Buenas, gurizada!

Tenho uma boa e uma má notícia para dar para vocês. Vou começar pela má. Talvez alguns de vocês tenham ouvido falar do Indie Journalism, um projeto capitaneado por quatro brasileiros e um francês que pretendia ser um hub global para grandes reportagens multimídia. Seu pré-lançamento, em fevereiro, teve grande repercussão na imprensa especializada (Portal Imprensa, Nieman Lab, Knight Center, entre outros, repercutiram), gerando expectativa de que, em meio a passaralhos e crises (financeira e sistêmica), a iniciativa se transformasse em um novo paradigma – tanto em relação ao conteúdo quanto ao modelo de negócio.

Mas o Indie Journalism terminou antes mesmo de começar. Ontem foi enviado um email para quem havia se cadastrado para receber novidades sobre o projeto. O texto é breve e justifica o fim das atividades por divergências entre os idealizadores.

Diz o primeiro parágrafo:

Pessoas diferentes pensam diferente, e isso sempre será valorizado. Em todas as atividades, a diversidade promove melhores resultados do que a uniformidade. Entretanto, em um empreendimento, pensar diferente não pode impedir que as pessoas envolvidas se mantenham em busca de um único propósito.

Mais tarde, Andrei Netto, repórter do Estadão em Paris e um dos brasileiros à frente do projeto, postou em seu perfil no Facebook um breve texto sobre a origem e o fim do Indie. A ideia surgiu enquanto ele cobria os protestos na praça Taksim, em Istambul – uma “rebeldia saudável” que carateriza o nosso tempo, segundo ele. O objetivo do Indie era capturar essa rebeldia, transformando-a em jornalismo. O fracasso, disse Netto, veio da “incompreensão TOTAL” desse espírito do tempo.

Agora, Indie Journalism só o nepalês.

Vamos à boa notícia, que, aliás, queria ter dado na semana passada, mas esqueci.

Está entre nós, brasileiros, desde o dia 19, o Medium, uma plataforma de publicação já bem conhecida nos Estados Unidos. É de graça e qualquer um pode utilizar, seja para ler ou para publicar. A ideia do site é que, se você tem algo a dizer, o Medium ajuda você a encontrar audiência para suas ideias.

Como escreveu Leandro Demori, o editor responsável pelo Medium Brasil.

Como diz o manifesto do Medium, “grandes ideias podem vir de qualquer lugar. No Medium, você pode contribuir frequentemente, ou apenas uma vez a cada lua cheia, sem o compromisso de um blog. Você pode publicar textos exclusivos, ou histórias que já saíram em outros lugares mas merecem uma nova audiência. Pode também publicar trechos de trabalhos ou livros, com links para a postagem original.”

O Demori fica atento ao que de mais massa é publicado por brasileiros e seleciona textos de fora para que sejam traduzidos. Essa seleção pode ser entregue por email, basta se logar no Medium e configurar o recebimento da newsletter.

Falando em notícia boa, o projeto holandês de crowfunding jornalístico De Correspondent completou um ano de vida, e muito bem, obrigado. Segundo Ernst-Jan Pfauth, um dos fundadores, em um texto publicado no Medium no último dia 30, dos 18.933 financiadores iniciais do projeto, 11 mil renovaram a assinatura de US$ 76 ao ano (mais ou menos R$ 190) para ter acesso às matérias publicadas na plataforma, que é livre de anunciantes e tem seu foco em “análises, reportagens investigativas e histórias que tendem a sair do radar da mídia tradicional”.

No texto, Pfauth apresenta duas reportagens (em holandês, mas ele resume as principais informações) produzidas pelo De Correspondent para marcar o aniversário. Na primeira, eles detalham como foi gasto o montante arrecadado pelo financiamento coletivo de janeiro a agosto deste ano. Na segunda, fazem uma cartografia das reportagens produzidas pelo mundo por seus correspondentes. Ambas demostram o compromisso do De Correspondent com seus financiadores, consolidando uma parceria que buscou aproximar os jornalistas dos leitores.

Leiam o que escreveu Pfauth.

No De Correspondent, nós acreditamos que os jornalistas devem trabalhar junto com os leitores, porque cada leitor é especialista em alguma coisa. E 3.000 professores sabem mais do que apenas um correspondente em educação. Esse é o motivo de nós enxergarmos nossos jornalistas como os líderes de um diálogo e os nossos membros como especialistas que contribuem para este diálogo.

Pfauth também fala sobre como eles converteram muitos dos 75 mil likes que o site possui no Facebook em membros, e como esses membros são os maiores “embaixadores” do De Correspondent. Vale a pena ler o texto na íntegra.

O aniversário do De Correspondent também foi assunto de uma coluna do Mathew Ingram, que há um ano estava um tanto cético quanto ao projeto. Ele destaca o comportamento transparente como chave do sucesso e chama a atenção para o alto número de adesões em um país de apenas 17 milhões de habitantes. O Nieman Lab também escreveu sobre o De Correspondent, destacando que o site teve 4,5 milhões de visitantes únicos, inclusive dois da Coreia do Norte.

O sucesso do De Correspondent chama a atenção para o quanto os europeus do norte estão à frente o resto (do Ocidente, ao menos) quando o assunto é inovação no jornalismo. Tanto no mercado quanto na academia. A questão é ter acesso a essa produção, já que pouco é traduzido para o inglês (português nem pensar).

Vamos adiante.

Nesta semana o Tow Center for Digital Journalism, da Columbia Journalism School, publicou o relatório The Global Journalism – Foreign Correspondence in Transition, que, como o nome diz, aborda a transição pela qual está atravessando o jornalismo internacional nos últimos anos, principalmente em função das novas tecnologias. São pouco mais de 60 páginas em que os autores procuram mostrar de que maneira está mudando aquela definição clássica do correspondente internacional que passava essencialmente pelo testemunho ocular do fato.

Uma mudança que passa por três principais fatores. Primeiro, pelo jornalismo cidadão, que “relata ao mundo eventos ao vivo através das tecnologias digitais sem a necessidade de intermediários”. (Embora jornalistas sigam necessários para organizar e interpretar as informações disponíveis). Segundo, pelo fato de que jornalistas podem noticiar um evento urgente sem necessariamente estar no local do fato (embora seja sempre desejável, nunca é demais ressaltar). E terceiro, pelas crises que vêm obrigando o fechamento de escritórios no exterior.

É interessante assistir à gradual consolidação de coberturas feitas a distância, um tipo de jornalismo tido, em geral, como precário, no mínimo não desejável. Ao contar o case da jornalista Kelly Golnoush Niknejad, que fundou o Tehran Bureau (um site que iniciou sua cobertura do Irã em um sofá de uma casa em Massachusetts e hoje está no Guardian), o relatório mostra que não dá para virar as costas para essa realidade, embora sempre seja desejável ter alguém in loco (os autores falam em uma mistura das formas tradicional e esta outra em ascensão).

Claro que nem tudo são flores. Não há lado bom em ver sucursais no exterior fechando e jornalistas sendo demitidos (BTW, viram que o NYT anunciou que 100 irão para a rua em breve?). Por outro lado, surgem novos problemas. Um dos mais preocupantes é o potencial que rumores têm para se espalhar em ambiente digital, e o quanto isso pode ser prejudicial para o jornalismo. É imperativo, portanto, compreender o quadro que se desenha para saber como tratá-lo adequadamente.

É aí que entra, entre outras ações, a verificação digital. Deem uma olhada no projeto Emergent, do jornalista Craig Silverman, também do Tow Center, que acompanha notícias publicadas pela mídia, classificando-as como “não verificadas”, “confirmadas como verdadeiras” ou “confirmadadas como falsas”, e o número de compartilhamentos de cada uma delas nas redes sociais. Também confiram o novo projeto do Bellingcat, comandado por um dos principais jornalistas verificadores digitais da atualidade, que quer juntar repórteres, pesquisadores e programadores para monitorar crimes de corrupção por meio de técnicas digitais.

Pra ir terminando, cinco coisinhas rápidas.

Um. Olhem que lindão o novo live blog do Guardian. O objetivo do redesign é tornar essa ferramenta prática, mais fácil de ler, fazendo com que os usuários encontrem mais facilmente as informações principais dos eventos em andamento.

Dois. Vocês já devem ter ouvido falar do Ello, a rede social do momento. Como por enquanto é mais frisson do que qualquer outra coisa, vamos deixá-la ali no canto dela. Quando houver algo a dizer sobre jornalismo, voltará a ser assunto aqui. Mas já dá pra ir tirando algumas conclusões. Se quiserem, indico dois textinhos publicados no The Guardian e na The New Yorker sobre a sensação do momento.

Três. A Al Jazeera lançou sua primeira reportagem em forma de game. Sua tarefa como jogador é investigar a pesca ilegal em Serra Leoa, na África.

Quatro. O que vocês acham da regulação da mídia? Leiam como é na Dinamarca.

Cinco. Vou ficar devendo algo a respeito da ONA14, a conferência sobre jornalismo digital que rolou na semana passada em Chicago. Até onde vi ainda não saiu muita repercussão. Se rolar algo legal, escrevo algo aqui na próxima sexta-feira.

Em tempo: eis que recebi, no comecinho da tarde, um email assinado por Felipe Seligman, um dos integrantes da equipe do Indie Journalism sobre o lançamento de um novo projeto jornalístico, o Brio. O objetivo da iniciativa, segundo Seligman, é responder a seguinte pergunta: “como dar aos leitores do século XXI – conectados, bem informados e cosmopolitas – um conteúdo digital sobre tópicos contemporâneos que seja ao mesmo tempo profundo e prazeroso?”. Eles prometeram dar mais detalhes na semana que vem. Aguardemos.

Pois é, gurizada, acho que era isso.

Nunca é demais lembrar que esses (e outros) links estão também na Tendências no Jornalismo, nossa revista no Flipboard. Prestigie o Farol Jornalismo por lá também.

Bueno, era mesmo isso.
Bom findi, boa eleição a todos nós e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório