Buenas, gurizada!

Novamente atrasei o envio. Agora é culpa do Masters 1000 de Roma.

A newsletter dessa semana é uma daquelas atípicas, mais ou menos como foi a que falei sobre o Ibercom. Isso porque passei de terça a quinta em Florianópolis para participar do Mejor, o 3º colóquio internacional sobre os silêncios do jornalismo. Como é comum nesse tipo de evento, foram três dias bastante intensos, com os trabalhos começando de manhã e se estendendo até o começo da noite (a programação segue nesta sexta), e uma boa oportunidade para treinar o écouter, já que o francês era a segunda língua do congresso. Naturalmente, fiquei meio por fora do que aconteceu no mundo do jornalismo e da tecnologia nos últimos dias.

Mas como sei que a semana foi importante, em especial pelo lançamento do Instant Articles, proponho o seguinte. Vou dividir os comentários que gostaria de fazer sobre o Mejor entre hoje e semana que vem. Assim dá pra dar uma olhada nas primeiras impressões causadas pela tão esperada iniciativa do Facebook. Naturalmente, esse assunto deve seguir em pauta nas próximas semanas, já que todos estão tateando o fenômeno. Então não nos apressemos. Temos tempo.

Falei que vai ser atípica, mas mais do que foi a do Ibercom. Por isso, se você quiser ir para a parte “tradicional”, dê um belo dum scroll newsletter abaixo e seja feliz. 😉

Vamos nessa.

Gostaria de começar contando para vocês como foi a conferência de abertura do Mejor: Os pequenos e os grandes silêncios do jornalismo, de Sylvia Moretzsohn. Sylvia é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e colaboradora do Obsevatório da Imprensa. Algumas newsletters atrás citamos este texto dela sobre o “suicídio do jornalismo”, que foi bem compartilhado nas redes.

Na sua fala, Sylvia procurou demonstrar como comportamentos muito comuns da prática jornalística não contribuem para que o jornalismo sirva como uma via para o esclarecimento do público. São práticas que silenciam e ocultam possibilidades de superação do senso comum, algo essencial para que as pessoas consigam entender melhor o mundo e, assim, agir para melhorá-lo, se necessário.

Mas o que significa, nesse contexto, silenciar e ocultar? Para responder, ela buscou auxílio na teoria de, entre outros, Adelmo Genro Filho, professor da UFSC falecido precocemente em 1988, um dos grandes pensadores do jornalismo brasileiro.

Mas pode teoria numa sexta-feira? Pode. Vai ser rápido. Primeiro, uma citação editada d’O Segredo da Pirâmide, livro em que Adelmo explicita sua teoria.

“A preocupação com a singularidade dos dados ou pela especificidade, como se diz mais comumente, é a marca dos bons repórteres ou redatores. No entanto, […] (a singularidade) é entendida no sentido vulgar, […] com base no senso comum que, via de regra, percebe o fundamento da realidade como uma soma ou agregado de coisas ou eventos singulares, ao invés de percebê-lo também em suas dimensões concretas de particularidade e universalidade.

O resultado é que a singularidade é reificada pela compreensão espontânea do jornalista, que acaba aceitando implicitamente a particularidade e a universalidade sugeridas pela imediaticidade e reproduzidas pela ideologia dominante. Assim, a busca da ‘especificidade’ na atividade jornalística limita-se a uma receita técnica de fundo meramente empírico, uma regra operativa que os jornalistas devem seguir sem saber o motivo […].”

Ao escolher determinada singularidade de um fato (poderíamos dizer viés), eu destaco certos aspectos daquele fato (particularidades) em detrimento de outros, oferecendo um determinado contexto mais geral (universal), também em detrimento de outros, por meio do meu discurso (texto). Ao encarar os acontecimentos apenas a partir do que eles dizem objetivamente (“eventos singulares”, “agregado de coisas”), eu ofereço uma visão de mundo. Em geral, uma visão de mundo ligada ao senso comum, que oculta e silencia o que está abaixo da camada mais superficial de esclarecimento. Por outro lado, se eu tiver a capacidade de ir além da “receita técnica” meramente empírica, serei capaz de oferecer um discurso que ultrapassa a imediaticidade dos fatos, oferecendo uma universalidade não só mais apta a superar o senso comum, mas capaz de deixar possibilidades para que o leitor possa atribuir sentido à realidade, agindo para transformá-la, se necessário.

(Nem preciso dizer que reduzi, talvez até grosseiramente, as ideias de Adelmo, cujo pensamento é bastante denso. Para mais e melhor, vá ao original.)

Um exemplo vai nos ajudar a enxergar os contornos desse silêncio.

Sylvia mostrou o vídeo em que Sherazade – a jornalista que mais inspira confiança entre os que foram às ruas de São Paulo no dia 12 de abril – defendeu a ação dos “justiceiros” que acorrentaram um menino em um poste, no Rio de Janeiro, no ano passado. O editorial de Sherazade é um exemplo típico do discurso “o-cidadão-de-bem-não-aguenta-mais-tanta-violência”. Em determinado momento (aos 0:17, mais exatamente), ela lança mão de estatísticas para justificar seu posicionamento: o Brasil possui a marca de 26 assassinatos a cada 100 mil habitantes.

Então, Sylvia pergunta: quem está morrendo? Negros, na maioria. “Quem tá morrendo é essa gente que a gente quer matar”, disse, fazendo referência ao discurso raso que reitera o senso comum. Sherazade constrói um discurso contraditório que, como Sylvia diz, não explica nada, só ajuda a alienar.

Ela também citou o caso em que o Jornal do Brasil “ousou” mostrar o rosto de um menor suspeito de matar uma socialite, em 2006, no Rio, justificando a decisão em editorial. Para Sylvia, trata-se de uma “inversão da estratégia do silêncio”: o jornal diz estar mostrando, quebrando regras (no caso, o Estatuto da Criança e do Adolescente), mas na verdade estava ocultando a possibilidade de se problematizar o fato (oferecer um universal não apoiado na “compreensão espontânea”) ao optar por uma perspectiva que reforça o senso comum (a redução da maioridade penal).

Outro tipo de silêncio abordado por Sylvia foi o “silenciamento do público”. Ela citou um artigo em que o jornalista Washington Novaes fala sobre as relações entre jornalistas e fontes, a propósito de debates ocorridos nos anos 1980 sobre a comunicação no contexto da redemocratização do Brasil. Sylvia leu um trecho do artigo em que um participante desses debates reclama dos jornalistas:

[Queria saber] o que se faz em função disso para tentar conscientizar os próprios jornalistas, porque eles são horrorosos. A gente vê na televisão os programas, eles retiram a informação, eles cortam o que querem, a gente fica à mercê deles, a gente quer falar e não consegue. (Aqui tem um texto de Sylvia que fala sobre esse artigo).

Isso, segundo ela, continua existindo na grande imprensa. “De repente as fontes viram personagens. E de personagens você exige representações adequadas”.

A professora da UFF também criticou o jornalismo que compara o leitor/espectador ao Homer Simpson (cuja origem está em uma declaração de William Bonner). Não dá para comparar a economia de um país com a familiar, disse Sylvia. Assim como as funções de prefeito e síndico de condomínio. Essas tentativas de simplificar para fazer a massa entender é uma forma sutil de silenciamento. “O aceno ao esclarecimento se transforma na reiteração da ignorância”.

Sei que isso parece ter pouca ligação com os temas que, em geral, são tratados aqui. Mas acho que podemos fazer duas conexões, no mínimo. A primeira está no que se propõe o Farol Jornalismo e, consequentemente, a newsletter: lançar uma luz sobre o que está acontecendo no mundo do jornalismo e no da tecnologia, sempre de uma maneira crítica. Tanto de uma perspectiva, digamos, de mercado, quanto acadêmica. E aí vem o segundo ponto de conexão possível.

A fala de Sylvia, embora muito vinculada à grande imprensa impressa, e trazendo exemplos ocorridos já há algum tempo (embora eu tenha deixado de fora do texto os mais recentes) chama a atenção para aspectos caros ao jornalismo, e portanto também no que é praticado em ambiente digital. Certas características desse ambiente de atuação, se não encaradas de maneira crítica, podem catalizar a reprodução de esteriótipos e do senso comum. A curadoria de conteúdo e a pressão por publicar antes, por exemplo, são aspectos muito suscetíveis nesse sentido.

Por esses motivos eu resolvi contar um pouco do que rolou na conferência de abertura do Mejor. Na semana que vem eu falo um pouco mais.

Voltando ao ritmo normal, vamos ao Instant Articles.

A primeira coisa que fiz depois de acessar o site foi dar uma olhada na matéria que o Leandro Demori recomendou como a melhor publicada no serviço até agora: Quest for a Superbee, da National Geographic, uma das nove grandes marcas jornalísticas que embarcaram na jogada. Curti. Agora é explorar o que vem por aí.

E, mais importante, ficar atento ao que nossos colegas estão falando. Esta matéria tem aspas de vários jornalistas a respeito da expectativa em torno da parceria. Entre manifestações de entusiasmo e de preocupação, eu destaco a seguinte, de Alan Mutter, um ex-editor de jornal que trabalha como consultor:

“Não é nada menos do que um abalo sísmico quando veículos proeminentes – incluindo marcas tradicionais como o NYT e emergentes poderosos como o BuzzFeed – cedem o controle da distribuição e da monetização dos seus conteúdos a uma das duas mais temidas empresas do Vale do Silício.”

Este outro artigo publicado no Poynter dá alguns detalhes do acordo, classificando a empreitada como uma negociação win-win, ou seja, que ambos os lados estão ganhando. Inclusive em relação aos dados de tráfego – um dos pontos sensíveis do novo projeto. Rick Edmonds, o autor, sugere que é melhor os veículos aproveitarem o fato de o Facebook estar anos-luz à frente no que se refere à coleta e à análise de dados (e usar isso a seu favor) do que ficar batendo de frente com o gigante.

Essa história de não saber muito bem como reagir foi resumida por David Carr em uma coluna publicada em outubro de 2014, como bem lembrou o El País. “Para os meios de comunicação, é como um cachorro que corre na sua direção no parque. Você muitas vezes não sabe se o que ele quer é comer você ou brincar com você”.

Carr também foi citado por este texto do IJNet, que já assume uma postura mais crítica em relação à novidade. Ele chama a atenção para algo que falamos bastante aqui (inclusive na edição #39, a do Ibercom): é tudo muito lindo, a navegação responsiva é uma maravilha, o design é atraente e tudo carrega muito rápido, mas pode ser potencialmente perigoso ~simplesmente~ pelo fato de haver uma concentração de poder cada vez maior nas mãos do Facebook. Até então, usuários forneciam seus dados. Agora, as empresas de mídia começam a fazer o mesmo.

“Organizações de notícias tendem a olhar para a sua audiência como meros consumidores do seu produto. Eles produziam informações para usuários. Mas eles não consideravam a audiência ela mesma como um produto. Agora, eles precisam confiar nas plataformas para alcançar sua audiência. As plataformas estão ditando o tom da brincadeira, e elas podem mudar as regras do jogo quando quiserem.”

Pausa para algo rápido: 6 perguntas sobre o Instant Articles.

Emily Bell, diretora do Tow Center for Digital Journalism, resumiu questão em um tuíte: “O principal problema no caso veículos + FB segue teórico: é possível ser jornalístico + fazer parte de uma estrutura comercial poderosa?

Esse tuíte foi citado neste texto de Joshua Benton, publicado no Nieman Lab. Benton faz uma ótima reunião de pontos de vista. Ele citou este artigo publicado no NYT como o que melhor explicou o funcionamento do Instant Articles. E aqui dá pra entender como vai funcionar os banners – cortesia do nosso leitor Felipe Autran.

O CEO do NYT, Mark Thompson, diz que está entrando no jogo de olhos abertos, e em várias matérias é possível ler o caráter de experimental do projeto. Mas há quem diga que vai ser difícil pisar no freio. Um trechinho deste texto do re/code:

“Se você é um web publisher, há boas razões para ser cauteloso em dar ao Facebook muito poder sobre o seu futuro – mas, de qualquer forma, há muitas razões a médio prazo para entrar nessa. Porque o Facebook desenvolveu um programa muito amigável para quem é web publisher.”

Steve Buttry vê o Instant Artlcles como um avanço (“permitindo veículos de notícias irem onde seus leitores estão”) e felicitando o fato de que o Facebook parece estar disposto a negociar acesso aos dados e, pelo menos nesse primeiro momento, abrindo mão de quase toda a grana que vem dos anúncios.

Pra fechar o assunto, retomo o tuíte de Emily Bell e o raciocínio sobre a conferência de Sylvia Moretzsohn no Mejor para fazer uma pergunta: é possível fazer jornalismo com propósito de servir o público de esclarecimento entregando parte (importante) do processo a uma empresa que enxerga o público como consumidores?

Sabe quem sai perdendo logo nesse início? O Twitter, segundo Mathew Ingram.

Seguimos. Mas já meio sem fôlego.

Textinho divertido publicado no M de Mulher com 15 razões para começar a usar o Snapchat agora. Eu, como sou velho, ainda não comecei. Destaco o número 11:

“11. Porque o recurso “ao vivo” é sensacional.

Na seção “minha história” diariamente você tem acesso ao que está acontecendo nas maiores capitais do mundo através dos olhos dos usuários. Além disso, grandes eventos, como no caso do baile do Met que aconteceu recentemente, são transmitidos em tempo real pelo recurso.”

Sou fã do Quartz. Ainda mais depois de ler essa manchete: “O Quartz é uma API”. (Não sabe o que é uma API? Vem aqui. ) Ela abre um artigo publicado pelo diretor executivo da empresa, Zachary Seward, no NiemanLab, e é uma matáfora para a capacidade que esse veículo especializado em economia tem de fazer chegar seu conteúdo em quase qualquer lugar e/ou plataforma através da sua API.

Diz Seward:

“Antes de construir o qz.com, nós construímos a API do Quartz. […] Hoje, a API segue servindo primariamente o qz.com, mas ela pode ir para todas as direções. Nossa filosofia sempre foi ter o mínimo de atrito possível entre nós e os nossos leitores, e nossa API é uma vantagem para viver esse ideal.”

Terminando, não sei se vocês viram esta matéria do NYT sobre a rotina de dificuldade das manicures que trabalham em alguns salões em NY. O material foi publicado simultaneamente em coreano, chinês e espanhol – língua da maioria dos trabalhadores imigrantes desses lugares de condições precárias. Neste link tem uma entrevista com Michael Luo, editor responsável pelo material, sobre a estratégia de publicação adotada pelo jornal neste caso.

Pra fechar uma newsletter que lança muitas dúvidas, dois links. Um ruim e um bom. 1) Rolou um passaralho no iG. 2) Leiam a matéria Um trem para Bangladânia, a história do trem-bala brasileiro, escrita pelo Leandro Demori. Tá que é um capricho.

Bueno, era isso então.
Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório