Buenas, gurizada!

Como vão as coisas em mais uma sexta-feira em nossas vidas?

Antes de começar eu queria mostrar pra vocês este texto do Giuliander Carpes, nosso correspondente abaixo do nível do mar. O Giuliander está passando uma temporada na Holanda para estudar e escreveu, a pedido do Farol Jornalismo, um texto sobre as recentes iniciativas jornalísticas lançadas por lá. O texto foi publicado no nosso canal no Medium, espaço que eu gostaria ver evoluir ao longo de 2015. Por isso, convido: se vocês tiverem alguma ideia, quero muito ouvi-la.

Ok, vamos lá.

Hoje vou ser meio monotemático. A razão é este texto aqui, publicado no Gawker durante a semana, no qual um jornalista chamado James King conta como é trabalhar no tablóide britânico Daily Mail. King, que disse ter trabalhado um ano na versão nova-iorquina do site, revela detalhes de uma rotina jornalística dependente da “desonestidade”, “roubo de material protegido por copyright” e “níveis de sensacionalismo tão absurdos que podem ser enquadrados como fabricação”.

O depoimento foi compartilhado mais de 5 mil vezes no Face (até meados desta sexta) e circulou no meio jornalístico dos EUA e do Reino Unido. Roy Greenslade, comentarista de mídia do Guardian, repercutiu as revelações e ouviu o jornal.

Ao relatar como era o trabalho na redação do Mail, King não só denuncia, mas sistematiza um modus operandis conhecido, principalmente por quem já trabalhou em portais de notícias. É aí que está, a meu ver, a importância do texto My Year Ripping Off the Web With the Daily Mail Online. A narrativa desnaturaliza práticas jornalísticas arraigadas em um cotidiano pouco propício a reflexões, expondo absurdos que qualquer estudante de primeiro semestre é capaz de identificar. E King nem precisou fazer grandes construções teóricas. Bastou um relato detalhado da sua rotina e das relações que mantinha na redação.

Embora não tenhamos como ter saber se King exagerou em algum ponto, ou mesmo se mentiu ou omitiu, o texto traz questões relevantes sobre um modelo muito reproduzido e, na minha opinião, pouco problematizado. O burburinho gerado pelo texto é um sinal: ainda são poucas as reflexões sobre esse tipo de jornalismo, ainda que quase todo mundo reconheça os problemas que ele traz consigo.

Enfim, recomendo bastante a leitura. É longo, mas vale a pena. Vocês lendo ou não, gostaria de destacar alguns trechos que achei interessantes. Vamos lá:

“Em pouco mais de um ano trabalhando na redação de Nova York do Mail, eu vi padrões básicos de jornalísticos e de ética serem casualmente e regularmente ignorados. Eu vi o trabalho de outras publicações ser roubado. Eu observei editores do jornal online de língua inglesa com o maior tráfego do mundo publicarem informações que eles sabem ser imprecisas.”

“O processo de produção era simples. Durante um turno de trabalho – das 8h até por volta das 18h – quatro editores de notícias sentados perto da mesa de Martin Clarke (o publisher) distribuíam aos repórteres matérias oriundas de uma lista continuamente atualizada de artigos de outras publicações, lista a qual eu não tinha acesso. Durante o dia, eles monitoravam o tráfego do site para determinar o que estava ganhando cliques e o que deveria ser retirado da capa.”

“Quando um redator ficava livre para escrever uma matéria, ele ou ela apenas gritava “Estou livre” e um editor passava um link de um artigo da lista. Em muitos casos, essa solicitação vinha acompanhada de uma manchete ‘sensacionalizada’ – que podia ou não ser precisa – para que o redator a usasse.”

“Durante um típico turno de 10 horas, eu pegava de quatro a sete matérias. Ao contrário de outras publicações em que trabalhei, redatores não eram solicitados a encontrar suas próprias histórias ou telefonar para fontes. Nós apenas recebíamos histórias escritas por outras publicações com a instrução de reescrevê-las. E ao contrário de outras publicações onde redatores são encorajados a achar um ângulo exclusivo ou adicionar informações não existentes na reportagem original, o jeito de produzir uma matéria sua no Mail era assinar o texto de alguém como se fosse seu.”

King cita uma oportunidade em que um editor pediu que ele pegasse uma matéria exclusiva do New York Times e apenas reempacotasse o conteúdo chamando a atenção para algum aspecto emocional da história que o NYT não tenha percebido.

Em outra, lembra da vez que um editor publicou uma foto encontrada das redes sociais de uma mulher que havia morrido. O detalhe é que se tratava de uma homônima. Ela não só estava viva como pediu que sua imagem fosse retirada do site. Segundo King, o conteúdo foi retirado, mas sem nenhum tipo de correção.

King também fala sobre a sua responsabilidade e as suas motivações ao trabalhar no Mail, expondo a delicada relação entre refutar uma situação com a qual não concorda, por um lado, e não só precisar pagar as contas como também se sentir tentado a trabalhar em um grande e conhecido veículo jornalístico, por outro.

“Eu não havia esquecido da reputação do Mail ao ir trabalhar lá. Sua abordagem de pirataria à precisão e à propriedade intelectual chamou a atenção da mídia nos últimos anos. (…) Eu obviamente estava preocupado com a reputação da publicação, mas percebi que, com o crescimento de sua popularidade, o Mail poderia ter atingido um padrão jornalístico mais elevado. Uma reportagem de 2013 do NYT sobre o crescimento do Mail me deu mais confiança de que eu iria fazer parte de uma publicação credível, o que fez com que eu me entusiasmasse com a possibilidade de trabalhar para um veículo jornalístico de tamanho alcance.”

(…)

“O DailyMail.com provavelmente vai me descrever como um descontente ex-empregado defendendo interesses particulares. Beleza. Mas a verdade é que me pagaram uma quantia razoável de dinheiro por um trabalho relativamente acéfalo. Me ofereceram um trabalho full-time e raramente fui incomodado pelos editores.”

De fato, o Daily Mail descreveu James King como um freelancer que se tornou indigno de confiança e que se atrasava muitas vezes, inclusive tendo faltado ao trabalho 14 vezes em 10 meses, de acordo com o publicado por Greenslade. Segundo Rhiannon Macdonald, managing editor do Mail, King já havia oferecido ao Washington Post um texto parecido com o publicado no Gawker, mas ele foi recusado por apresentar “imprecisões” e por o autor “não ser digno de confiança”.

No fim do texto, King cita a linha tênue entre a agregação (péssima palavra, talvez possamos substituir por curadoria) e plágio. E aí temos outra discussão relevante. Em um ecossistema jornalístico em que todo o veículo pode ser global, como lidar com o conteúdos de terceiros? Trata-se de um tema complexo, que vai desde o desrespeito a direitos autorais até ao atropelamento de padrões jornalísticos mais básicos, como os denunciados por King. E não adianta fechar os olhos ou assumir uma postura de negação: é uma realidade que precisa ser problematizada.

Enfim: leiam. Quem quiser mais, o Jim Romenesko tem. Paul Bradshaw, do Online Journalism Blog, também.

Mudando de assunto.

O Pew Research Center publicou um estudo sobre o papel do noticiário local na era digital. Eles analisaram o ecossistema noticioso de três cidades americanas (Denver, no Colorado; Macon, na Geórgia; e Sioux City, em Iowa) e esmiuçaram diversos parâmetros. Pelo que vi no overview da pesquisa, há algumas semelhanças e várias diferenças nos hábitos de consumo dos três locais.

Entre as semelhanças estão: 1) a preferência por emissoras de TV na hora de se informar; 2) poucos se informam em meios diferentes, como governo; 3) cerca de um em cada dez consideram as redes sociais importantes para notícias locais; e 4) cerca de 10% ligaram para um programa de rádio ou TV ano passado (!).

Uma tese que eu tenho (que obviamente outros também já devem ter pensado) é que, em um ambiente de cobertura internacional, cresce a importância do noticiário local. Hoje, a qualquer momento, qualquer veículo local, por menor que seja a cidade em que atua, pode virar fonte global de uma hora para outra. Vide Santa Maria no caso da Kiss. Daí a importância de valorizar e investir em veículos locais.

Vamos adiante.

Quem vive ou acompanha de perto o desafio das faculdades de jornalismo em se manter relevantes e atualizadas em um ambiente de constante mudança deveria dar uma olhada neste texto da Sarah Barlett, coordenadora do curso de jornalismo da Universidade da Cidade de Nova York (CUNY). Trata-se de um relato do que ela está enfrentando após um ano à frente da coordernação da escola de jornalismo.

Ela demonstra como é difícil balancear uma equação cujas duas principais variáveis são excelência acadêmica e capacidade de se adaptar a um ambiente volátil. Em outras palavras, como oferecer um curso capaz de formar alunos com espírito crítico, processo que não se dá de um dia para o outro, e ao mesmo tempo acompanhar as mudanças de uma indústria com fome de inovação?

Sarah não tem a resposta para essa pergunta, por supuesto. Mas, ao dividir as angústias com o mundo, ela faz a gente lembrar que esta é uma discussão global, e que todos os envolvidos podem contribuir de alguma forma, seja estando em Nova York ou em uma cidade no interior do Rio Grande do Sul.

Pra fechar, três coisas rápidas.

Bueno, era isso então.
Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório