Buenas, gurizada!

Gostaria de começar anunciando a primeira CORREÇÃO da nossa newsletter. Trata-se da confusão que eu fiz na semana passada entre AIPO e NABO ao escrever sobre o vídeo de Michelle Obama no Vine com um trocadilho com uma raiz comestível e uma gíria comum entre jovens americanos. É uma correção lamentável, eu sei. Pois bem, o correto é nabo, e não aipo. Não sei DAONDE eu tirei aipo, também conhecido como salsão e completamente diferente do nabo.

Mais uma vez me desculpem por tanta besteira. E vamos ao que interessa.

Há uns dias, o site da World Association of Newspapers and News Publishers (WAN-INFRA) publicou uma ótima entrevista com o professor Mark Deuze, uma das principais cabeças pensantes do jornalismo na era digital. Ele reafirma o desafio dos jornais impressos em se adaptar a uma nova lógica, lembra que o conhecimento é maior e mais importante que a instrumentalização e sugere que o jornalismo vai passar por uma fase de experimentação que deve durar de 30 a 40 anos.

Como as respostas são realmente interessantes, vou traduzir alguns trechos. Primeiro, sobre quais são os principais desafios das redações atualmente:

“O maior desafio enfrentado pelas redações é mudar a rota do Titanic. É colocar o navio em direção ao ambiente digital e móvel e se distanciar do impresso. Esta noção de que o jornal não é mais o foco central da nossa leitura sempre foi o principal desafio, mas até talvez três anos atrás era visto como um assunto circunstancial e de gerenciamento. O foco ainda estava muito no papel e o que fazer com o papel, como inovar o papel, e muito menos sobre como mudar completamente a direção da empresa como um todo. Mas eu penso que agora nós atingimos um ponto onde jornais estão cada vez mais usando o jargão “digital first” ou, como nos Estados Unidos, separando divisões de impressão inteiras.”

Deuze também explica o que ele entende como o “dilema dos editores”: sabe-se que o jornal não vai sobreviver em um futuro próximo, mas hoje ele ainda é um produto relevante, construído com décadas de aperfeiçoamento de técnicas e linguagens e mantido por profissionais comprometidos com o jornalismo.

“Por um lado, seu dilema é: manter o melhor do seu jornal, que são os jornalistas e seu talento. Você quer protegê-los e mantê-los fazendo o que eles fazem melhor porque, no fim das contas, é isso que vende produtos, é isso que constrói a lealdade com as marcas, é nisso que as pessoas acreditam – o que os jornalistas fazem.”

“Por outro, tanto em termos de relacionamento quanto de responsabilidade com investidores, anunciantes, proprietários, o que você quer é inovar, você quer fazer nascer novas ideias, inovações e novas plataformas, renovar tudo! É porque é necessário e porque é isso que é esperado de você como um editor – atualmente, um editor é gerente de recursos humanos, um inovador e uma ‘newsperson’.”

Por fim, sobre o futuro do jornalismo a curto e médio prazo, Deuze declara:

“Eu penso que este estado de improvisação, ou estar sempre em fase beta, é a perspectiva mais sólida hoje – ao menos pelos próximos 30 ou 40 anos. Em outras palavras, no mínimo duas ou três gerações de jornalistas terão de lidar com isso.”

É, meus amigos, como disse o jornalista Steve Buttry, abracem o desconforto.

Adiante.

Volta e meia chamo a atenção, aqui na newsletter, para o poder cada vez maior que agentes não-humanos possuem para determinar como (e que tipo de) a informação vai chegar até nós. Foram várias as vezes que sublinhei a necessidade – apontada por quem acompanha a questão mais de perto – de entender o algoritmo do Facebook, por exemplo. Pois nesta semana, volto ao assunto propondo a leitura deste texto, publicado no blog Monday Note por Frédéric Filloux. Filloux, que também é gerente de operações digitais do site de notícias francês Les Echos, demonstra certa preocupação com o fato de que parte substancial (e aumentando) do tráfego dos sites de notícias é oriunda das redes sociais e do Google (uma dependência que se aproxima do vício, diz ele) e sugere que prestemos mais atenção em formas de valorizar o visitante direto.

Ele lista duas questões que norteiam seu raciocínio:

“A primeira diz respeito à valorização intrínseca de uma mídia tão dependente de um único canal de distribuição. Afinal, o Google tem histórico comprovado de modificações no seu algoritmo de busca sem aviso prévio. (Sejamos justos, a maioria das modificações tem como objetivo enfrentar as ‘content farms’ e outros mecanismos que tentam burlar o sistema de pesquisa do Google.) Quanto ao Facebook, Mark Zuckeberg é imprevisível, e também conhecido por fazer o que quiser com sua empresa, graças ao controle absoluto que ele possui da diretoria.”

Ou seja, por um lado estamos sempre tentando entender como o Google funciona para adequar nosso conteúdo de maneira que ele seja (ou continue sendo) visto na web. Por outro, estamos sujeitos ao humor de um único sujeito, que altera como bem entende o que aparece na nossa timeline. Delicado, não? Ainda mais se lembrarmos o compromisso que o jornalismo tem com o interesse público.

A segunda questão apontada por Filloux faz referência à diferença qualitativa (em termos de potencial de lucro) de um visitante que chega ao nosso contéudo via redes sociais comparado ao clique direto. Ele diz que, em geral, para cada um usuário direto você precisa de seis oriundos de redes sociais para obter o mesmo lucro com publicidade. Enquanto quem chega do Facebook gera um pageview, a pessoa que acessa diretamente dá cinco ou seis cliques no seu conteúdo.

Essas constatações não são exatamente novidade, ainda mais para quem conhece um pouco do funcionamento das métricas de audiência de sites de notícias. O texto de Filloux reforça, no meu entender, a necessidade de o jornalismo pensar em formas de diminuir essa dependência do tráfego social e pensar em como atrair o visitante direto, como, diz o autor, fez o NetFlix, com seus 50 milhões de assinantes.

Segue o baile.

Bom, vocês viram que saiu o trailer do Citizen Four, o filme de Laura Poitras sobre o Snowden. Pois na última terça, Steve Coll, colunista e coordenador do curso de graduação de jornalismo da Universidade de Columbia, escreveu um artigo na New Yorker sobre como o ex-agente da CIA mudou o jornalismo. Ele recupera os primeiros contatos entre Snowden e Glenn Greenwald como um turning point na comunicação entre jornalistas e suas fontes em ambiente digital (para quem não lembra, eles se falavam com mensagens criptografadas, insistência de Snowden).

Escreveu Coll:

“Naquele momento, Snowen forneceu um exemplo vivo de como, em uma situação muito arriscada, a criptografia pode, no mínimo, dar tempo e espaço para uma decisão jornalística independente sobre o que publicar e por que publicar.”

Por fim.

Olhem que interessante. O New York Times está convidando seus leitores a folhear anúncios que foram publicados no jornal na década 1960 e ajudar a descrevê-los usando tags. Como não é possível digitalizar automaticamente as peças publicitárias, a equipe de desenvolvimento decidiu usar o crowsourcing para gerar metadados através de uma plataforma específica, a Madison.

Michael Shapiro, um dos fundadores do projeto muito legal The Big Round Tableanunciou que ele e outros curadores de conteúdos longform estão realizando um estudo para tentar encontrar a lógica de consumo do chamado longform journalism (jornalismo de reportagens longas) na web. Por exemplo, tentar mapear os motivos que levam 500 mil pessoas a ler uma matéria de 10 mil palavras.

Durante a semana postei no Face esta interessante pesquisa do Pew Research Center sobre os hábitos de comportamento e de consumo de mídia do espectro ideológico nos EUA. Naquele momento, destacamos três pontos:

  1. Liberais tendem a confiar mais em um número maior de veículos de imprensa, e consomem notícias a partir de fontes variadas. Ao contrário dos conservadores, que tendem a confiar em uma única fonte (Fox News) .
  2. Conservadores tendem a ter mais amigos que compartilham da mesma visão política. No Facebook, tendem a ouvir mais pessoas que pensam da mesma forma que eles. Liberais, por sua vez, são mais propensos a bloquear alguém ou mesmo terminar uma amizade por causa da política.
  3. O BuzzFeed não é considerado uma fonte confiável tanto para os liberais quanto para os conservadores.

Para terminar, como olhar para frente também significa saber o que aconteceu lá atrás, deixo vocês com o relato da jornalista Kara Swisher sobre Ben Bradlee, o histórico editor do Washington Post, que morreu esta semana aos 93 anos. Segundo Kara, que era uma foca nos áureos tempos do caso Watergate, Bradlee tem algo a nos ensinar em relação à ruptura (disruption, em inglês, palavrinha da moda na tecnologia e também no jornalismo quando o assunto é inovação).

Dito isto, só posso desejar um bom segundo turno a todos nós.
Lembrando que também estamos no Flipboard com a Tendências no Jornalismo.

Bueno, era isso então.
Bom findi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório