Buenas, moçada!

Lembram que sexta passada comentei sobre o curso técnicas básicas de Jornalismo de Dados que o Knight Center tá promovendo com a ANJ? Como vocês sabem, o curso vai ser online. Mas além do conteúdo disponível na plataforma do Knight, a Escola de Dados promoverá grupos de estudo presenciais em algumas cidades brasileiras. O de Porto Alegre será oganizado pelo Farol Jornalismo.

Massa, hein?

É uma boa oportunidade para discutir jornalismo, conhecer gente e se manter motivado durante as cinco semanas de curso. Serão, em princípio, cinco encontros semanais que acontecerão em Porto Alegre, em lugar ainda a ser confirmado; o dia e a hora também não foram definidos. Lembrando que a participação no grupo não é obrigatória para quem estiver fazendo o MOOC. Para se inscrever e/ou buscar mais informações, enviem um email para moreno [arroba] faroljornalismo.cc.

Então, resumindo:

O que: grupo de estudo do MOOC Jornalismo de Dados, do Knight Center.
Onde: Porto Alegre, RS, local a ser definido.
Quando: os encontros serão semanais, provavelmente a partir da segunda semana de curso; dia da semana e hora ainda serão definidos.
Informações: moreno [arroba] faroljornalismo.cc.

Feito?

Bueno, vamos nessa.

Hoje a newsletter vai ser daquelas atípicas. Mais reflexiva, menos descritiva; menos links e mais texto. Ela volta ao normal no final, com coisas mais práticas.

Começo com um dos dois textos publicados no canal do Farol Jornalismo no Medium nesta semana. A Marcela Donini, que de vez em quando escreve aqui na news, avaliou a estreia do Em Pauta ZH, uma série de encontros com profissionais do jornalismo que o jornal Zero Hora está promovendo para discutir a profissão. A primeira conversa rolou na última terça-feira e teve como convidado o colega e amigo Leandro Beguoci. A Marcela estava entre os convidados e foi lá conferir.

Ela destacou o fato de Beguoci ter enfatizado o envolvimento que o jornalismo deve ter com a comunidade. Algo que se intensificou com as possibilidades de comunicação desenvolvidas nos últimos anos, mas que sempre foi um dos fins do jornalismo. Ela lembrou, por exemplo, da experiência que teve como repórter dos cadernos de bairros da própria ZH, iniciativa que foi encerrada pelo jornal em 2014.

“O exemplo usado por Beguoci sobre buracos de rua fechados pela prefeitura depois de saírem no jornal era o nosso dia a dia (às vezes trocando os buracos por ruas sem luz, árvores sem poda, praças sem bancos…). Enquanto o digital gatinhava e o site zerohora.com era lançado, nós da equipe dos Bairros vivíamos em uma ilha dentro da redação, onde tínhamos um feedback quase imediato dos leitores e a certeza do impacto do nosso trabalho […]”

Marcela também avaliou o fato de um grande veículo entrar no debate sobre o jornalismo, destacando a importância de um movimento como esse, mas lembrando que o debate acontece (e segue acontecendo) aqui fora já há um tempo.

“Fiquei feliz com a escolha do palestrante, um cara com visão otimista da profissão, que levou ao evento uma série de temas atuais, muitos dos quais discutimos com frequência por aqui. Por que a autorreferência de novo? Porque, sem falsa modéstia, o Farol Jornalismo está há mais de um ano ativamente nesse debate público — e já chegamos depois de tanta gente. Acho importantíssimo um grupo do tamanho da RBS entrar na discussão. Do lado de cá, sentimos que boa parte de quem está dentro da redação está atrasada em muitas reflexões que vem sendo feitas nos últimos anos, e isso é antes uma constatação do que uma crítica (quem já esteve numa grande redação sabe como a correria dificulta uma reflexão maior sobre o próprio trabalho).”

Leiam lá.

E seguimos em frente.

Passei as duas últimas semanas trabalhando em um artigo que pretendo submeter a um evento nos próximos dias. Não é o caso de explicar em detalhes o conteúdo do texto, mas talvez o raciocínio que está por trás dele possa ser útil para nós aqui.

O artigo procura abordar o jornalismo a partir do pensamento de um sociólogo francês chamado Bruno Latour. Esse sujeito defende que a sociologia precisa encarar simetricamente natureza e sociedade. Isso significa dizer que o não-humano é tão importante quando o humano na formação do que entendemos como social. Segundo ele, essa perspectiva nos permite entender melhor questões que parecem transcender o humanismo, como os problemas ambientais. No meu caso, oferece uma perspectiva diferente para analisar a tecnologia no jornalismo. E aí está o gancho para alguns textos que eu gostaria de destacar.

(Para saber minimamente sobre o pensamento do Latour, leiam esta entrevista.)

As ideias desse cara são tentadoras. Porque ele parece fornecer os subsídios teóricos para refletir sobre o papel da tecnologia na sociedade, de maneira geral, e no jornalismo, em particular. Mas nem tudo são flores. Uma das muitas críticas que ele recebe é que adotar a simetria como parâmetro básico desconsidera, a priori, as relações de poder. E igualar a capacidade de ação tende fortalecer determinadas forças em detrimento de outras, ignorando complexidades e diferenças.

No fundo, o que venho tentando fazer é refletir sobre uma maneira de pensar no que a tecnologia faz sem desconsiderar o que está por trás dessa capacidade de ação. Reformulando questão: quais as consequências de dar mais poder ao que a tecnologia faz problematizando o que ou quem leva a fazer o que ela faz?

Leiam este texto sobre o Uber. Já adianto que não vou me arriscar a tomar um lado da polêmica. Já usei o Uber e, olha, gostei muito. Mas, aos poucos, vi que nem tudo se resume à dicotomia taxistas antiquados versus o Uber e a modernidade. De qualquer maneira, ainda estou me informando (mais aqui, em lido, lendo e a ler).

O que eu gostaria de destacar desse texto é a relação que o autor faz com a ascensão de uma tecnologia que faz alguma coisa – proporciona um serviço melhor do que o oferecido pelos táxis, ao menos num primeiro momento, e de maneira inteligente – e o que está por trás dessa capacidade de ação. O que torna a questão muito mais complexa e ressalta a necessidade da ação humana para problematizar evoluções tecnológicas que parecem naturais.

Leiam o que escreveu Patrick Sullivan de Oliveira:

“A ideologia que brota do Silicon Valley apresenta a tecnologia como uma coisa inerentemente positiva ou, na pior das hipóteses, neutra. Mas a tecnologia nunca é imune a dinâmicas de poder. O “progresso” não é alcançado através de inovações tecnológicas, mas sim graças a escolhas políticas de como (e se) incorporaremos essas inovações dentro do nosso complexo mundo social.”

Precisamos admitir que é difícil exercitar uma análise complexa quando nem todos os elementos são visíveis para que possamos confrontá-los. Às vezes, nem o tempo é suficiente para desnaturalizar processos que se mostram como pura evolução.

Leiam o texto The Web We Have do Save, do iraniano Hossein Derakhshan, publicado na revista Matter. É longo, em inglês, mas vale a pena. Derakhshan conta como foi descobrir a internet social após ficar seis anos preso porque o governo não curtiu o que ele escrevia no seu blog. É bom enxergar o funcionamento da web hoje pelos olhos de alguém que esteve ausente dela por tanto tempo. Ao comparar a era dos “likes, plusses, stars and hearts” com a do apogeu dos blogs, a narrativa de Derakhshan revela uma web muito festejada e pouco problematizada.

Ele lamenta, por exemplo, a pouca importância que tem hoje o hiperlink, uma característica-chave da internet e que “forneceu a ela uma diversidade e uma descentralização que faltavam ao mundo real”, e emergência do que ele chama de The Stream, termo que poderíamos traduzir como fluxo ou mesmo timeline.

“The Stream significa que você não precisa mais abrir tantos sites. Você não precisa de várias abas. Você não precisa sequer de um browser. Você abre o Twitter ou o Facebook no seu smartphone e mergulha fundo. A montanha veio até você. Algoritmos escolhem tudo para você. De acordo com o que você ou os seus amigos leram ou viram antes, eles preveem o que você deve querer ver. É ótimo não perder tempo buscando coisas interessantes em tantos sites.”

Certo, é ótimo não perder tempo, mas é preciso ter consciência de que talvez seja “uma profunda traição à diversidade que havíamos imaginado para a world wide web”. Podemos até pensar que, no Facebook, muitas pessoas têm acesso a conteúdos que não teriam se tivessem que buscar por si próprias. Mas quando ele fala de diversidade, há uma questão maior, de fundo: centralização e controle.

“Mais assustador do que ser apenas observado é ser controlado. Quando o Facebook pode nos conhecer melhor do que os nossos pais com apenas 150 likes, e melhor do que os nossos companheiros(as) com 300 likes, o mundo fica bem previsível para governos e empresários. E previsibilidade significa controle.”

Ao ler esse trecho, automaticamente lembrei do texto do Mathew Ingram sobre o futuro do jornalismo mobile que destaquei na última newsletter. Ele lamenta maneira como as coisas estão evoluindo na internet mobile, principalmente pela a ausência de um bom ambiente de navegação aberto, como são os browsers na web.

Vou repetir um dos trechos destacados sexta passada, e que inclusive virou um card de divulgação no canal do Farol Jornalismo no Facebook.

“Facebook e Apple terminam por controlar integralmente o fluxo de conteúdo, determinando quem acessa o conteúdo, e quais, e quem vê os anúncios, e quais.”

Como construir uma argumentação que desnaturaliza o que parece ser uma força natural e universal? Como desconstruir um discurso que propõe ser a verdade legítima, sem poder e sem desejo, mas que, ao fazer isso, a simples vontade de ser verdadeiro acaba superando a verdade que ele gostaria de legitimar?

Ok, Foucault numa sexta-feira não.

Mas ainda sobre o poder de um discurso, leiam o texto que o jornalista Luis Felipe dos Santos escreveu para o nosso canal no Medium sobre a venda do Financial Times para o grupo Nikkei. Ele explora dois pontos interessantes. Primeiro, ao comparar este último negócio com a venda do Washington Post, sobre que tipo de conteúdo vem sendo valorizado em transações comerciais. Segundo, e o que nos importa aqui, sobre a objetividade no jornalismo, já que, segundo Luis Felipe, o que o grupo Nikkei parece estar interessado no Financial Times é a capacidade de estabelecer como verdade aquilo que eles gostariam que fosse verdade.

O Luis Felipe fecha o texto assim:

“Enquanto boa parte dos veículos de mídia se vira para conquistar a atenção em meio a universos barulhentos, padrões de discurso sobre determinados nichos estão valendo fortunas. A Nikkei não comprou apenas um veículo: comprou um padrão de discurso, um negócio expandido e uma referência de credibilidade. Não será surpreendente se descobrirmos, dentro de algumas décadas, que essa compra foi para objetivos muito diferentes do jornalismo.”

Leiam lá.

Antes de mudar de assunto, deixem eu sugerir mais uma leitura nessa vibe de desnaturalização. É este aqui. Trata-se de um raciocínio útil sobre a vida de freelancer, uma atividade vista muitas vezes de maneira festiva, mas que esconde nas entrelinhas uma adaptação do discurso capitalista sobre a exploração da força de trabalho para a maximização dos lucros. Vejam, não é dizer que ser freelancer é ruim, apenas sugerir a necessidade de problematizar uma situação que, como diz a Sarah Grey, autora do texto, parece ser uma escolha, mas nem sempre é. Não por acaso, Millennials Love Life, But They’re Broke and Living at Home.

Também não por acaso, trabalhadores da tal “indústria (ou economia) criativa”, como às vezes são chamados os jornalistas, estão buscando na sindicalização um mínimo de proteção para enfrentar tempos em que indivíduos viram empresas que trabalham “em conjunto” com empreendimentos tais como conhecíamos. Primeiro, o Gawker. Agora, trabalhadores dos segmentos digitais do Guardian, diz o Poynter.

Beleza, agora três listas para virar a chave da newsletter abruptamente:

  1. Dez livros que todo jornalista deve ler, por Eliane Brum.
  2. Leituras jornalísticas recomendadas para o verão (no hemisfério norte)
  3. Cem incríveis trabalhos jornalísticos, selecionados pela Atlantic.

Antes de terminar, um dos meus assuntos preferidos: verificação de conteúdo digital com fins jornalísticos e/ou humanitários. Deem uma olhada neste texto, republicado no Emergency Journalism, sobre uma iniciativa para melhorar as informações relativas a inundações em Jacarta, na Indonésia, uma das capitais mais ativas no Twitter do mundo e que tem 40% do seu território abaixo do nível do mar.

Diante desse cenário, à medida em que a água sobe, cresce a desinformação. A ideia por trás do Peta Jakarta é aumentar a precisão das informações colocadas online pelos cidadãos, de maneira a facilitar o trabalho das autoridades.

Para isso, foi desenvolvido um algoritmo que age toda vez que a palavra banjir (inundação, enchente) é tuitada a partir de um perfil sem a geolocalização ativada. A pessoa que publicou o tweet recebe uma resposta automática pedindo que ative a geolocalização e republique o tweet com a palavra-chave. À medida em que o banco de dados recebe informações, vai montando um mapa com os pontos  da cidade com mais registros (tweets) informando sobre inundações. A ideia não é conseguir um grande número de respostas geolocalizadas, mas chamar a atenção dos usuários mais atentos e/ou comprometidos. Uma informação é considerada checada quando, além da geolicalização, uma foto mostra o local da inundação.

Bom, não?
Bueno, era isso então.
Bom final de semana e até a sexta que vem! 🙂
Moreno Osório