Buenas!

Como vão as coisas pros lados de vocês? Eu tô só pela chuva, que dizem que vem, mas até agora nada. O lance aqui em Porto Alegre tá pegajoso. Já estou acostumado com o fio de suor permanente que corre nas costas, da nuca à lombar.

Triste, mas um fato.

Começo nossa 21ª newsletter contando que estive em São Paulo no último final de semana para o primeiro Festival Piauí de Jornalismo. Foram dois dias de intensas discussões sobre o futuro do jornalismo com oito convidados de peso, todos de fora do país (aqui tem a programação completa). Ficou claro o objetivo dos organizadores de trazer uma luz de fora para iluminar nossas ideias aqui no Brasil.

Eu particularmente curti bastante poder ver ao vivo os representantes de alguns dos projetos que venho acompanhando há alguns meses, como Atavist, Vox e FiveThirtyEigth. Embora, por outro lado, não tenha ouvido grandes novidades. Já havia abordado o Vox em um texto publicado em março no Farol. E o nosso ebook, escrito pela Marcela Donini, A vaquinha não foi pro brejo, sobre crowdfunding em jornalismo, é um exemplo da potencialidade do software Creatavist, do Atavist.

Escrevi sobre todas as palestras aqui e aqui. Acredito que dê pra ter uma ideia do que foi abordado nos dois dias do evento realizado no auditório do colégio Dante Alighieri, na capital paulista. Também sugiro que vocês leiam o comentário da Clarissa Barreto, sócia da agência de conteúdo Cartola. Ela salienta o fato de os convidados não terem conseguido dar um lampejo de esperança para uma das principais angústias do jornalismo atualmente: encontrar novos modelos de negócio.

Esta questão talvez tenha sido a única que apareceu, de uma forma ou de outra, em todas as mesas (em segundo lugar vem a um tanto constrangedora “o que é preciso para trabalhar junto com vocês?”). Não que não tenham sido apresentadas alternativas. A maior fonte de financiamento vem de fundações como a Ford ou a Open Society. São, em tese, organizações que investem sem pedir nada em troca. Também há o caso dos veículos com uma grande organização por trás, como é o caso do Vox (Vox Media), do FiveThirtyEigth (ESPN) e da nonagenária New Yorker (Condé Nast). Talvez o caso mais promissor seja o do Atavist, que tem no seu software de publicação, o Creatavist, a principal fonte de grana – embora a empresa ainda esteja no vermelho depois de três anos de existência.

Outra coisa que me chamou a atenção foi a ausência de uma discussão sobre jornalismo em si. Sobre como os convidados encaram, por exemplo, o fato de que a maneira como o jornalismo sempre construiu a realidade vem sendo desafiada por lógicas que passam por fora da sua narrativa mais tradicional. Que as verdades alcançadas pelo jornalismo podem ser facilmente confrontadas com outras que nunca tiveram chance de circular porque não havia condições técnicas para tanto.

O único momento em que a discussão tangenciou essa questão – que para mim é tão importante quanto a do modelo de negócio  – foi quando Carlos Dada, do El Faro, foi questionado sobre como eles mantinham a objetividade jornalística ao escreverem reportagens em que a “voz do autor é bastante marcada”. Dada foi direto: “objetividade não existe”. É um mito e deve ser substituída por precisão e honestidade, pois o autor (o jornalismo) sempre está falando a partir de algum lugar.

Enfim. Talvez seja um lance pessoal. Ando pensando a respeito do que pode mudar (está mudando) no jornalismo com as transformações dos últimos tempos sem ser aspectos relacionados à tecnologia ou às fontes de financiamento.

De qualquer maneira, foi uma ótima iniciativa. Ainda mais que foi o primeiro. Conversei rapidamente com Bernardo Esteves, repórter da piauí, que me disse que a mobilização da equipe da revista foi intensa para o festival. De fato, era perceptível. O staff da organização era grande e parecia estar preocupado para que tudo desse certo. E deu. Ainda que o formato das palestras possa ser melhorado (quatro mesas de uma hora e meia em um dia é bastante estafante).

Parece que ano que vem vai ter novo. Tomara!

Ok, vamos em frente.

O Twitter anunciou que nos próximos dias deve disponibilizar um banco de dados com TODOS os tweets já tuitados na história. No blog da equipe de engenharia eles explicam como vai funcionar a base com centenas de bilhões de tweets.

A notícia é ótima porque será possível estudar eventos históricos depois de eles terem acontecido. Isso significa não enlouquecer para coletar dados enquanto o Twitter está em chamas por causa de alguma coisa. Lembrando que hoje “só” (milhões de tweets) está disponível ao público a base de dados “real time”. O restante apenas empresas com acordos com o Twitter, como o Topsy, têm acesso.

Segue o baile.

Quem acompanha a newsletter desde seus primeiros números sabe que volta e meia eu abordo a verificação digital. Na edição 4, por exemplo, eu falei sobre como o Bellingcat estava dando de relho ao conduzir um processo de apuração em tempo real em meio à guerra de informação entre Ocidente e Rússia no caso do MH17.

Pois bem, o resultado de toda a investigação foi compilado em um relatório disponível em inglês, alemão e francês. Pra ter uma ideia da relevância do esforço de apuração, o assunto foi tema de uma resenha no The New York Review of Books. O texto diz que, diante de provas contundentes de que os russos derrubaram o avião, o Ocidente peca pela omissão ao escolher não enfrentar a Rússia pelo que eles consideram a pior agressão do conflito na Ucrânia.

Ainda não li o relatório completo, mas arrisco dizer que se trata da maior investigação jornalística baseada em técnicas de verificação digital já publicada.

Comprei um artigo no Blendle, o iTunes de notícias. Na verdade nem cheguei a gastar, porque ele custou 0,28 euros (uns R$ 0,88) e eu havia ganhado 2,50 euros (quase R$ 8) por ter me cadastrado no serviço. É um pequeno texto assinado pela jornalista holandesa Petra ter Doest sobre crise no jornalismo. Preciso confessar que o tradutor do Google não ajudou muito ao passar do holandês para o inglês (nem para o português), viu, mas deu para sacar o espírito do artigo.

O argumento de Petra é parecido com alguns que venho ouvido: a situação para a indústria pode até não estar das melhores, mas se você é um leitor, nunca esteve tão boa. Ela sustenta sua argumentação citando alguns aspectos típicos de novas formas de acompanhar as notícias, como poder seguir determinados temas ou repórteres preferidos, ter jornalismo de qualidade por um bom preço (De Correspondent) ou ler o melhor de vários jornais ao mesmo tempo (Blendle).

Outro motivo de ter comprado o artigo é porque já troquei umas palavras com Petra por Skype no começo deste ano a respeito de um dos seus projetos jornalísticos, o Mattermap, uma ferramenta para criar mapas que reúnem pontos de vista relacionados a uma questão/polêmica. Pra entender melhor, confiram o mapa que ela criou para acompanhar o artigo sobre o jornalismo. Ou, se o holandês de vocês estiver legal, leiam esta pequena entrevista que eu dei sobre como foi usar o Mattermap (criei uns três mapas, ainda na época do Terra, aqui tem um deles).

Enfim, outro exemplo de que os holandeses estão à frente quando o assunto é tendências no jornalismo. 

Ah, se vocês quiserem ler o artigo da Petra no Blendle, ele tá aqui.

Aproveitando o gancho, Giuliander Carpes, nosso espião nos Países Baixos, escreveu sobre jornalismo e empreendedorismo no canal dele no Medium. O Giuliander defende que, para ter algum sucesso, talvez seja o caso de esquecer a massa e focar em iniciativas menores, mas generalistas o suficiente para poder serem sustentadas por uma economia de escala baseada em crowdfunding, como vem acontecendo na Holanda (uma curiosidade: ele cita o Jalta, o concorrente “de direita” do De Correspondent, considerado de esquerda por lá). Ele diz:

Será que num mercado como o Brasil (com mais de 200 mi de habitantes) a gente não tem esta quantidade de gente com um nível educacional e poder aquisitivo altos também? E será que, no meio dessa parcela (menos de 10% da população), a gente não acha umas 5 mil pessoas dispostas a pagar uns R$ 15 por mês para ter jornalismo de qualidade (e uma cobertura diferente do que temos nos grandes jornais, portais de internet e telejornais) no seu computador, tablet e celular?

Beleza, chega de Holanda por hoje.

Pra fechar, três coisas rápidas.

No dia da Consciência Negra, uma questão relevante foi levantada por Edmundo Leite neste post publicado no blog dele, no Estadão: Precisaria o jornalismo de uma cota racial? Ele notou que não havia negros nas duas últimas turmas dos cursos de jornalismo da Folha e do Estadão (e nas turmas anteriores são muito poucos).

Estudo tcheco sobre uso de conteúdo social na cobertura jornalística concluiu que as redes sociais ainda têm pouco impacto na mídia mainstream e que esse tipo de conteúdo é mais utilizado em notícias mais leves (soft news). Mas não vamos generalizar. Reparem que o resultado se refere à República Tcheca.

Consta que dia 19 foi o Dia Nacional dos Freelancers no Reino Unido. Então o Journalism.co.uk fez alguns posts com recursos úteis para quem é frila (aliás, este site está se mostrando uma grande caixa de ferramentas para jornalistas).

Selecionei dois:

Por fim, pra embalar o final de semana, uma piada de tiozão americano.

E não esqueçam. Também estamos no Flipboard com a revista Tendências no Jornalismo. Lá, a seleção de links é maior!

Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório