Buenas, moçada!

Mais um dia de chuva no sul do Brasil, para desespero dos moradores e glória das lavanderias de Porto Alegre. Um clima que torna esta sexta-feira um belo dia aproveitar uma mostra de Claude Chabrol na linda e restaurada Cinemateca Capitólio. E para escutar o novo disco do Wilco, Star Wars, que está disponível de graça para download no site da banda. A voz de Jeff Tweedy embalou a redação da 54º edição da NFJ. Também escutei o agradável show que Father John Misty fez no Glastonbury deste ano. Saudade da lama onde nunca pisei.

Vamos lá?

Comecemos com o keynote address dado pela diretora do Town Center for Digital Journalism, Emily Bell, durante uma conferência em Londres, durante a semana. Sempre que Emily fala sobre jornalismo (e tecnologia), procuro destacar aqui na newsletter. Ela vem mostrando ser uma das vozes mais lúcidas sobre o assunto. Talvez vocês lembrem que já fizemos uma newsletter inteira de um discurso dela.

Nesta última fala, Emily sublinhou o desafio que os veículos jornalísticos têm pela frente ao tentar subsistir em um cenário em que o controle sobre a distribuição de notícias está nas mãos de plataformas não-jornalísticas. Segundo ela, não adianta dar as costas. O jornalismo precisa buscar o máximo de integração com a web social. Isso é o que permitirá não perder a audiência de vez para players que vêm abocanhando enormes parcelas da audiência, como WhatsApp e Facebook.

É admitir ter perdido a batalha para seguir lutando a guerra.

Só que esse comportamento “junte-se a eles”, segundo Emily, traz grandes dilemas. Um deles – e o mais evidente – é comercial. E, mais uma vez, os news publishers não têm muitas opções a não ser aceitar as regras. Mas esse não é o maior problema. A coisa fica feia quando percebemos que essas grandes plataformas não têm compromissos maiores com os valores essenciais do jornalismo, como transparência, justiça e proteção das fontes, por exemplo.

Diante desse contexto, diz Emily – e aqui ela volta ao seu principal argumento nos últimos tempos – “é desenvolver novas ferramentas e plataformas para notícias que não dependam apenas das empresas do Vale do Silício”, de acordo com o texto do News Rewired, que repercutiu o discurso dela. Isso não é fácil. A briga vai ser feia.

Emily:

“Para onde quer que você olhe, esse grande mundo de novas oportunidades traz riscos… Eu não acho que seja uma relação simples ou transparente. Eu acho que nós vamos passar por uma longa e difícil negociação.”

De alguma maneira, todos temos a consciência do desafio que é pensar diferente. Como inovar em meio à cultura do jornal impresso, onde as coisas se movem lentamente? Essa questão é o leitmotiv deste texto publicado no Medium por Hannah Weiner, uma jornalista da Califórnia. Segundo ela, prestar atenção na cultura das startups é um jeito de transformar um jornal em uma empresa de “mídia digital”. Isso significa adotar táticas para agilizar processos tradicionalmente difíceis de mudar em uma empresa jornalística tradicional (“para uma grande empresa, mudar um publicador ou mesmo um aplicativo de comunicação pode significar tediosos meses de preparação”). Ela cita como exemplo o design sprint, uma técnica para comprimir em uma semana os debates a respeito de uma nova ideia.

Não sei se técnicas como essa podem ser úteis para o nosso trabalho, nem se Hannah Weiner tem razão ao defender um olhar mais atento ao modus operandi das startups, mas o texto dela no mínimo demonstra uma inquietação com a maneira como as coisas (não) estão acontecendo no jornalismo digital. Ela propõe um fazer diferente, talvez em diálogo com o jeito de ser dos colegas da tecnologia, mas com o jornalismo sendo colocado à frente do processo. O que, no fundo, parece ser o que Emily Bell vem defendendo nas suas falas.

Ainda sobre isso, este outro texto publicado no Medium por Melissa Steffan também é bastante sintomático. A começar por como a própria autora se define no seu perfil: “Reporter turned editor turned web developer”. Em “The Way We Tell Stories – Or, Why I Quit My Job to Learn Web Development”, Melissa explica como ela deixou de lado o romantismo de ter seu nome impresso em uma página de jornal como autora de uma matéria para, segundo ela, deixar o meio de lado e se concentrar na mensagem. Ao perceber que a resposta para a pergunta o papel é o melhor meio para contar histórias? era não, ela decidiu que precisava aprender a “desenvolver o meio certo” para contá-las. Por isso, Melissa decidiu ser uma desenvolvedora web.

Assim como Hannah, não sei se Melissa está certa. Mas, de novo, o que me parece ser interessante de observar é a busca por alternativas. Olhem o que ela escreveu:

“Eu vejo assim: se eu quiser fazer parte do futuro da mídia – um futuro em que a plataforma onde vamos contar as melhores e mais bonitas histórias ainda não foi construída – eu vou precisar ser mais do que redatora e editora. Talvez eu precise construir eu mesma a plataforma, ou participar de uma equipe que faça isso.”

Ok, as coisas não são tão simples assim. Há muitas variáveis em jogo. Mas o que importa é ficar atento a um momento de turning point da profissão.

Antes de ir adiante, uma lista com 6 ferramentas para extrair dados da internet. A seleção foi feita pelo Volt Data Lab, projeto brasileiro de jornalismo de dados.

Seguimos com os sintomas. Leiam o primeiro parágrafo de uma pesquisa do Pew.

“A parcela dos norte-americanos para quem o Twitter e o Facebook funcionam como fonte de notícias continua a subir. Esse crescimento é explicado mais pelo fato de que um número maior de pessoas está encontrando notícias nessas plataformas do que um crescimento geral da base de usuários, segundo uma nova pesquisa. O estudo também descobriu que esses usuários têm usado essas redes sociais para preencher diferentes tipos de necessidades informacionais.”

Em resumo, o estudo diz o seguinte. Em 2013, 52% dos usuários do Twitter e 47% do Facebook diziam usar essas plataformas como fontes de notícias – para além das novidades relacionadas à família e aos amigos. Hoje, o número é de 63% para ambas (embora os números sejam os mesmos, Facebook e Twitter são usados de maneiras diferentes; o Twitter, por exemplo, é fonte principal (59% vs 31%) de histórias em desenvolvimento em tempo real, como bem sabemos. Mais um trecho:

“À medida em que os sites de redes sociais reconhecem e adaptam seu papel no ambiente noticioso, cada um deles oferecerá funcionalidades exclusivas para os seus usuários, e essas funcionalidades serão capazes de alimentar mudanças no consumo das notícias. Os diferentes usos dessas funcionalidades têm implicações em como os norte-americanos aprendem coisas a respeito do mundo e de suas comunidades, e em como eles fazem parte do processo democrático.”

A matéria do Nieman Lab a respeito termina com uma aspa de Jon Sotsky, diretor de estratégia do Knight Center, que conduziu o estudo junto com o Pew Research.

“Explorar como o consumo de notícias por meio das redes sociais podem definir a maneira como as pessoas interagem e reagem às notícias será algo crítico para os veículos de notícias e para quem tiver interesse no impacto do jornalismo.”

O estudo é bem detalhado. Vale dar um conferes.

Mas antes de pular para um próximo assunto, deixem eu dar um exemplo do que podem ser as funcionalidades citadas pelo estudo do Pew. Durante a semana o Nieman Lab repercutiu uma matéria do The Verge sobre uma estratégia em andamento do Twitter de expandir tweets de alguns veículos de notícias em forma de cards nos seus apps para Android e iOS. Isso significa que certos posts poderão incluir uma imagem maior, um texto introdutório (lide) e alguns links.

Ainda sobre novas possibilidades, leiam este post no Poynter escrito pelo consultor de mídia Mario Garcia sobre a ascensão do “editor mobile”. Segundo Garcia, está na hora das redações contratarem essa figura (primeiro, na verdade, deveriam começar a pensar o seu conteúdo mobile, já que poucas estão fazendo isso), cuja função é ser um “xerife das notícias disseminadas para a comunidade”. Ohem só:

“Melhor ainda, o editor mobile deveria ser como um agente de trânsito, instruindo o tráfego quando os semáforos não estão funcionando direito. A posição não deveria ser um cargo transitório que eventualmente pode desaparecer. Muito pelo contrário, nós estamos testemunhando o nascimento de uma nova posição na redação.

[…]

O editor mobile é a pessoa na redação que poderá direcionar uma história de um tweet até as suas possibilidades multimídia.”

Conduzir uma história através de diferentes plataformas é também estar atento aos lugares onde as conversas acontecem. Sobre isso, leiam este texto da repórter e apresentadora da BBC Anne-Marie Tomchak sobre a experiência do BBC Trending durante a cobertura de assuntos sensíveis, como a crise do Ebola, estupros coletivos na Índia ou a discussão política em rede na China. Anne-Marie mostra como a atenção dela e de sua equipe para a migração de certas conversas de redes públicas para chats privados, como WhatsApp e WeChat (na China), fizeram diferença na hora de construir uma abordagem jornalisticamente significativa.

Outro exemplo interessante de interação é a experiência do Guardian com os seus ‘comentadores’. A editora social e de comunidades do jornal britânico, Laura Oliver, contou como um investimento no diálogo com os leitores através dos comentários pode dar bons resultados. Ela participou da  mesma conferência em que Emily Bell deu o keynote speech, e trechos da sua fala podem ser lidos na cobertura que o News Rewired fez. Ela disse, por exemplo, que o Guardian está criando uma “lista de contatos dos comentaristas”. Esse método tem “ajudado a contar grandes histórias e a explicar assuntos complexos pedindo que especialistas compartilhem seus conhecimentos”, diz o texto do News Rewired. Laura citou o exemplo de quando o Guardian pediu que seus leitores comentassem sobre como eles explicariam o Bóson de Higgs a uma criança de 7 anos. Parece bom, não?

Por outro lado, leiam este artigo da ex-CEO do Reddit Ellen Pao no Washington Post. O título do texto diz muito sobre o argumento que ela defende: “The trolls are winning the battle for the Internet” (Os trolls estão vencendo a batalha pela Internet). Ellen foi vítima de ataques da comunidade do Reddit depois de estabelecer regras que buscavam prevenir e banir assédios dos fóruns da comunidade online.

Um trecho:

“A internet começou como um bastião da liberdade de expressão. Ela encorajou o engajamento e a diversidade de ideias. Com o passar do tempo, no entanto, essa abertura permitiu as pessoas sofrerem assédio em função dos seus posicionamentos, experiências, aparência ou históricos demográficos. Equilibrar liberdade de expressão com privacidade e a proteção dos participantes sempre foi um desafio para plataformas de conteúdo aberto na internet. Mas esse equilíbrio está ficando cada vez mais difícil. Os trolls estão vencendo.”

Encerrando o raciocínio, é mais ou menos disso que Emily Bell fala, e é mais ou menos isso que eu procuro destacar aqui na newsletter. Por isso tentei, mas não consegui ir para o próximo assunto. Porque perceber essa grande mudança é o tópico maior. Pra irmos fechando a news de hoje, deem uma olhada em 15 comunidades online que todo jornalista deveria conhecer, no Journalism.co.uk.

Pra fechar, um textinho escrito por Rafael Coimbra no Labmídia sobre o “fim da ausência”, ou o fato de estarmos para sempre conectados. Ele começa perguntando a nós, leitores, qual a última vez em que estivemos completamente desconectados por um dia. Ele diz ter conseguido ficar umas 12 horas, durante as férias. Eu, pelo que me lembro, consegui ficar uns dias fora do ar durante uma viagem ao interior de Jaguarão, cidade que faz fronteira com o Uruguai, na Páscoa de 2013. Isso, no meio dos pampas. Mas já faz mais de dois anos. De lá pra cá, mais e mais on.

Rafael levanta essa questão para falar do livro “The End of Absence” (O fim da ausência), em que o autor, Michael Harris, chama a atenção para a série de implicações que estar perpetuamente conectado acarreta. “Desde a falta de tempo para lembrar das memórias, ou das condições ideais para um processo criativo. Isso só é possível, segundo ele, num momento de ausência”, escreveu Rafael.

O que fazer para dar algum protagonismo à ausência? Viajar para longe é sempre uma boa opção. Mas nem sempre é possível. É interessante desenvolver métodos mais simples e baratos. Estou tentando voltar a desenhar. E tenho procurado ir no cinema mais frequentemente. Aliás, chega de newsletter. Vou lá curtir um Chabrol.

Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório