Buenas, gurizada!

Tudo em cima? Chove aí ou não? Aqui, tive uma janela metralhada por um temporal de granizo na madrugada de quinta. Ela já tá bem antiga, mas resistiu ferozmente.

Começo a newsletter chamando a atenção para a ascensão das newsletters. Agora foi a vez do Vox lançar a sua. A Vox Sentences promete levar o explanatory journalism de Ezra Klein e sua trupe até o “conforto da sua caixa postal”, como diz a análise feita pelo Nieman Lab. Recebi a primeira ontem e a premissa é simples: funcionar como um curador de conteúdos para seus assinantes (algo que o Oene faz muito bem aqui no Brasil). O curioso (e saudável) é que, na newsletter, o Vox seleciona conteúdos de publicações em tese concorrentes, algo incomum por aqui.

A pergunta que eu me faço agora, enquanto olho na minha inbox vários emails de serviços que assinei nos últimos tempos, é a seguinte: não estamos criando uma bolha de newsletters, cavando a cova de algo que sequer (re)nasceu direito?

Bueno, seguindo.

Lembram que na semana passada falei de abertura do jornalismo a partir da experiência do Quartz, que publicou uma discussão interna sobre uma pauta? Pois olhem que legal a experiência que o Manchester Evening News (MEN) fez para “demonstrar um grau de transparência e abertura”, segundo declarou o diretor de inovação do veículo, Paul Gallagher, ao site Journalism.co.uk.

No dia 15, eles transmitiram ao vivo, via Hangout do Google, a reunião de pauta e publicaram no Google Drive um documento chamado “news list”, uma espécie de lista de conteúdos nos quais a equipe iria investir naquele dia. Eles também alimentaram um live blog sobre o que aconteceu na redação na quarta-feira.

“Acho que muita gente ficaria surpresa em ver até que ponto estamos focados na audiência digital e até que ponto nossas atividades são moldadas pelos dados oriundos da audiência”, disse Gallagher. “Achamos que é um bom momento para tentar mostrar para as pessoas como uma redação funciona”, acrescentou.

Embora não sejam iniciativas muuuito inovadoras (a Zero Hora, maior jornal aqui do Rio Grande do Sul, só para dar um exemplo próximo de mim, volta e meia publica algo relacionado aos bastidores), o que eu gostaria de sublinhar é o fato de práticas como essa ficarem cada vez mais constantes e diversificadas.

O Journalism.co.uk também publicou outra matéria interessante, sobre a possibilidade de jornalistas que trabalham com UGC (user generated content) em coberturas pesadas, como conflitos, desastres naturais e outras tragédias, sofrerem algum tipo de trauma. O texto cita um estudo, o primeiro dessa natureza, publicado em agosto, e traz dados de um levantamento feito pelo próprio Journalism.co.uk com profissionais que estão expostos a este tipo de conteúdo.

Dos 62 jornalistas que responderam à pesquisa, 47 se sentiram afetados de alguma forma. Os distúrbios registrados com mais frequência foram ansiedade (20%), insônia (15%) e irritabilidade (12%). E quanto mais frequente e prolongada a exposição, maior é a probabilidade de que se desenvolva algum grau de trauma.

O texto também aborda o assunto a partir de dados estratificados, como experiência profissional e idade, e traz declarações anônimas de pessoas que participaram da pesquisa: “Depois de um tempo você meio que se acostuma. Mas dá a impressão de que, de vez em quando, você deixa de ser um ser humano sensível”.

Esta matéria do Poynter tem um título meio enganador (How a small experiment at The Washington Post revolutionized its content management platform), mas achei que valia a pena comentar. Ela conta como o jornal norte-americano Washington Post vem encarando o gigantesco desafio de desenvolver um CMS (content management system, ou, em bom português, publicador) adequado para gerenciar um conteúdo cujas formas estão em constante mutação nos últimos anos.

A small experience citada no título é uma plataforma simples de publicação chamada Pagebuilder, desenvolvida apenas para ser uma maneira fácil de criar as paginas dos autores dos textos publicados no Post. Foi o jeito encontrado para driblar o complexo-e-novo-em-folha publicador denominado Méthode, desenvolvido durante três anos para ser A ferramenta capaz de lidar com textos, vídeos, apps e funções relacionadas à audiência.

A simplicidade e uma interface esteticamente agradável fizeram com que o Pagebuilder caísse nas graças da redação, segundo disse ao Poynter Gregory Franczyk, chefe de arquitetura de software do Post. Desenvolvedores e editores começaram a pedir que os conteúdos fossem criados através da Pagebuilder. O que fez com que o jornal decidisse criar uma plataforma de conteúdo toda nova.

A ideia que é esse sistema funcione tipo o iOS em um Iphone: uma estrutura central capaz de receber pequenos programas especializados em determinadas tarefas, os apps. No caso de um gerenciador de conteúdo, os apps seriam responsáveis por escrever textos, planejar o conteúdo editorial ou apresentar o que foi produzido em diferentes tipos de telas e aparelhos, por exemplo. A matéria segue contando sobre algumas dessas aplicações atualmente em desenvolvimento dentro do jornal, como um editor de texto e um gerenciador inteligente de imagens.

É uma boa leitura para entender um pouco da dificuldade de desenvolver um sistema capaz de responder às necessidades atuais de gerenciamento de conteúdo. Um CMS que seja robusto mas flexível, de fácil atualização, e que não fique muito tempo no estaleiro para não estar ultrapassado ao ser lançado, e por aí vai.

Uns links rápidos sobre ferramentas e coisas afins.

  • Post do Journalism.co.uk sobre as melhores ferramentas para fazer reportagens mobile.
  • Mais um do Journalism.co.uk, agora sobre ferramentas para trabalhar com jornalismo de dados.
  • O Centro Knight para o Jornalismo nas Américas lançou a segunda edição do livro Ferramentas Digitais para Jornalistas. Te joga.

Duas coisas rápidas sobre o Snowden. No sábado passado, ele participou (virtualmente) do New Yorker Festival, evento realizado pela New Yorker, quando concedeu uma entrevista (íntegra) em que aconselhou que todos fiquem longe de serviços como Dropbox, Facebook e Google. E durante a semana foi divulgado o trailer de Citizen Four, o filme de Laura Poitras sobre o whistleblower.
Quase no fim.

Confesso que não estou acompanhando a cobertura jornalística da epidemia de ebola, mas queria compartilhar com vocês esta matéria da The Atlantic. Apesar de não ter relação direta com o nosso papo aqui, achei que podia ser interesssante. Ela narra como está sendo foda para repórteres muitas vezes calejados por experiências em zonas de conflito trabalhar espreitados por um inimigo invisível.

Pra terminar, permitam-me eu mostrar uma coisa pra vocês. É bem rápido. Mas como não há uma relação direta com jornalismo, se vocês quiserem, a newsletter dessa semana pode acabar aqui. Bom findi e até a semana que vem.

Do contrário, é o seguinte:.

Imagino que vocês todos estejam familiarizados com o Vine, certo? Pois bem. Quarta, o perfil da Casa Branca postou esta pérola aqui em que Michelle Obama aparece com aipo na mão, pergunta “turnip for what?” (aipo para quê?), fecha os olhos e balança a cabeça ao som de uma base de um rap. Como o Vine funciona em looping, o vídeo de 6 segundos fica repetindo ad eternum se você deixar.

Nenhum sentido, aparentemente.

Ok, ver a primeira-dama dos EUA balançar a cabeça de olhos fechados no ritmo de um rap com um nabo na mão já é engraçado por si só, vamos combinar. Quando assisti pela primeira vez, só captei esta camada mais evidente de significação – além de saber que Michelle luta para que os americanos se alimentem melhor e façam exercícios. Eu sabia que o nabo não estava ali por acaso.

Mas aí li a matéria Unless you are Sasha or Malia, you will fully enjoy Michelle Obama dancing with a turnip (belo título, btw), do Vox, e comecei a sacar a jogada. Primeiro, o vídeo foi a conclusão de um evento da campanha #askfirstlady nas redes sociais. Mas isso não é tão importante. O massa é que a pergunta que Michelle faz (Turnip For What?) é um trocadilho com o verso do rap “Turn Down for What” (assistam a este EXCELENTE clipe), do rapper Lil Jon. A histórica fica ainda melhor quando entendemos que a expressão “turn down” remete à gíria “turnt” ou “turnt up”, que, segundo esta outra matéria do Vox, é quando alguém está, digamos, na boa, having a good time, em geral com álcool ou maconha. Logo, a interrogação “turn down for what?” questiona: porque deixar de ficar “turnt” ou “turnt up”, já que está tão bom assim? Nada vale tanto a ponto e eu ter precisar deixar de ficar high.

Pois bem, Michelle usa todo este background de referências ao fazer campanha para que as pessoas comam mais NABO. Não sei vocês, mas eu achei genial. Além disso, trata-se de um bom exemplo de explanatory journalism do Vox, não?

Bueno, desculpem por toda essa besteira.

Não se esqueçam que também estamos no Flipboard com a Tendências no Jornalismo. E para os assinantes novos que quiserem ter acesso às outras edições da newsletter, por favor, fiquem à vontande clicando neste link.

Era isso então.

Bom findi e até a semana que vem! 🙂

Moreno Osório