Texto originalmente enviado por email para os assinantes da Newsletter Farol Jornalismo (assine). Link original do texto.

Buenas, gurizada!

Desculpe o pequeno atraso no envio da newsletter, mas às vezes não consigo terminar antes do almoço. Quando a fome bate, não tem jeito: preciso ir comer.

Antes de começar, deixa eu dizer uma coisa. Vocês vão notar, quando chegarem ao fim da leitura, que eu coloquei uma barra de compartilhamento no pé da newsletter. Sei lá por que eu não havia feito isso antes. Mas agora tá lá. Ela é de vocês. Quando curtirem a discussão feita por aqui, compartilhem com os amigos!

Vamos nessa então.

Começou ontem o encontro anual da Online News Association (ONA), um dos maiores eventos da área nos Estados Unidos. São três dias em que gente muito foda vai discutir jornalismo digital no Sheraton de Chicago. Nem preciso dizer que estou até agora chorando por não poder ter ido, mas beleza, quem sabe em 2015.

Mas nem tudo está perdido. Muitas mesas da ONA14 estão sendo transmitidas em streaming. Dá pra conferir ao vivo ou on demand. Confiram a programação das transmissões aqui. E a agenda completa do evento aqui. Ainda não consegui assistir nada, mas já estou separando alguns tópicos. Se tudo der certo, eu comento algo que me chamou a atenção na newsletter da semana que vem. Certo?

Na semana passada eu falei aqui sobre o novo app da Al-Jazeera, o AJ+. Pois hoje eu gostaria de chamar a atenção para o novo aplicativo de notícias do Yahoo, o Yahoo News Digest. Ele foi lançado há pouco e causou certo alvoroço ao aparecer na tela do relógio da Apple no evento de apresentação do gadget. Hoje descobri que quem desenvolveu o app foi um guri de 18 anos chamado Nick D’Aloisio.

Pois, olha, eu curti o aplicativo. A premissa dele é simples. Duas vezes por dia (8h e 18h, horário do aparelho), ele te manda um push avisando que uma nova edição do digest está te esperando. São dez notícias sobre assuntos variados e apresentadas de maneira multimídia: texto, fotos, vídeos e mapas, se for o caso. Havendo interesse em se aprofundar no assunto, no fim da matéria tem links para outros jornais, agências de notícias ou outros veículos, até revistas científicas. Além disso, o design é lindão e, não menos importante, a navegação é bem intuitiva.

O Yahoo News Digest entra com força na animada disputa entre  aplicativos de notícias. Além do AJ+, recentemente o Guardian (re)lançou o seu. Ele é interessante e bonito, mas confesso que fico meio cansado só de ver a enorme quantidade de conteúdo que ele oferece na sua “capa”. No fim, é como o portal da web adaptado para dispositivos móveis. A dinâmica não é inovadora, não há uma maneira de apresentar as notícias mais adaptada ao suporte.

Ao contrário do app Circa, cujos diferenciais, no meu entender, são 1) quebrar as notícias em pequenos átomos de informação que podem ser lidos (deslizando o dedo) na vertical (como notícias normais) ou na horizontal (para se aprofundar no assunto trazido por aquele tópico/átomo) e 2) poder seguir uma história e ser avisado com uma notificação a cada nova informação relacionada a ela.

Na terceira versão, lançada nesta semana, a principal novidade é Daily Brief, um relatório diário com notícias importantes dos assuntos escolhidos pelo usuário. (Para evitar um efeito filter bubble, ou seja, para não deixar o leitor completamente alheio ao que acontece além dos seus interesses, o app oferece uma opção específica. Um grande fã de esportes pode ser avisado, se quiser, caso a cura da aids seja descoberta, ou se o esperado the big one acontecer em Los Angeles.)

Sou um entusiasta desses aplicativos, mas minha relação com eles é peculiar. Embora considere interessante a quebra de paradigmas do Circa, tenho dificuldade de fazer dele a minha fonte de informação no telefone celular (principalmente pela manhã). Em geral, prefiro algo mais tradicional. Até pouco tempo atrás, eu consultava diariamente o 10 Things To Know (apenas texto) no app (careta) da AP. Agora acho que vou trocar pelo News Digest do Yahoo. Por outro lado, quando o assunto é breaking news, ainda sou bastante dependende dos aplicativos da CNN e do Breaking News, além do da AP, que pulam várias vezes ao dia na minha tela me avisando sobre o que anda rolando pelo mundo – ainda que raras vezes eu os abra.

E no Brasil, hein? Nada muito mobile first. Dentro de uma lógica parecida com a discutida acima, tem o Estadão Noite (mas só para assinantes) e uma iniciativa legal da Zero Hora que é o 7 coisas que você precisa saber (muito parecido com o 10 Things To Know), enviado por notificação todos os dias por volta das 8h.

Bueno, vamos adiante.

Nesta semana foi publicada a edição de verão do Nieman Reports. A matéria de capa (Where are the women?) discute o papel das mulheres no jornalismo, nos EUA e no Mundo. O texto destaca que, mesmo sendo metade da população e mais da metade dos alunos nas escolas de comunicação, as mulheres ainda são minoria nos cargos de lideranças de jornais, rádios, TVs e em empreendimentos digitais.

Sobre o que o déficit de lideranças femininas pode significar para o jornalismo, escreve Anna Griffin, a autora da reportagem:

The results of this gender disparity in leadership are especially pernicious in journalism. To best serve the public as watchdogs and truth-tellers, news organizations need a broad array of voices and perspectives. To thrive financially, they must appeal to an equally broad array of potential viewers, listeners, and readers. Plus, content analyses and anecdotal evidence suggest that a newsroom leader’s gender can have a subtle but important influence on everything from what stories get covered and how, to who gets promoted and why.

Como complemento ao texto principal, a matéria traz depoimentos de mulheres que lideram veículos importantes, como Susan Goldberg, da National Geographic.

O Nieman Reports traz também um pequeno dossiê sobre o jornalismo em Cuba. São quatro matérias: Thick Files and a Long MemoryFacts, Not OpinionsIt’s Good to TalkIsland in the Storm (assinada pela blogueira Yoani Sánchez).

Eu li a Facts, No Opinions, que, na verdade, é um artigo assinado por Hugo A. Landa, editor do site Cubanet. Ele diz que a vida do jornalismo independente em Cuba vem melhorando. Apesar da falta de liberdade e da pouca infraestrutura, ele sublinha que mudanças recentes (destaque para a flexibilização do uso de telefones celulares na ilha) vêm permitindo que veículos independentes assumam funções que a imprensa de “sociedades mais abertas possui”: investigar, reportar, informar.

Ainda sobre o relatório, o artigo Plus ça change… aborda a dificuldade enfrentada pelos jornais franceses em se renovar para a era digital. A ponto de a redação do Libération, indignada com o fato de a direção estar pensando em abrir um restaurante no prédio do diário, estampar na sua manchete do dia 18 de setembro o seguinte: Nous sommes un journal (Nós somos um jornal).

É, gurizada, a coisa não tá fácil.

Seguindo.

No dia 24, o Pew Research Center publicou mais uma pesquisa relacionada a jornalismo e mídias sociais (nos EUA). Eu tomei a liberdade de resumir para vocês os cinco tópicos destacados pelo estudo How social media is reshaping news.

  1. 64% dos adultos americanos usam o Facebook; 30% usam o site para consumir notícias. O Twitter é usado por 16%, e 8% o utilizam para se manter informado. Até aqui tudo meio óbvio e/ou sabido. O que talvez pouco saibam é que 3% usam o reddit e, dentro de montante, 62% acessam pelas notícias.
  2. 50% dos usuários de redes sociais compartilham notícias; 46% discutem, conversam, comentam notícias (alô pessoal que curte brigar no Face). 14% postam fotos próprias relacionadas a notícias; 12% postam vídeos.
  3. Embora o Facebook seja a origem de uma parte considerável do tráfego dos sites de notícias, quem chega a uma notícia pelo Face gasta menos tempo no site quando comparado a alguém que acessa direto. A mesma coisa acontece quando a pessoa chega por meio de um mecanismo de busca.
  4. As pessoas usam o Facebook para consumir informações relacionadas a entretenimento (73%). Ao contrário do Twitter, cuja dinâmica o transformou no lugar para cobrir e/ou acompanhar um breaking news, no Facebook apenas 28% dos usuários costumam acompanhar notícias em desenvolvimento.
  5. As mídias sociais nem sempre facilitam a conversação. Ah, pois é.

Não sei vocês, mas, olhando bem, não achei nada de muito novo nessa pesquisa.
Bueno, falando em coisas que já sabíamos, a revista Psychology Today publicou um estudo sobre os trolls de internet. Como eu disse, deu o esperado: os autores daqueles piores comentários nas matérias publicadas online são pessoas horrorosas. Segundo o estudo, são narcisistas, psicopatas e sádicas.

Chegando ao fim, duas coisas rápidas.

UMA.

Se vocês prestaram atenção, viram que eu fiz uma referência ao “the big one”, o temido terremoto esperado na Califórnia (especialmente LA) por a região estar perto da Falha de San Andreas. Não era por acaso. Eu queria mostrar esta matéria do Nieman Lab: sobre como coberturas de catástrofes naturais contribuem para preparar a sociedade civil para quando o pior acontecer novamente.

DUAS.

O New York Times criou uma área na sua home para acompanhar eventos em desenvolvimento (breaking news). É o Watching (Observando). “Pense o Watching como uma mistura de boletins de notícias com as informações publicadas no Twitter que os jornalistas do Times estão de olho”, escreveu Justin Ellis no Nieman Lab.

Particularmente, eu vejo o Watching como um live blog que ganhou mais importância (o que é relevante se pensarmos nas transformações que o formato da notícia vem sofrendo) e adotou uma nomenclatura oriunda de serviços mais especializados de monitoramento de notícias em andamento, como a Storyful, que, no Twitter, desde sempre utiliza termos como “Contact”, “Pending” ou “Dramatic” para classificar e diferenciar informações de maneira rápida e eficaz.

Pra terminar, olhem que vídeo foda (e triste) da destruição em uma cidade de Gaza. Ele foi feito com um drone quadricóptero pela produtora palestina Media Town.

Nunca é demais lembrar que esses (e outros) links estão também na Tendências no Jornalismo, nossa revista no Flipboard. Prestigie o Farol Jornalismo por lá também.

Bueno, era isso então.
Bom findi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório