão mais justa (pelo lado bom) ou fornece material bruto para saciar a fome da imprensa por conteúdo (pelo lado ruim).”

“A indústria da tecnologia se beneficia ao tratar o ‘público’ como um estado binário porque explorar formas mais complexas de privacidade pode ser mais caro em termos de software, e porque empresas de tecnologia cada vez mais contam com o mesmo sistema de anúncios que mantém os veículos de imprensa, onde a informação pública vale mais porque pode ser monetizada.”

Dash diz que não é possível tratar da mesma forma um tweet do Obama e o de um cidadão normal, já que este está muito mais vulnerável a abusos e ataques (inclusive físicos) – e de quanto essas agressões podem afetar (ou destruir) a sua vida – do que o presidente dos Estados Unidos ou qualquer outra figura pública.

A discussão é interessante. Da parte que toca diretamente ao jornalismo, um bom começo é discutir esse tópico dentro das redações, algo que Dash também aponta.

Pra fechar, um assunto bem importante, mas que ainda não conseguir olhar: uma discussão sobre como funciona o algoritmo do news feed do Facebook, aquele robozinho que nos diz o que vai aparecer ou não na nossa timeline.

Bueno, era isso então. Agora vou ali curtir Portugal. 🙂

Bom findi e até a semana que vem!

Moreno Osório