Estão aí os relatos do segundo dia do Festival PIauí de Jornalismo, realizado em 15 e 16 de novembro, em São Paulo. No domingo falaram Evan Ratliff, do Atavist, Carlos Dada, do El Faro, Stephen Engelberg, da ProPublica, e Nikil Saval, da N+1. Os comentários do sábado estão aqui.

EVAN RATLIFF (ATAVIST)
Evan Ratliff, do Atavist, abriu o segundo dia do Festival Piauí de Jornalismo, no domingo, dia 16. O Atavist é um site de longform journalism que surgiu depois que Ratliff não ficou muito satisfeito com resultado de uma matéria que escrita para a revista Wired. As possibilidades disponíveis para deixar o conteúdo mais atrativo visualmente eram limitadas, e ele não conseguiu criar o “clima” adequado para a reportagem. Este clima (ou “mood”, como diz Ratliff) é o diferencial do Atavist e do seu software por trás do content management system (CMS), o Creatavist. Segundo ele, mais do que uma reportagem multimídia, a edição feita no Creatavist oferece uma experiência para o leitor.

O Creatavist é o trunfo da empresa formada por Ratliff e outros dois sócios, um deles programador. Ele dá a possibilidade de criar reportagens, revistas e até livros (ebooks, como o nosso A vaquinha não foi pro brejo, sobre crowdfunding em jornalismo, publicado com o Creatavist!) em um publicador amigável e versátil. É a venda do software que sustenta a empresa, embora Ratliff tenha admitido que as contas ainda não fecharam desde que a empresa foi lançada, em 2011.

Sérgio Dávila, da Folha de São Paulo, um dos mediadores, perguntou se ele achava que não havia contradição por eles serem mais conhecidos pela forma do conteúdo do que pelo conteúdo em si. “Este é o dilema de ser dono de uma empresa de software”, respondeu Ratliff. “Mas meu sonho mesmo é ser escritor da New Yorker”, brincou. Em seguida, falando sério, emendou dizendo que muita coisa mudou nos últimos três anos. “O design é importante para histórias longas, por isso programadores são essenciais”.

Ainda sobre o modelo de negócio, Ratliff diz que a grana do Atavist vem, além da venda do software, de investidores e das histórias vendidas no site. É possível comprar reportagens avulsas ou assinar o serviço mensal ou anualmente. O conteúdo pode ser lido no site ou no app do Atavist. O jornalista que escreve para o Atavist ganha, em média, o que ganharia ao publicar em uma revista convencional, mas o valor pode aumentar dependendo de quanto a matéria vende.

Questionado sobre como eles reagiram a todo o buzz em torno do Snowfall, Ratliff brincou e disse que a primeira reação foi “what a hell? estamos fazendo isso há anos!”, mas que a reportagem paradigmática do NYT ajudou nas vendas do software deles. “As pessoas chegavam até nós dizendo que gostariam de fazer o seu próprio Snowfall”. Por fim, pediram para que ele opinasse sobre sua experiência como empreendedor e como um profissional que possui uma relação estreita com a tecnologia. Ratliff disse que sempre foi freelancer, por isso empreender foi algo natural. Se fosse dar uma dica, seria que os jornalistas se preocupem em atender as necessidades do público, e não o que nós gostaríamos de fazer. Sobre habilidades, depende do que vai ser feito. Diz entender um pouco de programação. Não sabe programar, mas compreende as possibilidades que o código oferece.

CARLOS DADA (EL FARO)
A segunda mesa do dia foi com Carlos Dada, do site El Faro, de El Salvador. Criado em 1998, o El Faro foi o primeiro periódico digital do país e hoje tem 200 mil usuários únicos por semana (75% dos acessos vêm do próprio país). O foco é fazer investigações jornalísticas com “grandes ambições narrativas”, principalmente relacionadas à guerra civil salvadorena. São principalmente crônicas, não como o formato em que estamos acostumados aqui no Brasil, mas um estilo tipicamente latino, herdado dos portugueses e espanhóis, com a voz do autor bem marcada.

Atualmente ao menos metade do seu financiamento é bancado por fundações, como a Open Society. Mas nos primeiros sete anos o El Faro funcionava com jornalistas trabalhando “no amor”.

Dada comentou sobre as dificuldades de cobrir os temas propostos pelo El Faro, como crimes de guerra, violência e narcotráfico. Falou que eles já foram atacados pela direita ao tentar desenterrar os fantasmas do passado do país, e pela esquerda ao criticar o governo de Mauricio Funes, que quebrou uma hegemonia de duas décadas da direita. Embora reconhecido internacionalmente, Dada não tem certeza sobre o valor do El Faro para a sociedade salvadorenha. “Não sei se temos algum impacto, não consigo ser otimista. Questiono o valor do nosso trabalho, não sei se ele tem algum valor”. Dada quer diminuir esse desconforto buscando inserir o El Faro em outros meios, como o rádio. Ele acredita que assim pode de fato chegar mais perto das pessoas.

No fim de sua fala, Dada, ao responder uma pergunta da plateia, fez uma das poucas reflexões a respeito do jornalismo ITSELF do festival. Ele foi provocado a falar sobre como eles mantinham a objetividade em textos em que a voz do autor é bastante marcada. “Objetividade não existe”, disse Dada. Para ele, o conceito de objetividade jornalística pode ser substituída por dois outros pilares. O primeiro é a honestidade: deixar claro que o autor está falando a partir de algum lugar. O segundo é a precisão: tentar ser o mais fiel aos fatos quanto possível, e reconhecer os erros quando eles acontecerem. Assim, diz Dada, é possível ter credibilidade sem cair no conto da objetividade.

STEPHEN ENGELBERG (PROPUBLICA)
“Muito bom vir para o Brasil aprender tanto sobre o jornalismo norte-americano”. Stephen Engelberg mal havia sido apresentado quando largou essa frase, mostrando que a terceira mesa do dia seria uma das melhores do festival. Ao menos a mais divertida. Carismático, o editor-chefe da ProPublica contou a história da principal instituição de jornalismo investigativo do mundo, explicou como funcionam as parcerias com veículos e respondeu a questões sobre “jornalismo ativista”.

Sobre este último ponto, Engelberg foi questionado sobre uma expressão presente na missão da ProPublica: “força moral do jornalismo investigativo”. Para alguém da plateia, afirmar isso é um flerte com o ativismo. Engelberg respondeu dizendo que “é diferente mostrar o que está errado e ser ativista de alguma coisa”. O objetivo da ProPublica, disse ele, é trazer à tona informações importantes sem ser ativista”. Ele citou a necessidade de ter “uma certa objetividade” ao abordar todos os pontos de vista. Nesse sentido, Engelberg falou de um repórter poder assumir posições nas redes sociais, por exemplo, mas não a ponto de ser incapaz de fazer uma entrevista com alguém com um ponto de vista diferente do seu.

O conteúdo da ProPublica é livre. Inclusive para quem republicar. Quase todo material está sob licença Creative Commons. Mas as principais matérias são oferecidas com exclusividade para veículos tradicionais, em geral, também de graça (às vezes acontece de alguns custos serem divididos). Sobre a escolha de parcerias para publicar o conteúdo, Engelberg disse que o objetivo da ProPublica é fazer “jornalismo de impacto”. Os parceiros são escolhidos de acordo com o seu perfil e com o perfil de sua audiência. O Washington Post, por exemplo, seria um bom parceiro para publicar uma matéria sobre política americana. Isso quer dizer que a ProPublica não está interessada em page views (PV) ou usuários únicos (UV), e sim na relevância da reportagem.

Eles podem se despreocupar com a audiência porque são financiados basicamente por fundações, como a Ford e a Open Society. São elas que bancam um orçamento de US$ 12 milhões por ano, um montante que permite gastar mais de US$ 750 mil e dois anos de trabalho em uma única investigação. Essa grana também sustenta uma redação em Nova York onde trabalham 52 pessoas, sendo que 37 jornalistas – 7 deles ganhadores do prêmio Pulitzer, o maior dos EUA.

NIKIL SAVAL (N+1)
A última mesa do festival foi com Nikil Saval, da revista N+1, dos Estados Unidos. Apresentando uma proposta mais próxima da literatura do que do jornalismo, e com um viés declaradamente político e bastante tradicional em relação ao formato (impressa há 10 anos, somente pouco tempo atrás ganhou uma versão digital), a fala de Saval foi a mais morna do evento. Talvez porque tenha sido depois do pequeno show de Engelberg, ou porque havia vinho grátis do lado de fora, ou ainda porque ela fechou 12 horas de palestras em dois dias, não sei, mas o fato é que aos poucos o auditório ia esvaziando. Ou talvez porque, depois de passar o final de semana inteiro perguntando para os convidados sobre os modelos de negócio de suas iniciativas jornalísticas, o povo entregou os pontos de vez quando Saval disse que nunca ganhou um tostão com a revista e que nem sempre consegue remunerar os colaboradores.