Buenas, gurizada!

Perdão pelo atraso no envio da newsletter. Tudo culpa do Nadal e do Dimitrov.

Antes de qualquer coisa, preciso corrigir duas informações erradas da newsletter passada. Ambas referentes ao State of the News Media. Primeiro, o faturamento dos jornais em 2005: o número correto é 47,4, e não 46,4 milhões de dólares. A segunda é o número de visitantes únicos do Yahoo News-ABC e do Daily Mail, respectivamente primeiro e décimo lugares em audiência digital nos EUA. O correto é 127 milhões e 51 milhões. Eu havia colocado esses mesmos números, mas os deixei na casa do milhares. No site, onde a newsletter é publicada um tempinho após o envio para o email de vocês, a informação também foi corrigida.

Aliás, nunca mencionei aqui, mas no site do Farol Jornalismo tem o arquivo de todas as nossas newsletters. Bem, quase todas. Há um gap entre a edição 35 e a 43. Mas isso será resolvido em breve pela nossa ~numerosa~ equipe.

Aproveitando o ensejo, não sei se o Facebook deixou vocês verem, mas agora vamos publicar cards com alguns highlights da última newsletter durante a semana seguinte ao envio. Iniciamos na que passou. Dá pra conferir aqui, aqui e aqui.

Por fim, falando em Facebook, estamos quase alcançando mil curtidas. Muito obrigado aos que nos acompanham por lá! Convidem amigos a curtir também.

Beleza, agora vamos nessa.

Começo sugerindo fortemente a leitura deste texto do Leandro Beguoci sobre a leitura muito particular que o Estadão fez do State of the News Media 2015. No editorial “O papel resiste”, publicado no último domingo, o jornal sublinhou um dos aspectos da pesquisa do Pew Research Center para afirmar que o papel está bem, obrigado. O texto destaca o fato de 56% dos leitores de jornais preferirem ler jornais no papel (um ponto percentual a mais que na pesquisa anterior). E que apenas 5% dos leitores de jornais leem jornais exclusivamente em dispositivos móveis.

Não repeti e destaquei a palavra jornais por acaso: os dados fazem referência exclusivamente a leitores de jornais. Pessoas que sempre leram jornais tendem a continuar lendo jornais. Como a minha mãe, por exemplo, que assina em papel e deve, imagino, continuar assinando por muito tempo. O máximo que pode acontecer é ela migrar para o tablet, como eu fiz. Mas deixar de ler jornal? Acho difícil.

O número que parece apontar uma tendência (irreversível) é outro: a circulação de jornais nos EUA segue caindo. Nesta pesquisa foi de 4% para os exemplares que circulam em dias úteis e 3% no geral. Um número não tão alarmante quanto o do anos passado (queda 22% de 2012 para 2013 na circulação dos dias úteis), mas ainda assim uma queda considerável. Ainda mais se levarmos em conta a queda na receita com publicidade e no número de empregos em redação – dados que o Estadão não comentou.

Mas chega de falar. Agora é a vez do Beguoci:

“Não tenho dúvidas de que o papel faz muitos leitores felizes, de que o papel é importante e que pode continuar tendo relevância na estratégia de alguns veículos. Mas é uma importância em queda – caso contrário, os jornais estariam esbanjando saúde financeira.

O Estadão, assim como outras empresas de comunicação, é vítima da “síndrome de Kodak”. A empresa foi uma das líderes do mercado de filmes fotográficos durante muito tempo. E continuou sendo, cada vez mais. Até que esse mercado acabou. Enquanto o mundo caminhava para as câmeras digitais, a Kodak continuava apostando na felicidade dos filmes fotográficos. Apesar das lições do passado, algumas empresas de mídia se esforçam, dia após dia, para seguir o exemplo da Kodak.”

Antes de passarmos para o próximo tópico, acho importante frisar que não se trata de negar a relevância dos jornais, nem de dizer que eles morrerão amanhã. Não. Os jornais ainda fazem a cobertura mais relevante para o debate público no Brasil, e devem seguir sendo impressos por muito tempo. Mas essa relevância também está no digital. Ou seja, o que importa não é a plataforma, mas a competência e a credibilidade dos jornais. A questão aqui é, portanto, observar tendências. E os números apontam para o desaparecimento do jornal impresso, e antes disso, para dificuldades financeiras cada vez maiores. É disso que estamos falando.

Para quem quiser mais: Five paradoxes of a dying press.

Vamos adiante.

As usual, um pouco de (críticas) ao algoritmo do Facebook.

Pesquisadores ligados ao Facebook publicaram um estudo na revista Science sobre a exposição de usuários à diversidade ideológica em opiniões e em notícias na rede social de Mark e seus amigos. O estudo foi divulgado ontem e a reação foi imediata. Selecionei três textos. O primeiro é de um professor e pesquisador da Universidade de Michigan chamado Christian Sandvig. O segundo é da pesquisadora Zeynep Tufekci, que ficou conhecida pelo texto em que criticou o NewsFeed por ignorar os primeiros acontecimentos em Ferguson. O terceiro é do Eli Pariser, do Filter Bubble.

Em resumo, o estudo do Facebook sugere que as relações que mantemos têm maior influência que as escolhas feitas pelo algoritmo em relação aos conteúdos que clicamos e/ou que aparecem no nosso NewsFeed. Diz o abstract: “Comparado com o ranqueamento do algoritmo, as escolhas individuais sobre o que é consumido têm um efeito mais forte ao limitar a exposição a conteúdos cross-cutting” (que é como eles chamaram os conteúdos não alinhados com a  posição ideológica do usuário)

Isso foi feito a partir da observação de 10 milhões de usuários que identificaram suas posições políticas em seus perfis. Entre outros resultados, o estudo descobriu que o algoritmo filtra 1 em 20 (5%) conteúdos cross-cutting do NewsFeed de quem se alinha com ideias conservadoras e 1 em 13 (8%) de quem se alinha com ideias liberais. No entanto, “‘escolhas individuais’ sobre o que consumir” limitam mais (“Individual choice has a larger role in limiting exposure to ideologically cross cutting content“). Conservadores clicam em 15% dos conteúdos cross-cutting, enquanto os liberais clicam em apenas 6% desses conteúdos.

(Obviamente o resumo que fiz é redutor e não dá conta da complexidade do estudo. É sempre interessante dar uma olhada no original e fazer sua própria leitura.)

No momento em que o Facebook é cada vez mais pressionado a assumir sua parcela de responsabilidade no debate público (nos EUA), esse estudo vem bem a calhar, não? Não à toa Sandvig o apelidou de “estudo não é culpa nossa”.

Mas comecemos pelas críticas de Pariser, as mais brandas dos três artigos.

Pariser diz que a conclusão do estudo é exagerada e chama a atenção para outro aspecto do Filter Bubble: os algoritmos não privilegiarem conteúdos importantes para a democracia: “notícias e informações sobre tópicos sociais relevantes”.

“Na divulgação à imprensa, o Facebook enfatizou que a ‘escolha individual’ importa mais do que os algoritmos – que o fato de as pessoas fazerem amizades e escolhas que as protegem de conteúdos com os quais não concordam são os principais culpados em qualquer bolha que esteja acontecendo. Acho isso um exagero. É certo, amigos fazem a diferença nas mídias sociais. Mas o fato de o efeito causado pelos algoritmos ser tão forte quanto evitar opiniões contrárias é que é importante.”

Subindo o nível da crítica, vamos ao texto de Zeynep Tufekci.

A pesquisadora bate forte no estudo ao questionar o método utilizado, especialmente a amostragem (usuários que tenham se posicionado politicamente). Para Tufecki, o fato de amostragem representar uma pequena parcela dos usuários (4%, segundo ela) compromete o pilar que sustenta a ideia de amostra: o fator randômico.

“O fator mais importante de uma amostra é a casualidade, onde cada unidade tem uma chance igual de seleção, o que nos permite fazer coisas incríveis, como prever resultados de eleições a partir de pequenas amostras que representam milhares. Às vezes, pesquisadores usam amostras convenientes – quem eles podem facilmente encontrar -, e isso pode ser ok, ou não, dependendo de como essa amostra vai se comportar quando comparada com o universo do qual faz parte. Às vezes, como agora, a amostra afeta o comportamento: é quase certo que quem identificou suas preferências políticas vai se comportar de maneira diferente, em média, dos que não se posicionaram ideologicamente – quando o comportamento em questão é compartilhar / clicar em conteúdos que desafiem seu posicionamento político.”

Na sequência do texto, ela aponta outras fragilidades do estudo e afirma que os resultados mais importantes não foram destacados pelos autores, e termina dizendo o seguinte: “Fico feliz que o Facebook esteja publicando suas pesquisas, mas eu só posso balançar minha cabeça em sinal negativo sobre como os resultados reais estão escondidos e como comparações irrelevantes são assumidas na conclusão”.

Pra terminar o bombardeio, a opinião de Sandvig (aliás, que foi citado por Tufecki).

O pesquisador critica o caráter defensivo assumido pelo artigo em relação ao fato de que, querendo ou não, o Facebook contribui para a polarização política.

“(…) no fim do artigo diz o seguinte: ‘nós não julgamos o valor normativo a respeito da exposição a conteúdos cross-cutting’. Isso é estranho, pois há um grande consenso de que a exposição a diversas fontes de notícias é fundamental para a democracia. Pesquisas sobre mídias sociais têm – quase universalmente – expressado preocupação sobre os perigos do crescimento da seletividade e da polarização. Mas talvez vocês não queiram dizer que polarização é ruim quando vocês acabaram de descobrir que o seu próprio produto ajuda a salientá-la.”

Vou parar por aqui, mas o assunto segue. Acho que com os trechos selecionados deu pra sentir o tom da discussão. Apesar de estar sendo feita lá fora, me parece interessante trazê-la para o nosso contexto. É possível, por exemplo, estabelecer relação entre a impressão de existir uma crescente polarização política insalubre no país e o fato de que 83% dos brasileiros conectados usarem o Facebook?

Adiante.

Pausa para algo leve: formação do parlamento britânico em Lego, a única coisa que eu vi (a única que importa, diz o Mashable) sobre a eleição na terra da rainha.

Ok.

No começo da semana foi noticiado que o Circa, uma das iniciativas jornalísticas mais inovadoras que vi nos últimos tempos, não anda muito bem. Para esta análise do NiemanLab, dentre as possíveis razões para o projeto não ter engrenado estão a falta de personalidade editorial e de reportagem original (efeitos colaterais da aposta na curadoria e no formato atomizado). Dizem que o Twitter pode comprá-lo. A ver.

Enquanto isso, o Banjo esbanja (sorry) saúde.

Falando em curadoria e novos formatos, vejam que interessante este vídeo do Newsy, uma startup que produz vídeos a partir de outras fontes (de vídeo). Eles fizeram um fact checking de um discurso do pré-candidato republicano Marco Rubio. A cada fato a ser checado, a fala de Rubio é pausada e um segundo vídeo entra em autoplay com a informação checada pela equipe do Newsy.

Ainda sobre novos formatos. Um dos veículos que mais tem me chamado a atenção é o AJ+, da Al Jazeera. Por isso sugiro dar uma olhada neste texto assinado por Shadi Rahimi, da AJ+, sobre o uso de celulares na cobertura de Baltimore. Ela explica por que os vídeos produzidos por eles fizeram tanto sucesso nas redes:

“Minha resposta curta é sempre esta: reportagem mobile é o futuro do breaking news. Minha resposta mais longa é: reportagem mobile te oferece a oportunidade de atingir diretamente a audiência das redes sociais – por exemplo, os millennials, nosso público alvo – sem filtros e em tempo real.”

Um dos vídeos publicados pela Aj+ em Baltimore foi este, sobre a notícia falsa que se espalhou de que um policial havia baleado um jovem durante as manifestações.

Aliás, vocês sabem que rumores / notícias falsas, especialmente a capacidade que elas possuem de se espalhar durante momentos de crise, é um dos meus tópicos preferidos. Por isso coloquei na minha wishlist este livro de Alfred Hermida sobre a relação entre jornalismo e compartilhamentos. Por enquanto estou lendo um trecho publicado no NiemanLab: When disgusting goes viral: Strong negative emotions can push social sharing through the roof, sobre a nossa tendência a publicar coisas emotivas sem muita preocupação com a verdade – um problema para o jornalismo.

Espero poder falar mais sobre ele em breve.

Pra ir fechando em ritmo de lista. O blog em português do Centro Knight publicou um post com 13 ações para inovar no jornalismo. Destaco a que me cabe:

“3. Volte à ‘newsletter’.

‘O e-mail é a nova ‘home’’, proclama Rosental C. Alves, organizador do simpósio e professor da Universidade do Texas. ‘Enviar uma ‘newsletter’ é uma forma magnífica de capturar o lector e dar a ele um serviço pelas manhãs com conteúdo de outros meios’.”

Não é verdade?

Pra fechar:

Quer jornalismo de qualidade? Então dá teu apoio para que a repórter Carla Ruas consiga escrever uma reportagem sobre o Presídio Central, o pior do Brasil. A repórter está buscando financiamento via Contributoria, plataforma que já permitiu ela produzir esta reportagem sobre disputas envolvendo índios e fazendeiros no interior do Mato Grosso do Sul. Quer saber mais sobre o Contributoria e como ele está permitindo freelancers produzirem reportagens, leiam esta matéria do IJNet.

E, ainda, três coisas rápidas:

Bueno, era isso então.
Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório