Buenas, gurizada!

Que tal vai a coisa aí pros lados de vocês? Ainda devagar? Ou já foram atropelados por este 2015 que começou em chamas? Imagino que vocês estejam acompanhando o desenrolar da cobertura Charlie Hebdo. Eu, menos do que gostaria, mas o suficiente para pescar uma coisinha extra aqui, outra ali. Como vocês devem estar soterrados de links sobre diversos aspectos diferentes do caso, inclusive jornalísticos, vou me permitir abordar o atentado terrorista a partir de um viés que é caro à newsletter do Farol Jornalismo: cobertura em tempo real.

Especificamente a cobertura do Reported.ly, o mais novo “veículo” jornalístico cujo trabalho é focado em cobertura em tempo real a partir de técnicas de verificação digital. Veículo entre aspas porque o Reported.ly não tem site, nem app, nada. O trabalho da equipe comandada por Andy Carvin é publicado em canais de redes sociais e no Medium. Falamos sobre isso na edição 24 da newsletter, lembram?

Pois bem, com menos de 48 horas de vida, o Reported.ly se deparou com o desafio de cobrir o ataque à redação do semanário francês, uma cobertura-exemplo do tipo de jornalismo que eles estão se propondo a fazer: um breaking news típico, grave, de surpresa, com o apelo para chamar a atenção do mundo inteiro, ocorrido em uma das cidades que mais simboliza o Ocidente, Paris.

Foi mais ou menos o que escreveu Benjamin Mullen em uma matéria publicada ontem no Poynter sobre a atuação do Reported.ly. Entrevistado, Carvin afirmou que o trabalho deles se assemelha a uma transmissão ao vivo de TV, mas aplicada ao Twitter e outras plataformas. “Exceto que, ao contrário de outras organizações de notícias, que têm pessoas no local dos fatos buscando informações, o Reported.ly compõe sua cobertura minerando, geolocalizando e verificando informações disponíveis online.” Com a equipe espalhada em vários fusos, eles usam o hangout do Google para se comunicarem: é o mais perto que chegamos de estarmos sentados todos ao redor de uma mesma mesa, disse Carvin ao Poynter.

Também ontem, Carvin publicou um texto no canal deles no Medium, que serve como um diário de bordo das atividades do Reported.ly. Ele destaca o fato de a equipe recém estar se conhecendo, trabalhando em um ritmo calmo (não sou só eu que ando devagar nesse começo de ano, hein), quando irrompeu o acontecimento.

Olha só como eles descobriram. O negrito é meu:

“Às 5h56 ET (Eastern Time), a equipe retuitou um post encontrado em uma das mais de 200 listas no Twitter que criamos para monitorar eventos pelo mundo, incluindo uma lista em que estava o repórter da AFP Marc Burleigh.”

Minutos depois deste primeiro tweet, a equipe retuitou mais um – que já dava indícios que havia ocorrido um massacre – e postou um próprio, dizendo que o Reported.ly estava investigando o que havia acontecido na Charlie Hebdo.

Gostaria de chamar a atenção para duas coisas.

Primeiro, o método de monitoramento do Reported.ly: nada menos do que mais de 200 listas no Twitter. Isso não só confirma o potencial do Twitter como um serviço público capaz de funcionar como um termômetro da realidade, como também ratifica as listas como um dos recursos mais úteis do Twitter. Aliás, para esse tipo de uso jornalístico, o Twitter muda da água pro vinho da interface web para uma interface TweetDeck/Hootsuite usando listas. Segundo, o posicionamento de abertura do Reported.ly ao avisar que o foco da equipe estava no caso Charlie Hebdo.

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Ficaram interessados em aprender um pouco mais sobre as potencialidades do Twitter como ferramenta jornalística? Vou dar um curso rápido sobre Twitter no fim deste mês, na ESPM-Sul. No mínimo, prometo que vamos criar várias listas. 😛

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Sobre a comunicação a distância por hangout, leiam o que Carvin disse:

“Felizmente, nós incorporamos o Google Hangout nos nossos fluxos de trabalho. Enquanto estamos trabalhando, permanecemos conectados em um hangout, assim, conseguimos ver e ouvir o que os outros estão fazendo. Na maior parte do tempo, mantemos no mudo para não ouvir os cachorros e gatos dos outros latindo e miando. Mas quando nós postamos algo nas nossas contas oficiais, tiramos do mudo e avisamos o grupo, quase como um barista anunciando um pedido de café, apenas para nos certificarmos de que ninguém precisa dizer algo antes. Dessa forma, se alguém está prestes a postar algo repetido, ele será avisado.”

O interessante do texto de Carvin é o registro dos fluxos de trabalho jornalísticos de um veículo virtual de notícias. Não existe redação, a equipe trabalha de casa, em diferentes fusos horários, se comunicando através de uma video conferência permanente e publicando seu conteúdo em sistemas desenvolvidos (e também usados) por terceiros. Abre-se mão do produto jornalístico, não existe mais o meio. O jornalismo é feito no mesmo lugar onde está o restante das pessoas.

Acompanhem o Twitter do Reported.ly aqui. Da equipe, o integrante mais ativo na cobertura é Malachy Browne, ex-Storyful, que está baseado em Dublin.

Se quiserem acompanhar coberturas semelhantes, bellingcat e Storyful. Outra alternativa é uma lista no twitter criada pela Kristen Hare, do Poynter.

