Buenas, gurizada!

Que tal esse Dia do Trabalho, hein? Aqui em Porto Alegre o clima é outonal, o céu ainda com aquele lindo azul de abril, embora já estejamos em maio. E é porque a rua está chamando que vamos lá, sem más delongas porque hoje o papo é longo.

Bom, vocês devem ter visto que saiu o State of the News Media 2015, um dos mais importantes relatórios sobre a situação da mídia norte-americana, produzido anualmente pelo Pew Research Center. Havíamos dito no Facebook durante a semana que a newsletter de hoje daria uma aprofundada nos resultados.

Pois bem, vamos lá.

Começando pelos dados mais gerais, apresentados na introdução da pesquisa:

  • Nos sites de notícias, a audiência oriunda de mobile segue crescendo, mas quem acessa pelo desktop tem um tempo de permanência maior;
  • Consolidação da web social, com o Facebook como porta de entrada de notícias para mais de 50% dos entrevistados;
  • A importância das TVs locais: crescimento de 3% de audiência nos telejornais noturnos e 2% nos matutinos;
  • Queda na audiência das TVs a cabo: 8% nos principais canais;
  • O (re)nascimento dos podcasts. Só os programas da NPR tiveram aumento de 41% nos downloads em um ano;
  • O faturamento da mídia impressa segue caindo: 4%;
  • Já o faturamento das mídias digitais subiu, em média, 18%, sendo que 37% do total vêm do mobile (eram 25% ano passado);

Agora, vamos dar uma olhada mais detalhada em pontos que considero sensíveis a uma tendência mais global – consequentemente, mais útil para nós. Por isso vou deixar de fora as análises das TVs (abertas e a cabo) e rádios locais, por considerar que os resultados dizem respeito a um cenário mais específico dos Estados Unidos.

Vamos nessa então.

Jornais impressos. Depois de subir nos últimos dois anos, a circulação caiu 3%. O que contribuiu para a diminuição do faturamento dos jornais com publicidade: a queda foi de 5% em relação ao ano anterior. Desde 2005 a queda é livre. Há dez anos o faturamento era de US$ 47,4 bilhões, hoje é de US$ 16,4 bilhões.

Quem lê jornais impressos segue fiel à versão em papel: 56% dos entrevistados sujam as mãos de tinta para ler notícias, enquanto 11% também usam a versão desktop e/ou mobile. Apenas 5% leem seu jornal favorito apenas no formato digital.

O número de empregos em redação também segue caindo. Em 2012 eram 38 mil; em 2013, 36,7 mil. Em números absolutos, as mulheres perderam menos postos de trabalho: 13.780 para 13.657, de 2012 para 2013. A série histórica anotada pelo censo da American Society for News Editors teve seu maior índice em 1989, quando havia 56,9 mil jornalistas empregados em redações de jornais.

No digital, os maiores jornais em audiência coincidem com os maiores em circulação no país (com exceção de cinco jornais baseados no Reino Unido que estão entre os 25 com maior tráfego online). O top 5 em número de visitantes únicos por mês (janeiro de 2015) são: USAToday (54.548 milhões de UV), NY Times (53.966) , Daily Mail (51.108), Washington Post (47.815) e The Guardian (28.152).

Uma curiosidade destacada pelo Pew é que, apesar dos números da audiência digital superarem – e muito – os da circulação dos impressos, a maioria das pessoas dizem ler o jornal na sua versão em papel. Leiam o que o relatório diz sobre isso:

“Por que a discrepância? Uma pista está no time spent (tempo gasto no jornal online). A média de tempo de um visitante no site e nos apps do NYT é de 4,6 minutos – e esta é a maior média entre os jornais top 25. Assim, a maioria dos visitantes são ‘flybys’, chegando no jornal por um link clicado nas redes sociais ou enviado via email, e talvez não considerando essa atividade como a experiência de ‘ler um jornal’, mas simplesmente navegando em uma notícia/reportagem online.”

Mídias digitais. Aqui, diferentemente dos jornais impressos, o critério de quem é mídia digital é um pouco mais flexível. Vai desde redes tradicionais locais a marcas internacionais de notícias. Isso faz com que haja uma disparidade de audiência entre os 10 primeiros da lista, diz o Pew. À frente está o Yahoo-ABC News (127 milhões de visitantes únicos em janeiro, desktop e mobile) e em décimo está o Daily Mail (51 milhões). Em todos os casos do top 10, a audiência mobile supera a do desktop.

A tendência de crescimento do mobile fica evidente quando se amplia a análise para os 50 maiores veículos digitais. Destes, 39 obtêm mais audiência de dispositivos móveis do que de desktops. Em geral, os sites que possuem uma audiência maior oriunda do desktop são portais mais antigos, lançados ainda na década de 1990. Por exemplo, o MSN News, o portal da Microsoft, cuja audiência do desktop (22.138 visitantes únicos em janeiro) é muito superior à do mobile (6.033).

O mesmo acontece com as marcas nativas digitais. Quem está há mais tempo no mercado, como o CNET, ainda tem uma audiência muito baseada nos acessos via desktop (21.177 contra 11.307 de mobile). Do outro lado estão marcas jovens como Huffington Post e BuzzFeed, com, respectivamente, 67.095 de mobile e 44.184 de desktop, e 57.724 de mobile e 22.749 de desktop.

O faturamento de publicidade nas mídias digitais subiu 18% de 2013 para 2014. Em números absolutos, passou de US$ 43,1 bilhões para US$ 50,7 bilhões. Dentro desse universo, chama a atenção o salto do montante gasto em mobile: de US$ 10,7 bilhões gastos em 2013 para US$ 19 bilhões em 2014, um aumento de 78%. A publicidade em mobile totaliza 37% do investido no digital. Antes era 25%.

Dos US$ 50,7 bilhões de faturamento, 61% (US$ 30,9 bilhões) estão indo para cinco empresas: Google, Facebook, Microsoft, Yahoo e AOL. Destaque para o Facebook, que, em dois anos, mais do que dobrou sua receita oriunda de publicidade: US$ 2,2 bilhões em 2012 para US$ 5 bilhões em 2014. No universo de anúncios, o banner segue como o formato preferido, mas o vídeo cresceu significativamente: US$ 3,82 bilhões para US$ 5,96 bilhões, de 2013 para 2014.

Liderado pelo Serial, os podcasts vem apresentando um crescimento constante nos últimos dois anos. Segundo o Pew, “avanços na tecnologia – em particular, o rápido crescimento no uso de smartphones e de aparelhos mobile e a facilidade de escutar no carro – contribuíram para um ligeiro aumento no interesse por podcasts.

E aí, deu pra ter um panorama da situação? Se vocês quiserem ler outras análises do relatório, sugiro a do Nieman Lab e a do Journalism.co.uk.

Vamos adiante.

Durante a semana tivemos duas coberturas importantes de breaking news events: Nepal e Baltimore. Ambas com grau elevado de complexidade e com necessidades distintas de contextualização. No Nepal, o desafio é, sob diversos pontos de vista, apresentar o local atingido e tentar dar uma noção de quão catastrófico foi o terremoto. Em Baltimore, trata-se de segurar uma transmissão ao vivo (seja na TV ou na web) oferecendo informações – atuais e de background – que auxiliem as pessoas a entenderem o que estava acontecendo na cidade e por quê.

Eu gostaria de mostrar para vocês alguns poucos links sobre esses dois assuntos que me chamaram a atenção. Como são duas coberturas massivas, estive longe de acompanhar tudo o que rolou durante a semana, mas creio que, de alguma forma, esses materiais fazem referência aos desafios jornalísticos impostos pelos dois acontecimentos – e a como o jornalismo se respondeu a esses desafios.

O primeiro é um vídeo produzido pelo reported.ly que usa o Google Earth para mostrar alguns locais de Kathmandu destruídos pelo tremor. Uma ideia simples e eficiente. Guiados pela narração do editor Andy Carvin, nós saltamos de um lugar para outro do mapa da cidade, visualizando o local/prédio/monumento devastado, às vezes até em 3D. O interessante é que dá pra ter uma ideia do tamanho e da geografia da capital nepalesa, a distância entre um local e outro dentro da cidade, assim como em relação ao Everest – onde houve avalanches nos acampamentos que servem de base para a escalada. Não sei se alguém já havia feito algo parecido, mas achei uma baita sacada da equipe do reported.ly.

Outro material que me chamou a atenção foi o post de Steve Outing, no blog Media Disrupts, sobre o uso de drones em coberturas como a do Nepal. Ele expõe um ponto de vista interessante e quase nunca abordado em situações como essa: ao contrário do que podem sugerir as imagens feitas a partir do chão (fotos e vídeos), os locais atingidos nem sempre estão totalmente devastados. É aí que entra o drone (assista a este vídeo de um drone sobre Kathmandu): para Outing, ao mostrar que boa parte de Kathmandu segue de pé, esses aparelhos contribuem para que nós, que estamos longe do acontecimento, tenhamos uma noção mais aproximada de qual é a situação no local. Como ele diz: “Não se trata de rebaixar o grau da catástrofe, mas sim de contar a história para aqueles que não estão lá”.

Agora, Baltimore.

Tenho a impressão de que quando uma cobertura de breaking news precisa dar conta de um contexto sócio-histórico, a coisa complica. Vide a cobertura da Globonews de terça-feira, quando houve revolta nas ruas após o enterro de Freddie Gray. Sem contar com informações contextuais essenciais para ilustrar a transmissão com a complexidade que o cenário possui, a apresentadora Leilane Neubarth acabou por reduzir uma situação ligada a aspectos econômicos, sociais e raciais a apenas um bando de marginais saqueando e incendiando lojas.

A exemplo de Boston e Ferguson, a cobertura de Baltimore deve render boas (autor)reflexões jornalísticas. Sugiro fortemente a leitura desta, assinada por Sarah Oates no site da American Journalism Review. Ela fala exatamente sobre a dificuldade de cobrir eventos como os de Baltimore sem cair no sensacionalismo e/ou ficar na perigosa porém confortável superfície do senso comum.

Diz Oates:

“Jornalistas lidam com esse tipo de desafios todo o tempo. É com isso que eles estão lidando agora, em Baltimore. Não há um jeito perfeito de contar a história; não há uma forma de resolver as coberturas de conflito. O que jornalistas podem e devem fazer é se apegar aos parâmetros profissionais – evitar o sensacionalismo, checar os fatos, fornecer diferentes pontos de vista, e oferecer tudo isso em um pacote que dê ao leitor/telespectador/usuário informações com viés crítico.” 

Não é fácil fazer isso quando a cobertura tá pegando fogo, eu sei. Mas é preciso tentar. Não faltam recursos para dar à cobertura a complexidade que ela merece. Basta ir atrás. Uma das coisas mais fáceis de se fazer é procurar pessoas competentes que estão no local e ouvi-las. Elas são muito mais competentes que nós para analisar a situação, ao menos em um primeiro momento (estamos falando de breaking news). Este texto “o que você precisa saber” sobre Baltimore é um exemplo. O autor cobre a cidade há décadas. Ele está no Twitter. Vamos ouvi-lo.

A American Journalism Review analisou como a mídia norte-americana está cobrindo os eventos de Baltimore. O resultado está neste post. Bem interessante. E a Storyful já encontrou algumas imagens falsas publicadas durante a cobertura.

Pra ir finalizando esta que é a mais longa das newsletters, um texto da Marcela Donini sobre as últimas notícias envolvendo crowfunding e jornalismo.

Quem paga por jornalismo?

O “itunes de notícias” completou um ano. Quem acompanha o Farol há mais tempo sabe que não estamos falando de nenhuma iniciativa da Apple. É mais uma inovação holandesa bem-sucedida no mercado jornalístico, o Blendle. A startup que vende reportagens avulsas – por isso a comparação com o iTunes – fez aniversário e compartilhou as lições do seu primeiro ano.

Com 250 mil usuários, a maioria com menos de 35 anos, eles celebram o fato de terem provado que as pessoas querem sim pagar por jornalismo de qualidade. Mais ainda se uma única plataforma reúne assuntos e veículos diversos e facilita o pagamento – no Blendle, o usuário registra uma vez seu cartão de crédito e paga entre 15 e 30 centavos de euro por cada matéria que quer ler. Mais uma vez, eles reforçaram a ideia de que a assinatura de um pacote de matérias talvez não seja o melhor modelo para o jornalismo digital (sempre citando a exceção do paywall do New York Times, que, vejam só, também já aderiu ao Blendle).

Em resumo, as 4 lições são:

1. Microfinanciamento funciona para o jornalismo – mas não para notícias.
O que eles querem dizer é que as pessoas estão dispostas a pagar por materiais especiais, e não pelo feijão-com-arroz do jornalismo. O que não é novidade, já que todo projeto de crowdfunding, por exemplo, precisa ser muito bem planejado e oferecer um “algo a mais” para ser bem-sucedido. “As pessoas não querem pagar pelo ‘o quê’, elas querem gastar dinheiro no ‘por quê'”, diz Alexander Klöpping, cofundador do Blendle e autor do texto sobre o aniversário da startup.

2. Notícia “caça-clique” é punida com pedido de reembolso.
No Blendle, os usuários podem pedir seu dinheiro de volta se não gostam de uma matéria. As revistas de fofoca têm a maior média de reembolso. “O Buzzfeed não funcionaria se as pessoas tivessem que pagar por artigo”.

3. Microfinanciamento e reembolso criam ótimas métricas de qualidade.
Pageviews é furada. 55% das visitas duram menos de 15 segundos. Ou seja, não é uma métrica valiosa para o jornalismo. Saber quais matérias foram mais vendidas no sistema de microfinanciamento e quais tiveram mais reembolso dão um norte mais interessante para os veículos.

4. A receita por microfinanciamento é adicional.
O Blendle não fez ninguém cancelar assinatura de jornal, ele conquistou um novo grupo, um público que não pagava mais por notícia.

Para o próximo ano, o Blendle planeja ampliar os horizontes. E pra quem acha que os holandeses é que são especiais e num país pequeninho é fácil convencer as pessoas a pagar por conteúdo jornalístico (lembram do De Correspondent?), em março os caras fizeram parceria com NYT, Washington Post e Wall Street Journal para vender suas matérias avulsas.

Falando em dinheiro, para encerrar, o projeto do site de notícias El Español arrecadou o equivalente a R$ 11 milhões em uma campanha de financiamento coletivo, um recorde para o mercado.

Pra fechar, duas coisas rápidas:

Bueno, era isso então.
Bom feriado, um ótimo fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório


Update 06/05/2015: Corrigimos duas informações incorretas publicadas quando o post foi ao ar. Primeiro, o há dez anos, o faturamento dos jornais nos EUA era de US$ 47,4 bilhões, e não US$ 46,7 bilhões. Segundo os acessos únicos do Yahoo e Daily Mail são 127 e 51 milhões mensais, e não 127 e 51 mil mensais. Quem recebeu o texto originalmente por email será informado na newsletter do dia 08/05.