Buenas, moçada!

Pois eis que chegamos à 50ª edição da newsletter. Embora ainda faltem duas pra fechar um ano (a primeira foi enviada em 4 de julho do ano passado), dá pra dizer que alcançamos um marco. A milestone, se vocês me permitem recorrer a uma expressão em inglês que eu curto bastante. Também dá pra dizer que eu aprendi bastante. Espero que vocês também tenham aprendido alguma coisa com ela.

Um dos meus objetivos pessoais quando comecei era fazer com que a newsletter ganhasse vida própria. Não no sentido de se fazer sozinha, claro. Muito pelo contrário: ela dá cada vez mais trabalho. Mas sim por eu não poder, apenas porque deu vontade, parar de escrevê-la e enviá-la. Se um dia ela terminar, será por outro (bom) motivo. Por enquanto, seguimos firmes, (quase) todas sextas-feiras.

Então vamos à edição de hoje.

Aviso que ela vai ter um formato um pouco diferente em função do News Digital Report, o relatório anual produzido pelo Reuters Institute for the Study of Journalism. Vai ser quase uma newsletter temática, a exemplo da que falou sobre o discurso de Emily Bell, no fim do ano passado, proferido nesse mesmo instituto. A diferença é que, ao contrário daquela oportunidade, vou tentar abordar assuntos que seriam destaque em uma edição normal, inserindo-os no texto quando achar uma brecha. Vou fazer isso abrindo e fechando parênteses. Só espero que não fique truncado.

Certo?

Retomando, o News Digital Report 2015 é um estudo anual produzido desde 2012 pelo Reuters Institute for the Study of Journalism. Os resultados deste ano foram divulgados nesta semana. Junto com o State of the News Media, é um dos relatórios mais relevantes quando a ideia é indicar como o jornalismo digital está e apontar para onde está indo. Para traçar este diagnóstico, mais de 20 mil pessoas foram entrevistadas em 12 países. A leitura que vou fazer é basicamente um recorte do que disseram pessoas que já analisaram o relatório. Na medida do possível, recorri ao documento original, o que aconselho fortemente a quem tiver interesse em uma análise detalhada. Por favor, se encontrarem algo errado, me corrijam.

Vamos lá. Em primeiro lugar, deem uma olhada no executive e nos key findings do relatório. É um resumão da pesquisa. Agora, se vocês quiserem uma versão ainda mais resumida, assistam a este vídeo. Ele comprime mais de 100 páginas em 100 segundos. Mas como me parece que é difícil substituir a leitura para ter uma melhor assimilação das coisas, vou tentar, em poucas linhas, resumir a introdução.

O pesquisador Nic Newman começa o texto assim:

“Os dados deste ano mostram uma movimentação em direção às notícias oriundas dos meios sociais e de mobile, um declínio da internet a partir do desktop, e um crescimento significativo no consumo de notícias a partir de vídeos.

Ao mesmo tempo, nós percebemos que plataformas tradicionais continuam centrais – particularmente a televisão – e há uma divisão geracional cada vez mais acentuada na forma como as notícias são encontradas, consumidas e distribuídas.”

Em seguida, ele lista alguns dos key findings. O essencial:

  • Smartphones são, cada vez mais, sinônimo de notícias em formato digital, causando impacto no consumo, no formato e nos modelos de negócio.
  • Em muitos países, o crescimento do consumo de vídeos online, de novos formatos visuais e de notícias pelas redes coincidem com a queda nas audiências dos jornais de TV. Especialmente entre quem tem menos de 35.
  • Cresce a importância do Facebook (e de seus apps Instagram e WhatsApp). O que, por sua vez, levanta questões a respeito das “bolhas” causadas pelos algoritmos. No entanto, os entrevistados dizem que, na verdade, acessar esse tipo de plataforma os fazem consumir uma diversidade maior de notícias.
  • Cresce a batalha entre players globais, como Huffington Post e BuzzFeed.
  • Os pesquisados se mostram cada vez mais insatisfeitos com a publicidade online, inclusive pela percepção da ascensão dos conteúdos patrocinados.

Já deu pra ter uma ideia, não?

Agora mais um link. Este aqui é bom porque é um dos poucos em português – ainda que seja o de Portugal. Trata-se de uma tradução de um artigo de David Levy, o diretor do Reuters Institute, publicado no European Journalism Observatory. No texto, Levy destaca quatro aspectos do relatório: 1) o desafio ao domínio da TV; 2) Facebook como plataforma mais usada para chegar às notícias; 3) a confiança nos mídia e 4) as perspectivas de os leitores / consumidores pagarem por notícias.

Bueno, sobre o primeiro ponto, ele sublinha, trazendo dados, como alguns países são mais resistentes às mídias sociais, preferindo meios tradicionais – em geral, a TV – na hora de se informar. Mesmo entre os mais jovens. Na Alemanha, por exemplo, 58% dos entrevistados com menos de 35 anos ainda veem programas jornalísticos a partir da grade de programação. Nos EUA e no Reino Unido, por sua vez, a tendência é inversa: a TV vem, ano após ano, sendo deixada de lado – em especial por quem tem menos de 45 anos. A “batalha” TV vs internet social talvez seja a mais significativa da divisão geracional citada por Nic Newman.

Sobre o Facebook: 41% dos entrevistados disseram consumir notícias a partir dele semanalmente. No relatório de 2014 eram 35%. Um aumento de 6% em um ano.

Ok, deixem eu abrir o primeiro parêntese aqui. Esta matéria da Fortune aborda uma questão relevante sobre o poder crescente do Facebook. Não bastasse ele possuir (gratuitamente) os dados pessoais de milhões de pessoas, agora ele está investindo (mais, pois a tecnologia já existe) em reconhecimento facial a partir da funcionalidade Moments. O que está gerando discussões sobre privacidade. Leiam o que disseram as autoridades canadeses a respeito: “Nós ainda não estamos no momento em que vamos poder tirar fotos das pessoas na rua com nossos smartphones, identificando-as e ganhando acesso a informações a respeito delas. No entanto, essa realidade pode não estar tão distante”. Fecha parênteses.

Sobre a confiança da mídia, Levy faz um comentário interessante. Olhem só:

“Em todos os países há, de forma compreensível, uma maior confiança nas fontes usadas regularmente pelos respondentes, mas a discrepância entre os dois dados e os níveis mais baixos de confiança parecem prevalecer em países com os media mais partidarizados e polarizados, como a Itália. Países que mostram níveis mais elevados de confiança parecem ser aqueles que combinam fortes broadcasters públicos independentes com players privados com bons recursos.”

Ele ressalta que dois países fogem desse padrão.

Um deles é o Brasil, “que apresenta valores muito elevados de confiança, mas a amostra que usamos é apenas urbana, e por isso mais rica que a média do país”.

O maior índice de confiança está na Finlândia: 68%. O menor, nos EUA: 32%.

Sobre isso, leiam a análise de George Brock, professor de jornalismo da City University London, a respeito desses índices de confiança.

“Os quatro países mais abaixo na tabela [da confiança] são França, Itália, Espanha e Estados Unidos. Para além de qualquer fato que possa separá-los, todos eles são países onde a crise das elites está bem evidente: uma proporção significativa do eleitorado rejeita as explicações e discursos sobre o que está acontecendo oferecidos pela classe política. A confiança da mídia, ou a falta dela, está inextricavelmente ligada com a credibilidade da elite política.”

Pra fechar o texto de Levy, uma constatação nada encorajadora sobre perspectivas de as pessoas pagarem por notícias. Só pra ter uma ideia, o índice (mostrado no principal gráfico sobre o assunto no PDF do relatório) mais elevado de pessoas dispostas a desembolsarem por jornalismo é de 14%. Na Finlândia.

O curioso é que, sobre este aspecto, os dados do Brasil parecem ter sido ignorados, ficando fora do subcapítulo (no PDF) que aborda a questão, aparecendo apenas na página (também no PDF) que resume os dados de cada país e na ferramenta interativa no site. Comento mais sobre isso um pouco mais pra frente.

Por fim, cabe prestar atenção à conclusão de Levy:
“Retirar rendimento das notícias digitais – excepto no caso dos sites de notícias especializados – ainda é um grande desafio para os editores. Como Rasmus Nielsen Kleis, diretor de pesquisa do Instituto Reuters, disse: ‘A nossa pesquisa indica que a maioria das pessoas gosta de notícias e consome notícias, mas não querem pagar por elas, não querem ver publicidade em torno delas e não querem vê-las misturadas com conteúdos patrocinados. Isto significa que os modelos de negócio sustentáveis permanecem ainda desconhecidos, mesmo para aqueles que tiveram sucesso na construção de uma audiência’.

O excelente ensaio «Mind the Gap», escrito para o relatório por James Harding, Chefe de redação da BBC, alega que as lacunas entre os consumidores de notícias online e offline, bem como as lacunas geracionais, estão a aumentar. O seu ensaio centra-se na igualdade de acesso às notícias no mundo digital, mas muitos jornalistas e editores poderão partilhar a sua conclusão de que ‘o futuro digital é fabuloso, mas não é justo’.”

“O futuro digital é fabuloso, mas não é justo” é uma grande frase, vamos combinar. Mas eu gostaria de pegar o gancho das lacunas abordadas por Levy para sugerir outro link que trata do relatório. Este, do Journalist’s Resource. Na análise que eles fazem, o destaque é a não linearidade das tendências. Ou seja, há um destaque para o fato de que, embora o mundo esteja caminhando unido em direção a determinados tipos de comportamentos em relação à mídia, ainda há muitas peculiaridades locais. O post chama a atenção, por exemplo, para a volatilidade atual de “micro-trends” observadas nos últimos anos, como o surgimento dos apps de veículos de notícias e o acentuado uso de tablets visto dois anos atrás nos EUA.

Nessa linha, o Journalist’s Resource destaca ainda o ressurgimento de tecnologias “velhas”, como o podcasting e as newsletters, especialmente nos EUA, onde os noticiários de TV noturnos tiveram um ganho de audiência nos últimos anos.

Uma pausa para um link que reúne muitos outros links sobre a cobertura do relatório. Quase tudo em inglês. Mas também em outras línguas. Até chinês: “智能手机兴起 社交媒体威胁在线新闻”. Quem quiser se arriscar, fique à vontade.

Voltamos à nossa análise com o Nieman Lab. O lide é: Facebook e smartphones crescem como portas de entrada para notícias; leitores não estão muito afim de pagar por conteúdo e, além do mais, estão incomodados com a publicidade.

Sobre o consumo de notícias via smartphones, o Nieman ressalta uma informação presente também em outras análises. Em geral, os entrevistados acessam notícias via browser do telefone, e não via apps. “O relatório mostrou que 70% dos usuários de smartphones possuem apps de notícias instalados em seus aparelhos, mas apenas um em três os utilizam durante a semana”, diz o texto do Nieman.

Parêntese. Deem uma olhada nesta notícia do re/code. Segundo uma pesquisa do Localytics, 20% dos apps de notícias são abandonados pelos usuários após usar uma única vez. Olha, posso dizer que estou nesse percentual. Outra coisa. Leiam também esta notícia do Nieman Lab e este texto do Mathew Ingram sobre o novo app do BuzzFeed. Segundo Ingram, é uma tentativa de dar mais espaço para o jornalismo sério da empresa. Isso se alguém abrir o app. Fecha parêntese.

É certo que as pessoas não estão acessando o browser diretamente, o que nos leva a inferir que as redes sociais servem de fato como gateway. Essa constatação me parece importante para pensar no potencial de formatos como o Instant Articles.

Parêntese. Aliás, depois de um grande furor, baixou a repercussão sobre o Instant Articles. Mas isso deve mudar logo. Segundo esta matéria do Poynter, alguns dos veículos de notícias estão pensando como dar continuidade ao projeto. Fecha.

Sobre a publicidade, o Nieman diz que, embora o público esteja mais atento à evolução da publicidade, nem sempre consegue identificar um conteúdo patrocinado. De qualquer maneira, os leitores não curtem. Nos EUA, 43% disseram se sentir incomodados ao descobrir que um conteúdo que haviam lido era patrocinado. Na avaliação do Poynter, o leitor vê meio de má vontade essa história de que conteúdo patrocinado ajuda a manter a gratuidade das notícias. E mais de 25% desconfiam de quem publica publicidade nativa ou conteúdo patrocinado.

É interessante ver a indústria de mídia perceber a má recepção, por parte do público, a uma das maiores apostas recentes de modelo de negócio.

A Columbia Journalism Review também dá destaque para o enfoque da publicidade. “Consumidores de notícias digitais tendem a não pagar por notícias e aumenta o uso de bloqueadores de publicidade” diz a manchete sobre o relatório.

Em seguida vem o seguinte:

“Tomadas em conjunto, essas duras realidades impõem ameaças econômicas não apenas às marcas mais tradicionais, mas também aos disruptores – Huffington Post, BuzzFeed – que estão baseados no digital.”

Como eu introduzi há pouco, o engraçado é que essa “tendência assustadora” de os leitores se recusarem a pagar por notícias não diz respeito ao mercado brasileiro. Segundo o relatório, 23% dos entrevistados pagaram por notícias online no ano passado. E nada menos que 43% consideram pagar por notícias online no futuro. Olha, eu achei esses números no mínimo curiosos. Espero ter feito a leitura correta. Se eu tiver me confundido, por favor me avisem. Na ferramenta interativa do relatório dá pra fazer filtros por cada país.

Se de fato for isso mesmo, é indício de que, apesar de haver muitos pontos em comum em relação à evolução global das mídias digitais em todos os seus aspectos, as particularidades locais ainda são importantes – senão determinantes.

Bom, antes de fechar o especial Digital News Report, mais dados sobre o Brasil – já que todas as fontes citadas fazem suas análises voltadas para os EUA e Europa.

  • Online (incluindo mídias sociais) e TV aparecem praticamente empatadas como fonte de notícias principais, com uma pequena vantagem para a primeira: 44% e 43%, respectivamente. Mídia impressa aparece lá atrás: 4%.
  • O Brasil fica atrás apenas da Finlândia no índice de confiança nas notícias: 62% dos entrevistados dizem, em geral, confiar nas notícias que consomem.
  • O Brasil fica apenas atrás da Espanha quanto ao uso de WhasApp: 61% dos entrevistados. Na hora de consumir notícias, 34% dos entrevistados usam o “ZapZap”, “como o aplicativo é conhecido no Brasil”, diz o relatório.
  • Sobre a liderança absoluta e mundial do Facebook, o relatório diz que, no Brasil, “o fechamento do Orkut efetivamente fez do Facebook o vencedor da batalha em um dos mercados mais ativos do mundo”.
  • 59% compartilham notícias via email ou mídias sociais: o país é o 1º dos 12.
  • 23% usam o smartphone como principal modo de acessar notícias.
  • O veículo digital mais citado é o G1; em relação à mídia tradicional (TV, rádio e impresso – todos numa mesma categoria), é, obviamente, a Globo.

Bueno, finalizo o especial (e os parênteses) por aqui.

Antes de terminar, algumas coisas rápidas.

Primeiro, uma matéria do Journalism.co.uk sobre como a BBC usa o WhatsApp para coletar informações, principalmente em eventos de emergência, como desastres naturais. Natalie Miller, jornalista da equipe de UGC, destaca o fato de o WhatsApp fornecer um contato direto, o que facilita o processo de verificação do conteúdo.

Segundo, YouTube e Storyful lançaram um canal para vídeos eyewitness verificados. Trata-se de mais uma parceria entre as duas empresas para atuar na área jornalística de UGC e breaking news. Tem detalhes no TechCrunch.

Terceiro, leiam o especial produzido por Sérgio Spagnuolo e seu projeto de jornalismo de dados, o Volt Data Lab, sobre os passaralhos dos últimos anos no Brasil. São duas matérias publicadas no Medium (1 e 2) e um infográfico interativo.

Bueno, era isso então.
Bom final de semana e até sexta que vem! 🙂
Moreno Osório