Buenas, gurizada!

Como vai a vida? Tudo em ordem?

Por aqui tudo certo. Queria contar que estamos começando a pensar em 2015. Temos umas ideias e gostaríamos de ouvir vocês. Se vocês quiserem, é claro. Em meados de novembro teremos mais detalhes. Aí conversamos melhor. Beleza?

Bueno, vamos lá.

Crowdfunding é assunto recorrente aqui na newsletter, vocês sabem. Nas últimas edições falamos bastante sobre o De Correspondent, veículo independente holandês que foi lançado e se mantém por meio de financiamento coletivo. Chegamos a publicar no Farol Jornalismo a tradução de um texto em que Ernst-Jan Pfauth, um dos fundadores do De Correspondent, conta como foi o primeiro ano de vida do negócio. Um dos pontos destacados por ele é que os assinantes/membros participam diretamente nas pautas que estão sendo produzidas pelos jornalistas.

Mas como isso se dá?

Vamos combinar que manter uma relação mais horizontal com o seu público é uma ideia ótima na teoria, mas dá um trabalhão na prática. Esta matéria do Journalism.co.uk tenta jogar uma luz sobre essa questão. Eles perguntaram a jornalistas à frente de projetos crowdfunding como aproveitar o potencial que um canal aberto com os leitores possui para fazer um trabalho melhor.

O texto ajuda a entender um pouco do processo, mas a verdade é que não há nenhuma grande quebra de paradigma para envolver do leitor/membro mais integralmente com a prática jornalística.

Ernst-Jan Pfauth, por exemplo, diz que os jornalistas do De Correspondent informam em seus perfis na plataforma quando estão trabalhando em uma determinada matéria, assim os assinantes podem, se quiserem, contribuir com dicas e perguntas. No Contributoria, outra plataforma de jornalismo colaborativo, os membros recebem um certo número de pontos por mês para distribuir entre os projetos que eles acharem mais interessantes. Como diz a expressão, é como se eu apostasse minhas fichas em uma ideia, com a diferença que eu de fato paguei por elas. Por fim, a freelancer Jess McCabe, que já buscou financiamento coletivo para alguns projetos, disse que costuma conversar com seus leitores por email e tem um Tumblr para mantê-los atualizados sobre o andamento das pautas.

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Falando em crowdfunding, a Marcela Donini vai bater um papo hoje sobre financiamento coletivo para jornalismo com o pessoal da Rádio Software Livre no estúdio montado na 60ª Feira do Livro de Porto Alegre. Deve começar por volta das 19h e dá pra acompanhar por aqui. Aproveito o ensejo para contar que no domingo (2/11) será a minha vez. Apresentarei o Farol Jornalismo e falarei um pouco sobre tendências que ando acompanhando. Começa por volta das 14h. Se não der pra ouvir ao vivo, depois os áudios serão disponibilizados na página da rádio. Aqui vocês encontram mais detalhes sobre participação da Rádio Software Livre na Feira do Livro.

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Uma última palavrinha sobre crowdfunding antes de seguir. Confiram a iniciativa que a agência de conteúdo Padrinho, aqui de Porto Alegre, começou a divulgar hoje: uma cobertura independente da Copa América do ano que vem, no Chile, financiada coletivamente. Ainda há poucas informações, mas em breve deve rolar um vídeo no site do Catarse. Por enquanto dá pra curtir a página deles no Face.

Adiante.

Sugiro fortemente a leitura desta matéria do New York Times sobre Facebook e jornalismo. O título já diz muito: How Facebook Is Changing the Way Its Users Consume Journalism. O texto dá um panorama das mudanças que vêm acontecendo no consumo de notícias reunindo alguns dados (30% dos americanos consomem notícias pelo Facebook, ninguém mais acessa as páginas dos veículos de notícias, o Facebook é para noticias o que a Amazon é para livros, em média 20% do tráfego dos sites de notícias vêm do Face, etc) e entrevistando gente de veículos tradicionais, como o Washington Post, de nativos digitais, como o BuzzFeed, e startups que atuam em mercados de nicho, como o The Browser.

Mas o que mais me chamou a atenção foi a parte sobre o algoritmo do Facebook. Especificamente sobre quem o desenvolve. O engenheiro de software Greg Marra, 26 anos (!), está à frente da equipe responsável pelo código do News Feed. No fim das contas, é ele quem controla o que vai aparecer ou não na nossa timeline.

Não sei vocês, mas acho fascinante e assustador o fato de o sucesso ou o fracasso editorial de veículos noticiosos do mundo inteiro depender do humor desse cidadão. Sem falar do poder de decidir o que será visto/lido por 1,3 bilhão de pessoas por mês, e, consequentemente, influenciar a visão de mundo dessas pessoas. Claro, estou exagerando um pouco, mas no fim das contas é isso.

Olhem esse trecho da matéria:

“Mais ou menos uma vez por semana, ele e sua equipe de 16 pessoas ajustam o complexo código que decide o que mostrar ao usuário quando ele ou ela loga no Facebook. O código é baseado em ‘milhares e milhares’ de métricas, diz Marra, incluindo qual é o aparelho que o usuário está usando, quantos comentários um post recebeu e quanto tempo as pessoas gastaram lendo um artigo.

O objetivo é identificar o que os usuários gostam, e os resultados variam de acordo com a região do mundo. Na Índia, ele diz, as pessoas tendem a compartilhar o que na empresa é chamado de ABCDs: astrologia, Bollywood, cricket e divindade.”

Sobre as implicações jornalísticas do seu trabalho, Marra diz:

“Nós não queremos avaliar editorialmente o conteúdo que está no seu News Feed. Você fez seus amigos, você se conectou com as páginas que quis se conectar e você é quem melhor pode determinar o que é importante para você”.

A discussão é longa, mas sabemos que jornalismo não é apenas satisfazer preferências das pessoas. Para entender melhor do que estamos falando, sugiro ler este artigo aqui, publicado no último dia 27 a propósito do lançamento do site The Conversation nos Estados Unidos. Nele, o autor, Thomas E. Patterson, da Universidade de Harvard, discorre sobre o fato de que, hoje, o sistema midiático é deficiente em fornecer informação confiável e relevante. Estamos submersos em informações, diz ele, mas a maioria relacionada a celebridades ou bizarrices.

Sim, há um certo ranço idealista na fala de Patterson, mas ele diz coisas interessantes. Destaquei uma em especial porque acho um bom contraponto ao comentário de Marra sobre o algoritmo do Facebook se adaptar aos usuários:

“A desinformação está em alta. Qualquer que seja a conclusão que se tenha a respeito das pessoas se autogovernarem, é um risco quando cidadãos não sabem alguma coisa, mas acham que sabem. Eles terão opiniões, mas serão opiniões fundamentadas em algo mais fantasioso do que o real.”

Seguimos falando de algoritmos. Mas mudamos de empresa.

Mais uma vez Mathew Ingram alerta sobre os planos do Twitter em modificar a funcionalidade que o fez ser o que ele é: a ordem cronológica inversa dos posts. Em texto publicado no dia 28 no GigaOn, o jornalista repercute alguns dos últimos movimentos feitos pela cúpula da empresa. A ideia é dar mais espaço para um algoritmo curador. Com o Twitter dessa forma, o último post da minha timeline talvez não seja o mais recente das pessoas que eu sigo, e sim um “mais relevante” de acordo com os critérios dos códigos criados pelos programadores da empresa.

A medida mataria o Twitter como conhecemos, para desespero de muitos que usam o serviço, principalmente dos heavy users. Nós, jornalistas, perderíamos bastante. Utilizá-lo como um termômetro para acompanhar coberturas em tempo real, por exemplo, seria uma tarefa muito mais truncada, pois posts mais recentes estariam misturados com conteúdos “mais relevantes” publicados bem antes.

Ingram atribui o plano do Twitter às pressões de Wall Street, que não estaria satisfeita com o ritmo lento de melhoras no serviço (menos lucros). Abrir mão da ordem cronológica inversa para colocar um algoritmo no lugar teria como objetivo tornar o Twitter mais amigável, atraindo novos usuários e fazendo com que os não tão assíduos tenham uma experiência melhor quando logarem em suas contas.

De fato, um dos grandes desafios de quem usa o Twitter é pinçar o que é informação em meio a tanto ruído. O que pode se tornar um problema à medida que a lista de followings cresce. Seria mais confortável que um código fizesse isso. Como faz o Facebook – embora muitos usuários nem imaginem que exista um algoritmo escolhendo os conteúdos que eles vão ou não visualizar em seu News Feed. Mas eu prefiro ter esse trabalho. Nesse sentido, assino embaixo com Ingram:

O que é irônico sobre o Twitter é que mesmo que muitos reclamem (inclusive eu) das dificuldades de achar uma agulha no palheiro, nós queremos muito que sejamos nós os que farão o filtro, ao invés de ter essa tarefa feita por um algoritmo sem rosto. O ponto principal de ter uma rede social é, em primeiro lugar, o fato de as pessoas que você escolhe seguir serem o algoritmo. Um algoritmo falho, talvez, mas humano, e, portanto, de alguma forma maravilhosamente imprevisível.

Vamos para o final.

Vocês lembram daquela startup holandesa conhecida como o iTunes para notícias? Ela foi assunto aqui na newsletter algumas edições atrás. Pois ela ganhou US$ 3,8 milhões do NYT e de um empresa de mídia alemã para expandir seus negócios.

O Guardian lançou uma plataforma de armazenagem e visualização de dados, a Swarmize. Pelo que entendi lendo esta matéria do Journalism.co.uk, a ideia é que seja algo parecido com o Google Docs, já muito usado por jornalistas para guardar informações, mas mais completo e com mais possibilidades.

O Flipboard lançou sua versão 3.0. As principais novidades são design novo, um sistema de curadoria e recomendação mais avançado e um “jornal diário” com notícias selecionadas pela equipe deles. Aproveitem essas novidades para acessar a Tendências no Jornalismo, a revista do Farol Jornalismo no Flipboard.

Pra terminar, sugestões de fantasias para jornalistas no Halloween. Achei bem fraquinhas, mas é o que tínhamos para hoje. 😛

Bueno, era isso então.
Bom findi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório