Buenas!

E aí, mais uma sexta-feira em nossas vidas, hein. Aqui em Porto Alegre tá rolando o que costumamos chamar de “veranico de maio”, um lampejo de verão depois dos primeiros frios de abril/maio e antes que o inverno chegue com força, possibilitando toda a elegância da vida vivida abaixo dos 15 graus. Mas chega de small talk.

Começo com uma curta e interessante do Nieman Lab. Um professor da Northeasternn University, em recente conferência no MIT, mostrou que listas, virais e matérias ctrl+c crtl+v começaram no século XIX. “Se você pensa que o BuzzFeed inventou as listas, você deveria passar um tempo lendo jornais do século XIX”, disse Ryan Cordell. Segundo ele, editores assinavam vários jornais para retirar conteúdos que pudessem servir às suas publicações, o que é uma das razões para o rápido crescimento dos jornais americanos registrado na época. Isso porque eles eram conduzidos por pequenas equipes que mais copiavam do que produziam conteúdo.

A matéria do Nieman traz o caso interessante de um jornal que (re)publicou um poema de um autor chamado Charles M. Dickinson como se fosse de Charles Dickens. Resultado: o poema foi republicado por vários jornais com o crédito errado. Qualquer semelhança com o que acontece hoje não é mera coincidência.

Do século XIX para o XXI.

Antes, um pulo no XX. Os não tão novos talvez lembrem da famosa disputa entre o enxadrista Gary Kasparov e o computador da IBM Deep Blue, em 1996. Lembram? Pois bem, guardadas as devidas proporções, a NPR fez algo semelhante: colocou um dos seus repórteres a competir com uma máquina. A ideia era ver quem iria se sair melhor ao escrever uma notícia simples para veicular na rádio pública dos EUA.

A tarefa do jornalista Scott Horsley e do programa de computador WordSmith era escrever uma nota a partir de um relatório emitido por uma empresa. Resultado: a máquina finalizou o trabalho em dois minutos. Scott, em sete. Aqui dá pra comparar os dois textos. E aqui tem a matéria do 233grados sobre o assunto, em espanhol.

Adiante.

Este artigo publicado no European Journalism Observatory (EJO) levanta uma questão interessante: como a Vice News vem capturando a atenção de audiências mais novas ao apostar em um conceito nem sempre fácil de encontrar no mercado: autenticidade. A aposta de Kevin Sutcliffe é que, atualmente, ser autêntico pode ser mais importante do que buscar a credibilidade. “A credibilidade era o argumento usado pela BBC e por outras grandes televisões – que, em momentos de crise, as pessoas iriam assistir a esses canais. […] Isso não é mais o caso. As pessoas usam muitas fontes. Você pode até se agarrar na noção de credibilidade, mas ela não é mais suficiente hoje. É sobre estar lá. É sobre ser autêntico”, disse, destacando que o objetivo da Vice é promover uma alternativa à forma tradicional de contar histórias com TV para alcançar o público alvo, pessoas abaixo dos 35 anos. “Não é que eles não sejam interessados em notícias. Nós é que falhamos em criar interesse”.

O texto do EJO cita o documentário da VICE sobre o ISIS filmado em Raqqa.

BTW, em abril, a Folha começou a publicar conteúdos da Vice, talvez uma tentativa para alcançar novas audiências.

Falando em novas audiências, olhem essa do Nieman Lab. O texto traz resultados do International News Media Association World Congress, realizado em Nova York na semana passada (quando o Farol Jornalismo vai ser convidado pra essas barbadas, hein? :P). Na oportunidade, executivos de mídia (mais de 500, de 41 países) foram perguntados a respeito dos investimentos que eles pretendem fazer nos próximos anos. Ao comparar com dados dos anos anteriores, a conclusão – bem resumida – é a seguinte: paywalls estão em baixa; mobile (para onde a audiência está migrando) está em alta. Acessem o material, tem bons gráficos.

Mudando um pouco de assunto.

Sexta passada eu falei sobre este artigo publicado pelo diretor executivo do Quartz, Zachary Seward, sobre a empresa especializada em jornalismo econômico ser, antes de qualquer coisa, uma API. Achei a declaração tão boa que resolvemos transformá-la em um dos cards que publicamos no Facebook durante a semana.

Na sexta mesmo Mathew Ingram publicou um texto repercutindo o mesmo artigo. Como curto o que ele escreve e o tópico dá pano pra manga, resolvi voltar ao assunto. No original, Seeward fala que o site do Quartz é apenas um dos “usuários” da API. Ingram explica melhor do que eu o que isso significa:

[…] o Quartz não é uma API apenas figurativamente, mas sim literalmente: antes mesmo de o site ter sido criado, a empresa desenvolveu a API para organizar o conteúdo de diversas maneiras. O site em qz.com usa essa API para publicar dados no site e em outros lugares, mas o site é apenas um dos usuários da API – ele pode ser o mais importante agora, mas isso não é dizer que outros não poderiam ser.”

Hum, talvez ainda não esteja muito claro. Vamos ver:

“Ao invés de ver a si próprio como um site autônomo que publica conteúdo e vende anúncios, o Quartz se considera um provedor de informações – um tipo de mecanismo de processamento de informações – que pode entregar esse conteúdo de diversas maneiras. Em alguns casos pode ser uma matéria no site, mas também pode ser em uma newsletter, ou em vídeos publicados no Facebook, ou em gráficos que podem ser usados em qualquer lugar na web.”

Mais claro? Aos poucos vamos entendendo…

Uma rodada sobre o Instant Articles. Artigo publicado no Upshot, do NYT, sobre por que a badalada iniciativa importa para os leitores. O título (Why Facebook’s News Experiment Matters to Readers) parece uma justificativa, mas o texto é bem mais do que isso. Ao autora, Claire Cain Miller, repete o argumento já banalizado de que “os veículos precisam ir ao lugar onde as pessoas estão”, mas também levanta questões relevantes sobre algoritmos, poder editorial do Facebook, mudanças estruturais  (“editores tradicionais não têm outra escolha a não ser abrir mão de parte do controle”) e a delicada relação Facebook vs empresas jornalísticas.

Ela termina o texto assim:

“Este é o motivo pelo qual nenhuma organização de mídia quer se tornar dependente do Facebook, apesar do tráfego gerado por ele, ou abrir mão do relacionamento com seus leitores. Assim como as empresas de tecnologia se enxergam como amigos e competidores, veículos jornalísticos consideram o Facebook da mesma maneira.”

Para mais sobre Instant Articles, uma longa análise do The Awl. E um texto do Ronaldo Lemos publicado no site da Folha.

Queria terminar falando um pouco mais sobre o Mejor (pra quem perdeu a última newsletter, trata-se do 3º colóquio internacional sobre os silêncios do jornalismo, que aconteceu na UFSC, em Florianópolis, entre os dias 12 e 15, e sobre o qual comentei na semana passada). Considerem como uma bonus track. Depois a newsletter retoma seu ritmo e encerra da maneira tradicional. Fechado?

Bueno, gostaria de contar duas coisas. Primeiro, as falas da dupla de pesquisadores francófonos Dennis Ruellan e Florence Le Cam em uma mesa no segundo dia do evento. Segundo, as ideias de um dos trabalho defendidos nas comunicações orais – daria para fazer uma newsletter especial apenas com o que foi apresentado nos dois GTs, mas preferi não alongar muito o papo acadêmico.

Pois bem, Dennis Ruellan, da Universidade de Rennes 1, na França, e Florence Le Cam, da Universidade Livre de Bruxelas, na Bélgica, apresentaram parte de um trabalho sobre as emoções no jornalismo. No caso, o silenciamento das emoções dentro da profissão, de quem atua como jornalista. Eles entrevistaram 10 profissionais cujo trabalho envolve situações limite, embora de diferentes naturezas: âncoras de TV (em geral, pessoas famosas) e repórteres de guerra (pessoas confrontadas com situações de perigo). O objetivo era tentar responder as perguntas: o que move os jornalistas em sua profissão? O que os faz continuarem?

Eles prepararam o terreno antes da entrevistas lendo relatos autobiográficos desses profissionais, onde, em geral, as emoções estavam ausentes. Era como se não tivessem lugar no relato desse tipo de trabalho, como se não fossem legítimas. Há um olhar negativo sobre elas. Essas constatações os levou a considerar a hipótese de que as emoções seriam capazes de revelar a natureza do trabalho no jornalismo.

Nas entrevistas, Dennis e Florence conseguiram trazer a emoção à tona, mas verificaram que esse discurso é sempre conduzido de maneira tênue. Como se os jornalistas se permitissem ir até um determinado ponto, de onde sabiam que não podiam passar para não comprometer a sua imagem de profissionais objetivos e comprometidos com o interesse do público. Mas essas falas, disseram os autores, são capazes de relevar o não dito sobre a profissão, aspectos em geral silenciados ou abordados superficialmente, como uma espécie de mística da prática jornalística.

Para Dennis e Florence, os jornalistas evitam desenvolver a ideia de que a plenitude alcançada com o trabalho tende a transcender a barreira da felicidade profissional, transformando-se em uma relação quase individualizada com a profissão. Ultrapassa-se o estereótipo rumo ao egoísmo: o jornalista vive dez vezes mais intensamente quando está trabalhando do que em casa; não há separação entre profissão e vida – a profissão é a vida; as vidas dos jornalistas são diferentes das dos outros; apenas os colegas são capazes de entender o que vivem os jornalistas.

O jornalismo permite fugir da banalidade. Permite viver outra vida.

Isso faz aparecer a possibilidade de dominar o mundo e a si mesmo. É a lógica da narrativa em busca do sentido: a apresentação de si mesmo passa por uma descrição do mundo em que eles vivem/viveram. Os entrevistados dizem, sublinham os autores, que eram movidos pela responsabilidade de contar o que estava acontecendo para as pessoas que não estavam lá (no caso de repórteres de guerra), mas denotam um prazer de terem estado nesse lugar. Prazer que não emerge da descrição dos fatos para o mundo, mas da oportunidade de dominar a própria vida: “O mundo é uma batalha e eu quero meu lugar (de observar)”.

A partir dessas constatações (bem resumidas aqui), os autores arriscam dizer que as emoções são o elemento motor da profissão. Sugerem, inclusive, um neologismo para explicar tal condição: “emotricidade” (uma fusão de emoção com motricidade): a prática do jornalismo através de emoções físicas e psicológicas.

Achei instigante.

Por fim, o trabalho que gostaria de comentar tem o seguinte título: “Regimes de Visibilidade do Empreendendorismo Jornalístico: valores, prescrições e parâmetros identitários em sites especializados na cobertura do campo profissional”. Trata-se de uma análise de três sites brasileiros que cobrem a profissão (Comunique-se, Portal Imprensa e Observatório da Imprensa), especificamente matérias a respeito de empreendendorismo, inovação e mudanças no jornalismo / jornalistas.

Os autores, Michelle Roxo e Rafael Grohmann sugerem que o uso de determinado(s) tipo(s) de discurso(s) por esses veículos encobre outro(s). No caso, a opção por enaltecer aspectos vinculados a expressões como mobilidade, felicidade, inovação, alta performance, criatividade, autonomia, etc, termina por legitimar práticas profissionais em detrimento de outras. “O que está no plano do não dito?”, perguntou Rafael ao apresentar o trabalho. Segundo os autores, essas prescrições acabam por inviabilizar outras expressões e silenciam aspectos como precarização e fragilidade do regime de trabalho do jornalismo / jornalista.

O trabalho é interessante porque chama a atenção para a necessidade de desenvolver um olhar crítico. Não só para o jornalismo que relata o que acontece no mundo, mas para o jornalismo que faz um relato sobre si mesmo. O que esse discurso não diz ao dizer o que diz? Trata-se, às vezes, de um processo autorreflexivo. Seja quando estamos escrevendo uma matéria, seja quando estamos falando sobre jornalismo, como é o caso aqui na newsletter. Não se trata de virar as costas para  inovações / tendências, e sim de não tratás-la sempre festivamente.

Feito?

Então vamos terminando.

Talvez vocês tenham visto: o Knight Center lançou um MOOC de matemática para jornalistas. Em inglês e de graça. Te joga. Se quiser experimentar um pago, a newsu.org tem um semelhante. Também em inglês. Falando em cursos, o blog do programa de treinamento da Folha publicou informações sobre um curso de Direito para jornalistas na FGV do Rio de Janeiro. Serão cinco dias em julho. Boa, hein.

Aquelas rápidas pra finalizar:

Bueno, era isso então.
Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório

***

[UPDATE 24/05/2015 – CORREÇÃO]

E aí, pessoal,

Desculpe invadir o domingo de vocês, mas preciso fazer uma correção. Como trata-se de um erro que eu considero grave, decidi não esperar até sexta-feira que vem. Eu me perdi na tradução de um trecho do texto sobre a Vice publicado no European Journalism Observatory que alterou bastante o sentido da frase.

A frase original é esta:

“Trust was the conventional argument used by BBC and larger channels – that people would turn to them in times of crises,” he said. “That is not the case anymore. People now go to many sources. You can cling to the notion of trust, but trust is not enough now.

O problema é que eu li true ao invés de trust. Consequentemente, escrevi verdade em vez de confiança / credibilidade. Na hora achei uma declaração pesada, jornalisticamente falando, mas pensei, ok, é uma frase forte. Mas a suspeita seguiu comigo, e decidi dar uma olhada na frase para produzir os cards do Facebook. Foi quando me dei conta. Aí vi que, jornalisticamente, não faria muito sentido colocar a autenticidade acima da verdade. Por mais autêntica que a Vice pretenda ser.

Peço desculpas pelo erro. Mas acontece.

Bom domingo e até sexta.
Moreno Osório