No fim, falei um monte sobre o terrorismo em Paris. Não adianta, situações como essa, embora terríveis, são sempre fascinantes jornalisticamente (sim, deu saudade da redação). Pra fechar, vejam que  bonita a capa da New Yorker do dia 19.

Ok, mudando de assunto.

Até todas as atenções se voltarem para Paris, o que mais me chamou a atenção nos últimos dias foi um post que jornalista e professor de jornalismo holandês Mark Deuze publicou no seu blog no dia 2 de janeiro. O texto Journalistic Drama amplia a discussão gerada por um artigo do próprio Deuze em uma publicação holandesa a respeito da diversidade no jornalismo (o jornal NRC Handelsblad o convidou a repercutir a partir deste viés o caso da demissão de um repórter que por anos teria inventado fontes para suas reportagens de cunho multicultural).

O artigo de Deuze causou polêmica, por isso ele resolveu ampliar a argumentação no seu blog, onde o espaço é maior que as 800 palavras do texto do NRC.

Como a diversidade é uma questão muito cara ao jornalismo (assim como o é ou deveria ser em todas as áreas), achei que seria interessante compartilhar com vocês alguns trechos do texto. Deuze teve insights interessantes sobre a questão.

“Considero os jornalistas como profissionais bem intencionados, ambiciosos e trabalhadores – funcionando dentro de um jornalismo que é domínio de uma restrita elite social, que, em função de sua própria homogeneidade, já não critica completamente a si própria. Isso se reflete no modo espasmódico que o jornalismo lida com a sociedade multicultural – tanto na redação como no noticiário. Dessa maneira, eu tento levantar a questão do privilégio, como o obtido por uma classe socioeconômica (dentro da qual, ser branco é uma forma de capital). Não se trata de um ataque aos jornalistas, mas uma forma de lembrá-los da sua responsabilidade social.”

Deuze fala que foi muito criticado por retratar os jornalistas como uma “classe alta” ou “elite” da sociedade. Ele justifica a caracterização citando estudos que encontram semelhanças entre o perfil de jornalistas e as camadas mais altas da sociedade: “altamente educados, moldados pela (e moldando a) cultura dominante, em termos de valores, e expectativas de autorrealização e sucesso pertencentes à classe média”. Ao mesmo tempo, diz que esses profissionais também “tem um pé” na classe trabalhadora, pois não detêm o controle dos meios de produção. E que o acesso à atividade é livre somente em tese. Sobre isso, ele escreve o seguinte:

“Anteriormente, esses tipos de trabalho (jornalismo, propaganda, cinema, artes, etc) eram bem exclusivos – ao menos até o começo da década de 1990, todos esses setores eram dominados por homens brancos. Isso mudou desde então: houve mais espaço para mulheres, e mais tarde para jornalistas com background ligados a minorias. Atualmente, em função da aglutinação de vários fatores […], esta progressão está parando. O crescimento do número de mulheres e de minorias nas indústrias criativas estagnou. Empregos permanentes quase desapareceram da profissão, e, em geral, estágios não remunerados e outras formas de trabalho gratuito determinam o acesso.”

Então ele comenta as mudanças no modo de trabalho do jornalismo nos últimos tempos: mais educação necessária, mas salários menores, mais trabalhos temporários, menos carteira assinada, mais programas de estágio…

“Esse panorama faz o jornalismo menos acessível para qualquer um que tenha interesse. Na verdade, é, hoje, o campinho de uma classe abastada: aqueles que podem se dar o luxo de trabalhar anos (ou a maioria de suas carreiras) ganhando abaixo de um mínimo de vencimentos; aqueles que, como um jovem, podem se manter com ganhos de poucas centenas de dólares/euros por mês (enquanto vivem e trabalham nas maiores e muitas vezes mais caras cidades, que é onde estão localizadas as principais organizações de notícias).”

“No início dos meus estudos entre profissionais de jornalismo, propaganda, cinema, televisão e games em países variados, como Estados Unidos, África do Sul e Nova Zelândia, eu notei algo que hoje eu vejo no jornalismo holandês: jornalistas estão cada vez mais sendo explorados por uma indústria que não mais investe neles. O acesso à profissão está se tornando, assim, mais exclusivo. Está se tornando impossível, particularmente para as pessoas pertencentes aos escalões socioeconômicos mais baixos, participar de tais profissões. Na Inglaterra e em outros lugares, este “elitismo nas profissões” é fontes de preocupações justificadas sobre a diminuição da mobilidade social na sociedade.”

Como Deuze deixa claro, ele se refere à Holanda, mas creio que a reflexão é válida para o nosso contexto também. Confiram o(s) texto(s) originais, vale a pena.

Vou finalizar por aqui. A newsletter acabou sendo dominada por apenas dois temas, mas como eram assuntos de fôlego, achei que valia a pena investir.

Pra terminar, duas coisinhas rápidas e práticas.

O Journalism.co.uk selecionou extensões do Chrome úteis para jornalistas. E também apontou dez newsletters interessantes para quem trabalha com mídia, tecnologia e jornalismo (eu particularmente indico a 5IT, de um jornalista norte-americano chamado Alex Madrigal, acho bem bom esse sujeito).

Aliás, foi a 5IT que me inspirou a fazer uma pequena modificação no título do email da newsletter. Não sei se vocês notaram, mas agora, antes da chamada tem NFJ#28, ou seja, Newsletter Farol Jornalismo número 28. Enfim, uma questão menor, mas é sempre bom publicizar mudanças, afinal, eu faço isso para vocês.

Bueno, era isso então.
Bom findi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório