Foi um belo evento o primeiro Festival Piauí de Jornalismo, promovido pela revista piauí no final de semana dos dias 15 e 16 de novembro, em São Paulo. Dois dias de debate intenso sobre o futuro da nossa profissão (o mote do evento era “onde é que isso vai parar?”) ouvindo profissionais de fora do Brasil que compartilharam experiências jornalísticas inovadoras (confira a programação) com um público seleto. Cerca de 300 pessoas por dia lotaram o auditório do colégio Dante Alighieri (a capacidade do local era de 324 pessoas), na capital paulista, para acompanhar oito mesas de uma hora e meia, com intervalo de meia hora entre cada uma, com exceção do almoço.

Fiquei contente em poder ver ao vivo representantes de iniciativas que há meses acompanhamos aqui no Farol Jornalismo, especialmente Vox, Atavist e FiveThirtyEigth. O evento serviu para confirmar algumas impressões sobre jornalismo digital formadas ao longo desse tempo. A aproximação essencial com outras disciplinas, como algumas ligadas às ciências exatas, por exemplo. Mas também para pensar um pouco a respeito do posicionamento que essas pessoas têm em relação ao Jornalismo (com jota maiúsculo). Ou seja, qual é o nível de preocupação ao pensar o jornalismo como responsável pela construção da realidade social em um ambiente em que o flerte com a tecnologia é cada vez mais estreito? Nesse contexto, o que precisamos levar em conta para manter o jornalismo como uma instituição relevante para formar o entendimento que temos a respeito do presente? Obviamente as conversas não foram conduzidas nesse sentido. Trata-se, digamos, de uma questão jornalística existencial que procurei ficar atento.

Não consegui construir uma posição bem fundamentada a respeito. É muito cedo para isso, creio. Mas ao ouvir principalmente Andrei Scheinkman, do FiveThirtyEigth, e Max Fischer, do Vox, fiquei um pouco desconfiado com a leveza com que eles encaram o seu trabalho. Não estou dizendo que, para fazer jornalismo, é necessário fechar a cara, ou, no caso, apostar sempre em determinados tipos de formatos, para demonstrar seriedade e comprometimento profissional. Não é isso. Talvez tenha sido por suas respostas evasivas a algumas questões importantes para o jornalismo atualmente, como o modelo de negócio, a qualidade dos produtos jornalísticos ou as condições de trabalho dos jornalistas. Por um momento eles me pareceram dois típicos representantes dos millennials: talentosos, mas um tanto egoístas; leves, mas sem saber direito quem paga as contas. Enfim, é muito cedo para opinar definitivamente. Vox e FiveThirtyEight têm poucos meses de vida. Ao contrário de iniciativas como ProPublica e – principalmente – New Yorker, que têm anos de estrada, o que reflete automaticamente na sua postura diante da profissão.

Enfim. Vou parar de divagar. Abaixo segue um pequeno resumo com considerações sobre o primeiro dia do festival (sábado). Foram quatro mesas: Laura Zommer, do Chequeado; Andrei Scheinkman, do FiveThirtyEigth; Max Fisher, do Vox; e Pamela McCarthy, da New Yorker. Na quinta-feira (20/11) eu vou publicar um texto com as mesas de domingo.

Espero que seja útil.

LAURA ZOMMER (CHEQUEADO)

Subir o custo da mentira. Este é o objetivo do Chequeado, uma iniciativa argentina que se propõe a checar discursos de figuras de relevância pública, sejam elas do setor político ou da iniciativa privada. A jornalista e advogada Laura Zommer, diretora executiva do Chequeado, participou da primeira mesa do festival, no sábado pela manhã, e contou um pouco sobre a atuação dela e de sua equipe no debate público argentino. Subir o custo da mentira, diz ela, é “fazer com que mais gente se preocupe com os dados divulgados” em um ambiente altamente polarizado politicamente – como é a sociedade argentina atualmente. “É fazer com que as pessoas, quiçá os políticos, tenham mais cuidado com os dados levados a público.”


— rene de paula jr (@renedepaula) 15 novembro 2014

Para isso, o Chequeado, que é inspirado no americano FactCheck, aposta em um método de 8 passos. Ao explicar como ele funciona, Laura sublinhou a importância do passo 6, que procura contextualizar a informação apresentada, pois “um dado não é apenas um número”. No derradeiro passo, a informação checada recebe uma das nove classificações possíveis (o espectro vai de “verdadeiro” a “falso”, passando por “exagerado” e “discutível”). Durante a apresentação, Laura mostrou este vídeo, sobre um esforço de checagem em tempo real de um discurso da presidente Cristina Kirchner. Na oportunidade, além da equipe do Chequeado, participaram do trabalho de verificação estudantes voluntários. Embora não exista necessariamente uma relação direta entre uma coisa e outra, o trabalho voluntário durante o discurso de Cris K expõe o ponto sensível do Chequeado: a sustentabilidade financeira. Fundado por um economista (!), um químico (!!) e um físico (!!!), o Chequeado ainda busca uma maneira de pagar os US$ 320 mil anuais necessários para o seu funcionamento. Tenta, aos poucos, deixar de depender da grana injetada pelos fundadores buscando doações de empresas e pessoas físicas. O ideal, diz Laura, é que um grande número de pessoas doem pequenas quantias de dinheiro. “Mas ainda não há uma cultura de crowdfunding na Argentina”, afirmou. ANDREI SCHEINKMAN (FIVETHIRTYEIGTH) A segunda mesa do dia foi com Andrei Scheinkman, do site americano FiveThirtyEight, comandado por Nate Silver, que ficou conhecido por acertar os resultados das eleições de 2008 nos EUA. Embora ele seja editor-assistente (além de diretor de dados e de tecnologia), ficou evidente sua formação técnica durante a conversa com Daniel Bramatti, integrante do Estadão Dados, e Rafael Cariello, repórter da revista piauí. Com frases curtas, às vezes quase monossilábico, Scheinkman não parecia muito à vontade em responder perguntas relacionadas ao jornalismo. Por exemplo, disse que o processo de apuração “depende da matéria” e que as pautas são decididas de maneira “muito informal”.

Andrei Scheinkman (centro) conversa com Rafael Cariello (esquerda) e Daniel Bramatti (direita). Foto: Moreno Osório

Andrei Scheinkman (centro) conversa com Rafael Cariello (esquerda) e Daniel Bramatti (direita). Foto: Moreno Osório

Mas, do jeito dele, teve alguns insights interessantes a respeito do jornalismo de dados. Por exemplo, sobre o fato de que, “quanto mais aspectos das nossas vidas são colocados online, melhor fica para nós nos entendermos”. E que é difícil de abordar esse tipo de história de uma forma jornalisticamente mais tradicional. De fato, quem pratica corrida de rua e conta a quilometragem em aplicativos sabe o que significa isso. Quando a pessoa se dá conta, tem em mãos um aspecto quantificável da vida que, não fosse a facilidade atual de sistematizar esses dados, talvez nunca tivesse. Talvez nunca saberia que correu, sei lá, 5 mil quilômetros em um ano. Scheinkman mostrou exemplos de matérias, como a de um ranking de violência doméstica entre jogadores da NFL, escrita por um repórter que criou o próprio banco de dados com todos os casos registrados depois de ler TODAS as reportagens a respeito do tema publicadas na imprensa. Ele também foi provocado por terem errado a previsão para a Copa do Mundo (a aposta era de que o Brasil ganharia). A respeito disso, o que inclui outras críticas em relação aos seus modelos estatísticos, Scheinkman disse que, antes de acertar ou não suas previsões, esses modelos servem para traçar e contextualizar cenários, ajudando na compreensão de determinado fato. “Se há 60% de chances de algo acontecer, não quer dizer que ela vá ocorrer, pois há 40% de ela não acontecer”, disse. Foi interessante, mas ficou parecendo que a ideia original era trazer o Nate Silver himself. Como não rolou, Sheinkman ganhou uma viagem ao Brasil. MAX FISCHER (VOX) O papo com Max Fischer, do Vox, foi, na minha opinião, o ponto alto do primeiro dia do festival. Embora a impressão tenha sido a de que, assim como no caso do FiveThirtyEight, a ideia era trazer o mentor do site. No caso do Vox, Ezra Klein. Como não rolou, veio Max Fischer, que é diretor de conteúdo do site criado no início do ano depois que Klein deixou o Wonkblog, hospedado no Washington Post. Mas foi massa. Muito mais à vontade no palco que Andrei Scheinkman, Fischer tentou explicar ao público o que o Vox pretende com o seu “jornalismo explicativo” (explanatory journalism). Disse que, em geral, o jornalismo “não está apresentando as notícias de um jeito compreensível”, e que isso é culpa nossa, dos jornalistas. O resultado é que as pessoas sentem não saber das coisas como deveriam. Para contornar esse problema, o Vox aposta suas fichas em conteúdos como os Cards Stacks, que quebram a notícia em cartões (tendência em outros veículos também, como no Circa), e os vídeos, cujo principal desafio é apresentar temas complexos em poucos minutos. O perfil generalista do site o blinda das acusações de superficialidade. O que pode ser melhor entendido na resposta de Fischer à pergunta “de quem vocês estão roubando leitores?”: “De todo mundo”, disse ele. Ou seja, o objetivo não é se aprofundar em temas complexos do noticiários (para isso há veículos especializados), e sim abordá-los de uma maneira mais simples.

Hoje cerca de 30 jornalistas trabalham no Vox.com publicando cerca de 40 posts por dia. Para isso, utilizam o Chorus, o badalado content management system (CMS), ou publicador, em bom português, projetado para facilitar o trabalho da redação, colocando a tecnologia a trabalhar pelo jornalismo. No meu entender, Fischer saiu pela tangente e não foi muito direto ao responder as perguntas sobre o publicador (mais de uma vez ele foi provocado a falar sobre). Mas disse algumas coisas. Falou que ele dá uma mão no trabalho sujo de edição de uma matéria, como a sugestão de links ou de fotos, e ajuda o jornalista a “desenhar” a matéria enquanto a escreve. Quem já editou matérias em publicadores mais engessados sabe que deixá-la atraente pode demorar tanto quanto escrevê-la.

Fischer também disse que um dos principais desafios do Vox é fazer com que as matérias sigam valiosas após 24 horas, principalmente porque breaking news não é o forte deles. O foco não é acompanhar o noticiário hard news, e sim contextualizá-lo, explicá-lo à medida que ele vai acontecendo. O sucesso do card 13 coisas que você precisa saber sobre o ebola é um exemplo. Ao invés de investir em uma cobertura exaustiva, reinventando a roda diariamente, a aposta é em um conteúdo capaz de atravessar a cobertura recebendo atualizações constantes. Para esse modelo, o formato de lista é uma escolha quase natural, ainda que encontre certa resistência entre os jornalistas. Fischer diz que seus colegas consideravam “listas muito simplistas, mas mudaram de ideia depois que viram que elas eram muito efetivas”. Questionado sobre listas de assuntos banais, como este ranking de cachorros, ele diz: “quem somos nós para dizer que as pessoas estão erradas por quererem informações sobre cachorros?” Pois é.

Por fim, questionado sobre o futuro do jornalismo e dos modelos de negócio (pergunta que atravessou todas as mesas), o diretor de conteúdo do Vox deu alguns pitacos, mas sem muita convicção. Disse que uma revolução na publicidade digital ainda está por vir, que associar uma marca a um conteúdo (sponsored content, diferente do brand content ou native advertising) talvez seja uma alternativa interessante, e que a home page, como uma instituição, está morta. “É preciso pensar nas páginas dos artigos (matérias) como uma home page”. Segundo ele, entre 40% e 45% da audiência do Vox vêm de tráfego social e, hoje, as pessoas tendem a seguir seus autores (jornalistas) preferidos no Twitter ou na página deles no veículo.

Perguntado sobre as diferenças entre trabalhar em uma redação como a do Vox e uma de um veículo tradicional, Fischer afirmou que há prós e contras em ambos os casos. “Eu gosto muito do modelo do Vox, mas depende muito do temperamento do profissional”. E sobre se o jornalismo nos EUA está melhor ou pior, disse que “para os leitores, nunca foi tão bom”, e que, para os jornalistas, “está mais competitivo”.

PAMELA McCARTHY (NEW YORKER)

A última mesa do dia foi com Pamela McCarthy, da revista New Yorker. Foi uma hora e meia de lições de um veículo jornalístico de 90 anos e que se sustenta porque possui simplesmente mais de um milhão de assinantes da revista impressa espalhados pelo mundo. São pessoas que têm em média 40 anos e pagam US$ 70 dólares por ano (US$ 70 milhões anuais para a revista!) para receber em casa a New Yorker em papel. Fora os mais de 100 mil assinantes da versão digital.

Em uma fala longa como as matérias da New Yorker, Pamela contou um pouco da história das capas (uma das marcas da publicação) e de Eustace Tilley, aquele carinha clássico de cartola, símbolo da revista. Também falou sobre os desafios de uma publicação de 90 anos no meio digital. Segundo ela, a redação digital tem cerca de 30 pessoas e a integração com a redação da revista impressa é baixa. Citou o app com a programação cultural de Nova York e sublinhou o desafio de produzir 26 versões digitais da revista, uma para cada diferente tipo de dispositivo (iPads, outros tablets). E ainda comentou sobre a Strongbox, iniciativa pós Snowden para incentivar o envio anônimo de informações que podem originar pautas: “Recebemos muitas ideias, mas nada muito grande.”