Buenas, gurizada!

Em primeiro lugar, desculpas pelo atraso significativo no envio da newsletter. Mas quando a equipe é pequena (eu), isso está sujeito a acontecer. Por mais que a gente tente, não somos senhores absolutos do nosso tempo. Enfim, vamos nessa.

Ah, só deixa eu avisar que a newsletter tá menor hoje, justamente em função do imprevisto que não me deixou enviá-la ontem. Vocês não se importam, né?

Agora sim.

Em novembro passado, dei amplo destaque, na newsletter #22, para o discurso que Emily Bell, diretora do Tow Center for Digital Journalism, fez em uma visita ao Reuters Institute for Journalism. Pois bem, Emily repetiu a dose semana passada. Agora, durante a homenagem anual a Hugh Cudlipp, importante jornalista da história do tabloide Daily Mirror. Mas desta vez vou ser mais sucinto na análise, embora este discurso seja tão interessante quanto o do ano passado. Se alguém tiver interesse em lê-lo na íntegra, ele está aqui. Vou me permitir reproduzir partes do texto de Emily e da análise de Mathew Ingram, volta e meia citado por aqui.

O discurso de Emily é voltado para a relação entre jornalismo e redes sociais. Ela lembra que empresas como Facebook, Twitter e Google possuem hoje um poder que jamais nenhuma outra empresa de mídia teve em determinar a que tipo de informação as pessoas terão acesso, mas que, em geral, estão pouco interessadas em assumir a responsabilidade inerente a este poder. Enquanto o Twitter ainda procura debater questões ligados à liberdade de discurso e de imprensa, diz Emily, Facebook e Google escapam pela tangente e não enxergam muito problema em, respectivamente, simplesmente sumir com conteúdos publicados a partir dos seus serviços ou entregar dados de pessoas físicas ao governo dos Estados Unidos.

Mas o aspecto da relação mais destacado por Emily é a necessidade de jornalismo e redes sociais conversarem. Com a perda da exclusividade na distribuição de notícias/conteúdo, o jornalismo precisa se dar conta de que o público é, mais do que nunca, parte (eu diria participante) do ecossistema noticioso. Ela cita dois casos recentes – o do francês que filmou o assassinato de um policial durante o ataque à revista Charlie Hebdo e o do americano que filmou a morte por asfixia de Eric Garner nas mãos de um policial – como exemplos do impacto que uma única pessoa (não-jornalista) pode causar em todo o sistema jornalístico. Diz Emily:

Mir e Orta [os cidadãos que filmaram] não são “jornalistas”, mas eles eram fontes. Eles não faziam parte da equipe de qualquer jornal ou agência; eles não receberam salário; não tiveram treinamento; eles não eram membros de qualquer sindicato, eles não tinham a proteção geralmente assegurada a membros da imprensa.

É importante para plataformas sociais e organizações de notícias incluir as pessoas com telefones móveis que preenchem suas páginas, porque nós precisamos deles, e nós temos uma responsabilidade em relação a eles. Eles podem não ser jornalistas, mas eles fazem parte do ecossistema noticioso.

Especificamente sobre este envolvimento, me parece que ele passa por o jornalismo descer do pedestal e se juntar à massa. Claro que as coisas não são tão simples, a começar pelo fato de que se misturar com a geral não significa deixar de lado os códigos e regras que conduzem a prática do profissional do jornalismo. Mas vem se cristalizando a ideia de que é necessária uma abertura que permita a manutenção dos jornalistas como os profissionais capazes de mediar os sentidos compartilhados socialmente. Não é por acaso que, recentemente, venho comentando sobre a iniciativa do reported.ly. Observando o trabaho deles – sem redação, sem canal próprio de publicação e atuando plataformas sociais onde a galera está (Twitter, Medium) -, tenho a impressão de essa iniciativa incorporou – consciente ou inconscientemente, não sei – essa forma de encarar o cenário atual.

Mudemos de texto, mas nem tanto de assunto.

O que questiona Emily Bell a respeito do comportamento do Facebook em não assumir responsabilidades editoriais pode ser ilustrada por esta frase de Adam Mosseri, diretor de produtos do News Feed, nossa conhecida timeline do Facebook:

“Nós realmente não tentamos expressar nenhum julgamento editorial. Nós podemos até pensar que [a cobertura de] Ferguson é mais importante que o desafio do balde de gelo, mas nós não achamos que devemos forçar as pessoas a comer vegetais mesmo que a gente pense ou não que vegetais são saudáveis”. 

Esta aspa está neste texto, publicado por Steven Levy no Medium, sobre o News Feed e o seu algoritmo. Ele conta como o próprio Facebook está percebendo que talvez apostar em um código não seja o suficiente para transformar o Facebook em um jornal personalizado para mais de 1 bilhão de pessoas, como quer Mark.

Escreve Levy:

“Mas se o feedback loop [o fato de o algoritmo do Facebook funcionar como um círculo vicioso: as pessoas clicam em bobagens, o algoritmo entrega mais bobagens, então as pessoas clicam em bobagens, etc] não levar em conta desejos não expressos de um News Feed com mais sucos verdes [o autor usa a metáfora de o Facebook só entregar irresistíveis doces para seus usuários, mesmo sabendo que comer só doces não faz bem à saúde]? Apesar de sua pretensa neutralidade, suspeita-se que os líderes do Facebook privadamente enxergam com consternação o papel da empresa de ser uma bomba de açúcar para a indústria noticiosa, enquanto editores e redatores aprimoram a seleção e apresentação de suas histórias de modo a parecerem irresistíveis quando elas aparecem no News Feed.”

Em outras palavras, o Facebook vê limites no poder do seu próprio algoritmo. A solução que eles encontraram é, vejam só, perguntar para as pessoas o que elas querem de fato. Porque, em geral, até podemos querer doces de vez em quando, mas sabemos que o melhor é ter uma alimentação balanceada, inclusive com suco verde. Como não dá para conversar com mais de 1 bilhão de usuários, o Facebook decidiu fazer isso em menor escala. Mais exatamente 30 pessoas.

Este pequeno grupo foi contratado para usar uma versão diferente do Facebook. Além de curtir, comentar e clicar nos links que aparecem no seu News Feed, esses usuários respondem a questões subjetivas sobre o que eles estão consumindo, entre outras diferenças em relação ao Facebook “normal”. Os engenheiros do Facebook querem usar os resultados para conseguir responder com propriedade a pergunta de um milhão de dólares: “o que as pessoas realmente querem?”

Incluir subjetividade na complexa equação que resulta no News Feed não deixa de ser uma boa notícia, ainda que isso não signifique necessariamente abraçar a responsabilidade editorial citada por Emily Bell. Aguardemos os próximos capítulos.

Todo esse papo de o jornalismo descer do pedestal e se juntar à massa vai ao encontro do que disse o chefe digital do The Guardian, Aron Pilhofer, durante uma apresentação em Londres: fechar os comentários dos sites é um grande erro.

Jornalismo é conversação, diz Pilhofer.

“Você vê site depois de site matando a área de comentários e se afastando da ideia de comunidade – isso é um erro monumental. Todos os sites que se distanciam dos comentários beneficiam sites como o nosso. Os leitores precisam e merecem uma voz. Eles deveriam fazer parte fundamental do seu jornalismo.”

Pra fechar, coisas rápidas.

Moçada, era isso. Volto semana que vem. Se quiserem mais links sobre jornalismo, acessem a Tendências no Jornalismo, nossa revista no Flipboard.

Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório