Buenas, moçada!

Que tal vai a coisa pros lados de vocês?

Por aqui a coisa vai indo. Cada vez mais rápida, eu diria. Junho já era, e temos, diante de nós, mais uma sexta-feira inteirinha para curtir. Em Porto Alegre, sol, céu azul anil e 15ºC. Bueno, vamos nessa porque o final de semana começa com um Argentina vs Colômbia e termina com os preparativos para Wimbledom.

Preciso começar a newsletter corrigindo um erro cometido na edição passada. Na parte do News Digital Report, quando eu falo que 41% usam o Facebook para se informar, e que este índice era de 35% na pesquisa passada, o crescimento foi de 6 pontos percentuais, e não de 6%. Erro de leitura meu, já que no relatório está claro.

Agradeço ao Raphael Calmeto por chamar a atenção para o erro. Sorry, folks.

Bueno, vamos lá.

Primeiro, o lançamento do Google News Lab, a notícia que mais agitou as rodas jornalísticas durante a semana. Não conseguiu acompanhar? Leia o post de introdução à iniciativa no blog do Google. E/ou veja o vídeo. Em resumo, trata-se de um esforço de sistematização de ferramentas e técnicas potencialmente úteis para o jornalismo. Mas, como disse Rafael Silva neste post do B9, não há nada de novo, tudo já estava à disposição. A diferença é que agora os recursos estão reunidos em um lugar só, e com tutoriais e estudos de caso que ensinam a utilizá-los. Estão lá desde ferramentas não tão conhecidas, como o Fusion Tables, até as que já fazem parte do imaginário Google, como Translator. A ideia da empresa é ajudar os jornalistas a se movimentarem melhor no mundo digital. É como diz Steve Grove, diretor do News Lab, no fim do vídeo de apresentação do News Lab: “Nós acreditamos que o melhor jeito de criar uma sociedade informada é quando o jornalismo e a tecnologia trabalham juntos. Por isso nós estamos aqui.” Beleza.

O interessante de (envelhecer e) acompanhar a evolução das coisas é saber de onde elas vêm. Várias das técnicas reunidas e explicadas no News Lab já haviam sido exploradas no Verification Handbook, primeira publicação em que se procurou  adaptar para o ambiente digital a preocupação do jornalismo em apurar e verificar fatos e dados, e cuja tradução para o português teve participação do Farol Jornalismo. Uma delas é a busca reversa de imagens. Trata-se de um técnica/ferramenta para descobrir se uma imagem X já foi utilizada em algum outro lugar na web. É bom para quando desconfiamos da origem de determinada foto.

A Storyful, primeira agência de notícias preocupada em verificar conteúdos publicados nas redes sociais, é pioneira nessa área. Não por acaso, volta e meia falamos dela aqui. Aliás, Mark Little, um dos fundadores da Storyful, anunciou nesta semana que está deixando a agência, uma decisão difícil de entender para “quem nunca viveu uma vida de startup” (para quem não sabe, a Storyful surgiu em 2010 na Irlanda e em janeiro de 2014 foi comprada pela News Corp).

Mas voltemos ao que interessa: a verificação digital. Quer ver uma aplicação recém saída do forno de busca reversa de imagens? Leia esta reportagem da Agência Pública sobre a ascensão da direita nas redes. Quando Natália Viana, autora da matéria, fala sobre perfis de redes sociais fakes criados para a campanha eleitoral do ano passado, aponta a origem de algumas fotos usadas como avatar. Pra dar um exemplo, a imagem de uma notícia de 2013 de uma britânica que teria arrancado o pênis do marido, publicada no R7, ilustrava um perfil aecista fake no Twitter.

Aliás, deixem eu aproveitar o gancho da reportagem para comentar sobre outro assunto recorrente aqui na newsletter: o poder do Facebook. Em uma passagem do texto, o professor da Universidade Federal do Espírito Santo Fábio Malini, um dos maiores especialistas em análise de redes sociais do país, sublinha como o Facebook pode ter influenciado o caráter das manifestações de 2015, quando comparamos com as de 2013. “Antes a organicidade era muito grande. A Mídia Ninja por exemplo se irradiava a muitos usuários. No final de 2014, o Facebook decidiu que só vai ter mídia orgânica quem paga. Logo o Facebook se tornou uma máquina na qual quem tem grana consegue propagar sua informação pra mais gente. Criou-se o abuso de poder econômico”, disse o coordenador do Labic. É louco ver como o Facebook, tido por muitos como uma ferramenta revolucionária, pode, se transformar num brinquedinho a serviço do status quo. Basta mudar algumas linhas de código. E há quem ainda pense que a tecnologia é neutra.

Um parêntese. Sobre algoritmos e ética jornalística, deem uma olhada no projeto da Online News Association (ONA) que busca capacitar o jornalismo a desenvolver algoritmos baseados nos códigos e éticas que regem a profissão. Fecha parêntese.

Leiam a reportagem da Pública. Aproveitem o embalo e leiam a segunda reportagem da série sobre a nova direita brasileira, “A roupa nova da direita“.

Adiante, mas ainda falando sobre gigantes adentrando no terreno do jornalismo, vocês viram que o Instagram anunciou suas contribuições para acompanhar o mundo as it happens? Com a evolução da função Explore e uma ferramenta de busca mais poderosa, a ideia é oferecer ao usuário a possibilidade de saber o que está acontecendo no mundo, em tempo real. Anotem aí e vamos adiante.

Adiante para outro tópico quente da semana: o fim do Circa.

Sobre isso, tenho alguns links para sugerir e comentar, mas antes gostaria que vocês lessem o texto abaixo, escrito pelo colega Marcelo Crispim da Fontoura, que teve a oportunidade de passar um tempo no Circa durante o período que foi bolsista do Internacional Center for Journalists. Ele gentilmente aceitou nosso convite para compartilhar suas impressões sobre o legado deixado pelo veículo.

O fechamento do Circa, e o que fica disto

Então o Circa fechou as portas. Uma das startups de mídia mais faladas, ele chamou a atenção pela proposta ousada (estar no Vale do Silício com um modelo envolvendo uma equipe editorial), um time promissor (David Cohn como fundador, David Karp como advisor) e a abordagem mobile first, a joia da coroa do consumo de notícias.

Algo deu errado, evidentemente. Mas vamos ver o que deu certo.

Durante o mês de maio, pude ver de perto os processos e o funcionamento do Circa, através de uma bolsa sobre empreendedorismo e mídia do ICFJ. Com base nisto, ficam algumas observações.

O Circa acertou, sobretudo, em incorporar a visão de ‘atomização’ de notícias, ou seja, a divisão em bytes de informação. Ela abre um leque de possibilidades: informar o leitor apenas sobre o que ele ainda não sabe, montar uma notícia apenas adicionando o que há de novo, aproveitando a agilidade.

O que nos traz à importância do mobile first. O Circa era, do início ao fim, um canal de notícias on-the-go. Ele reconhecia que não era a única fonte do usuário durante o dia, e por isto distribuía as notícias de uma forma “granulada”, ágil, apenas sobre assuntos seguidos, com a exceção de pushes de breaking news (mais raros). O CMS (que aguardava uma atualização importante, inclusive), produzido internamente, era voltado para atualizações muito rápidas, que geravam pushes. O site era apenas um afterthought.

Como observado por um jornalista do Circa, os assuntos em que se observava um tráfego maior eram aqueles que estavam se desenvolvendo, em que havia uma sede de informações, mas menos dados disponíveis.

Um processo muito afinado de acompanhamento de pautas, edição e revisão resultava na publicação de dezenas de updates ao dia, atomizando as notícias. O resultado: uma equipe de 14 jornalistas frequentemente informava antes de veículos como New York Times e The Guardian.

Mas nem tudo são flores. Como principal pecado, o Circa não conseguiu uma base de usuários maior para poder capitalizar seu produto. Talvez não houvesse tantos interessados, ou o marketing fora de círculos jornalísticos não tenha sido suficiente. O modelo dificultava a incorporação de publicidade, e uma base reduzida de usuários impossibilitava outras formas de receita. O licenciamento do CMS é uma opção complicada, pois, na medida em que for a única forma de receita, o que diferencia a empresa de uma produtora de software? Finalmente, uma equipe editorial significava que era difícil ganhar escala e ampliar a cobertura. O time estava sim muito preocupado com a rentabilização, mas o desempenho aquém do esperado e um modelo complexo de distribuição dificultaram.

Então, o que fica do Circa? Em primeiro lugar, a importância de pensar mobile first para notícias – a derrocada da empresa não pode tirar esse fator da mesa. Segundo, a importância de inovar. Reclamamos que nada de novo surge no jornalismo digital, especialmente em tempos de crise, em que se faz necessário pensar diferente. Por isto é preciso louvar uma iniciativa, mesmo quando se mostra falha. A exploração de um novo meio, os apps, com uma equipe independente de empresas tradicionais, era uma experiência de muito risco, mas muito necessária. Inovação só se faz com medo de errar, e foi o que o Circa trouxe. Agora, é pegar o que aprendemos coletivamente e seguir em frente.

Marcelo Crispim da Fontoura

De fato, me parece que o legado (e talvez a causa do seu fracasso) do Circa é ter levado as noções de pioneirismo e experimentação ao limite. Atomizar o conteúdo foi uma grande sacada, mas talvez a audiência não estivesse preparada para uma mudança tão grande no jeito de consumir notícias.

De qualquer maneira, a semente está plantada:

“Nós sabemos que muitos dos conceitos introduzidos pelo Circa no mercado podem ser encontrados em inúmeros outros veículos de notícias, embora sinceramente esperamos que essas ideias lançadas por nós continuem a inspirar outros”.

O trecho acima está no texto publicado por Matt Galligan, CEO e co-fundador do Circa, no Medium. Quem também se manifestou publicamente foi o editor do Circa, Anthony De Rosa, embora mais para agradecer do que para analisar a empreitada jornalisticamente. Mas análises não faltam. Esta matéria do The Verge relembra a origem e as principais características do Circa e elenca quatro razões que talvez tenham feito a empreitada de Galligan, De Rosa e equipe naufragar. São elas:

  1. O Circa gerou pouco conteúdo jornalístico original;
  2. O Circa foi frio e racional no momento em que o jornalismo se aproxima do entretenimento e da emoção;
  3. O Circa foi generalista em um mercado que favorece a especialização;
  4. Seu approach aos temas noticiados não favoreceu o compartilhamento.

Os dois primeiros pontos são os que me chamam mais a atenção. Talvez a ideia de apenas “estruturar a informação”, ou seja, fazer curadoria, sem basicamente adicionar nada a ela tenha deixado o conteúdo frio demais, sem coração.

Encerro o episódio com um trecho de um post de David Cohn, chefe de conteúdo do Circa, que, me parece, resume a missão cumprida pela empresa em sua curta vida:

“Alguns reconhecem o Circa pelo o que ele foi (ou ao menos é como eu vejo: um produto que disse algo sobre como as coisas podem ser diferentes). Ainda acho que pensar produtos como crítica cultural é um importante papel para uma startup hoje.”

Para mais sobre o Circa, ainda tem o que disse o Nieman Lab.

Vida que segue.

Vejam que interessante. O Washignton Post lançou uma ferramenta para freelancers. É uma mistura de ponto de encontro, banco de perfis, rede social e board job. Segundo o Nieman Lab, “o talent network foi desenvolvido para oferecer aos editores do Post um sistema universal para identificar quem possa trabalhar em blogs, breaking news ou em longas reportagens, em variadas editorias. Enquanto os editores podem pedir matérias para os jornalistas cadastrados, os freelancers também podem usar o sistema para oferecer pautas para o jornal”. A matéria no Nieman também traz uma pequena entrevista com Anne Kornblut, a editora por trás da ideia. Para um resumo de tudo, vejam o vídeo que apresenta o Talent Network.

Adiante.

O Quartz construiu uma casa para os seus gráficos e infográficos, o Atlas. Nada de muito revolucionário, mas mais um passo que consolida a importância do formato. Na apresentação do Atlas, o editor-executivo do Quartz, Zachary Seward, disse que “gráficos são nossas fotos de gatinhos” (“charts are our cat photos”). Boa comparação. Segundo ele, a equipe do Quartz produziu, em 2014, mais de 4 mil gráficos. Os leitores adoram. A ideia do Atlas é reunir tudo num lugar só, oferecendo os dados originais e códigos para embedar o material. E, quem sabe, tirar uma grana. Ao Nieman Lab, o publisher Jay Lauf disse que a empresa quer oferecer o que eles estão chamando de “sponsored charts”, gráficos patrocinados.

Mais uma.

Textinho legal de ler do Ken Doctor, autor de Newsonomics, no Nieman Lab, com “10 números que definem os negócios de notícias hoje”. Cinco deles, rapidamente:

  1. US$ 14 milhões é a receita mensal do NYT com publicidade.
  2. 50% do acesso (em geral) dos veículos de notícias vem do mobile.
  3. 36 mil é o número atual de empregos em redações nos EUA.
  4. 75% do tráfego do BuzzFeed vem da internet social.
  5. 1,5 milhão é o total de assinantes da versão diária do NYT.

Confiram os números restantes e as análises no texto.

Para ir fechando, uma rápida retomada ao Digital News Report, tema da newsletter da semana passada. Bom, eu sigo meio desconfiado dos dados do Brasil em relação ao pagamento por notícias. O fato de o levantamento ter sido feito apenas no “Brasil urbano” não parece capaz de explicar a grande diferença entre o Brasil e os outros países. E a metodologia não explica muito sobre como as questões foram aplicadas. Enfim, vai ver é isso mesmo. Os dados brasileiros são tão singulares que fizeram a Folha dar uma escorregada ao noticiar o assunto durante a semana.

Rápidas para terminar:

Beleza?

Bueno, era isso então.
Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório