Buenas, moçada!

Desculpe pelo atraso. Circunstâncias da vida.

Mas também porque queria fazer um convite. Resolvi colocar em prática um projeto piloto, o Hangouts Farol Jornalismo. A ideia é banal e um tanto despretensiosa: trocar uma ideia com vocês, assinantes da newsletter, sobre jornalismo, via Skype / Google Hangout. Gostaria de conhecê-los melhor e saber o que vocês têm a dizer sobre a nossa profissão. Não há um objetivo concreto, ao menos por enquanto. Mas como as coisas só acontecem quando conversamos com as pessoas, acho que pode ser um começo para projetos futuros. Por que não? Bueno, quem quiser participar precisa preencher um formulário rápido disponível aqui. No mesmo link tem algumas outras considerações / instruções sobre o projeto. Feito?

Agora vamos ao que interessa.

Volta e meia alguém explora a polêmica jornalistas vs robôs / algoritmos. Semana passada falei sobre a brincadeira que a NPR fez ao colocar um jornalista a competir com um software para ver quem redigia uma pequena notícia mais rápido.

Hoje quero chamar a atenção para este texto, publicado na Thoughts on Journalism, no Medium. Andrew DeVigal, o autor, engrossa o coro de quem enxerga a automação com otimismo: é preciso tratar os algoritmos mais como ferramenta do que como ameaça à profissão. Ainda que previsões apontem que 90% das notícias serão redigidas por códigos em dez anos, jornalismo, diz ele, é mais do que saber escrever. É “aumentar o conhecimento do público para fortalecer a sociedade civil”. Nesse sentido, escrever não é menos importante que “fazer as perguntas certas, saber ouvir, engajar-se e colaborar com a comunidade, contextualizar e identificar outras formas para fazer avançar a narrativa e a conversação para obter impacto”. Sem deixar de lado, ressalta, a importância de uma história bem escrita.

Coisa que algoritmo algum consegue fazer.

Por exemplo, a matéria do NYT sobre as dificuldades enfrentadas pelas manicures nos salões de NY (o texto foi traduzido para coreano, chinês e espanhol, indicando a origem de grande parte das trabalhadoras exploradas). Mas mesmo em reportagens como essa, é possível colocar robôs para trabalhar. Eles podem mais do que redigir uma nota de rádio mais rápido do que um repórter.

DeVigal faz um exercício usando o texto sobre os salões de beleza. Aplicar o modelo usado nesta matéria do The Upshot (cujo mapa muda de acordo com a localização de quem o lê) para mostrar ao leitor quais são os salões mais perto da sua casa e/ou caminho do trabalho, via checkins no Foursquare/Swarm, informando os preços dos serviços de cada um. Ou verificar se o leitor possui, no seu feed do Facebook, amigos que também foram tocados pela história, sugerindo o que poderia ser o primeiro passo para que as pessoas tracem, juntas, um plano de ação.

É bom deixar claro que DeVigal não subestima o quanto fazer algo assim pode ser assustador. Ações dessa natureza precisam ser guiadas por parâmetros éticos.

Falando em coisas assustadoras, deem uma conferida neste artigo publicado por Aran Khana, um estudante de computação de Harvard. Ele contou como desenvolveu um algoritmo para ler os metadados de geolocalização das mensagens do aplicativo Messenger, do Facebook, e colocá-los em um mapa. Em resumo, funciona assim: se você tem o parâmetro de geolocalização ativado, sua posição é informada em todas as mensagens que você envia aos seus amigos. Khanna, que está sempre conversando com seus colegas de faculdade via Messenger, pegou todos esses dados e conseguiu ver por onde seus contatos estavam andando.

Com poucas linhas de código, Khanna obteve informações da rotina dos seus amigos (que horas eles vão de casa para o trabalho, quais lugares costumam frequentar, a localização do quarto de um deles dentro do dormitório da universidade, etc) a partir de informações (metadados) que eles próprios disponibilizaram em uma inocente conversa via Messenger. Assustador, não?

Agora, por outro lado, voltando à ideia do texto de DeVigal, deem uma lida nesta notícia da Wired sobre o fundador do BuzzFeed lançar um laboratório dedicado à tecnologia open-source voltada ao jornalismo. Promissor, não?

Pra fechar o papo sobre algoritmos / privacidade, uma matéria do Guardian com o pai do PGP, o sistema de criptografia mais popular do mundo, Philip Zimmermann. Zimmermann está se mudando (e junto com ele, sua startup de criptografia, Silent Circle) dos Estados Unidos para a Suíça por causa da escalada da vigilância. “Toda sociedade distópica tem vigilância excessiva, mas agora estamos vendo democracias ocidentais, como EUA e Inglaterra, se moverem nessa direção. (…) Não queremos nos tornar uma Coreia do Norte”, disse ele ao Guardian.

Falando em Guardian, sou suspeito para falar, mas curti bastante este post do Developer Blog sobre como o jornal britânico está repensando o breaking news em seus produtos. É interessante quando alguém para para refletir sobre o momento que, quando acontece, ninguém pensa muito. Olha só como começa o texto:

“Uma organização de notícias na qual os leitores podem confiar é aquela que fornece uma representação precisa dos eventos diários e entende a diferença de velocidade que as histórias naturalmente possuem. A maioria das notícias tem um ritmo lento: elas se desenvolvem gradualmente e algumas podem ser facilmente previstas. Outras histórias são rápidas, estão no fim dessa escala de velocidade. Elas se desenvolvem rapidamente e seus detalhes não são sempre claros. É no fim dessa escala que podemos achar um tipo de história que é um pouco diferente. Um tipo de história que se desenvolve muito rápido, onde nem todos os detalhes são claros, e que possuem relevância e impacto para uma grande audiência, características que as distinguem de todas as outras. São os breaking news.”

Após relembrar a instalação dos primeiros cabos de telégrafo unindo a Europa aos Estados Unidos, Mario Andrade, que assina o post, diz que nem sempre é óbvio definir qual notícia é um breaking news: “sempre há o perigo de ser muito aberto e diluir o valor de um tipo especial de cobertura”. Em seguida, lista três características que guiam o entendimento do jornal sobre a definição de um breaking news.

Primeiro, deve ser um acontecimento relevante para uma grande audiência. Segundo, breaking news são histórias em constante desenvolvimento (depois que o acontecimento chama a atenção da redação, “ele continua a se desenrolar em um ritmo muito rápido”). Um aspecto interessante desse segundo ponto é um diagrama desenvolvido pela redação com os fluxos de um breaking news e as decisões a serem tomadas em cada parte da reação à história em desenvolvimento. Segundo Andrade, é uma maneira de evitar gargalos e entender como alcançar um processo editorial simplificado. Terceiro, breaking news são, muitas vezes, incertos. “(…) os jornalistas nem sempre tem, no momento em que começam a cobertura, uma percepção completa dos detalhes que definirão a história. Quando a cobertura gradualmente encontra seu ritmo, a quantidade de informação pode ser absurda. Isso cria um senso de incerteza, especialmente no começo da cobertura”.

Nos três aspectos, Andrade conta como o Guardian vem se comportando. Tanto em relação a decisões editoriais, como o diagrama citado, quanto em relação aos seus produtos e serviços (apps, sites, etc). Quem se interessa pelo assunto, vale a pena.

Pegando o gancho de breaking news e reflexões sobre processos editoriais, sugiro a leitura deste artigo do editor do Nepali Times, Kunda Dixit, sobre a cobertura do terremoto do mês passado feita pela imprensa internacional. Trata-se de uma crítica contundente ao modus operandis da mídia ocidenal e sua sede por desgraças.

A mídia internacional chega em bandos e caça em blocos. Tudo deve funcionar de acordo com um script pré-determinado: você chega e imediatamente encontra boas imagens da “terra arrasada”; procura um bom tradutor local; vai atrás das equipes de resgate com cães farejadores que chegaram no mesmo voo que você para ver eles retirando alguém vivo 12 horas depois do tremor (os socorristas precisam dos seus logotipos na TV do mesmo modo que você precisa deles nas suas imagens).

Ele segue detalhando esse script dizendo que no dia seguinte é a vez da matéria sobre a lentidão do governo local e, com sorte, de mais imagens de pessoas sendo retiradas dos escombros. Além do clássico voo de helicóptero para chegar a uma vila remota, fazendo, no caminho, imagens aéreas da destruição.

Esse tipo de comportamento, diz Dixit, esconde outros fatos que ajudariam a fazer um trabalho mais contextualizado. Seja dando notícias boas (quase nunca “interessantes” nesse tipo de cobertura), seja negligenciando lugares onde a situação é muito pior do que os mais facilmente acessados pelas equipes de TV. O texto critica a mídia ocidental, mas também sublinha a insensibilidade da imprensa indiana. Ao ponto de surgir, no Twitter, a campanha #IndianMediaGoHome.

Uma notícia solta:  jornalistas são a comunidade mais verificada do Twitter.

Que serve de gancho para falar que o Twitter anda pensando em comprar o Flipboard. Olha, eu particularmente acharia uma boa. Eu simpatizava com o Flipboard, mas ando meio decepcionado com a  falta de conexão dele com outras ferramentas. Essa solidão proposital fez até eu deixar de anunciar aqui na newsletter a Tendências no Jornalismo, a revista do Farol Jornalismo lá.

Falando em compras e vendas, o Vox comprou o Re/code.

E falando em grana, o Pew Research Center publicou outra pesquisa sobre jornalismo. Agora, sobre o declínio do valor dos jornais (como empresas) nos Estados Unidos. O texto fala de forma genérica para abordar alguns casos específicos. Como o Boston Globe, que valia US$ 1,8 bilhão em 1993 e hoje vale US$ 71,2 milhões; ou Philadelphia Inquirer, que valia US$ 604,9 milhões em 2006 e hoje vale US$ 56,7 milhões. Ainda há dados do Chicago Sun-Times e do Minneapolis Star Tribune.

Enquanto isso, aqui no Brasil, a circulação dos cinco maiores jornais cresceu, segundo matéria do Meio e Mensagem com dados do IVC. O líder em circulação é a Folha (média de 361.231 exemplares nos primeiros quatro meses do ano, crescimento de 6,4% na comparação com 2014). O maior crescimento foi da Zero Hora (13% mais do que o ano passado, 201.178 exemplares). Interessante. Mas, pelo que entendi, esses números levam em conta a circulação não só das versões em papel, mas também as digitais (desktop, apps para tablets e smartphones). O que diz a matéria: “O digital tem uma forte participação nesses dados. Em abril deste ano, 44,6% da circulação total da Folha já era composta por edições digitais. No Globo, a fatia do digital já corresponde a 37%.” Não tão misturando as coisas, não?

Pra ir terminando, algumas coisas nacionais que andei lendo / tive contato.

Primeiro, este texto do Leandro Demori, editor do Medium Brasil. Trata-se de uma resposta a este outro, assinado por Fernando Mello, que fala sobre o lançamento do Brio, veículo que promete fazer jornalismo de profundidade em escala global.

Um trecho do texto do Mello:

“Este texto não é escrito com a pena — ou melhor, o teclado — da galhofa (tão comum entre nós jornalistas, costumeiramente irônicos) ou a tinta da melancolia (ainda mais comum, especialmente em momentos como o atual). São palavras de quem tem a vontade de arriscar, testar, apresentar possíveis soluções e até mesmo errar antes de acertar e oferecer algo relevante para a vida de consumidores e produtores de informação.”

E um trecho do texto do Demori:

“Não existem respostas prontas para o futuro imediato do negócio, mas acredito que muitas delas estão nas mãos dos artesãos, de quem está começando do lugar mais interessante e retomando para si o que o jornalismo abandonou: a reportagem.”

Falando em reportagem, foi publicada no UOL a primeira matéria de outra iniciativa jornalística recente, a Eder Content. O material conta a história do primeiro levante armado contra a ditadura militar, que aconteceu na pequena cidade gaúcha de Três Passos. O conteúdo é de fôlego. A texto é assinado por três repórteres, um fotógrafo e um ilustrador, mas os créditos finais mostram que muito mais gente se envolveu diretamente com a produção. Ainda não li, mas está na fila.

Outra iniciativa brasileira de jornalismo para ficar de olho: Galgo Rex – jornalismo em rede. O site ainda anuncia um pré-lançamento, mas a fan page já está na ativa.

Snapchat em três links. Cadeira cativa aqui na newsletter, Mathew Ingram explica por que as empresas de mídia precisam ficar atentas ao fantasminha branco.

“(…) empresas de mídia que enxergam o Snapchat como um brinquedo sem nenhuma vantagem competitiva provavelmente deveriam rever suas posições. E não por causa de coisas como o Discover, onde o Snapchat oferece vídeos curtos de veículos como CNN e Vice. É pelo seu funcionamento, e pela maneira como ele se aproveitou das necessidades e dos padrões de uso dos usuários mobile jovens”

Ingram cita o fato de o Snapchat estar contratando jornalistas para a cobertura das eleições presidenciais americanas de 2016. Este foi o segundo link. O terceiro é um texto do jornalista Breno Barros, do Ministério do Esporte, sobre como o Snapchat está sendo usado para coberturas esportivas – em especial o basquete.

Ok, chega por hoje. Vamos às coisas rápidas:

Antes de me despedir, um (re)aviso. Caso alguém não tenha visto, enviei um email extraordinário no domingo com a correção de um trecho traduzido para a news de sexta passada. Também publiquei a correção no fim do texto replicado no blog.

Bueno, era isso então.
Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório