Buenas, moçada!

Que tal? Por aqui, tive a mais longa das semanas. E gostaria que ela tivesse ainda mais uns dias. Mas tá, sexta é sexta em qualquer circunstância. Bora pra news.

Queria começar contando duas novidades pra vocês. A primeira é a estreia de uma seção assinada pelo Farol Jornalismo na revista Página 22, uma publicação dedicada à inovação e à sustentabilidade. No texto de estreia, falei de um tema conhecido por quem vem acompanhando a newsletter: a relação do Facebook e do Twitter com o jornalismo. O link ali em cima é a versão online da edição impressa, que pode ser conferida em PDF aqui. Prestigiem o Farol Jornalismo também por lá.

A outra novidade é a participação do Farol Jornalismo na cobertura colaborativa do 16º Fórum Internacional Software Livre (FISL), que tá acontecendo aqui em Porto Alegre de quarta até amanhã. Estou ancorando a Rádio Software Livre nos quatro dias do evento. Inclusive, quando vocês receberem esta newsletter, provavelmente estarei no estúdio de vidro montado no centro de eventos da PUCRS, onde rola o FISL. Não estamos no ar todo o tempo, mas quem quiser conferir o que tá rolando, dá pra acompanhar a cobertura no Twitter da rádio ou no link de transmissão ao vivo. E aqui tem duas fotinhos do estúdio que eu postei na página do Farol no Facebook. E aí, será que uma Rádio Farol Jornalismo daria certo?

Possibilidades à parte, aproximar o Farol de uma iniciativa como o FISL foi uma maneira que eu encontrei de iniciar diálogos com pessoas tão ou mais preocupadas do que nós com o futuro da tecnologia e da informação. Porque ainda que jornalistas e profissionais da tecnologia abordem esses dois tópicos de maneiras distintas, a convergência é evidente. Temos de dar um jeito de conversar, portanto.

De alguma maneira, são resultados desse diálogo que a newsletter vem procurando mostrar há um ano. Hoje queria começar mostrando este post publicado no Online Journalism Blog, de Paul Bradshaw. No meu entender, esse texto é um bom exemplo do potencial dessa interface entre jornalismo e tecnologia. Ele fala sobre o uso de dashboards pelo jornalismo como uma maneira de conseguir visualizar melhor um contexto, cobertura e/ou conjunto de dados.

Embora eu imagino que vocês tenham ideia do que significa um dashboard, talvez a melhor tradução nesse contexto seja “painel de controle”. Pois bem, Bradshaw fala sobre a importância de jornalistas usarem e desenvolverem painéis de controle para acompanhar assuntos que costumam cobrir. Leiam o que ele diz sobre isso a partir de um caso específico, um dashboard desenvolvido para visualizar melhor a relação da economia do Chade com o petróleo. Um caso super específico, mas o que nos importa aqui são as considerações genéricas, aplicáveis a outras situações:

“O dashboard me pegou de várias maneiras: primeiro, ao automatizar certos processos, ele diminui os entraves para a execução de reportagens mais efetivas; segundo, reduz o tempo para que esse trabalho seja feito; e em terceiro, transforma um tópico numérico em algo mais visual, facilitando a visualização de pautas”. 

A partir do que diz Bradshaw, fica evidente a relação com o jornalismo de dados e a infografia. De fato. Um dashboard pode ser considerado um infográfico vivo, que vai mudando à medida em que é alimentado por dados mais atualizados (o dashboard de um blog do WordPress, por exemplo). O argumento de Bradshaw é que os jornalistas precisam ter um papel mais ativo na criação e no uso de diversos tipos de dashboards – hoje, tarefa de quem cria CMSs, trabalha com analytics ou mídias sociais. É aí que entra o diálogo com a tecnologia. Dashboards complexos, como os que usam dados disponibilizados por um município, por exemplo, precisam de alguém que saiba transformar números em algo mais visual, como disse Bradshaw. Confiram este dashboard de Dublin, por exemplo. Ou o de Birmingham.

Mas o legal é que é possível trabalhar com o conceito de dashboard utilizando a tecnologia disponível para o usuário final. Bradshaw cita o RSS e o Twitter como duas boas possibilidades de criar dashboards. Um TweetDeck bem azeitado, com listas, pesquisas e menções distribuídas em várias colunas, pode dar ótimo panorama do que está acontecendo na cobertura de determinado tópico ou em alguma região do mundo. Quando eu trabalhava na cobertura internacional, o TweetDeck me ajudava a saber o que estava rolando nos cinco continentes. É disso que a Storyful falava em 2012 quando comparava as redações na era da cobertura social global com agências de inteligência. O conceito segue muito atual.

O RSS, embora subestimado, também pode funcionar como um dashboard eficaz. Esse recurso dá a possibilidade de visualizar vários sites ao mesmo tempo. Isso nos permite saber, por exemplo, como determinado segmento está atuando a partir de um assunto em desenvolvimento. A opinião de economistas sobre a última decisão do premiê grego Tsipras, por exemplo. Um dashboard com os principais blogs de economia é capaz de mostrar um movimento difícil (no mínimo mais trabalhoso) de enxergar se fosse o caso de entrar em cada um dos sites individualmente.

Para dar outro exemplo, o RSS está por trás da produção da nossa newsletter.

Deem uma olhada no texto. A ideia de dashboards para jornalistas tem potencial.

Outro texto que demonstra um estreitamento no diálogo entre jornalismo e tecnologia é este, que o jornalista Pedro Burgos publicou no Medium no último dia 7. Como o material foi produzido para o mestrado que ele está fazendo nos EUA, está escrito em inglês. Mas vale a pena. Burgos apresenta avanços numa área polêmica: a busca por métricas que avaliem de maneira mais adequada e precisa o jornalismo de qualidade. A pergunta que está por trás é: quando poderemos aposentar o pageview (pelo menos para determinados tipos de coberturas)?

No texto, ele apresenta três iniciativas que estão tentando quebrar paradigmas: o MORI, o Media Impact Project Measurement System e o NewsLynx. Embora trabalhem de maneiras diferentes, diz Burgos, os três possuem traços em comum:

“A maioria rastreia menções, comentários e compartilhamentos em redes sociais, mas também buscam notícias relacionadas a uma determinada reportagem – como um Google Alert adaptado capaz de seguir uma matéria por dias, ou por meses.

Quando perfeitamente ajustados, os alertas mostrarão quando diferentes veículos relacionam a matéria em questão, aprofundando a investigação, ou quando uma nova lei a respeito do assunto abordado é aprovada. De maneira geral, essas ferramentas facilitam acompanhar uma matéria. Tudo o que elas precisam é combinar diferentes formas de impacto.”

Interessante, mas, como o próprio Burgos escreveu, a jornada para desenvolver métricas mais complexas está recém começando. E a atuação do jornalismo é fundamental nesse processo. Vão lá no Medium do Burgos e confiram o texto.

Ainda sobre o assunto métricas, o Nieman Lab publicou um texto interessante sobre como o Upworthy está apostando em dados para deixar para trás o clickbait. A partir do caso de uma reportagem de 5 mil palavras em que há 65 piadas e cujo título é “5 incredibly delicious chain restaurants you should never, ever eat at and 1 you should but can’t“, o texto mostra como, a partir do histórico dos dados de navegação dos usuários, o Upworthy está desenvolvendo uma maneira de fazer a transição das famosas listas para artigos de mais fôlego e relevância jornalística. Um trecho:

“Dados, diz O’Leary [Amy O’Leary, diretora editorial do Upworthy], estão agora no coração de tudo o que o Upworthy faz editorialmente. Nossa equipe está trabalhando para entender, por exemplo, como as emoções impactam o consumo das matérias pelos usuários, o que motiva as pessoas a agirem em relação a um conteúdo que elas acharam significativo, e qual é a melhor forma de estruturar matérias para tirar vantagens de diferentes plataformas”. 

Ela diz que há um certo segredo em relação a como essa lógica vem sendo colocada em prática. Mas um dos elementos fundamentais é uma métrica introduzida no começo de 2014 chamada “minutos de atenção”, que é um pouco diferente da conhecida “time spent”, pois combina diferentes tipos de informação para tentar traçar o comportamento do usuário. A partir daí, a ideia é observar qual narrativa é mais eficaz para fazer com que o usuário vá até o fim do conteúdo.

“Não se trata de dizer que, ‘em média, as pessoas gastam de 30 a 90 segundos nessa matéria’, mas realmente tentar chegar a um entendimento enquanto as pessoas estão decidindo se vão ficar com você – o que você está fazendo em termos de storytelling para preencher as expectativas das pessoas, esclarecê-las de alguma forma, fornecer o que elas estão procurando”, disse O’Leary ao Nieman.

Feito? Adiante.

Agora deixem eu mostrar uma nova iniciativa jornalística brasileira.

Trata-se da Aos Fatos, a versão nacional do que podemos chamar de jornalismo de checagem de fatos. Esse tipo de trabalho já vem sendo feito faz um tempo nos EUA, com o Politifact, e na Argentina, com o Chequeado. Que bom que agora temos no Brasil. Leiam o texto de apresentação do Aos Fatos no Medium.

Dois trechinhos:

“Acreditamos […] que a declaração pública tem seu valor, que deve ser resgatada de seu estado incrível, e explicitadas suas verdades e mentiras. É com prazer e certa dose de ansiedade que apresentamos uma nova empreitada: o Aos Fatos, uma plataforma de jornalismo para verificação de discurso.

[…]

Acreditamos que o jornalismo diário carece de uma abordagem analítica baseada em fatos, e não apenas em opiniões. Percebemos que a cobertura feita pela imprensa tradicional, de quem somos entusiastas, e não inimigos, carece de dados, mas exagera em versões.”

O texto pede o engajamento do público (“leitor e eleitor”) com o projeto, inclusive financeiro, através de microdoações. Ao longo das próximas semanas eles devem dar mais detalhes sobre a iniciativa. Além do site e do Medium, dá pra assinar a newsletter e acompanhar o Aos Fatos no Twitter e no Facebook. Massa.

Antes de voltar a assuntos internacionais, ouçam o podcast Bilheteria que teve a participação do jornalista Leandro Demori. Na pauta, Medium Brasil e jornalismo.

Beleza.

Próximo link: texto do Mathew Ingram discutindo a possível responsabilidade que o Facebook teria em relação ao jornalismo, principalmente depois do Instant Articles. Ingram, por sua vez, constrói sua reflexão a partir de outro texto, o que Jeff Jarvis publicou no Medium sobre o mesmo assunto. Especificamente, explorando duas questões propostas por Jarvis. A primeira é “se uma sociedade informada deveria fazer parte da missão do Facebook”. A segunda é se a empresa de Mark “carrega consigo alguma responsabilidade cívica a respeito das notícias” que divulga.

Tema complexo e interessante, como vocês sabem. Embora pareça que o jornalismo está falando sozinho, já que Zuckerberg e sua turma insistem que o seu papel é apenas proporcionar uma experiência melhor para o usuário.

Jarvis, um dos que questionaram Zuckerberg em uma sessão Q&A promovida pelo CEO do Facebook dias atrás, acredita que “certas responsabilidades recaem sobre os ombros” da empresa quando ela se propõe a ser um “canal de distribuição importante” de notícias. Na opinião de Ingram, Mark não parece muito preocupado com outra coisa a não ser “gerar o máximo de receita aos seus acionistas”.

A discussão é boa e vai seguir quente. Ficaremos de olho.

Falando em redes sociais, interessante texto do jornalista de tecnologia do NYT Nick Bilton sobre o Twitter, ou melhor, sobre a identidade do Twitter. Segundo ele, talvez a dificuldade que o Twitter tem de encontrar uma definição para o que faz seja um dos motivos que expliquem o fracasso da empresa em ultrapassar os 300 milhões de usuários – em comparação com os 1,4 bilhão do Facebook.

Ele lembra que os três CEOs que empresa já teve a definiam de maneiras distintas. E que essa confusão não é limitada a cargos de liderança. Ao conversar com funcionários na sede do Twitter, Bilton diz ter ouvido respostas muito distintas quando perguntados sobre o que é e o que faz a empresa onde trabalham.

O texto de Bilton faz parte da cobertura sobre a escolha do novo CEO, após a saída de Dick Costolo. Ele encerra dizendo esperar que o próximo líder saiba o que o Twitter é. Independentemente de quem for, espero que o Twitter mantenha as características que o transformaram um ambiente indispensável para o jornalismo.

Ok, já nos encaminhando para o final.

Textinho legal no Poynter sobre a dificuldade que jornalistas têm de REALMENTE tirar férias. Após relatar que na semana passada havia tirado as primeiras férias DE FATO em muito tempo, procurando ficar longe de emails, Twitter, Facebook, a jornalista Melody Kramer perguntou para vários colegas sobre os seus hábitos durante os períodos de folga. Nos depoimentos é possível notar a dificuldade em lidar com uma obrigação tácita de estar “always on” que marca nossa profissão.

Além dos convidados a dar seus relatos, Kramer convidou mais pessoas à discussão por meio da hashtag #journovacation. Neste link dá pra ver alguns posts.

Fechamos mais uma sexta de nossas vidas. Antes de terminar, coisas rápidas.

Por fim, quem não leu a news da semana passada, uma nova oportunidade para baixar o nosso material comemorativo de um ano de Newsletter Farol Jornalismo: o PDF com as 52 edições enviadas entre 4 de julho de 2014 e 3 de julho de 2015.

Bueno, era isso então.
Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório