Marcelo Träsel faz uma boa reflexão sobre dois projetos gaúchos que nasceram na internet e apostaram em novos modelos de publicação em meio às incertezas da revolução digital. O Impedimento, que recentemente encerrou suas atividades, e o Destemperados, que, na mesma época, iniciou uma parceria com a Zero Hora, jornal regional, e passou a publicar conteúdo dentro do caderno semanal voltado à gastronomia.

Vale a pena ler para tentar entender como um deu certo e o outro não – do ponto de vista do negócio. Gostaria de chamar a atenção para um ponto crucial em toda essa discussão sobre o futuro do jornalismo: a diferença entre os dois tipos de conteúdo. O Impedimento, como o próprio Trasel ressalta, fazia jornalismo no sentido estrito: apostou em relevância, postura crítica, com bons e longos textos – o que demanda tempo –, foi além do futebol, abordando temas de interesse público (ganhou uma categoria do 30º Prêmio de Direitos Humanos de Jornalismo com uma reportagem sobre o Estádio Nacional do Chile 40 anos depois do golpe de Pinochet). O Destemperados sempre ofereceu serviço, que não deixa de ser um tipo de jornalismo, mas, e especialmente no caso deles, com um recorte bem específico: só escreviam sobre lugares de que gostavam. Legítimo. Um guia de restaurantes que diz ao público aonde vale a pena ir.

O primeiro projeto não conseguiu se viabilizar financeiramente, o segundo sim. O que isso nos diz?

1. O que todo mundo já sabe: nós jornalistas ainda não sabemos como bancar reportagens desde que as verbas publicitárias começaram a migrar para outros canais na internet.

2. Uma hipótese um pouco apressada e pessimista, mas que, para mim, vai fazendo cada vez mais sentido: não é que as pessoas não querem mais pagar pelo jornalismo, a maioria delas talvez nunca quis pagar, pagava porque não tinha opção. As pessoas pagavam uma assinatura de jornal diário mas acabavam lendo só a seção de esportes. E nós jornalistas tínhamos a ilusão de que elas se interessavam por todo o nosso produto, porque era difícil medir. Na internet, é possível saber direitinho o que dá audiência e o que não dá – e por testemunhos nossos, de colegas e por experiência como leitores, sabemos que esportes, celebridades e serviço fazem, em geral, mais sucesso do que política e economia. É o eterno embate entre o que o público quer ler e o que os jornalistas acham que o público precisa ler.

Acontece que hoje, se o público não achar interessante/relevante, ele não vai nem passar os olhos, como fazia quando folheava um jornal para chegar nas páginas de esporte. Ele simplesmente não vai ler e ponto. E muito menos pagar por isso. A gente pode até tentar novos formatos para tornar mais atraente os temas relevantes e menos populares – e há veículos que estão tentando -, mas não há garantia para o sucesso. Estive há poucos dias com uma editora de um jornal que comentou sobre um conteúdo multimídia super bem acabado com vídeos e infográficos sobre os 25 anos da Constituição e cuja audiência foi pífia. Um tema chato, relevante sim, mas que talvez só interesse a 3 pessoas no Estado – o que pode simplesmente refletir um problema muito maior de educação e cultura no País. O problema do jornalismo hoje não é que essas 3 pessoas não pagam a execução de um especial multimídia como esse; as pessoas nunca financiaram inteiramente o jornalismo, quem sempre bancou a imprensa foram os anunciantes, vocês sabem, e esses hoje migraram para internet, onde encontraram canais diretos para falar com seus potenciais consumidores. Esse é o nosso problema, caso ainda alguém não tenha enxergado.

Se tem um nicho para o qual o jornalismo se tornou de fato dispensável, esse nicho é a publicidade (gostaria muito de estar errada, e se alguém tiver argumentos contrários, por favor, manifeste-se, acho que precisamos de mais publicitários nessa discussão toda). Daí nesta semana, a Associação Nacional dos Jornais (ANJ) publica anúncios em grandes jornais do País com um texto que se dirige ao público leitor, falando sobre como o jornalismo é importante, que ele está em tudo, que “ele garante que tudo aconteceu” e, no fim, diz (ou melhor, implora): ANUNCIE EM JORNAL.

Anúncio da ANJ na Folha de 21/08/2014

Anúncio da ANJ na Folha de 21/08/2014

Para mim, foi um atestado de que não estão entendendo nada. Primeiro, usam um exemplo de uma rede social em que uma jovem usuária escreve “Tá na capa do jornal de hoje!! Agora eu acredito”. Parece que desconhecem que só 25% do público brasileiro se informa pelo jornal – entre os jovens de 16 a 25 anos, o índice é próximo de zero (ZE-RO!), enquanto a internet cresce e já corresponde a 25%.

Achei que já era consenso que há de se encontrar novas formas de financiar o jornalismo. E, para mim, nesse momento, vale tentar tudo: fazer matérias em formato de lista, promover eventos e até vender vinhos, por que não? O Buzzfeed já afirmou que faz listas de bobagens para financiar o seu jornalismo relevante. Se as listas são mais lidas que as reportagens investigativas, bom, isso pode ser simplesmente o reflexo do seu público. Mas se essas listas garantem audiência e dinheiro para se continuar investindo no tal jornalismo de qualidade, será que não devem ser consideradas? Quem quer ler listas vai ler listas, e quem quer ler reportagens investigativas também vai encontrá-las. (Fico me perguntando se nosso papel não é formar um público que se interesse mais por reportagem investigativa do que por listas bobas… Mais uma pergunta sem resposta, até porque se for mesmo nosso papel, não sei como fazê-lo. Penso nisso porque, jornalismo, pra mim, ainda é um meio pelo qual as pessoas podem fiscalizar o poder público, se tornar mais críticas e melhores cidadãs – romântica? Sim.)

Voltando à discussão, o New York Times conseguiu tirar uma grande receita das suas assinaturas digitais, não depende mais só dos anunciantes. É como a base do crowdfunding: sensibilizar o público de que vale a pena pagar por aquele conteúdo. Mas isso é NYT e EUA e outros países onde o jornal nova-iorquino é bastante lido. Não é Brasil. Não sei se aqui um dia isso dará certo; não deu com o Impedimento. Talvez, o público qualificado do tal jornalismo relevante não seja o suficiente para bancar o custo do tal jornalismo relevante. Mas é assim mesmo. Primeiro, não é todo mundo que quer ler textos longos sobre esporte e cultura sul-americana que vão muito além do resultado de um jogo. Segundo, não é todo mundo que quer pagar para ler algo que já tem de graça – os guris do site mantinham o conteúdo aberto, e uns poucos apaixonados pelo projeto pagavam. Talvez se cobrassem por todo o conteúdo jornalístico que ofereciam? Não sabemos.

Como muitos já disseram por aí, o jornalismo sempre foi caro. Mesmo sem os custos do papel, como foi o caso do Impedimento, ele ainda precisa pagar os profissionais que dedicam tempo para isso. Talvez o jornalismo como negócio vá morrer mesmo, não vá dar mais lucro. E aí temos muito pano pra manga para outra discussão, que deixarei para textos futuros: financiamento público (antes de fazer cara feia, lembre-se que já há incentivo estatal na área, os jornais hoje são isentos de impostos de importação sobre o papel) e iniciativas como a Pública, mantida por fundações sem fins lucrativos.

Comecei falando sobre conteúdo e terminei falando sobre financiamento. É que as duas coisas estão ligadas, embora alguns se recusem a ver. O Destemperados deu certo do ponto de vista do negócio, foi pensado como produto desde o início, está dando dinheiro e prestando serviço – hoje faz jornalismo entre outras coisas, como as agências de conteúdo também citadas pelo Träsel. Faz-se jornalismo porque se acredita, porque se gosta. Faz-se outras coisas para pagar as contas.