Texto originalmente enviado por email para os assinantes da Newsletter Farol Jornalismo (assine). Link original do texto.

Buenas, gurizada!

Como vocês devem ter notado, decidi manter a newsletter na sexta-feira. Mas tentarei enviá-la até no máximo o começo da tarde, pro email não chegar quando todos já estão em ritmo de final de semana. Acho que assim é melhor.

Sem más delongas, vamos ao que interessa.

A internet piorou o jornalismo? Volta e meia alguém (re)faz esta pergunta. Nem sempre em alto e bom som, é verdade. Muitas vezes ela fica subentendida. Ou no subsolo de discussões que, na superfície, abordam o tema de outras maneiras.

Não é o caso do texto publicado por Mathew Ingram (de novo ele) no GigaOn. Mesmo sem pretender falar do assunto tão cedo, ele disse ter se sentido obrigado a responder o posicionamento de David Sessions, fundador da revista Patrol (não conhecia Sessions nem a revista), a respeito do jornalismo feito na rede.

De maneira muito resumida, Sessions argumenta que a internet se transformou em um oceano de informações irrelevantes e fúteis, e que o bom conteúdo ainda existente sumiu no meio de tanta bobagem. Fique uns dias sem acessar suas redes sociais, sugere ele, e você vai ver que não precisava de nada do que “perdeu”. Para saber minimamente o que acontece no mundo, basta dar uma olhada em um jornal.

Sessions transmite um desconforto familiar para quem sabe da importância do bom jornalismo para o bem público. As métricas vêm nos esfregando na cara o fato de que pouca gente dá bola para o que costumamos chamar de bom conteúdo.

A resposta de Ingram é simples: essas coisas todas que tu reclamas, Sessions, já existiam muito antes da internet. “Criticar o BuzzFeed porque ele faz listas – ou a Vice porque cobre cultura pop, ou o Gawker, que eventualmente faz um post bizarro sobre celebridades, ou o Vox, que fez um artigo explicativo sobre a Gwyneth Paltrow – é o mesmo que olhar para um jornal e reclamar do horóscopo, das colunas de conselhos pessoais e dos quadrinhos”, escreve Ingram. “A realidade é que para a maioria dos jornais, as grandes reportagens investigativas e os furos que todo mundo lembra são uma pequena fração do que é produzido, como sempre foi.”

A diferença é que estamos percebendo que o que chamamos de bom conteúdo talvez nunca tenha despertado grande interesse no leitor. A grande questão é o que fazer a partir daí. Talvez parar de pré-julgar o leitor que não consome avidamente a mais recente Piauí, perguntando a ele antes sobre o que gostaria de ler/ver/ouvir.

Hipérboles à parte, confiram o texto do Mathew Ingram. É sempre bom ouvir alguém que coloque um freio no alarmismo constante de que a internet matou o jornalismo.

Ah, se liguem também neste outro texto de Ingram em que ele sugere que os jornalistas deveriam ficar mais atentos ao que rola no reddit, ~um desses lugares em que só se fala besteira na internet~ e que foi duramente criticado pelo papel que desempenhou na cobertura das explosões na maratona de Boston, em 2013.

Vamos adiante.

Vocês lembram da teoria do espiral do silêncio? Se não, eu dou uma força. O pressuposto dessa teoria da metade do século XX diz o seguinte: quanto mais minoritária é uma opinião, menos chance ela possui de ser mais expressada em público por quem a defende, o que gera um processo que dá nome à hipótese.

O Pew Research Center publicou um estudo sobre essa teoria aplicada às redes sociais. O resultado? O mesmo. As pessoas tendem a não expressar suas opiniões a respeito de um tema se elas sabem que seu posicionamento é minoritário ou se suspeitam que ele não será bem recebido junto à sua “audiência”.

A equipe do Pew consultou 1.801 adultos a respeito da polêmica envolvendo as práticas de espionagem denunciadas por Edward Snowden no ano passado.

Permitam-me compartilhar alguns pontos destacados pelo estudo.

  • As pessoas se sentem menos dispostas a discutir o assunto nas mídias sociais do que pesoalmente.
  • As mídias sociais não mostraram ser uma plataforma alternativa de discussão para aqueles menos dispostos a falar sobre o assunto.
  • Seja no “mundo real”, seja online, as pessoas se mostram mais dispostas a compartilhar seus pontos de vista se considerarem que eles serão bem recebidos pela sua audiência.
  • Usuários do Twitter e do Facebook também se mostram menos dispostos a dividir sua opiniões em muitas situações offline. Isso é especialmente verdade quando eles acreditam que o seu ponto de vista é diferente dos seus seguidores nessas duas redes sociais.

Observem o comentário feito pelo jornalista Felipe Franke  quando compartilhamos essa pesquisa na nossa página no Facebook: “tenho certeza que podemos traçar outros parâmetros para provar [que a] circulação de informação não funciona hoje exatamente do mesmo modo que nos anos 1950. Mas as coisas mais humanas não mudam. Ou levam muito, muito mais tempo pra se transformar”.

Pois é.

Dois links rápidos sobre conteúdo gerado por usuário (UGC, na sigla em inglês. 1) O Emergency Journalism cita um estudo que sugere que jornalistas expostos a um fluxo contínuo de conteúdo violento (a execução do jornalista James Foley, por exemplo) estão mais sujeitos a “consequências psicológicas”. 2) Analisando o vídeo de Foley, o Bellingcat apontou o local mais provável da execução do norte-americano pelos terroristas do Estado Islâmico: o sul da cidade síria de Raqqa.

Estamos nos aproximando do final.

A Online News Association (ONA), nos Estados Unidos, divulgou a lista com finalistas do 2014 Journalism Award. Ainda não consegui olhar, mas nem preciso falar que deve ter coisa boa nos links. O Poynter já fez metade do trabalho selecionando nove trabalhos que não podemos perder.

Para finalizar, um post sobre um assunto frequente por aqui: o algoritmo do NewsFeed do Facebook. O Tim Herrera, do Washington Post, fez uma experiência para tentar entender melhor como ele funciona. Primeiro, catalogou tudo o que apareceu no NewsFeed dele durante um dia inteiro. Depois, TODOS os posts de seus amigos e de páginas que ele curtiu durante o mesmo período. O objetivo era entender melhor que tipo de conteúdo o Facebook achava que ele deveria ver.

O resultado: o Facebook te mostra muita coisa velha e um monte de coisas que não te interessa (levando em conta o teu próprio comportamento na rede social).

Agora com licença. Vou ali tomar um cafezinho e tirar um cochilo. NESSA ORDEM.

Lembrando que todos os links estão também na Tendências no Jornalismo, nossa revista no Flipboard. Quem quiser, pode acompanhar os assuntos que serão discutidos aqui durante a semana, enquanto eu seleciono os textos.

Bueno, era isso então.
Bom findi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório