Buenas, moçada!

Sexta, dia dos namorados, sol, 12 graus lá fora. Baita dia aqui em Porto Alegre.

Vamos diretamente ao assunto da semana: o lançamento do News, o aplicativo de notícias da Apple. Imagino que vocês já tenham lido alguma coisa durante a semana (se alguém estiver por fora, comece com esta notícia da Folha, até porque vou me permitir não me ater à descrição das funcionalidades mais gerais do produto). Então vou fazer um apanhado inicial do que já se falou sobre ele.

Eu diria que o melhor texto que cruzei até agora foi este, do Joshua Benton, publicado no Nieman Lab. Ele faz uma extensa análise do produto (a partir das características divulgadas no lançamento, já que o News ainda não está disponível – será lançado em breve nos EUA e Europa), focando a discussão, claro, no jornalismo. Segundo ele, o keynote da última segunda foi o mais importante feito pela Apple para organizações de notícias desde 2011. Mas a importância, para Benton, indica uma potência, não necessariamente uma mudança. Movimentos como esse podem levar a mudanças significativas no comportamento dos usuários. Por outro lado, “pessoas interessadas em notícias têm hábitos que podem demorar a mudar”. Mas isso não diminui o FRISSON em torno do lançamento.

Outra coisa que Benton chama a atenção é que 2015 é o ano da distribuição de conteúdo. Não há garantias de que o News da Apple vai funcionar, assim como ninguém põe a mão no fogo pelo futuro do Instant Articles, do Facebook, mas…

“… a narrativa de fundo está clara: apps individuais de notícias e veículos de notícias não são mais o primeiro contato com as notícias. Eles produzem material cru para alimentar plataformas mais amplas. A perda de poder dos publishers é óbvia; os potenciais benefícios permanecem em, sua maioria, inexplorados.”

Outra característica do News, ressalta Benton, é aproveitar a “inteligência” do iPhone (na verdade, do iOS 9, nova versão do sistema operacional dos aparelhos da Apple, que traz o News). Por exemplo, será possível fazer uma busca por notícias a partir do próprio iPhone, que retornará artigos publicados nos apps de notícias instalados no telefone. Outro exemplo é que notícias aparecem diretamente na tela de busca, embora ainda não esteja claro qual será o critério de escolha do iOS.

O News deve enterrar o Newsstand, um app atual que reúne em uma “banca de revistas” alguns dos apps de notícias instalados no iOS. Benton ressalta o fracasso dessa tentativa, dizendo que “o lugar especial” criado para o conteúdo jornalístico acabou se transformando em um “gueto” onde os aplicativos ficavam encerrados, longe dos olhos dos usuários. De fato, eu raramente entro no Newsstand.

A morte do Newsstand também foi destaque desta nota do re/code. Mas é só uma nota. Se for pra indicar outra leitura, deem uma olhada nas quatro perguntas e respostas sobre o News, do Poynter. O repórter James Warren entrevistou alguns analistas de mídia, que disseram coisas interessantes a respeito do jornalismo.

A declaração do analista Ken Doctor a respeito do crescimento de notícias por meio de plataformas, por exemplo, converge com o que escreveu Joshua Benton no Nieman. Segundo ele, a iniciativa da Apple representa uma “jornada em andamento, não um mudança repentina”. Trata-se de um “mundo em que os leitores irão continuar lendo notícias de grandes veículos de notícias – novos e antigos – e vão lê-las em outras plataformas de distribuição, como Facebook e Apple”.

O texto também destaca a mudança no formato das notícias que um movimento como esse deve causar. As práticas jornalísticas terão de se adaptar.

Outro tópico importante é sobre o modelo de negócio que surge com a emergência dessa lógica de circulação. Há uma tendência a aumentar o número de leitores casuais, diz Allan Mutter, outro analista ouvido pelo Poynter, mas esses “leitores incidentais não têm o mesmo valor para um jornal de quem assina um jornal impresso ou um site”. “Para se franco, eu ainda não enxergo um modelo de negócio sustentando o jornalismo, tal como conhecemos hoje, no futuro”, disse Mutter.

Se vocês quiserem mais informações práticas sobre o News, o Poynter publicou um clássico “coisas para saber” sobre o novo aplicativo da Apple. Um conteúdo parecido, e em espanhol, foi publicado pelo 233Grados.

Enquanto isso, no Facebook, a poeira do Instant Articles está baixando. Segundo o Business Insider e o Nieman Lab, a coisa segue, mas com menos estardalhaço.

Falando em Facebook, vejam que interessante este texto sobre como o fato de os vídeos publicados no NewsFeed do Facebook rodarem automaticamente está trazendo de volta a ideia dos antigos jornais cinematográficos mudos, aqueles que os nossos avós assistiam no cinema. Josh Kalven, o autor, percebeu que muitos produtores de notícias começaram a fazer vídeos em que a narração em off é substituída por, digamos, GCs (gerador de caracteres) mais sofisticados, o mesmo recurso utilizado pelos noticiários antigos – os silent newsreel, em inglês. Isso porque o autoplay do Facebook funciona sem som por default (para ouvir, o usuário precisar dar um unmute no player). E não é que o mundo dá voltas?

Seguimos com o Facebook, agora com este texto do Journalism.co.uk com a fala da “editora de engajamento” do Vox, Allison Rockey, durante um evento em Londres. Para a editora de engajamento, deveríamos (nós, jornalistas) parar de nos preocuparmos tanto com o algoritmo do Facebook e focar nossa atenção em produzir conteúdos interessantes e atrativos. “No fim das contas, é o bom conteúdo que é compartilhado”, afirmou, completando que os leitores do Vox, por exemplo, não querem apenas gatinhos ou listas. “Eles querem saber coisas interessantes que estão acontecendo no mundo”. Um pouco simplista demais. Mas leiam vocês.

Mudando de assunto.

Matéria do Poynter sobre uma discussão fundamental: a desigualdade de gênero no jornalismo. A jornalista Sara Catania chama a atenção para o fato de todas as matérias da capa do Wall Street Journal de 18 de maio terem sido escritas por mulheres. Algo a se comemorar, mas que também serve de alerta para uma realidade ainda baseada em disparidade e preconceito. Sarah lista cinco razões que ajudam a explicar por que as mulheres ainda não preteridas nas redações (nos EUA). Sobre o mesmo assunto o Journalists Resource reuniu seis estudos e relatórios sobre a situação da mulher na indústria da mídia. Material interessante.

Parênteses. Sobre mulheres e bom jornalismo: Nua e Crua. Fecha.

Dos EUA para o Brasil. Leiam esta matéria do IJNet sobre o empreendedorismo no jornalismo brasileiro estar “decolando”. O texto lista os principais movimentos feitos no país recentemente. Iniciativas como Brio, Ponte, Jota e Outra Cidade, entre outras, são citadas. Destaquei um trecho que dá o clima da matéria.

“No Brasil, o jornalismo impresso é dominado por alguns jornais conservadores, como Folha de S.Paulo, Estado de S.Paulo e O Globo, e pelo império de revistas da Abril. Mas de uns tempos pra cá eles têm diminuído suas equipes, demitindo centenas de jornalistas todos os anos. Mesmo que essas publicações ainda tenham índices de leitura elevados, ambiciosos jornalistas brasileiros não estão se esforçando para fazer carreira nesses lugares. Além disso, o desenvolvimento tecnológico vem diminuindo os obstáculos para empreender no jornalismo”. 

Aproveitem o embalo: o Brio fez um convite a quem quiser trabalhar com eles. E liberou as primeiras reportagens publicadas no site. Lerei no final de semana.

Elas entrarão na fila junto dessas outras duas aqui.

Outra leitura para fazer em um futuro próximo (espero) é este texto publicado na Columbia Journalism Review sobre o jornalismo após Edward Snowden. Trata-se de um capítulo do livro Journalism After Snowden: The Future of Free Press in the Surveillance State, de Alan Rusbridger, a ser publicado em breve. O texto levanta duas questões essenciais para pensarmos o jornalismo hoje: primeiro, se as tecnologias reveladas por Snowden são compatíveis com a prática da reportagem independente; segundo, e aí a coisa fica feia, “o que de fato é jornalismo?”.

Agora uma discussão mais específica.

A exemplo da semana passada, a newsletter terá uma parte acadêmica. Isso porque estive em Brasília quarta e quinta-feira para o 24º encontro da Compós. Uma viagem aeroporto-UnB-hotel-UnB-aeroporto, sem muito tempo para respirar. Mas suficiente para cumprir o objetivo de ouvir os artigos apresentados nos grupos de jornalismo e de cibercultura, somando dez trabalhos em quatro turnos de discussão. Gostaria de compartilhar rapidamente as ideias de dois deles. O primeiro propõe uma discussão metodológica para buscar antecipar os efeitos de alguma tecnologia, o segundo discute a autorreferencialidade no jornalismo na comemoração de efemérides. Não me alongarei muito, mas achei que podia ser bom oferecer mais uma amostra do que se está pensando na academia – especificamente no evento mais importante de Comunicação no Brasil – sobre assuntos que volta e meia tratamos aqui, embora de maneira distinta.

No artigo Como antecipar os efeitos de uma tecnologia? Um modelo exploratório inspirado na Nova Ciência de McLuhan aplicado ao Facebook, apresentado no GT de Cibercultura, Vinícius Andrade Pereira, diretor do ESPM Media Lab, usa conceitos que estão em um livro não tão conhecido do pensador canadense para fazer uma abordagem crítica das tecnologias nas quais estamos imersos hoje. No caso dele, o Facebook. Um desses conceitos é chamado tétrades, que, de maneira simplificada, é um conjunto de quatro perguntas que devemos fazer a uma tecnologia para começar a entender seus sentidos. São elas: O que um(a) meio/tecnologia incrementa ou potencializa?; O que um(a) meio/tecnologia torna obsoleto?; O que um(a) meio/tecnologia recupera?; O que um(a) meio/tecnologia reverte, quando levado(a) ao extremo?. É uma maneira de utilizar a linguagem, diz Vinícius, para obter o máximo de informações possíveis daquele determinado meio/tecnologia. A apropriação desses dados de uma maneira mais lúdica, apoiada em certa flexibilidade, flertando inclusive com a arte (daí a “Nova Ciência”), vai servir para abrir uma frente de investigação científica capaz, por que não, de antecipar alguns dos efeitos desse meio/tecnologia.

Se vocês tão achando a coisa meio utópica, de fato é mesmo. Mas talvez o que mais interesse na proposta de Vinícius é criar, como ele mesmo diz, “contra-ambientes” para perceber coisas nos cenários onde vivemos. Porque quando você está imerso em um meio tecnológico, tem dificuldade de perceber algumas coisas. Nesse sentido, ele acha que a proposta da tétrades de McLuhan pode oferecer a complexidade necessária para entender esse cenário complexo.

Na pesquisa acadêmica, essa proposta pode abrir caminhos de investigação mais aprofundadas. Mas creio que, antes disso, ela pode se transformar em uma postura, uma maneira de ver as coisas. No caso do Facebook, utilizá-lo criticamente, questionando o que ele faz ou deixa de fazer, a partir dos dados que temos e/ou conseguimos obter a respeito dele. Se isso ajudar a desfazer o senso comum de que redes sociais como o Facebook são ferramentas essencialmente libertárias, para muitos sinônimo da própria internet, já ganhamos muito.

O outro artigo, A autorreferencialidade na comemoração de efemeridades: Canudos e Euclides da Cunha em O Estado de S. Paulo, de Lidiane Santos de Lima Pinheiro, professora da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), aborda a apropriação que o Estadão fez/faz do fato de o autor d’Os sertões ter sido o correspondente do jornal na guerra de Canudos. O trabalho é fruto da tese de doutorado de Lidiane, que se dedica ao tema desde a graduação. Na pesquisa, ela demonstra como o Estadão utiliza, ao longo do tempo, sua ligação com Euclides de maneira conveniente. Mesmo que, para tanto, a história precise ser manipulada. O maior exemplo disso (Lidiane cita vários outros) é o jornal dar a entender que Os sertões foi produzido dentro da sua redação (o que não é verdade – o Estadão se recusou, inclusive, a dar apoio ao livro), posicionando-se como o “herdeiro final da leitura de Euclides”.

Distorções à parte, é interessante pensar esse fato à luz de um comentário sobre o trabalho feito pelo pesquisador Felipe de Oliveira, da Unisinos. Ele sugere que, se pensarmos a história como algo sempre em reconstrução, seja olhando para o passado, seja projetando o futuro, a autorreferencialidade, o fazer referência a si mesmo, aparece como uma possibilidade de o jornalismo (no caso, o Estadão) manter o domínio sobre um determinado tipo de acontecimento (no caso, a guerra de Canudos). Ou seja, ao (re)afirmar sua presença nesse importante episódio da história brasileira, o Estadão legitima sua maneira de fazer e entender o jornalismo, obtendo, dessa forma, certo grau de credibilidade junto a seus leitores. É mais ou menos como se o jornal dissesse: “Conhecem Os sertões? Pois é, foi feito aqui dentro.” Daí a necessidade de trazer para perto de si uma obra desse porte. Mesmo que isso não seja lá bem a verdade.

Em outras palavras, toda vez que o Estadão cita Euclides da Cunha e/ou Os sertões, ele (re)conta a história a seu bel prazer. Em benefício próprio.

Feito?

Terminamos com:

Bueno, era isso então.
Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório