Buenas, gurizada!

A newsletter está atrasada, eu sei, mas né, final de ano é complicado. Ainda tô lidando com compromissos acadêmicos enquanto o Natal tá ali, dobrando a esquina. Sem más delongas porque já é quase final de semana, vamos lá.

Começamos com o tradicional especial do Nieman Lab com previsões para o próximo ano no jornalismo. Para dizer o que vai rolar de interessante em 2015, foram convidadas mais de 60 pessoas da área para dar seus pitacos. Como é muita gente, pincei alguns comentários para compartilhar com vocês. Meu critério de escolha foi eu conhecer o sujeito. Alguns, inclusive, apareceram aqui na newsletter durante o ano. Como é o caso da professora Zeynep Tufecki, que ficou mais conhecida depois deste texto sobre o (algoritmo do) Facebook ignorar as notícias de Ferguson nas primeiras horas de protestos na cidade americana.

No texto do Nieman Lab (The year we get creeped out by algotithms), ela volta ao tema. Zeynep compara o espaço concedido aos algoritmos nas nossas vidas em 2014 com a sensação que nós temos quando achamos que um robô é bizarramente parecido com um ser humano. Eu não sabia, mas essa sensação tem até nome: uncanny valley (não sei como seria o equivalente em português).

Embora os computadores já estejam aí faz um tempinho, ela enumera três motivos pelos quais ela acha que precisamos, a partir de agora, prestar mais atenção no papel dos algoritmos nas nossas vidas. Primeiro, porque computadores estão se tornando, cada vez, mais centrais em nossas interações de qualquer natureza. Segundo, porque, os aparelhos estão aumentando a mediação entre o usuário e o mundo, centralizando o controle das ações humanas. Olhem o que ela diz:

Pense num mundo em que o seu telefone checa constantemente a central da sua companhia telefônica para te dizer para qual dos seus parentes você deveria ligar, e misturam as frases deles de um jeito que pareça “melhor” (para manter você “engajado” e no telefone por mais tempo) – oferecendo anúncios nesse período?

Terceiro, os algoritmos estão fazendo juízo de valor sobre questões onde não há resposta certa, simplificando questões éticas que vem sendo discutidas há milênios pela humanidade. Separei mais um trechinho especificamente sobre este ponto:

Algoritmos estão, cada vez mais, sendo chamados para tomar decisões onde não há uma resposta certa, apenas um juízo de valor. O Google diz que nos mostra os resultados mais relevantes, e o Facebook nos mostra o que é mais importante. Mas o que é relevante? O que é importante? Ao contrário de outras formas de automação ou algoritmos, em que há uma resposta correta definida, estamos vendo o nascimento de uma nova era, a era das máquinas que tomam decisões: máquinas que não só organizam rapidamente um banco de dados, ou realizam um cálculo matemático, mas decidem o que é “melhor”, “relevante”, “apropriado” ou “nocivo”.

Em 2015, diz Zeynep, essa situação deve se intensificar.

Felix Salmon, editor do Fusion, tem uma posta interessante a respeito do Facebook: o tráfego que chega aos sites oriundo da rede social do Mark vai começar a cair em 2015. Isso porque o Facebook está se transformando em uma empresa mobile, e para quem é mobile, enviar seus usuários para sites de terceiros, como acontece quando clicamos em uma notícia compartilhada na nossa timeline, é, diz Salmon, “tecnicamente uma merda”. Também em função do caráter mobile, o conteúdo escolhido pelo algoritmo para aparecer no News Feed vai diminuir:

Um pedaço significativo do News Feed já é propaganda. Então, para conseguir entrar no News Feed, se você não é um anúncio, precisará ser muito, muito bom. Tipo um amigo anunciando o noivado, ou um vídeo de outro amigo jogando um balde de gelo na cabeça, ou ainda uma longa e engraçada conversa sobre a mudança de status de relacionamento de um terceiro amigo. O que não é muito bom? Um link para algum site aleatório com uma interface que o Facebook não controla, e cujo user experience está abaixo do ideal para a navegação mobile.

C.W. Anderson, um dos autores do já clássico relatório Jornalismo Pós-industrial, aposta, para o ano que vem, no incremento do embate entre um jornalismo mais slow, cujos ideais vêm da necessidade de oferecer uma formação humanista para as pessoas, e a velocidade de inovação do Vale do Silício e toda sua sede por mais e mais e mais. Em 2015 vamos ter certeza de que o jornalismo robusto, e não apenas aquele voltado para o presente imediato, está mais vivo do que nunca:

Não é a existência das métricas que ameaça os empreendimentos jornalísticos mais lentos e mais humanisticamente inclinados, e sim a cultura organizacional que interpreta essas métricas. Não são os rastreadores de audiência e a habilidade de medir o quanto as histórias estão rendendo que ameaçam os valores do jornalismo. O problema é que estamos dando importância aos números de forma acrítica, criando muita expectativa em torno deles. E a forma como nós interpretamos os dados, sob a rubrica da democracia e do empoderamento, às vezes serve para disfarçar um imperativo econômico.  

Alberto Cairo, um dos grandes nomes da infografia e jornalismo de dados, acredita (ora, vejam só) na popularização da visualização de informações. Segundo ele, mais e mais de seus alunos (ele é professor na Universidade de Miami) buscam essas habilidades. E não só jornalistas: gente que quer ser escritor, relações públicas ou trabalhar com marketing. Todos estão enxergando a necessidade de aprender um pouco sobre como extrair dados e apresentá-los visualmente.

Olha, parece ter muita coisa legal no especial do Nieman. A maioria dos textos são curtos, então dá pra ir lendo devagarinho. Eu coloquei esses na fila:

Vamos adiante.

A volta da newsletter já não é mais novidade (não é à toa que já estamos na nossa 25ª edição, e olha que não estávamos entre os primeiros). Mas o assunto segue rendendo. Mathew Ingram escreveu este texto no último dia 17 a propósito da newsletter Skimm, mantida por uma ex-produtora da NBC e voltada para o público feminino, ter conseguido US$ 6,5 milhões de investidores (alô possíveis patrocionadores, estou aberto a propostas!). Para Ingram, o negócio evidencia o fortalecimento do formato em um contexto marcado pela fadiga de informação.

No texto, ele fala sobre alguns fatores que seriam determinantes para a ascenção do formato. Primeiro, porque as pessoas seguem querendo ler coisas que realmente importam para poder usar como capital social. Ou seja, saber das últimas notícias mais importantes para ter o que conversar com as pessoas quando for preciso. O problema é que, nos últimos tempos, os sites e jornais online, tradicionalmente para onde as atenções convergiam quando o assunto era notícias, já não são muito bons nisso. Receber as notícias importantes no email é o novo abrir a capa do portal.

Além de ser uma opção para quem está atrás de notícias generalistas, a newsletter também é uma ótima forma de oferecer (e receber) informações muito específicas. Como o Farol Jornalismo, por exemplo. Para Ingram, fica mais fácil entender quem são os leitores e saber exatamente o que eles querem. Assim, a conversa fica mais próxima, e o autor pode assumir um tom mais pessoal. Como o que eu faço aqui.

Ó, e falando em newsletter, ontem o jornalista e editor do Medium Brasil, Leandro Demori, estreiou a sua. Em A Grande Guerra (aqui para assinar) ele promete informação e análise sobre assuntos da atualidade, além de novidades sobre seu trabalho (aliás, ele está por lançar uma biografia de um membro da máfia siciliana).

E adiante.

Nos últimos anos, sempre quando irrompe um breaking news, as atenções se voltam para as redes. Enquanto jornalistas e veículos de imprensa buscam informar o mais rápido possível sobre os últimos acontecimentos, a audiência busca informações que saciem sua necessidade de colocar ordem no caos. Está pronto o cenário para a disseminação de boatos, rumores e desinformação.

Neste texto, o professor Alfred Hermida fez uma reflexão à cobertura do cerco a um café em Sydney durante a semana (aos erros da imprensa, no caso). Ele chama a atenção exatamente para o cenário que resumi acima. Sobre o quanto as redes sociais são como uma praça pública em que discussões vêm e vão em fluxos, e que algumas pessoas detêm o conhecimento, mas outras estão ali apenas para dar vazão às suas angústias. E que, por isso, devemos pensar bem antes de tuitar, retuitar, repassar ou publicar algo como se fosse uma verdade estabelecida.

Vamos nos encaminhando para o final.

Duas coisas curtas.

Este texto da IJNET conta como as produtoras da AJ+ cobriram Ferguson apenas com um iPhone. O legal é que elas mostram quais os equipamentos adicionais que as jornalistas Shadi Rahimi e Brooke Minters usaram para melhorar a qualidade de áudio e de vídeo nas três vezes em que elas viajaram para cobrir os protestos.

O grupo Journalism++ lançou o Detective.io., uma ferramenta gratuita para visualizar redes de dados a partir da importação de planilhas CSV (ou de dados inseridos manualmente). A ideia é tornar a análise de redes mais fácil para todos”, disse ao Journalism.co.uk Nicolas Kayser-Bril, um dos fundadores do Journalism++.

Por fim, sugestões de presentes de Natal para jornalistas. Destaque para o must have PAU DE SELFIE. Quero!

Bueno, era isso então.
Bom fíndi, FELIZ NATAL e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório