Buenas, gurizada!

Como vocês já sabem, às vezes eu passo grande parte da semana em algum evento acadêmico, o que influencia o conteúdo da newsletter. Esta é uma dessas semanas. Tá rolando, de quarta até hoje, na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico) da UFRGS, o 10º Alcar – Encontro Nacional de História da Mídia. Eu gostaria de mostrar algumas ideias recolhidas na conferência de abertura, quarta à noite, pelo professor Marcos Palacios, da UFBA. Ele propôs algumas reflexões sobre memória e jornalismo na era digital – um assunto que me interessa, embora não faça parte do meu foco atual de pesquisa.

Achei que seria legal compartilhar com vocês.

Palacios construiu seu raciocínio a partir da constatação de que a memória, hoje, faz parte da “tessitura da narrativa jornalística”. Ele defende que as possibilidades trazidas ao jornalismo pela tecnologia tiraram da memória o caráter de “apêndice” para colocá-la no centro das atenções. A ponto de se tornar corriqueira a utilização de aspectos relacionados a ela na costura do texto jornalístico (aqui, o sentido de texto é mais amplo, podendo ser um infográfico, um vídeo, etc, e não apenas o texto escrito). A digitalização torna mais acessível a incorporação do passado à notícia do presente. Algo que não era comum na pré-digitalização (o obituário é um exemplo clássico), pois o processo era mais trabalhoso (ir até o arquivo do jornal, consultar enciclopédias, procurar fotos antigas, etc). Mas isso não quer dizer que o jornal do dia anterior só servia para embrulhar peixe. Não. A memória já estava presente no jornalismo. A diferença é que agora ela está embutida na narrativa jornalística, trazendo consigo a possibilidade de uma relação mais ativa com o passado.

Para Palacios, há, portanto, uma potencialização da memória no jornalismo digital.

Parênteses rápido. Ao falar de potencialização, Palacios aborda a questão ruptura versus continuidade no jornalismo digital. Segundo ele, ao contrário do que o senso comum pode indicar, a digitalização do jornalismo trouxe mais potencializações do que rupturas. A questão da memória é um exemplo. A hipertextualidade é outro (a capa do jornal tem um caráter hipertextual, lembra ele). Nesse sentido, ruptura real trazida pelo jornalismo digital é a crono-espacial. O jornalismo se liberta das limitações tradicionais impostas pelo espaço e pelo tempo. Fecha parênteses.

O que essa potencialização representa? Como a memória ajuda o jornalismo?

Segundo Palacios, com a contextualização. Ao incorporar a memória na tessitura narrativa, inserimos um elemento a mais para pensar a qualidade do texto jornalístico. A memória deixa de ser apenas um box na matéria para começar a ser usada de diversas formas na construção textual: comparação, analogia, nostalgia.

Para ilustrar, Palacios mostrou exemplos. Um deles foi a utilização dos conhecidos “leia mais” como forma de agregar contexto à informação noticiada, possibilitando ao leitor uma compreensão melhor – em tese – da história por trás do fato.

E aí faço uma pequena crítica. A preocupação em usar a tecnologia para fazer “jornalismo de contexto” há muito transcende os “leia mais”. Utilizar os dados digitalizados de maneira mais ou menos automatizada – trazendo a memória para o fato noticiado – é o grande desafio de quem vem desenvolvendo CMSs nativos da web (que tentam não reproduzir a lógica de um formulário com manchete, linha de apoio e texto, forma elementar de publicador que emula a página de um jornal). Vide o caso do Vox. Ou do Washington Post. Abordar apenas recursos como o “leia mais” faz a reflexão sobre as possibilidades da memória digital como catalisador do jornalismo de contexto ficar datada. A discussão, me parece, está mais adiantada.

Obviamente isso não invalida o insight de Palacios.

Outra proposta interessante do pesquisador é considerar os comentários dos leitores nas matérias, que ele chamou de “marginália jornalística” (no sentido de anotações laterais a um texto), como um elemento importante para delinear o clima de um determinado momento da história, uma espécie de mood de uma comunidade, o espírito do tempo, o zeitgeist. É uma maneira, diz ele, de saber como o jornalismo estava sendo recebido pelos leitores. Isso não era possível antes. Por esse motivo é interessante que se preserve esse tipo de conteúdo.

Sobre isso, outro parêntese. Confiram este texto do professor da UnB Samuel Lima, publicado no blog do PPG da UFSC, sobre comentários de leitores em notícias de portais. Citando o trabalho do pesquisador Thiago Amorim Caminada sobre o assunto e a obra de Thaís de Mendonça Jorge sobre a mutação da notícia na era digital, ele questiona esse espaço de expressão. “[A notícia é ] Um bem simbólico, forma de conhecimento social que não dialoga com o discurso de intolerância, ódio, misoginia, homofobia, preconceito racial, xenofobia e outros dizeres brotados das pequenas almas humanas que transitam, aos milhares, pelos nós das diversas plataformas de comunicação em rede.” Fecha parênteses.

No fim da sua fala, Palacios lançou questões a respeito de como estamos cuidado da memória digital. Quem são os donos dessa memória? Quem está guardando essa memória? Quem está tratando de questões éticas e legais? Quem tem direito a essas memórias? Quem decide como essa memória será guardada?

Uma questão que Palacios não abordou, mas que me intriga bastante é a memória estética digital. No caso do jornalismo, a preocupação com o layout dos sites de notícias. Porque, em geral, a “cara” dos sites se perdem à medida que o design evolui. Se eu entrar em uma notícia de 2008 de qualquer portal, é muito provável que ela carregue com o template de 2015 – salvo raríssimas exceções. Como há diferenças entre as versões antiga e nova, muitas vezes, ao carregar, o conteúdo fica descaracterizado, pois o layout de seis anos atrás não previa determinadas funções que o atual oferece. Assim se perde muito do que sigfinificava ler uma notícia. Isso é ruim, há um prejuízo na preservação da memória, pois acessar o layout de uma notícia de 1998 é como olhar uma página de jornal antigo.

Obviamente não sou o único que pensa nisso. Outras pessoas também têm essa preocupação. E melhor, estão fazendo alguma coisa. Uma dessas pessoas é o professor e pesquisador da Unisinos Gustavo Fischer. A atual pesquisa dele, apresentada ontem em uma mesa do Alcar, se propõe a pensar e fazer uma arqueologia da mídia digital. Eu não consegui acompanhar a mesa, pois estava em outra mesa, mas minha prima-irmã Bibiana Osório, que trabalha com audiovisual, estava lá e gentilmente me cedeu suas considerações. Olha só o que ela diz:

“O legal do estudo é que ele traz para as discussões acadêmicas a importância de manter e dar acesso às audiovisualidades dos conteúdos da web. Uma das facetas da web é justamente ser um banco de dados, mas ela tem dificuldades de ser um banco de dados de si mesma! Páginas deixam de existir e mantêm apenas uma interface de aviso ao usuário: Page not found. Ou então recados redirecionando para outros endereços. Aquela página antiga se foi.”

Na linha das indagações feitas por Palacios, mas na área do audivisual, Bibiana diz:

“É fundamental que se pense em políticas públicas, amparadas ou não nas iniciativas privadas, focadas na preservação da memória do audiovisual brasileiro que envolvam os seguintes processos: digitalizar, catalogar, guardar e dar acesso. Quatro atividades básicas quando se pensa memória e história audiovisual.”

Discussão interessante, não?

Bueno, encerramos o assunto por enquanto.

Vamos adiante.

Interessante texto do Ev Williams, fundador do Medium, sobre a evolução da plataforma. Especificamente, como o Medium está buscando, a partir da inserção de novas funcionalidades, definir-se menos como uma ferramenta e mais como uma rede. Williams conta, ao narrar sua trajetória como fundador do Blogger e do Twitter, que ele aprendeu que o negócio da internet não é software. “É a rede o mais importante — a conexão com outros usuários e o conteúdo que eles criam”, diz ele.

Outro trecho:

“Nós iniciamos construindo uma excelente ferramenta para escrever. E não é nem mesmo o editor em si que cria o maior valor. É o fato de que você pode facilmente escrever e partilhar seu texto sem a configuração, cabeçalho ou o nível de preocupação de criar um blog.

(…)

No entanto, este não é o sentido. Ou, pelo menos, não é a finalidade. Nos últimos meses, nós transferimos mais a nossa atenção em relação ao produto de criar um valor para a ferramenta para criar um valor para a rede.

[…]

Redes bem concebidas diminuem os atritos e ajudam que coisas boas surjam. As conexões permitem que o todo seja muito mais interessante que a soma das partes e permite que as partes descubram e construam significado.”

Aproveitem que está em português.

Uma notícia solta: em quatro anos, o tempo gasto lendo jornal caiu 25% em todo o mundo. São 16,3 minutos por dia, em média, enquanto em 2010 eram 21,9 minutos.

Falando em pesquisa, o Pew Research Center publicou no dia 1º um levantamento sobre hábitos de consumo de notícias sobre política de diferentes gerações (Millennials, Geração X e Baby Boomers). Estamos falando de EUA, mas sempre é possível fazer uma aproximação com o nosso contexto. O link traz cinco fatos:

1) Millennials confiam mais no Facebook como fonte de notícias. Seis em dez Millennials se informam pela rede social de Mark. Por outro lado, Baby Boomers confiam na TV (60%). O pessoal da Geração X tá no meio: 51% Face e 46% TV.

2) Millennials não têm familiaridade com fontes de notícias. Das 36 citadas, eles se disseram “pouco familiarizados” com 18. As conhecidas: BuzzFeed e Google News.

3) Millennials confiam menos nas fontes de notícias que eles conhecem.

4) Millennials estão mais expostos a notícias políticas no Facebook do que a Geração X e Baby Boomers. Eles dizem que 24% dos posts que aparecem nas suas timelines têm a ver com política ou com o governo.

5) Millennials são menos interessados em política do que as outras gerações.

Nada muito novo. Mas esses dados fazem sentido se pensarmos no Instant Articles. Olha só esta matéria do Journalism.co.uk sobre o discurso de Emily Bell, diretora do Tow Center for Digital Journalism, da Universidade de Columbia, durante o World Newsd Media Congress, que aconteceu em Washington, nesta semana.

Emily disse o seguinte:

“A mídia livre, na medida em que ela ainda existe, não é mais propriedade dos editores. É propriedade das empresas que desenvolvem plataformas”. 

Isso significa que estamos perdendo controle do caminho que leva as histórias aos leitores, além de entregar o controle sobre dados e fontes de receita. Além do Facebook, ela citou Instagram, Snapchat e WhatsApp. Para Emily, “até que nós tenhamos algo para competir com eles, estaremos sempre em uma posição de fragilidade”, afirmação que remete ao discurso feito por ela no Reuters Institute for Journalism, em novembro do ano passado, destaque da newsletter #32.

Outra afirmação presente no discurso de 2014 e repetida por Emily nesta semana é a que as plataformas não podem mais dizer “somos apenas uma plataforma”. “É impossível sustentar o argumento de que eles não têm nenhuma responsabilidade sobre os conteúdos publicados pelas pessoas, e nenhuma responsabilidade sobre como as pessoas são afetadas por esses conteúdos”, disse Emily.

Aproveitando o gancho do Facebook / Instant Articles, deem uma olhada no texto do Bruno Torturra no Outras Palavras. Para ele, a união de empresas jornalísticas com o Facebook não é uma estratégia “una-se a eles”, e sim uma capitulação. Diz Torturra: “ao dar ainda mais força, consolidar ainda mais essa rede social como o feixe central da troca e difusão de informação no mundo, esses veículos podem não estar entrando no time vencedor. Mas chocando o ovo da serpente.”

Sigam firme e gastem um tempinho do final de semana de vocês para ler este texto. Ele é assinado por uma jornalista que teve um princípio de carreira em empresas que fazem analytics, ou seja, usam dados coletados na internet para fins diversos, grande parte das vezes publicitários. Quinn Norton, que diz ter largado dessa vida porque não quis fazer parte dela, faz um exercício interessante do que podem estar fazendo conosco enquanto navegamos despretenciosamente pela internet.

“O que eu faria em seguida é: criar um mundo para você habitar que não reflete o seu gosto, mas, ao longo do tempo, o define. Eu poderia lentamente modificar as mensagens publicitárias que você vê, e, em muitos casos, até mesmo o conteúdo, e, de maneira proposital e confiável, alterar sua visão de mundo. “

Pesado, hein.

Adiante.

Nesta semana, o Quartz anunciou algumas mudanças no seu site. Os detalhes estão aqui. A principal foi tornar o qz.com mais rápido e flexível. Mais do que o que mudou, o que me chamou a atenção foi uma fala do diretor-executivo da empresa, Zach Seward, ao Journalism.co.uk a respeito de como eles encaram esse processo:

“Se nós sentássemos e levássemos um ano para detalhar um plano, outro ano para desenvolvê-lo e mais um para ter certeza de que tudo estava em ordem, três anos depois nós teríamos um redesign cujo objetivo era dar conta de necessidades que já não existiriam mais, além de nos deixar para trás em relação às novidades atuais.”

Do nada, dois livros:

E uma notícia de um assunto que abordamos na newsletter #41, a sindicalização nos funcionários do Gawker. Segundo o NYT, dos 118 aptos a votar, 107 o fizeram, e 80 optaram pela sindicalização. Movimento interessante para ficar de olho.

Já em ritmo lento, outra forte sugestão de leitura para o final de semana: uma entrevista com Umberco Eco no El País Brasil. Eco está lançando um romance que fala de jornalismo, especificamente sobre o jornalismo “máquina de lama”.

Um trecho da entrevista:

El País: Agora a realidade e a fantasia têm um terceiro aliado, a Internet, que mudou por completo o jornalismo.

Eco: A Internet pode ter tomado o lugar do mau jornalismo… Se você sabe que está lendo um jornal como EL PAÍS, La Repubblica, Il Corriere della Sera…, pode pensar que existe um certo controle da notícia e confia. Por outro lado, se você lê um jornal como aqueles vespertinos ingleses, sensacionalistas, não confia. Com a Internet acontece o contrário: confia em tudo porque não sabe diferenciar a fonte credenciada da disparatada. Basta pensar no sucesso que faz na Internet qualquer página web que fale de complôs ou que invente histórias absurdas: tem um acompanhamento incrível, de internautas e de pessoas importantes que as levam a sério.”

Pra terminar:

Antes de ir embora, duas questões práticas. Primeiro, não sei se quem usa Gmail notou, mas na semana passada a newsletter caiu na caixa / aba “Promoções”, e não na “Pessoal / Principal”. Se vocês quiserem mudar, é possível. Basta ir em “configurações” — “filtros” e criar um filtro orientando que todas as mensagens enviadas por contato@faroljornalismo.cc sejam direcionadas para a caixa / aba Principal. Vai ser criada uma regra mais ou menos assim:

Resultados correspondentes: from:(contato@faroljornalismo.cc)

Faça isso: Categorizar como Pessoal

Segundo, quem manifestou interesse em participar do Hangouts Farol Jornalismo, a partir deste final de semana começarei a entrar em contato para conversarmos.

Beleza?

Bueno, era isso então. Vou voltar para a Alcar.
Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório