Buenas, gurizada!

Sexta-feira de carnaval, passa das 17h. Como esta é uma newsletter voltada para jornalistas, espero que vocês estejam por aí. Digo isso porque hoje temos uma novidade: a estreia da Marcela Donini, jornalista e minha companheira de Farol Jornalismo e de vida. Ela entregou a dissertação de mestrado \o/ e agora vai ter um tempinho para contribuir com a nossa newsletter. Na edição de hoje a Marcela escreveu sobre a polêmica relação entre a chamada publicidade nativa e o jornalismo, usando como gancho um texto da Columbia Journalism Review.

Outra coisa: na última terça-feira o Farol Jornalismo fez um ano de vida! No dia 10 de fevereiro de 2014 publicamos o post de estreia do nosso site. Dias depois, o ebook da Marcela sobre crowdfunding e algumas traduções. De lá para cá, com a ênfase se deslocando para a newsletter, o site ficou meio de lado, eu sei. Mas temos planos para 2015! E vamos pensar em algo para comemorar a data.

Feito o comunicado, vamos para o texto da Marcela?

Conteúdo é o futuro do jornalismo?

Marcela Donini

Com a crise da publicidade como financiadora do jornalismo, especialmente nos meios impressos, o tal conteúdo virou importante fonte de receita para empresas de comunicação. Agências de publicidade aumentaram seus departamentos de conteúdo (com muitos jornalistas) e até as companhias jornalísticas apostam em setores semelhantes, além das novas agências de conteúdo. Não se trata de buscar anúncio para jornal nem patrocínio para conteúdos específicos, o caminho é inverso: faz-se conteúdo por encomenda, ao gosto do cliente. Se as marcas não querem mais anunciar no jornal porque podem falar diretamente com seus públicos – não precisam mais desse velho atravessador –, por outro lado, elas ainda precisam de alguém que saiba falar com esses públicos.

No final de janeiro, a Conde Nast, uma das maiores editoras internacionais, dona de revistas como Vogue e New Yorker, anunciou seu “estúdio de histórias”. Ela oferece a competência da sua premiada equipe editorial. Jornalistas são ótimos contadores de histórias, afinal. Mas jornalismo é uma coisa, conteúdo é outra. E é essa a discussão levantada neste post da Columbia Journalism Review, sobre a tal publicidade nativa ou conteúdo corporativo mascarados de “storytelling”.

Conteúdo não é jornalismo, mas pode ser feito por jornalistas. E cada vez mais o é. No texto assinado por Damaris Colhoun, é citado um trecho do press release da Conde Nast que sugere que este é o “futuro das empresas de mídia”. Só não vamos confundir com o futuro do jornalismo.

Jornalistas vão se preocupar com precisão e veracidade das informações publicadas, mas em uma equipe de conteúdo, não estão a serviço do interesse público, mas dos interesses da empresa que os contratou. É relevante publicar 5 matérias por semana sobre perfumes? Num jornal diário, não. Mas há tempos o jornalismo não é mais só jornal diário. Em um canal específico que será acessado por quem busca informação sobre perfumes nas redes sociais ou nos buscadores online, por que não?

Minha maior preocupação é que joguemos sempre limpo com o leitor, mesmo que, para ele, não faça tanta diferença. Há canais patrocinados que deixam claro que aquele espaço é pago por tal marca; outros têm apenas o selo da marca presente, o que pode confundir com o velho anúncio onde, em tese, não há influência comercial. Há ainda as marcas que criam sites próprios de conteúdo.

A pesquisa do link anterior diz que, em um grupo de leitores mais jovens, há mais discernimento sobre se um conteúdo é ou não patrocinado, mas que isso não importa tanto para a credibilidade do jornal, já que eles estão acostumados a ver publicidade em diversos formatos e plataformas. Sem me alongar mais na discussão, que merece mais espaço, chamo a atenção para o fato de que, se os jovens estão acostumados a ver publicidade em tudo, também estão acostumados a consumir jornalismo de forma diferente. Isso pode significar que estão confundindo o que é relevante – ou o que nós, jornalistas, achamos que é relevante – com o que não é. Mas sem dúvida significa que precisamos estar atentos aos novos formatos e ser cada vez melhores contadores de histórias – na redação ou fora dela.


Agora vou eu.

Tem app novo na praça. É o Timeline. O objetivo, como o nome diz, é oferecer linhas do tempo ao noticiário. Na sua análise, o Nieman Lab destacou que ele é elegante e funcional, e que foi escolhido entre os melhores apps da Apple Store em janeiro. Mas chamou a atenção para o desafio em relação ao modelo de negócio: como um aplicativo que apenas dá contexto do noticiário vai sobreviver?Tamer Hassanein, um dos fundadores, quer atrair “pessoas perspicazes” que vão buscar na Wikipédia informações adicionais sobre algo que recém ficaram sabendo. Os assuntos são escolhidos a partir de efemérides, breaking news e tópicos de interesse da equipe, que é formada por 14 pessoas. A empresa chegou a pensar em contratar historiadores para ajudar a criar o conteúdo, mas Hassanein explica que a ideia foi deixada para trás porque os “historiadores não entendem a importância dos deadlines da mesma forma que os jornalistas”.

De fato, eu achei o app bem bonito. Ele lembra um pouco o Circa, principalmente na estrutura de bullets que ligam um tópico a outro. A diferença maior talvez esteja no cuidado estético. Em algumas ocasiões, as linhas do tempo têm, além de fotos e vídeos, ilustrações, que imagino serem produzidas internamente. É uma iniciativa interessante, mas, realmente, não é algo para acompanhar todo os dias.

Vamos adiante.

Foi publicado nessa semana um relevante relatório sobre o papel dos veículos jornalísticos na propagação de mentiras, boatos e desinformação online. Assinado por Craig Silverman, do Tow Center for Digital Journalism, o documento mostra como a “mídia online frequentemente promove a desinformação ao tentar gerar tráfego e engajamento nas redes sociais”. Para Silverman, que também está à frente do projeto Emergent.info, cujo objetivo é verificar fatos com alto índice de compartilhamento, “há muitos canais de notícias grandes que adotam a estratégia de ‘se está acontecendo alguma coisa nós queremos apresentar no nosso site'”.

Falando ao Journalism.co.uk, ele deu dicas sobre como veículos de imprensa podem se comportar para diminuir a propagação de rumores online. Duas delas:

“Informe a eles [usuários] o que está confirmado e o que não está confirmado e tente ser claro sobre isso, criando certo entendimento, e não apenas jogando as coisas pra cima, destacando as partes mais interessantes e ‘compartilháveis’ daquilo que talvez direcione as pessoas para o acredita-se ser verdade.”

“Tenha certeza de que você está usando uma linguagem clara para indicar às pessoas que determinada informação não é verificada. […]  O tipo de linguagem que jornalistas e organizações usam para indicar se uma história não é verificada deve ser clara e consistente, assim os leitores sabem o que está – ou não – acontecendo.

Interessante ver a mudança em andamento na forma como o jornalismo constrói seus discursos sobre os acontecimentos, especialmente em um contexto de notícias em tempo real. A rigidez do lide dá lugar a algo mais parecido com uma conversa. Há uma flexibilização da linguagem e o jornalismo expõe suas entranhas ao mostrar não mais apenas o que sabe, mas também o que não sabe sobre um fato.

Mudando de assunto. Recentemente a BBC News Lab publicou uma lista dos avanços tecnológicos que mudaram e ainda vão mudar a cara das notícias. No último dia 11, o IJNet entrevistou Basile Simon, um dos envolvidos no projeto, sobre a iniciativa e o futuro do jornalismo. A entrevista é curta e não lá grande coisa, mas um dos pontos que ele enfatiza é a descentralização das redações. Olhem só:

“IJNet: Redações virtuais… o quão perto nós estamos?

Basile Simon: Novamente, reported.ly [ele já havia citado o reported.ly na resposta anterior]. Se você não é uma rede de TV tradicional – por exemplo, se você não precisa de suítes e grandes antenas, você não necessariamente precisa de um espaço central. Ao menos no Ocidente, você pode estar online (quase) em todo lugar, basta um telefone e um plano de dados. E isso não significa sinônimo de baixa qualidade: DSLRs estão incríveis, gravadores de áudio não custam nada e fazem bons programas de rádio e podcasts… e imagine se você tem sorte o suficiente para ser capaz de programar seus próprios infográficos e conteúdos interativos! Você realmente precisa de um escritório para fazer isso?”

Seguindo.

A semana que passou também viu o Flipboard lançar uma nova versão mobile. Interessante a pergunta que Mathew Ingram, do GigaOn, fez: enquanto todo mundo pensa em como se dar bem em mobile, por que o Flipboard está percorrendo caminho oposto, se preocupando com sua presença na web? Segundo o CEO da empresa, Mike McCue, para conseguir integrar melhor o app – no mercado desde 2010 e já consolidado – e a web, oferecendo aos seus aproximadamente 100 milhões de usuários uma experiência agradável de navegação também no browser.

Eu achei o novo layout bem parecido com o do Medium. Uma das novidades legais é que agora dá pra embedar revistas. Vejam o que vocês acham. Aproveitem para dar uma olhada na Tendências no Jornalismo, a revista do Farol Jornalismo.

Tá, moçada, vamos fechar a conta? Como esse é recém meu segundo carnaval sem estar de plantão após oito anos, estou em chamas para dar uma folga de tudo. Falando em folga, deixa eu avisar vocês que semana que vem a newsletter vai tirar umas miniférias. Caso queiram trocar ideias sobre jornalismo, estarei dando braçadas na enseada da gloriosa praia de Garopaba. Me desejem sol.

Antes de ir, duas coisinhas curtas.

No Quartz: Na Índia, milhões de usuários do Facebook não fazem ideia que estão usando a internet. o.O

No Poynter: Como um bom curador pode transformar uma timeline do Twitter em uma fonte de informação tão relevante quanto um site de notícias. 

Bueno, era isso então.
Bom carnaval e até o dia 27! 🙂
Moreno Osório