Texto originalmente enviado por email para os assinantes da Newsletter Farol Jornalismo (assine). Link original do texto.

Buenas, gurizada!

A newsletter do Farol Jornalismo chegou à 10ª edição. Estou contente não só por ter completado dez semanas de esforço sistematizador, mas especialmente porque a média de abertura dos emails está elevada, o que significa que quem assinou está realmente interessado no conteúdo. Obrigado pela oportunidade de levar até vocês assuntos que considero relevantes para pensar o jornalismo.

Deixa eu começar por uma coisa que rolou em meados de agosto e eu não vi. No dia 19, o diretor da Atlantic Media, Andrew Golis, escreveu no Medium sobre um projeto chamado This., uma iniciativa para pisar no freio e tentar diminuir o ritmo enlouquecido assumido pela internet nos últimos anos. Vocês sabem bem o que é isso. Falo do fluxo contínuo de informação que chega nas nossas timelines em um intervalo de tempo cada vez menor. Trata-se da metáfora do The Stream.

(Para saber mais sobre o The Stream, sugiro ler este texto de Alexis C. Madrigal, da Atlantic. Aliás, sugiro que vocês fiquem ligados em todos os textos desse cara.)

No dia 20, o Nieman Lab deixou mais claro o plano de Golis. Ele quer criar (criou, no caso, ainda que de maneira experimental) uma rede social para going slow: o This.. Sua premissa é simples: os participantes só podem compartilhar um link por dia. Um e apenas um. Se você tivesse que compartilhar apenas um conteúdo por dia com seus amigos, qual seria ele? Um vídeo de gatinhos, uma música, uma matéria sobre política, um meme, a foto que você tirou do jantar que preparou?

Tough question, hein?

Olha o que disse Golis ao Nieman Lab:

“One of the huge benefits of the one-a-day is it inflates the perceived value, both for the person sharing it and the person coming to it,” Golis says.

Indo mais devagar, acredita Golis, o nível da discussão tende a subir. Mas Caroline O’Donovan, a autora do texto do Nieman, levanta uma boa questão: compartilhar o que é considerado melhor pode tirar espaço de conteúdos não considerados bons e/ou adequados de antemão. E aí voltamos ao filter bubble problem.

De qualquer maneira, fiquemos de olho no This..

Antes de seguir, dêem uma olhada no Last Great Thing, iniciativa semelhante ao This.. Um grupo de vinte pessoas – as “smartest people we knew“, dizem os criadores – seleciona um link por dia e o disponibiliza para os leitores. Tarefa difícil, mas a dificuldade incentiva a criatividade, diz Zach Seward, um dos colaboradores.

Embora não sejam diretamente relacionados ao jornalismo, esses dois sites nos ajudam a pensar em como esse pessoal está se movimentando para dar mais saliência a conteúdos – de acordo com os critérios deles – mais relevantes.

Eu resgatei a história do This. lendo esse outro texto aqui. Quem o escreveu foi Om Malik, fundador do GigaOn. Ele começa o texto dizendo que recentemente foi convidado pelo Google para ajudá-los a saber o que eles poderiam fazer pelo futuro das notícias, ou do jornalismo, como queiram. A sugestão dele é que o Google – empresas de tecnologia em geral – desenvolvam ferramentas que ajudem os jornalistas a fazer buscas na web para obter informações para os seus conteúdos.

Mas não se trata, diz Malik, do Google disponível hoje. Ele tenta ser específico.

That tool is search — not the Google search as we know it, but a different version of Google-powered search tool that allows reporters to see in real-time past stories from across the web. That’s not all — the search tool would also provide contextual information about various topics, whether through Wikipedia or some private archive like Lexis-Nexis. There is a crying need for this tool, especially in today’s hyperactive media environment. [destaques em negritos são meus]

Confesso que não consigo imaginar essa ferramenta, talvez pela minha incapacidade de saber o que a programação é capaz de fazer para mergulhar nas profundezas da web e trazer de lá informações não disponívels em uma simples – e muivas vezes viciada – pesquisa no Google. Mas, pelo que sei, é mais ou menos isso que o Vox está fazendo. Mas fica claro que a ideia é avançar e popularizar o jornalismo guiado por dados, já nem todos possuem a estrutura de um FiveThirtyEight – ou mesmo de um Vox – para desenvolver seu próprios algoritmos.

Uma coisa do que Malik falou me chamou a atenção. Uma ferramenta como essa poderia remediar um problema típico das redações online de hoje: o fato de os editores serem cada vez mais jovens e inexperientes. As redações atuais, diz ele, não são – de maneira geral – mais aquele ambiente em que os jornalistas inexperientes eram aconselhados pelos repórteres e editores veteranos. O resultado disso é falta de conhecimento acumulado, falta de contexto histórico. A boa notícia, segundo Malik, é que toda a informação contextual está disponível na rede.

Assim, de primeira, não me arriscaria dizer que uma ferramenta pode substituir o caráter de sala de aula que uma redação “das antigas” possuía. Mas tudo bem.

Seguindo adiante.

Durante a semana postei na nossa página do Facebook, talvez vocês tenham visto, este texto da Emily Bell – uma das autoras do já conhecido relatório Jornalismo Pós-industrial da Universidade de Columbia – publicado no The Guardian. Em resumo, ela diz que os processos editoriais de escolha das notícias não podem ser substituídos por algoritmos que ninguém sabe bem como funcionam.

A discussão é importante é ganhou força depois de dois episódios recentes envolvendo dois grandes da tecnologia. Primeiro, o (algoritmo do) Facebook foi criticado por não mostrar nos NewsFeed de usuários dos EUA notícias sobre Ferguson no primeiro dia de protestos. Depois, o Twitter decidiu censurar por conta própria imagens relacionadas à execução do jornalista James Foley pelo Isis.

Como diz Emily, a notícia saiu do controle dos jornais e o poder da redação não é mais o mesmo. Talvez esteja na hora de começarmos a pensar em trocar o grito de “parem as máquinas!” por “revisem os algoritmos!”.

Falando em algoritmos e Facebook, neste texto, Mathew Ingram faz uma observação importante: não dá pra ignorar o Facebook, mas não se entregue para ele. Ou melhor, não entregue seu conteúdo para ele, não dependa só dele. Utilize, sim, o Facebook para alcançar as pessoas – afinal, está todo mundo lá. Ignorá-lo é uma sentença de morte. Mas produza o seu conteúdo em algum lugar sobre o qual você tenha controle (seu blog, por exemplo), e então o compartilhe no Face.

Mudando de assunto. Vocês conhecem o iTunes de notícias? É assim que o Blendle, um agregador de notícias holandês está sendo chamado por funcionar de uma maneira semelhante à loja de músicas da Apple. Através dele você pode comprar notícias e reportagens individualmente. Porque o problema não é que as pessoas não queiram pagar pelo jornalismo, disse Alexander Klöpping, co-fundador do Blendle, ao Journalism.co.uk, e sim porque não há um sistema de microfinanciamento decente onde seja muito fácil pagar por matérias. “O que nós quisemos fazer foi algo que tornasse fácil pagar por jornalismo”, completou.

Parece que a coisa tá dando certo. Em abril, o Blendle chegou a 100 mil usuários, grande parte deles abaixo dos 40 anos, e todos os grandes veículos de notícias da Holanda possuem seus conteúdos disponíveis na ferramenta.

Aliás, o norte da Europa vem se destacando em iniciativas jornalísticas inovadoras, seja na academia, seja no mercado. Mas isso é assunto para outra hora.

Adiante e já se aproximando do fim.

Semana passada assisti à aula inaugural do PPGCOM da UFRGS com o professor português João Canavilhas. Uma das coisas que ele apontou como possibilidades para o jornalismo digital a médio/curto prazo é apostar na geolocalização. Não se trata de uma grande novidade, mas ainda é raro ver iniciativas explorando essa potencialidade. Uma delas está sendo desenvolvida pelo pessoal do aplicativo Breaking News. A ideia é avisar para o usuário sobre notícias urgentes que estejam acontecendo perto dele via notificações push. Simples e interessante, não?

Uma das coisas que venho aprendendo na marra nos últimos tempos é que, para entender um pouquinho do presente (e se arriscar a projetar o futuro), é preciso saber o que aconteceu no passado. Afinal, muita coisa do que achamos que é novo na verdade está aí há séculos. Pois bem, por isso esse material sobre a história da BBC me parece essencial para quem se interessa pela emissora britânica (e pelo jornalismo como um todo). Ainda não li, mas achei que valia compartilhar.

Vocês leram a crítica que a Marcela escreveu sobre O Mercado de Notícias, o documentário do Jorge Furtado sobre o jornalismo? Se não, ela está aqui, pedindo para ser lida. Ainda não viu o filme? Ele segue em cartaz em oito cidades.

Cabou. 🙂

Lembrando que todos os links (e outros!) estão também na Tendências no Jornalismo, nossa revista no Flipboard. Quem quiser, pode acompanhar, durante a semana, os assuntos que serão discutidos aqui na newsletter.

Bueno, era isso então.
Bom findi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório