cartaz-mercadoSe cada época pode ver a sua insensatez na imprensa, o que ficará da loucura do nosso tempo? A interessantíssima vida das celebridades? A obsessão pelo corpo perfeito? A intolerância dos cidadãos de bem com a corrupção na política? A intolerância dos cidadãos de bem com qualquer opinião diferente da sua?

Não evoluímos nada desde o século XVII?

Ao contrário do que pode parecer à primeira vista, Jorge Furtado mostra que sim, evoluímos. O seu novo longa-metragem, O Mercado de Notícias, em cartaz em diversas capitais pela quarta semana consecutiva, fala sobre jornalismo. O diretor foi buscar na peça de Ben Jonson de 1626 o mote para falar da atividade hoje e, como ele mesmo já disse, para falar bem, e não mal do jornalismo. A obra elisabetana se mostra ainda atual: a partir da história de um jovem herdeiro que decide investir seu dinheiro em uma recém aberta agência de notícias, o segundo dramaturgo mais famoso da época — o primeiro era Shakespeare — faz uma crítica bem-humorada à jovem imprensa, que havia nascido no Reino Unido quatro anos antes, com o seu primeiro jornal impresso.

A peça foi encenada e gravada no palco do Theatro São Pedro e na Biblioteca Pública do Rio Grande do Sul, ambos em Porto Alegre, e suas cenas estão no documentário entrecortadas por trechos de depoimentos de jornalistas brasileiros. Escolhidos por Furtado, os 13 profissionais são, segundo o próprio, gente cujo trabalho ele admira: Mino Carta, Janio de Freitas, Luis Nassif, Fernando Rodrigues, José Roberto de Toledo, Bob Fernandes, Cristiana Lôbo, Geneton Moraes Neto, Paulo Moreira Leite, Raimundo Pereira, Mauricio Dias, Leandro Fortes e Renata Lo Prete.

Nos trechos que nos transportam ao século XVII, percebemos que não são nada novas as discussões sobre o financiamento da imprensa, o valor das notícias e a credibilidade das mesmas, os anseios da audiência ávida “por notícias novas e frescas” e a tentação pelo sensacionalismo. Furtado costura muito bem o contexto dos antigos debates com os atuais. O filme é uma aula sobre conceitos básicos do jornalismo: para que serve, o que faz — ou o que deveria fazer — um repórter, se existe objetividade, verdade factual, distorção dos fatos, a relação com as fontes etc.

Foto: Fábio Rebelo

Foto: Fábio Rebelo

Por meio dos depoimentos e de duas apurações que ele mesmo empreende no filme, Furtado mostra também como o jornalismo ainda erra — por pressa, por incompetência, por preguiça, por pressão de fontes, de anunciantes ou do dono do jornal. “Não conheço nenhum caso recente de censura do Estado, que tanto temem. E eu conheço, e qualquer jornalista conhece, centenas de casos de censura feita pelos donos do meio de comunicação. Como é que as pessoas não dizem isso com todas as letras?” O relato é de Bob Fernandes. Quando ele começou a falar este trecho, eu, sentada na poltrona do cinema, complementei em voz baixa: “Eu conheço, e muitos outros jornalistas conhecem, casos de censura pelos donos do veículo por pressão dos anunciantes”. E este é o primeiro ponto que eu gostaria de destacar.

São histórias de páginas inteiras derrubadas a poucas horas de fechar a edição para evitar incomodação com anunciante. Outras sobre repórteres obrigados a entrevistar certas fontes para agradar anunciante. Janio de Freitas é bem direto ao falar sobre os interesses dos veículos jornalísticos: são empresas capitalistas interessadas no lucro. “O jornalista costuma pensar que um jornal é editado para fazer jornalismo. Não é não. É editado para publicar publicidade, que é o que dá dinheiro. O jornalismo recheia o entorno dos anúncios.”

Fernando Rodrigues, quando comenta a questão do financiamento, é bastante crítico quanto ao dinheiro estatal que chega aos jornais por meio de anúncios governamentais. Defende que se busque dinheiro junto aos leitores — o que eu acho o melhor dos mundos, porém, só New York Times conseguiu até hoje superar a receita de publicidade com a que advém das assinaturas digitais, além de casos isolados de crowdfunding, que não vão salvar o jornalismo — e os anunciantes privados. “São milhares, quanto mais, mais independente você será. Independência editorial está ligada à independência financeira”. Em tese, ele tem toda razão. Toledo faz coro e diz que o problema é quando um veículo tem só o governo como anunciante, o que acontece com pequenos jornais e blogs. “Os jornais têm essa vantagem. Vão buscar vários anunciantes, dividindo o risco e o poder de influência de um anunciante único naquele veículo.” Certo. Chamo a atenção para quando Fernando diz que “os grandes jornais independentes são assim, não são dependentes de um anunciante”. Ok, não são dependentes de um único patrocinador, mas é inegável que dependem de poucos setores. Em uma rápida folheada nos jornalões, vemos que os maiores anunciantes são construtoras e concessionárias de carro, em seguida algumas marcas de varejo e outras de companhias telefônica.

Enfim, é uma crítica — se é que chega a tanto — a um relato de um dos jornalistas, e não ao filme; e por isso o documentário é tão bom, porque provoca uma série de discussões. Mais do que um filme, trata-se de um projeto que extrapola os quatro cantos da telona para o site, onde estão as entrevistas com os jornalistas, a peça, as resenhas sobre o filme, documentos de pesquisa e links que podem contribuir com as discussões que ainda virão (inclusive, tem link pro Farol 😉 ).

Foto: Fábio Rebelo

Foto: Fábio Rebelo

Outro ponto para se refletir: eu disse lá no início que nós evoluímos, apesar das velhas críticas que permanecem atuais. E em que evoluímos? Felizmente, hoje existe mais transparência no processo jornalístico, como destaca Leandro Fortes em uma de suas falas. Obviamente isso não pôs fim às barrigadas — termo usado para os erros que os jornais publicam por pressa, falta de checagem etc. Hoje o público tem mais voz.

Evoluímos apesar do que Mino Carta diz no documentário, que os jornalistas “foram mastigados pelo computador”. Ora, se não fosse um computador conectado à internet e a popularização das câmeras que tudo gravam em todos os lugares, Furtado jamais poderia ter feito a apuração que fez sobre o caso da bolinha de papel que atingiu José Serra na campanha de 2010. E este é o segundo ponto que queria destacar do filme. Na época, jornais e canais de TV veicularam várias reportagens sobre o objeto que teria atingido o candidato (a Globo chegou a contratar um perito para analisar os vídeos e determinar, afinal, se era uma bolinha de papel ou o quê). Mas ninguém foi atrás de tentar descobrir quem teria atirado o objeto em direção a Serra — Furtado faz isso no documentário a partir de vídeos disponíveis na internet (e ele chega a uma conclusão com quase 99% de certeza, mas eu não vou contar aqui pra não entregar um dos pontos altos do filme).

Se o filme é brilhante em traçar o passado e a essência do jornalismo, ele deixa a desejar quando mira o futuro. Ao que parece, não era esse o objetivo central do diretor, um apaixonado declarado pela atividade e para quem o jornalismo é hoje mais fundamental do que nunca, em função do bombardeio de informações que recebemos de todos os lados e das mais variadas e suspeitas fontes. Mas, a partir de algumas falas presentes no documentário e das íntegras das entrevistas — disponibilizadas aos poucos no site do filme —, vemos que a discussão não rendeu muito quando os entrevistados especulam sobre o futuro.

Arrisco-me a dizer, com todo o respeito pela velha guarda que protagoniza o documentário, que é porque boa parte dos jornalistas entrevistados não entendeu direito o que está acontecendo. Engraçado ouvir do Janio de Freitas que, como eu ressaltei, sabe muito bem da importância da publicidade para a sustentabilidade do jornalismo, que a internet não tem culpa nenhuma do que está acontecendo com os jornais de papel. Ora, já está mais do que claro que a crise vem da queda na publicidade em papel, que migrou para onde? Para a internet! Na íntegra da sua entrevista, ele ainda compara a situação atual com a chegada da TV e a transmissão direta, momento em que os jornais tiveram de se reinventar e, como ele relembra, se tornaram mais atraentes visualmente, com mais informação, de modo que a “TV não pode concorrer”. Acontece que hoje o furo é bem mais embaixo. Não basta a redação se reinventar, o departamento comercial e outros estratégicos da empresa precisam achar uma nova forma de financiamento ou a fonte vai secar.

Toledo, um jornalista mais jovem dentre os entrevistados e super ligado em novas ferramentas de apuração jornalística, é o cara que diz que estamos passando por uma revolução semelhante à de Gutenberg. É ele quem fala em uma mudança no conceito de repórter, uma discussão que infelizmente não avança no filme. Um repórter hoje, sentado na redação, pode fazer muito mais do que Mino Carta imagina — é claro que pouco ainda se faz no Brasil, é claro que há repórteres atolados de pautas em função das redações estarem cada vez mais enxutas e, portanto, nem saem para a rua e acabam catando pautas nos relises em suas caixas de entrada. Mas existem muitas novas possibilidades mal exploradas de apuração — o que, deixo bem claro, não substitui a velha entrevista olho no olho e a capacidade de contar boas histórias, mas se a condição é estar preso à redação, vamos aprender a usar as novas tecnologias a nosso favor.

Enfim, O Mercado de Notícias, ao dar voz a jornalistas da velha guarda deixa a desejar sobre novas discussões no jornalismo, mas cumpre um papel fundamental ao nos lembrar da verdadeira missão do jornalismo: contar histórias de interesse público o mais próximo da realidade possível e não negar o papel de agente político que o jornalismo desempenha (obrigada, Mauricio Dias). A inteligência, a habilidade narrativa e a bagagem de conhecimento dos entrevistados são inspiradoras. Por tudo isso é um filme obrigatório para jornalistas e estudantes e quem mais se preocupa com o conteúdo que consome todos os dias. Jornalismo também é serviço, também pode ser entretenimento. Mas se não for para contar o que alguém em algum lugar não quer que se conte, podem fechar as redações.