Buenas, gurizada!

Como vão vocês, tudo certo?

Gostaria de começar avisando que hoje a newsletter vai ser um pouco diferente. No lugar de três ou quatro temas em destaque, há apenas um.

O motivo é o discurso que a diretora do Tow Center for Digital Journalism, da Universidade de Columbia, Emily Bell, fez no Reuters Institute for Journalism no dia 21. Trata-se, na minha opinião, de uma das falas sobre jornalismo mais importantes do ano – com muito do que foi abordado em edições passadas da newsletter.

Em resumo, Emily convoca o jornalismo a assumir uma posição na indústria de software. Do contrário, dependerá de empresas que não têm (e nem querem ter) o know-how para tomar decisões editoriais – apesar de já o estarem fazendo.

Há chances de publicarmos o texto na íntegra e em português no site do Farol Jornalismo em breve. Enquanto isso, vamos dar uma olhada em algumas partes. Traduzi o que achei mais importante (em itálico) e fiz breves comentários sobre outros trechos do discurso, que tem oito páginas e está disponível na íntegra em inglês aqui (se vocês acharem algum problema na tradução, por favor, avisem).

No fim do texto, há alguns links de gente repercutindo o discurso. E também algumas outras coisinhas em geral, só para não perder o costume.

Bueno, vamos lá.

Depois das saudações e agradecimentos, ela começa assim o discurso:

De Paul Reuter até John Reith, na BBC, pioneiros do jornalismo também foram pioneiros em tecnologias de comunicação. Hoje, no entanto, nós chegamos a um ponto de transição onde espaços noticiosos não pertencem mais aos newsmakers. A imprensa não está mais encarregada da liberdade de imprensa e perdeu o controle dos principais canais através dos quais as histórias chegam às audiências. A esfera pública é agora operada por um pequeno número de empresas privadas, instaladas no Vale do Silício. 

Ao jornalismo profissional foi acrescentado um sem número de jornalistas cidadãos que dão notícias em primeira mão, adicionam contexto e publicam informações nas redes sociais. Ter nossos padrões de liberdade de discurso, nossas ferramentas de reportagem e nossos princípios de publicação estabelecidos por enigmáticas companhias de software é um assunto a ser definido não apenas pelo jornalismo, mas por toda a sociedade.

Não vou argumentar que isso é uma tendência reversível. Não é. Mas vou argumentar que o jornalismo tem um papel importante em construir e desenvolver novas tecnologias (…).

Emily é direta: engenheiros e jornalistas têm culturas diferentes, não compartilham as mesmas motivações, nem as mesmas habilidades. Engenheiros e jornalistas não buscam os mesmos resultados e certamente não utilizam os mesmos modelos de crescimento e de lucro. Mas agora, diz a diretora do Tow Center, eles ocupam o mesmo espaço ao transmitirem notícias e discussões ao grande público.

Pois é, o futuro do jornalismo está inextricavelmente conectado e dependente das tecnologias de comunicação. O problema é que nos falta a capacidade de entendê-las. Falta-nos vontade institucional e os insights para adotarmos a direção certa. Nós estamos presos, afirma Emily, ao legado de organizações tradicionais e aos modelos de negócio que as fizeram funcionar. Por outro lado, o pessoal da tecnologia tem insistido que eles não estão interessados em fazer jornalismo.

A cultura deles é como um alienígena para reportagem e edição, assim como a nossa é para desenvolver softwares sociais.

Claro, cada algoritmo contém decisões editoriais, cada elemento no design de um software carrega consigo implicações sociais. Se todo o mundo se conecta em alta velocidade em 140 caracteres, este fato muda a natureza dos discursos e eventos.

(…)

Se há liberdade de imprensa, jornalistas não estão mais encarregados dela. Engenheiros que raramente pensam sobre jornalismo, impactos culturais ou responsabilidades democráticas estão tomando decisões diariamente que determinam a forma como as notícias são criadas e transmitidas.

Ou seja, ninguém está entendendo nada.

Nós não estamos entendendo que perdemos muito por não sacar a lógica de plataformas revolucionárias de (auto)publicação dos últimos anos. Por outro lado, o Vale do Silício não sabe muito bem o que está criando. Ou melhor, está subestimando o poder e a responsabilidade que essas ferramentas trazem consigo.

Em seguida, Emily cita números superlativos de empresas como Twitter e Facebook, para em seguida dizer:

Nenhuma outra plataforma na história do jornalismo teve a concentração de poder e de atenção que o Facebook possui.

O Facebook usa uma série de fórmulas complicadas para decidir quais notícias estarão no topo da sua página ou do seu news feed.

Esses mecanismos são conhecidos como algoritmos. Eles ditam não apenas o que nós vemos mas também fornecem a base do modelo de negócio para plataformas sociais. Eles são comercialmente sensíveis, por isso permanecem em segredo. Eles podem mudar sem aviso, e eles podem alterar o que nós vemos sem que nós sequer notemos.

Emily lembra da entrevista que Greg Marra, o jovem engenheiro responsável pela equipe por trás do algoritmo do news feed do Facebook (discutimos essa entrevista na newsletter 18), deu ao NYT. Marra disse que procura não se ver como alguém que toma decisões editoriais. Não é bem assim, diz Emily:

Toda vez que um algoritmo é modificado, uma decisão editorial é feita.

Na sequência, ela fala da vez que entrevistou o Dick Costolo, executivo do Twitter, e o parabenizou por proporcionar a liberdade de imprensa do século XXI. Como resposta, recebeu um “não é bem assim que eu prefiro enxergar as coisas”.

Embora ela não tenha dito, Emily fez referência ao fato de o Twitter funcionar com ordem cronológica reversa, sem algoritmos determinando o que aparece na linha do tempo das pessoas – essencial para acompanhar uma notícia em desenvolvimento.

Como ilustração, lembrou de quando estouraram os primeiros protestos em Ferguson. Quem acompanhou pelo Twitter, percebeu,em tempo real, que a cidade estava em chamas. Ao contrário de quem acompanhou pelo Facebook, pois o serviço de Zuckerberg (seu algoritmo, no caso) silenciou a respeito nas primeiras horas de confronto. Para mais sobre isso, leiam isto ou as newsletters 07 e 08.

Em um mundo onde nós navegamos diariamente através de plataformas sociais, o fato de saber como uma informação chega até nós, ou o que está em uma trending list, ou como esses algoritmos funcionam, se transforma de um interesse secundário em uma preocupação central para o ideal democrático. 

A maioria das pessoas, diz Emily, não sabe como esses serviços funcionam. Ela então cita as duas pesquisas do Facebook que causaram polêmica recentemente. Primeiro, a que influenciou emoções das pessoas alterando o conteúdo da timeline de 700 mil usuários. Depois, a que, em tese, influenciou o número de votantes em eleições recentes nos EUA (lá o voto não é obrigatório). Mais sobre isso aqui.

Voltando ao Twitter, que ela classifica como “talvez a ferramenta mais útil para jornalistas desde a invenção do telefone”, Emily lembra dos planos da empresa de incluir um algoritmo parecido com o do Facebook para aumentar a base de usuários e alegrar os seus investidores (assunto abordado na newsletter 20.

Voltando à questão das decisões editoriais tomadas por essas empresas, lembrou que o Twitter censurou os vídeos do ISIS que mostravam a decapitações de jornalistas no Oriente Médio. E sublinhou que o pessoal do Vale do Silício está, de alguma forma, tendo que encarar situações tipicamente jornalísticas, ainda que não queiram. Assim, talvez o jornalismo possa fazer algo nesse sentido, diz ela.

O maior exemplo da fricção entre essas novas plataformas e o papel da imprensa veio das declarações feitas por Snowden de que ferramentas como Gmail, Skype e mídias sociais estão fatalmente comprometidas pela vigilância do Estado.

Sobre isso, Emily diz:

(…) para preservar nosso papel de uma maneira robusta, nós precisamos parar de confiar apenas nas ferramentas e plataformas de terceiros e desenvolver as nossas próprias.

Ela usa os casos de Pierre Omidyar, do eBay, que fundou a First Look Media, e de Jeff Bezos, da Amazon, que comprou o Washington Post, para sublinhar algumas contradições na relação atual entre jornalismo e tecnologia. Há um choque de culturas, diz Emily. Mas afirma que nós não podemos dar as costas para essa realidade. Então sugere que o jornalismo se esforce em três iniciativas:

A primeira é desenvolver ferramentas e serviços que coloquem o software a serviço do jornalismo ao invés do contrário. Nós precisamos de uma plataforma para jornalismo construída com os valores e as necessidades de uma imprensa livre.

Isso significa educação. Cita as universidades de Columbia, Stanford e Cardiff como instituições que estão preocupadas com isso. Inclusive ensinando programação:

Sim, como parte disso, jornalistas – e editores – deveriam aprender a programar, eles deveriam aprender lógica de programação e deveriam estar aptos a entender o mundo em que eles estão operando.

(…)

O segundo ponto está fora de moda e é impopular: a regulação. O jornalismo vem pressionando empresas como o Google por anos em função de copyrights, enquanto assuntos mais sérios de regulação, como monopólio e opacidade têm ficado intocados.

(…)

O terceiro e mais viável é informar. Informar, informar, informar. Cobrir tecnologia como uma questão de direitos humanos e como uma questão política, como se estivéssemos no Parlamento. Precisamos parar de apenas noticiar a fila por um iPhone e começar a cobrir tecnologia como algo a ver com sociedade e poder. Nós precisamos explicar esses novos sistemas de poder ao mundo. É o que nós fazemos de melhor, afinal. 

O discurso é esse. O que vocês acharam?

Pra mim foi como uma retrospectiva de 2014. Vários assuntos abordados nas 21 newsletters que foram enviadas antes dessa apareceram de alguma forma do discurso. Fiquei feliz por a fala de uma personagem tão importante para a inovação do jornalismo ter coincidido com muito do que foi escolhido para ser discutido aqui, com vocês, desde julho (e antes, em alguns textos publicados no site do Farol).

Bueno, se vocês quiserem seguir no assunto, no site do Reuters Institute for Journalism tem um resumo parecido com o meu, só que em inglês. No domingo, dia 23, a própria Emily publicou um texto no Guardian sobre o assunto. Aqui tem a opinião de um desenvolvedor de softwares cuja carreira está ligada ao jornalismo. O jornalista e professor Jeff Jarvis, outra figura importante no debate sobre jornalismo nos Estados Unidos, também escreveu sobre o discurso. E Mathew Ingram, articulista cujos textos volta e meia aparecem aqui, também.

Finalizando essa edição especial da newsletter, uma rápida passada por coisas legais que topei durante a semana.

Pra começar, um texto sobre a primeira Rebelião Jornalística, evento que reuniu gente massa pra discutir jornalismo independente. O evento foi promovido pela Ponte e pela agência Pública e aconteceu em São Paulo no dia 15 de novembro,  simultaneamente ao primeiro Festival Piauí de Jornalismo. Falando nisso, aqui tem um texto sobre a iniciativa da piauí, assinado por Daniel Salgado.

E pra terminar, o Journalism.co.uk publicou dicas da BBC para saber no que prestar atenção antes de compartilhar histórias na rede. E o Emergency Journalism trouxe um texto sobre parâmetros para estabelecer hashtags em situações de crise.

E last but not least, gostaria de avisar que a Casa de Cinema de Porto Alegre disponibilizou no site do filme Mercado de Notícias (aliás, já assistiram?) todas as entrevistas que aparecem no filme na íntegra. Um belo material de consulta.

Bueno, era isso então. Lembrando que também estamos no Flipboard com a Tendências no Jornalismo. Lá tem mais links sobre o que anda rolando na profissão.

Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório