Texto originalmente enviado por email para os assinantes da Newsletter Farol Jornalismo (assine). Link original do texto.

Buenas, gurizada!

Ontem participei de uma conversa bem legal com a Michelle Raphaelli, da Rádio Gaúcha, e com a FêCris Vasconcellos, da Zero Hora, sobre jornalismo e redes sociais no programa Palavra Final, produzido pelos alunos do curso de Jornalismo da ESPM-Sul. Se vocês quiserem, aqui tem alguns highlights do que foi dito.

Mas o que me fez contar isso pra vocês é que em determinado momento do programa, a Michelle relatou que a Gaúcha virou referência para emissoras do exterior durante a cobertura do incêndio da boate Kiss, com os tuítes da rádio sendo traduzidos pela CNN na íntegra (sem os devidos créditos, diga-se), segundo ela.

Ao cobrir o noticiário internacional durante seis anos, fui entendendo aos poucos a importância crescente do papel global que imprensa local possui. Todos os dias eu precisava confiar em algum jornal ou rádio ou site local para dar as notícias de algum lugar do mundo. Em janeiro de 2013, quando pulou uma notificação do Breaking News no meu telefone, o caso Kiss jogou isso na minha cara.

É imperativo, portanto, que todo veículo local tenha consciência do potencial que ele possui para ser fonte global a qualquer momento. O que não só faz aumentar a responsabilidade em relação ao conteúdo jornalístico gerado como exige uma preparação (dentro do possível, claro) para caso isso venha a acontecer.

Sobre isso, o Poynter publicou um bom case no dia 15. O texto conta como uma pequena publicação da comunidade de Pinehurst, na Carolina do Norte, se preparou para “virar gente grande” durante a cobertura do US Open de golfe.

Claro, preparar a cobertura de um campeonato esportivo é diferente de reagir a uma notícia urgente. Mas o caso do The Pilot ajuda a ilustrar o fato de que, por menor que seja o veículo e/ou a comunidade noticiada por ele, uma notícia local pode se transformar em um fato global em um estalar de dedos.

Adiante.

No dia 15, a Al Jazeera lançou a plataforma AJ+, uma tentativa da emissora árabe de conversar com o público jovem (entre 18-34 anos, segundo o Journalism.co.uk). Quando eu li as declarações Riyaad Minty, o chefe de engajamento do AJ+, de que o objetivo deles não é ser um canal de notícias, e sim oferecer uma “experiência”, e de que a plataforma foi pensada a partir das redes sociais eu já senti um cansaço.

Mas, olha, acho que me enganei. Primeiro, que o AJ+ não tem site (esta url apenas apresenta da AJ+). Depois, ao baixar o aplicativo e começar a segui-los no Instagram, entendi o que Minty quis dizer quando afirmou que a maioria dos veículos, quando lança algo mobile first, acaba, na verdade, criando algo que vai “traduzir o legado da marca” para as redes sociais. O Aj+, mesmo sendo oriunda de uma emissora de TV tradicional, não parece funcionar assim.

O app é bem massa. Tem pra Android e iOS. Ele adota o estilo cards de noticiar, mas não são cards estáticos. Podem conter um vídeo, um quiz ou uma conversa sobre o assunto a ser noticiado. Em vários momentos o usuário é provocado a dar a sua opinião, seja respondendo a uma simples questão, seja comentando.

Fiquei com a impressão que o AJ+ soube se apropriar de algumas tentativas recentes de mudar o formato da notícia. O uso de cards e a identidade visual clean (e um tanto hispter, diga-se) do material me lembrou o Vox. E a navegação ousada porém intuitiva, que insere no consumo de um formato noticioso gestos que bebês já incorporaram naturalmente ao manusear um tablet, me lembrou o Circa.

Gostei bastante do Instagram do Aj+. Até agora, das 31 publicações, 28 são vídeos em que notícias são explicadas em 12 segundos. Um bom jeito de ficar por dentro de notícias que fazem parte de uma grande cobertura, como declarações do chanceler iraniano sobre o ISIS, ou fatos cuja repercussão acaba adquirindo um caráter de serviço porque afeta muita gente, como o roubo de senhas do Gmail.

Eu curti, agora resta saber se a coisa vai pra frente. Primeiro, porque é difícil prever o comportamento dos millennials na hora de consumir notícias. Achei ambicioso o desejo de Minty de que os usuários voltem à plataforma várias vezes ao dia. Uma coisa é checar atualizações dos amigos no Face, outra é se inteirar sobre o número de mortos na Síria, mesmo que seja através de um card bonitinho e interativo. Depois, porque eles ainda não têm ideia de como fazer com que o aplicativo seja rentável (embora dinheiro não pareça ser problema no Qatar).

Falando em notícias assumindo novos formatos, confiram este texto que o Mathew Ingram publicou na sexta-feira passada. Ele cita um estudo feito pelos pesquisadores Mike Ananny e Kate Crawford sobre como os jornalistas não são mais os únicos responsáveis pela forma como a notícia chega a quem a consome. Com os conteúdos jornalísticos transcendendo os formatos tradicionais (e físicos), cresce a importância dos responsáveis por organizar as informações virtualmente. Ou seja, dos engenheiros e designers de softwares e, claro, dos algoritmos.

Mudando de assunto.

A estrategista digital da National Public Radio (NPR), Melody Joy Kramercontou como um usuário do Twitter ajudou a polícia da Filadélfia a encontrar um grupo suspeito de agredir e roubar dois homossexuais na noite do último dia 11. Ela conta que @FanSince09 chegou a este vídeo depois que outro usuário o retuitou junto com uma foto do mesmo grupo reunido em um restaurante.

O vídeo, divulgado pela polícia e provavelmente retirado de uma câmera de segurança, mostra 15 jovens bem vestidos e em torno de seus 20 e poucos caminhando pela rua. Então, com a ajuda de outros usuários, @FanSince09 identificou qual era o restaurante em que eles estavam e, através do Facebook Graph Search, verificou que alguns haviam feito checkin havia pouco no mesmo restaurante. Depois, bastou entregar a identificação dessas pessoas à polícia.

Não preciso dizer que @FanSince09 virou herói e deu várias entrevistas para a imprensa. Por acaso, eu encontrei essa, concedida a um programa apresentado pelo Pedro Andrade, que tem um quadro no Manhattan Connection. Tu vê…

Chegando ao final, coisas que ainda estou vendo:

  • Um post do NiemanLab que reúne estudos acadêmicos recentes sobre jornalismo no meio digital, jornalismo cidadão, mídias sociais etc.
  • Um podcast (dividido em duas partes: 1 e 2) do Frontline Club (um tradicional clube privado de jornalismo de Londres) com o sugestivo título de: “Esqueça o futuro: o que está acontecendo no jornalismo agora?”.
  • Uma análise extensa assinada pelo Leonardo Foletto, do Baixa Cultura, sobre os erros e acertos do jornalismo pós-industrial.

Por fim, UM BASTA!

Jornalistas precisam parar de confundir LHAMAS com ALPACAS!

Bueno, era isso então.
Bom findi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório