Texto originalmente enviado por email para os assinantes da Newsletter Farol Jornalismo (assine). Link original do texto.

Buenas, gurizada!

Sem más delongas porque hoje a conversa vai ser longa. Te ajeita aí e toca ficha.

Vocês estão por dentro do que está acontecendo em Ferguson, no Estado norte-americano do Missouri? No último sábado, Michael Brown, um adolescente negro de 18 anos, foi morto pela polícia. O motivo ainda não está bem claro. Testemunhas dizem que ele estava desarmado e foi executado. A polícia diz que ele tentava tirar a arma de um oficial quando recebeu um tiro. O fato é que o incidente virou Ferguson de pernas para o ar. Foram cinco dias de protestos, violência policial e um intenso debate sobre assuntos bem familiares para nós, brasileiros: racismo e força desproporcional da polícia, prisão de jornalistas, autoridades impedindo o registro dos acontecimentos.

O assunto virou pauta nacional e vem sendo amplamente discutido na imprensa sob diversos ângulos. Eu gostaria de abordá-lo pelo ângulo que nos interessa: jornalismo.

(Antes, um último fato. Depois de dias de violência, o comando da polícia foi trocado e o comportamento das autoridades mudou: ao invés de gás lacrimogêneo, beijos; no lugar de truculência, abraços. Os policiais marcharam junto com os manifestantes.)

Como vocês devem imaginar, os acontecimentos em Ferguson explodiram nas redes sociais. Pipocaram coberturas ao estilo Mídia Ninja e o Twitter teve um papel crucial.

Imediatamente apareceram as primeiras análises sobre a cobertura. Talvez a que mais tenha repercutido até agora tenha sido a da professora da Universidade da Carolina do Norte Zeynep Tufekci, no Medium. No texto, ela utiliza o episódio de Ferguson para chamar a atenção para um assunto maior: os algoritmos estão decidindo o que lemos/vemos nas redes sociais, e isso precisa ser discutido.

Interessada em protestos e manifestações sociais ao redor do mundo, ela acompanhou, via redes sociais, a movimentação em Ferguson desde o início. Por esse motivo há, nas suas timelines (ela fala basicamente de Twitter e Facebook), muitas pessoas que também falam sobre esse assunto.

Mas no último domingo, ela disse, pessoas que geralmente não falam sobre protestos começaram a postar sobre Ferguson. O resultado é que o assunto explodiu no Twitter (no texto há uma imagem de um gráfico do Topsy mostrando o crescimento do tópico Ferguson), uma rede social que funciona basicamente como uma timeline de fato, com todos os posts dos perfis que escolhemos seguir aparecendo um após o outro.

Então ela foi ao Facebook, um site da “non-neutral Internet” e onde ela tem amigos com interesses similares aos dos seus followings no Twitter, para saber o que acontecia. Mas não havia conteúdos sobre Ferguson. “Nada, zip, nada”, escreveu ela.

Não que o Twitter seja mocinho e o Facebook vilão. Na sequência do texto ela diz que, no dia seguinte, a timeline dela no Face estava lotada de conteúdos sobre Ferguson. E também critica os algoritmos dos trending topics do Twitter. Portanto, não se trata de uma rede específica, e sim do fato de que “algoritmos têm consequências”.

Trata-se da discussão sobre liberdade de expressão na internet, algo que pode determinar a possibilidade de comunidades como a de Ferguson, historicamente deixadas de lado pela cobertura da mídia de massa, serem ouvidas, mais do que isso, não serem caladas. Porque é como diz Zeynep:

“But I’m not quite sure that without the neutral side of the Internet—the livestreams whose “packets” were fast as commercial, corporate and moneyed speech that travels on our networks, Twitter feeds which are not determined by an opaque corporate algorithms but my own choices,—we’d be having this conversation.”

Já imaginou um futuro em que algoritmos podem ser programados para não deixar que conteúdos de protestos como o de Ferguson apareçam nas nossas timelines?

Sei que já falei muito sobre Ferguson, mas eu preciso mostrar para vocês este texto de Mathew Ingram. Não é a primeira vez que destaco um texto de Ingram aqui. Ele sempre tem boas percepções sobre o uso jornalístico de redes sociais e de verificação digital. Desta vez ele fala sobre a importância da “cobertura cidadã” em Ferguson, especialmente no Twitter, para garantir os direitos civis em protestos.

Citando outros textos, ele toca em um ponto importante. O fato de haver informações sendo disponibilizadas em tempo real no Twitter, mesmo que elas ainda não estejam verificadas, força a uma mudança de percepção do público para o que está acontecendo no local se compararmos às coberturas das grandes redes de TV.

“(…) getting a live perspective on such events is certainly better than not having that information in the first place — or not getting it until much later — and at the moment Twitter (and social media-powered tools like Grasswire and Storfyul) are about the best equipment we have for making that happen.”

Se quiserem ler mais coisas sobre Ferguson e jornalismo, confiram o resumo da semana do Nieman Lab. Há muitos outros links, além dos dois destacados aqui.

Mudando de assunto.

Nessa semana o Reuters Institute for the Study of Journalism publicou um relatório sobre o futuro do trabalho jornalístico. A premissa é interessantíssima. Olha só:

“It explored how entrepreneurial journalism is changing the work of journalism, its norms and practices, the organisation and direction of journalistic labour, perceptions of journalists’ identity, work and life boundaries, and the implications of these changes for career and financial planning, expected rewards, and career paths of journalists.”

O relatório é relativamente curto (27 páginas), pois é o resultado de uma pesquisa exploratória. O que significa que em breve teremos o trabalho completo.

Tirando introdução e conclusão, o documento está divido em seis tópicos: entendendo as mudanças, trabalho e ideologia do jornalismo em um mundo multimídia, a atividade jornalística, o trabalho em jornalismo, identidade jornalística e respondendo às mudanças: o papel dos investidores. Vamos conferir algumas ideias gerais.

Depois de traçar um panorama das relações de trabalho, bem como definir a diferença entre atividade jornalística e trabalho no jornalismo, Philipp Rottwilm, o autor, mostra como um mundo conectado vem desafiando valores que historicamente definiram a profissão jornalismo, bem como a identidade profissional dos jornalistas.

No parágrafo abaixo autor sublinha como se dá essa mudança. Em negrito, destaquei alguns desses valores que sempre foram essenciais ao jornalismo.

“Multimedia is heavily influencing the journalistic ideology. Top–down journalism is contrasted with bottom–up journalism (e.g. more inclusion of  social network content etc.). Professional objectivity stands in contrast to  inclusiveness. Journalistic autonomy has become collaborative in its implications, not solitary (with colleagues and a potential worldwide  audience that interacts with each other), and immediacy has to be viewed in  the context of 24/7 online publishing.”

Em função dessas mudanças, diz o relatório, a atividade jornalística está em processo de transformação. De um lado, muitos profissionais deixam de trabalhar com notícias para se dedicar a “reciclar releases”; por outro, há um aprofundamento da reportagem long form, mesmo em veículos alternativos como o BuzzFeed. Alguns têm a oportunidade de trabalhar em high-end ou premium outlets fazendo análises ou comentários. Este cenário acaba causando a erosão de um sistema de trabalho compartimentado em especialidades, como funcionam as tradicionais redações.

Ele também faz observações interessantes a respeito das mudanças causadas pelo “jornalismo social” na atividade jornalística. Desde representar veículos ou a si mesmos em perfis de redes sociais até buscar informações (news gathering) nesses mesmos ambientes digitais. Escreve o autor sobre isso:

Indeed, one could argue that social journalism and the ever-increasing amounts of audience information held by news organisations are redefining the very category of news-worthiness, as well as how journalists write, display, present, and follow up their stories. In a world of instant connectivity journalists are now always ‘on deadline’ and acutely aware of their competition both from other news providers and the myriad of other content available online.”

Ao abordar o trabalho em jornalismo e a identidade profissional, o relatório sugere que um contexto que empurra os jornalistas para a vida de freelancer ou para empreendimentos pequenos pode acabar mudando a própria identidade do profissional, que foi historicamente construída a partir de “valores e experiências compartilhados” – quase sempre na redação.

Na semana em que a redação do Terra em Porto Alegre foi fechada, a constatação de Rottwilm soa como um alerta para ficarmos atentos às mudanças na profissão.

Seguimos adiante.

Vocês já foram assistir ao documentário O Mercado de Notícias? Se ainda não, pula os próximos três parágrafo e corre pro cinema porque vai rolar um pequeno spoiler.

<spoiler>

Se vocês já viram, queria deixar um pequeno comentário sobre uma parte que me toca.

Bom, todos sabemos que no filme há entrevistas com “jornalistões” brasileiros, gente que está na profissão há horas, comandando os grandes veículos de imprensa do país desde muito antes de toda essas mudanças apontadas pelo relatório do Reuters Institute. Gente como o Mino Carta, que lamentou que muitos jornalistas “foram mastigados pelo computador”. Também sabemos que, no filme, Jorge Furtado, o diretor, “vai a campo” para investigar/apurar alguns “casos jornalísticos”.

Pois em um desses casos, Furtado deixa o espectador com 95% de certeza de que foi um segurança de José Serra que atirou uma bolinha de papel na cabeça do então candidato à presidência da república (o fato causou um alvoroço na campanha de 2010). Suspeita que nenhum veículo de imprensa levantou, segundo o cineasta.

O interessante é que para fazer isso Furtado não precisou de uma fonte secreta ou de um dossiê anônimo. Bastou, como ele mesmo disse, analisar diferentes vídeos do incidente, todos disponíveis na internet, utilizando técnicas de verificação digital – assunto que, vocês sabem bem, venho insistindo muito por aqui.

</spoiler>

Para finalizar a mais longa de todas as newsletters, alguns assuntos rápidos.

Ufa. Acho que compensei a newsletter magrinha da semana passada, né? 😛

Bueno, era isso então.

Bom findi e até a semana que vem! 🙂

Moreno Osório