Buenas, gurizada!

Voltei. Foram poucos, mas preciosos diazinhos de folga. Pena que não rolou aquelas braçadas na enseada de Garopaba. Só chuva. O clima de fevereiro aqui no sul tá bem chato, na real. Mas tá. Deu pra dar uma descansada aqui no nosso maravilhoso litoral gaúcho. Muito churrasco e buffet de sorvete na capital dos condomínios. Agora é seguir o baile, engatar a segunda e encarar esse 2015.

Então vamos.

Começo com uma bela novidade: foi lançada a primeira agência brasileira especializada em jornalismo de dados, a Jornalismo++. A ideia é servir de apoio às redações, especialmente àquelas que não possuem uma equipe dedicada.

“As redações brasileiras estão, cada vez mais, compreendendo a revolução que o jornalismo de dados representa na área e percebendo o impacto que ele tem na audiência, nas receitas e em suas equipes. No entanto, a maioria não tem recursos para manter um time dedicado, que requer profissionais especializados em diferentes áreas. Mapas interativos, visualizações inovadoras, coleta e análise de dados, novos aplicativos, consultoria e treinamento são alguns dos serviços que a agência oferece”, diz o release de lançamento da Jornalismo++.

A agência está baseada em São Paulo e faz parte da J++, uma rede já existente em Paris, Berlim, Amsterdam, Estocolmo, Porto e Colônia. Eles explicam que o ++ do título é um trocadilho com programação, já que algumas linguagens trazem no nome o operador “++” (por exemplo C++), que significa “incrementar mais um”.

Massa hein? Acompanhem o pessoal da Jornalismo++ no blog e nas redes. Andei dando uma olhada no Facebook deles e vi que eles fazem uma compilação interessante do que anda rolando no mundo do jornalismo de dados.

Adiante.

Ainda no Brasil, mas mudando de assunto, cruzei com esta matéria da NYT Magazine durante a semana. Ela mostra a crescente importância do jornalismo cidadão nas favelas do Complexo do Alemão, onde a imprensa tradicional nem sempre consegue/quer contar o que de fato está acontecendo, principalmente quando o assunto é violência policial. A matéria conta como o Coletivo Papo Reto chamou a atenção da ONG Witness, que desde 1992 financia jornalismo cidadão em várias partes do mundo, depois de levar a público um vídeo que desmascarou a versão da polícia (a tradicional bala perdida) em relação à morte de uma moradora.

Ontem, lendo o blog da Witness, descobri que a matéria foi traduzida para o português. Aliás, o blog deles é uma fonte interessante de discussão sobre o potencial do jornalismo cidadão. Encontrei dicas para usar timelapse e o que a equipe da Witness espera para o jornalismo cidadão em 2015.

À medida que o jornalismo cidadão, ou o chamado conteúdo gerado pelo usuário (user generated content), ganha saliência, mais nós discutimos o papel do jornalismo em meio a tanta informação. No último dia 12, Mark Little contribuiu com o debate no blog da Storyful, a propósito dos recentes vídeos divulgados pelo Estado Islâmico que mostram reféns sendo queimados vivos em gaiolas.

À frente de um veículo que precisa lidar com esse tipo de informação diariamente, Little defende que cabe aos jornalistas verificar e catalogar esse tipo de material, assumindo uma responsabilidade em relação à História e à justiça (o conteúdo servindo como evidência de crimes), mas não divulgá-lo. Ele critica quem justifica a publicação de vídeos e fotos fortes se escondendo atrás da necessidade de “mostrar a verdade”. Para ele, embora o jornalismo não tenha mais controle sobre a circulação desse tipo de conteúdo, não é nosso papel endossá-lo.

“(…) imagens da morte são narcóticos poderosos cujo impacto diminui a cada vez que são usadas. Quanto mais nós, jornalistas, procuramos chocar à serviço da verdade, mais nos afundamos na irrelevância”, escreveu Little.

O post de Little é essencial para uma discussão que ainda engatinha: o papel do jornalismo em relação ao conteúdo gerado pelo usuário. E é melhor ainda por ser uma autorreflexão de quem está com a mão na massa diariamente. Se não temos mais o monopólio da narrativa, devemos nos encarregar apenas de ordená-las? Ou devemos também filtrá-las? Se sim, como dosar o filtro, de maneira a manter a credibilidade, sabendo que a verdade está lá fora ao alcance de um google?

Enfim, as questões são muitas. Mas tudo indica que o tratamento dado ao jornalismo cidadão está evoluindo, ainda que, de vez em quando, role uma cagada maior. É o que Mathew Ingram chama a atenção neste post. Ele diz que todo mundo gosta de apontar o dedo quando algo dá errado, como quando os usuários do reddit identificaram o suspeito errado no caso das explosões em Boston (aliás, uma cobertura recheada de desastres), mas às vezes é bom destacar bons exemplos.

Ele cita dois. O primeiro é justamente o caso das favelas cariocas narrado pela NYT Magazine. O segundo é a cobertura do conflito na Ucrânia pelo Bellingcat, em especial o caso da queda do voo MH17. Baseando-se em evidências registradas por usuários, e equipe comandada por Eliot Higgins chegou à conclusão de que foram milicianos pró-russos que derrubaram o avião da Malaysia Airlines. Mas isso vocês, leitores assíduos da newsletter, já sabem, pois foi assunto na 3ª edição.

Pra não perder o gancho, o Verification Handbook foi lançado EM UCRANIANO. Na mesma vibe, dicas do Craig Silverman, organizador do livro e especialista em verificação digital, sobre como avaliar se uma informação é rumor ou não.

Seguindo.

Olhem que interessante esta matéria publicada no Poynter sobre uso de hangouts por jornalistas nos EUA como uma prática de networking e troca de experiências profissionais. Em um momento em que cresce o home office e ampliam-se as possibilidades de trabalho como freelancer, entrar em contato com colegas sem necessariamente ter um motivo específico (pauta, entrevista, dúvida, reunião de trabalho, etc) pode ser uma boa maneira de oxigenar o cotidiano e ter boas ideias.

Olha o que escreveu Melody Kramer, a autora do texto:

“O que eu realmente gosto nesse tipo de iniciativa é ser factível para qualquer um em qualquer redação. Encontre algumas pessoas, decida se você quer conversar por vídeo ou por chat, e então comece a trocar ideias. Manter um chat ou hangouts regulares parece algo mais íntimo que um grupo no Facebook, e permite uma conversa mais detalhada do que os 140 caracteres permitidos no Twitter. E a resposta para o grupo parece ser mais detalhada e mais imediata”.

Melody ouviu vários colegas que mantêm reuniões e conversas informais via hangout e pediu que eles dessem algumas dicas. Deem uma olhada lá.

Quando o sujeito se mete a pesquisar jornalismo começa a aparecer tanta coisa que, olha, às vezes é meio desesperador. Nessa semana topei com uma tese sobre papel do fixer na cobertura internacional. Só pra esclarecer, fixer é aquela pessoa, quase sempre um local, que o correspondente contrata em terras estrangeiras para dar uma mão, seja traduzindo, dirigindo ou mesmo servindo como segurança.

Jørgen Skrubbeltrang, autor do trabalho, sugere um novo olhar sobre o fixer:

“Recentes estudos problematizaram a cooperação entre correspondentes e seus fixers. Eles focaram sua atenção em como o fixer, visto como os olhos e ouvidos do correspondente, às vezes coletava informações a seu favor. Isso nos leva à discussão sobre como um fixer tendencioso pode fornecer ao correspondente informações seletivas ou erradas, que, por sua vez, podem ser reportadas como fatos objetivos. No entanto, minha pesquisa sugere que o fixer e o correspondente devem ser considerados iguais, atores que se influenciam mutualmente.”

“Em outras palavras, os fixers possuem um papel crítico na produção das notícias internacionais. Eles não são apenas os olhos e os ouvidos dos correspondentes; eles levam habilidades valiosas ao trabalho dos correspondentes. Seu trabalho muitas vezes é responsável pelas bases das reportagens dos correspondentes.”

Fascinante e complexo, não?

Com essa vou fechando a conta. Mas – sem querer abusar da frase infame – o ano está recém começando. Vamos conversar muito em 2015. Quem sabe por hangout, por que não? Por hoje, aproveitemos a sexta. E boa sorte aos plantonistas!

Pra terminar, três coisas:

  1. Como seis veículos de imprensa estão usando o Snapchat.
  2. Uma ferramenta para procurar fotos no Instagram por data e geolocalização.
  3. O TweetDeck lançou recurso para trabalhar em equipe em um mesmo perfil.

Bueno, era isso então.
Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório