Buenas, gurizada!

Eis que completamos um ano. No dia 4 de julho do ano passado, eu enviava a primeira newsletter para os 17 corajosos que atenderam ao meu chamado no Facebook e preencheram o formulário de inscrição. Hoje, esta newsletter vai chegar na caixa de mais de 900 pessoas espalhadas pelo Brasil e exterior. Foi muito bom vê-la crescendo e se consolidando, mês após mês. Para comemorar a data e a marca, eu gostaria de oferecer a vocês um presentinho. Na verdade, é apenas uma lembrança, como dizemos aqui no sul. Nada muito elaborado. Eu reuni todas as 52 edições (inclusive esta) em um único PDF. Eu queria ebook bonitinho, formato epub, kindle, kobo e tudo mais, mas não rolou. Quem sabe no próximo aniversário.

Bueno, o PDF está disponível aqui para quem quiser baixar. São mais de 250 páginas de discussão sobre jornalismo. Não sei como este calhamaço pode ser útil, mas acho que ele ao menos cumpre a função de cristalizar uma discussão realizada em determinado período. Historiciza um movimento que buscou, dentro das suas possibilidades, descrever e – na medida do possível – pensar o cenário de jornalismo e tecnologia de julho de 2014 a julho de 2015. Espero que vocês gostem.

Bom, vamos lá porque o quinto dia de Wimbledon já está rolando, temos final de Copa América amanhã e previsão de 9ºC para Porto Alegre no final de semana.

Gostaria de começar com alguns pensamentos de Mark Zuckerberg sobre jornalismo (e o Facebook). Mark ficou uma hora respondendo a questões enviadas a ele por meio do Facebook. Duas das perguntas foram feitas por Jeff Jarvis e Arianna Huffington. Ambas abordaram o papel do Facebook na indústria de notícias – como vocês sabem, questão de extrema importância para o futuro do jornalismo. Assim como a maioria das declarações públicas de seus funcionários,  Mark saiu pela tangente, escolhendo a via técnica para pensar a atuação da empresa.

Um trechinho da resposta dada a Jarvis.

“Uma das maiores questões atualmente é a lentidão na leitura de notícias. Se você está usando nosso app e clica em uma foto, ela carrega imediatamente, em geral. Mas se você clica em um link de uma notícia, ela leva 10 segundos ou mais para carregar, visto que o conteúdo não está armazenado no Facebook e você precisa baixá-lo de outro lugar. As pessoas não querem esperar tanto, então muita gente abandona a notícia antes de tê-la baixado completamente ou nem mesmo chega a clicar no link que vai levar a ela, mesmo que esteja com vontade de lê-la.”

Para Mark, se o conteúdo carregar mais rápido (estando nos servidores do Facebook), mais gente vai ler notícias. Mais gente lendo notícias é algo, em tese, bom. Logo, o Facebook está beneficiando todo mundo ao levar para dentro dos seus servidores o conteúdo de produtores de notícias. Em resumo, é isso.

Beleza, nós já entendemos este ponto, Mark. Dez edições atrás, talvez vocês lembrem, destacamos um artigo de Mathew Ingram exatamente sobre a estratégia do Facebook de insistir nas questões de experiência do usuário, ignorando as implicações sociológicas do seu império na maneira como as pessoas veem o mundo – ou enfiando estudos “não é culpa nossa” goela abaixo da galera.

Repetindo o trecho do artigo de Ingram publicado na NFJ#42:

“[…] o que é ainda mais frustrante é que o Facebook segue fingindo não influenciar a busca por notícias e como elas são consumidas, mesmo sendo exatamente isso que ele faz […]. E que esse tipo de influência pode ter um profundo impacto em como os usuários veem o mundo.”

Para (re)contextualizar, Ingram disse isso repercutindo a fala de um funcionário do Facebook durante o último Festival Internacional de Jornalismo de Perugia.

Para ler as respostas de Mark a Arianna e Jarvis, acessem este link do Nieman Lab.

E já que estamos (de novo) falando de Facebook, eu diria que este é novo texto must read sobre a rede social de Mark. Nele, o colega e amigo Leandro Beguoci explica, de maneira simples e didática, o porquê de precisarmos questionar os movimentos do Facebook – por mais interessantes e úteis que eles sejam para nós.

Beguoci costura suas considerações com vários episódios recentes que demonstram o poder do Facebook, tais como a pesquisa feita na Ásia em que muitos usuários disseram usar o Facebook mas não a internet, o estudo em que usuários tiveram suas timelines manipuladas para verificar se haveria mudança de comportamento e a última polêmica envolvendo a foto de perfil com o arco-íris.

Um trecho do texto:

Ainda é difícil cravar que o Facebook virou a internet. Muita gente faz buscas de saúde no Google e trabalhos escolares usando a Wikipedia. Além disso, os dados são escassos e não há metodologia padrão para comparar usos e acesso em vários países do mundo.

Mas os indícios estão aí. Basta olhar para o nosso comportamento e observar o que os nossos amigos usam. Dia após dia, as pessoas usam o Facebook, o Whatsapp, o Instagram – três serviços da mesma companhia. Sem perceber, estamos vivendo em arquipélagos da internet controlado por Zuckerberg.

[…]

Porém, é preciso entender e dimensionar o poder que as empresas (e qualquer organização e governo) têm sobre nós. Não é pelo fato de ser empresa. Podia ser governo, ONG, fundação… É uma questão de quantidade de poder, até porque precisamos decidir o que aceitamos e o que não aceitamos. Ter clareza disso é fundamental.

Lembram da newsletter 39, na qual destaquei algumas ideias apresentadas pelo pesquisador canadense Derrick Kerckhove durante o congresso Ibercom? Um dos pontos que ele destacou em sua conferência foi o controle que nós, cidadãos, precisamos desenvolver sobre nossos próprios dados. Saber que as informações que fornecemos de graça são valiosas, inclusive financeiramente.

Sobre isso, Beguoci diz o seguinte:

O Facebook é uma empresa que produz conhecimento sobre nós e vende esse conhecimento para outras companhias que querem conversar conosco.  Sim, você já sabe disso, mas não custa lembrar: quando um serviço é de graça, o produto é você. No caso do Facebook, ele vende seus hábitos para que outras empresas consigam a sua atenção. Simples assim.

Beguoci destaca que isso não é exatamente uma novidade, mas que agora é um movimento massivo, o que dá ao Facebook mais poder. E encerra o texto assim:

Por isso, temos de fazer com o Facebook o que ele faz conosco. Aprender com ele, entender como ele funciona. E então decidir o que aceitamos e o que não aceitamos. O Facebook é uma empresa impressionante. Mas a vida, no final das contas, continua sendo nossa.

Leiam lá. Aproveitem e encaminhem o texto para outras pessoas não tão acostumadas com o tema. Beguoci fez um belo trabalho de sistematização da discussão, reunindo alguns dos principais motivos pelos quais precisamos entender como o Facebook funciona. E como ele está mudando nossas vidas.

Ainda sobre questões éticas vinculadas à tecnologia, leiam este artigo de Dick Costolo, ex-CEO do Twitter, publicado no Guardian. No texto, Costolo argumenta que o Twitter vem tendo – desde sua fundação – participação importante no processo de ampliação do acesso à informação que o mundo viu nos últimos anos, e que a empresa vai continuar disposta a manter este protagonismo, assumindo “a intersecção entre ética, conteúdo e tecnologia de uma maneira nunca confrontada”. Em uma matéria sobre sua saída publicada no dia anterior, Costolo disse que ser CEO do Twitter envolve “resolver complexas questões geopolíticas”.

“O desafio é que não podemos ser excessivamente paroquiais e ter uma perspectiva americana na maneira ver as coisas. Temos que respeitar o Estado de Direito nos países onde operamos, enquanto tentamos fazer com que as vozes das pessoas sejam ouvidas independentemente de quem esteja no governo”. 

Interessante.

Beleza. Vamos adiante.

Outro link do Guardian. Agora, uma reportagem sobre a evolução de algoritmos redatores de textos jornalísticos. Para Kris Hammond, um dos fundadores da Narrative Science, empresa que vem criando e aperfeiçoando softwares de redação, um computador vai ganhar o Pulitzer em cinco anos e 90% do conteúdo jornalístico vai ser escrito por computadores em 2030. Tá bem. Mas a matéria é bem mais do que previsões que dão boas chamadas. Ela mostra como, ano após ano, os algoritmos vêm incorporando um estilo de redação cada vez mais humano. E como esse tipo de automação será capaz de acessar e analisar grandes quantidades de dados, transformando-os em textos que atendam a várias demandas diferentes.

Por exemplo. O repórter pergunta se um algoritmo será capaz de fazer uma cobertura sobre a passagem de um tornado. Hammond diz que provavelmente sim, mas que esse não é o foco. Porque o tornado seria uma história. “Nós podemos usar a tecnologia para contar essa mesma história de milhões de jeitos diferentes, destacando o que é importante a respeito dela para um determinado grupo ou mesmo para um indivíduo. Um desastre natural pode resultar em um relatório enviado a 10 mil empresas mostrando o impacto na sua cadeia de distribuição (…)”.

Ainda sobre isso, esta matéria do The Upshot pergunta se um algoritmo pode fazer contratações melhor do que um ser humano. E ainda, e o melhor: um belo e extenso material da Bloomberg sobre “o que é programar”. Não li tudo (é leitura para uma semana inteira), mas Paul Ford, o autor da matéria, inicia sua longa jornada apresentando uma situação que é um dos principais motivos pelos quais deveríamos saber um pouco de código: conseguir dialogar com quem de fato sabe.

Ele simula um diálogo entre um dirigente de uma empresa e um programador enviado pelo seu novo CTO. Ele é responsável por melhorar o site da companhia.

Um trecho.

“‘Minha equipe está dividida quanto a plataformas’, ele continua. ‘Alguns querem usar Drupal 7 e fazer funcionar com Magento – o que é PHP’. Ele franze a testa. ‘A outra opção é apenas fazer o back end em Node.js com Backbone na frente'”. 

Entendeu alguma coisa? Nem eu, ainda que eu saiba um pouco de PHP. É isso.

Guardem o link da matéria da Bloomberg. Pode ser útil.

Adiante.

Infelizmente, não pude ir a São Paulo acompanhar o Congresso da Abraji. Na medida do possível, semana que vem vou tentar sistematizar os conteúdos que aparecerem sobre o encontro. E já tem coisa rolando. O Paulo Moura publicou um relato sobre a palestra de Julio Chang, editor da revista peruana Etiqueta Negra.

Enquanto esperamos por mais textos, o lance é acompanhar pelo Twitter. Dá pra buscar pelas hashtags #Abraji ou #CongressoAbraji ou seguir alguns perfis ativos na cobertura in loco. Sugestões: @congressoabraji, @TwitterMediaBR, @leostamillo, @mauriciotonetto, @zerotoledo, @ludtke, @ismaelmoreira, @trasel.

Falando em encontros de jornalismo, a Piauí anunciou a data da segunda edição do festival promovido pela revista. Será nos dias 10 e 11 de outubro (sábado e domingo), em São Paulo. Como no ano passado, vai ter gente de peso: Seymour Hersh, da New Yorker, o argentino Jorge Lanata, Ben Anderson, da Vice, Nick Davies, no Guardian, entre outros. O Farol Jornalismo pretende estar lá. 🙂

Aproveitando o gancho de congressos e festivais, um pouquinho de academia. Interessante artigo escrito por um jornalista português sobre o valor da informação na sociedade em rede. José Moreno se debruça na hipótese de que as tentativas de renovar os modelos de negócio de mídia não vêm dando certo não porque eles são problemáticos ou ruins, mas porque o valor da informação vem caindo drasticamente desde que mudamos do paradigma analógico para o digital.

Adiante.

Projeto massa do Journalism.co.uk: entrevistar, toda semana, uma figura-chave para o jornalismo digital. O personagem desta foi Greg Barber, diretor de projetos digitais do Washington Post. Nada aprofundado, mas algumas respostas revelam indícios de como se movimenta a indústria. Destaco a resposta à pergunta sobre qual deveria ser, para ele, o foco do treinamento de um jornalista atualmente.

  1. Pensamento crítico. Traduzir conceitos complexos em algo digerível.
  2. Empatia. Muitas das histórias que nós contamos são profundamente pessoais, e aprender a abordar os assuntos de maneira sensível é algo essencial.
  3. Storytelling. Entender o leque de opções – texto, foto, vídeo, gráficos, interatividade, emoji, chat apps, mídias sociais – e sua aptidão para cada uma.
  4. Tecnologia. Habituar-se a testar coisas novas, ajustar os fluxos e aprender a linguagem dos desenvolvedores, mesmo que código não seja o seu forte.

Vocês notaram que acabamos voltando ao assunto programação. Então deem uma olhada neste texto do Poynter sobre coisas que deveríamos perguntar a programadores para entender melhor como funciona o trabalho deles.

Vamos fechando?

Então é o seguinte. Começamos com uma boa notícia (o aniversário de um ano da newsletter) e vamos terminar com outra. Giuliander Carpes, outro colega e amigo ligado nas mudanças da profissão, voltou de uma temporada na Holanda, onde estudou empreendedorismo e mídia, e está lançando (junto com outros colegas) uma iniciativa de explanatory journalism no Rio de Janeiro, o Trombone Media.

No texto manifesto publicado no Medium, Giuliander diz qual é objetivo:

“Inspirados em iniciativas de sucesso no exterior como Vox (EUA) e De Correspondent (Holanda), temos a humilde pretensão de organizar e adicionar contexto à corrente interminável de notícias sobre a cidade. Vamos abusar de textos, gráficos, ensaios fotográficos, vídeos curtos e mini-documentários – não são a mesma coisa, acredite – com potencial de disseminação pelas redes sociais.”

A inspiração no De Correspondent fica evidente quando Giuliander diz que a ideia do Trombone é transformar a interação entre eles e seu público em uma comunicação efetiva: “(…) nossos profissionais vão funcionar como líderes de uma conversação que, com sorte, vai criar inúmeras contribuições e melhorar a qualidade de nossos canais — além de gerar ideias para reportagens originais sobre temas ignorados ou pouco abordados pela mídia tradicional”, escreveu.

Boa sorte e vida longa ao Trombone.

Bueno, agora sim, vamos pro fim. Aquelas coisas rápidas:

Feito?

Era isso então.
Bom final de semana e até sexta que vem! 🙂
Moreno Osório