Buenas, gurizada!

Tudo em cima com vocês? Chegamos à 24ª edição da nossa newsletter, a antepenúltima do ano. Não farei recesso de final de ano, o que significa que ESTAREI CHEGANDO na caixa de email de vocês nos dias 19 e 26.

Sin más delongas, vamos nessa.

Te ajeita aí porque esta é a mais longa das newsletters. Mas os assuntos são interessantes. São basicamente dois: o lançamento do reported.ly e o podcast Serial, uma das sensações de 2014. O que eles trazem de novo e por que são interessantes para o jornalismo é o que vou tentar mostrar para vocês. Mais pro fim, comentários curtos sobre uma MISCELÂNEA de coisas.

Pois bem, durante a semana foi lançado nos Estados Unidos mais um projeto jornalístico inovador. Patrocinado pela First Look Media (fundada em 2013 por Pierre Omidyar, um dos criadores do eBay) e encabeçado pelo jornalista Andy Carvin, o reported.ly tem o objetivo de fazer uma cobertura de assuntos globais aproveitando melhor o potencial das redes sociais. Falando assim fica parecendo que já vimos esse filme. Carvin explica tudo neste texto. Traduzi alguns trechos:

“No reported.ly, acreditamos que todos nós, para expandirmos nossas visões de mundo, precisamos nos engajar uns aos outros, cruzando fronteiras linguísticas e culturais. Até há pouco, o único jeito de fazer isso era lendo um jornal ou assistindo à TV. Precisávamos dos outros para aprender sobre o resto do mundo. Graças aos avanços das mídias sociais, no entanto, é possível estabelecermos relações cruzando continentes e fronteiras de formas que gerações anteriores apenas podiam sonhar, dando a muitos de nós uma chance de nos entendermos melhor.”

Ele diz que todos os veículos estão nas redes sociais, mas só para obter mais audiência. O reported.ly quer utilizá-las para fazer um jornalismo melhor.

“(…) para muitos veículos, mídias sociais são apenas uma ferramenta para mandar as pessoas para os seus sites. “Usuários” de mídias sociais são apenas isto – usuários que podem ser contados como pageviews e usuários únicos, ao invés de comunidades vibrantes com bagagem cultural e experiência de vida, que podem contribuir para o nosso melhor entendimento do mundo, bastando ter uma chance.”

E aí vem a parte que me despertou mais curiosidade. Pelo que dá pra entender, o reported.ly não terá um site ou um app. Os esforços de reportagens serão publicados nos próprios canais onde eles estiverem engajados – prioritariamente Facebook, Twitter e reddit (além de usar o Medium como diário de bordo).

“Nós não tentamos tirar as pessoas das suas comunidades favoritas apenas para conseguir pageviews. Nos orgulhamos por sermos membros ativos e engajados do Twitter, Facebook e reddit – não melhores do que qualquer outro. Queremos contar histórias do mundo inteiro, servindo essas comunidades online e as considerando nossas plataformas primárias – e não as usando de apoio para um site ou app.”

Ao conversar com Mathew Ingram, Carvin confirmou que é isso mesmo. “Carvin enxerga sua equipe como âncoras ou produtores cujo meio é a plataforma social na qual eles estão atuando”. É mais ou menos o que Carvin fez durante a Primavera Árabe. A cobertura feita por ele nas redes sociais deu notabilidade para o jornalista, que então trabalhava na NPR. A ideia agora é institucionalizar o método.  A proposta fica mais clara em outro post de Carvin no Medium, onde ele apresenta a equipe do reported.ly e mostra como os integrantes podem ser encontrados – lá estão os perfis do Twitter, reddit, chave PGP, entre outros meios. Além disso, o domínio reported.ly é direcionado para a coleção deles no Medium.

Neste outro texto, Carvin compartilha os principais valores que guiam a conduta dele e seu grupo. Deem uma olhada. O mais interessante e inovador, pra mim, é ver ganhar espaço o entendimento sobre a necessidade de abrir a caixa preta do jornalismo. Em um ambiente em que jornalistas e público potencialmente possuem as mesmas condições para acompanhar um fato (principalmente em coberturas globais), encarar a narrativa jornalística como uma conversação é um caminho natural. Impõe-se a necessidade de expor o processo de construção da notícia, inclusive os erros cometidos no caminho. Uma amostra do que pensa Carvin:

“Nós acreditamos que convidar vocês para observar e participar do nosso processo de apuração ajuda a fortalecer nossos laços e criar um jornalismo melhor.”

“Nós vamos compartilhar nossas habilidades, nossa bagagem, nossas experiências e nosso conhecimento de braços abertos, e esperamos construir uma comunidade baseada na confiança, e que possa oferecer o mesmo também.”

“Seremos claros quando algo não estiver confirmado. O que nós discutimos nas mídias sociais não deve ser visto como as conclusões de uma reportagem; ao invés disso, é a abertura de uma convesa pública que nós esperamos que nos auxilie a separar fatos da ficção. Quando houver um rumor ou uma informação viral, nós não vamos fingir que eles não existem. Nós vamos abordá-los e explorá-los juntos.”

Interessante a proposta do reported.ly. Eu só não curto muito a ideia de deixar todo o conteúdo solto por aí, espalhado por várias plataformas diferentes sobre as quais eles não possuem nenhum controle. Não vejo problema em utilizar esses canais como plataformas de publicação, só acho que isso levanta questões relacionadas ao gerenciamento desses dados e organização de memória coletiva, entre outras.

Ainda sobre novos produtos jornalísticos, a ex-editora do NYT Jill Abramson lançou uma startup cujo objetivo é publicar uma grande reportagem por mês. Grande mesmo: coisa de 20 mil palavras, resultado de meses de trabalho. E ela diz que vai pagar bem: 100 mil doletas por matéria. Só não diz de onde vai vir a grana – pelo menos até que sejam acertados detalhes com investidores. Eu li isso numa nota publicada pela Delayed Gratification, que festejou a iniciativa de slow journalism.

E falando em transparência nos processos jornalísticos, vocês já ouviram falar do podcast Serial? Olha, consta que é um dos grandes produtos de 2014. Por quê? Porque ele amplia a discussão sobre abertura da caixa preta do jornalismo que comentei mais acima ao apresentar a investigação de um crime narrada por uma jornalista que compartilha com os ouvintes suas impressões à medida que vai juntando o quebra-cabeça da história (de quebra, traz de volta aos holofotes o podcast, um formato que nunca conseguiu engrenar muito bem).

Olhem só o que disse sobre o Serial o presidente do International Center for Journalists, Joyce Barnathan, em um texto publicado no IJNET:

“O que faz Serial tão especial e tão significativo para o jornalismo é a transparência da repórter Sarah Koenig. (…) Para jornalistas que ouvem a série, Koenig faz o que nós todos fazemos todo o tempo. (…) O que Koenig faz que nós normalmente não fazemos é compartilhar nossos pensamentos e opiniões enquanto investigamos uma história. Normalmente, nós fazemos esse trabalho antes da publicação. Nós damos a nossa audiência a avaliação mais inteligente que podemos. Nós passamos pelo mesmo trabalho duro de entrevistar e investigar que Koenig  passou – e nós sofremos com as mesmas ansiedades e dúvidas existenciais. A diferença é que nós nunca tornamos isso público. Ela dá um passo além porque torna o jornalismo mais transparente – e, na minha opinião, acrescenta muita credibilidade ao nosso campo.”

A primeira pessoa que ouvi comentar sobre o Serial foi o jornalista Caue Fonseca. Um tempinho atrás ele comentou que o podcast é a melhor narrativa jornalística com que teve contato em muito tempo, e que ainda iria escrever sobre. Pois bem, convidei o Caue para resumir, em um parágrafo, a opinião dele sobre Serial:

“Se por um lado Serial mostra que há sempre novos e empolgantes rumos para a narrativa longa em jornalismo, por outro reforça o fato de que bom jornalismo custa dinheiro. A série não é boa apenas por ser uma grande forma de contar uma grande história, mas porque tem produção impecável, um roteiro tremendamente bem amarrado, apuração obsessiva, investimento de tempo e atenção a detalhes – como a excelente trilha sonora – que fazem do podcast um produto refinado, longe da ideia de “um gravador na mão e uma ideia na cabeça”. No seu décimo primeiro episódio, Serial cita nada menos do que 25 pessoas e dois patrocinadores nos créditos. A boa nova é que, aparentemente, há interesse do público no produto, pois os pedidos de donativos da apresentadora Sarah Koening já asseguraram recursos para uma segunda temporada.”

O jornalista Alexandre Matias também chamou a atenção para o fenômeno Serial. Ele reproduziu no seu blog um texto da jornalista Giovana Ruaro-Lane sobre a série. Ela se detém mais ao aspecto cultural do programa, e traz detalhes sobre a produção. Vou reproduzir só um trechinho, até porque o original tá em português:

“A construção da narrativa, sem utilizar imagens, apenas vozes, entrevistas e storytelling no seu momento mais cru, é hipnotizante. Como se fosse uma amiga te contando uma história, Sarah compartilha sua investigação, conclusões e dúvidas em tempo real.”

Pra fechar o assunto podcast, ficam mais duas sugestões de audição. A primeira é um programa sobre jornalismo feito fora de websites, produzido pelos alunos da Birmingham City University, A segunda é um episódio do Future Tense, realizado pela rede ABC australiana, sobre o futuro do jornalismo. Aproveitem!

Bueno, segue o baile.

Volta e meia alguém fala que o Twitter está ficando mais parecido com o Facebook e vice-versa. Esta semana o re/code noticiou que o Facebook está implementando mudanças no seu app para dar conta de uma das principais caraterísticas do Twitter: ser um meio/ferramenta útil para acompanhar notícias em tempo real.

A novidade é a expansão do seu serviço de trending topics para usuários de dispositivos móveis, inclusive com a opção de buscar pessoas near the scene em um breaking news. Seria uma resposta às críticas recebidas após Ferguson?

Confiram este especial bacana produzido pelo jornal Zero Hora sobre o Estado Islâmico. Ele foi desenvolvido no Creatavist depois que o repórter e editor Luiz Antônio Araújo voltou de uma viagem até fronteira da Turquia com a Síria.

E ontem fiquei sabendo de uma iniciativa do Grupo RBS, do qual o jornal Zero Hora faz parte, para acompanhar tendências na comunicação/jornalismo. É o Vox. Semana que vem acontece uma conferência com transmissão da TVCOM. A ver.

Pra ir terminando, três tópicos rápidos:

Por fim, uma última informação: saiu a tradução para o árabe do Verification Handbook, um projeto muito massa cuja tradução para o português eu participei.

Às vezes eu esqueço de dizer, mas todos esses links (e outros) estão na Tendências no Jornalismo, nossa revista no Flipboard. Acessem lá!

Bueno, era isso então.
Bom findi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório