Buenas, moçada!

O fim do Terra as we know it é uma fonte riquíssima de reflexão sobre o jornalismo digital no Brasil. Na imprensa especializada, por enquanto, a cobertura predominante é, digamos, noticiosa. Comunique-se, Portal Imprensa, Meio & Mensagem, Baguete, Portal dos Jornalistas, entre outros, deram notas a respeito da demissão em massa. Indo um pouco mais além, o Volt Data atualizou seu especial A Conta dos Passaralhos, informando que o Terra assumiu o segundo lugar em total de dispensas, ficando atrás apenas da Editora Abril. No Facebook, colegas ainda estão na fase do luto, da despedida ou da rememoração. O que é mais do que justo. Muitos dedicaram anos de suas carreiras lá – alguns, toda a sua vida profissional.

Particularmente, desejo que essas manifestações se multipliquem e, na medida do possível, adquiram um tom reflexivo. Abordagens não faltam. Elas vão desde questões mais universais, como o modelo de negócio, até aspectos mais particulares, como a dificuldade do portal em se adaptar à internet social, passando pelo curioso fato de uma empresa nativa da área de tecnologia nunca ter conseguido colocar efetivamente a tecnologia à serviço da redação, especialmente em um momento em que esta mais precisa daquela.

É engraçado, mas às vezes me parece que o Terra nunca entendeu direito a internet. Ao menos no que se refere à produção de conteúdo. Com isso, não quero ser desrespeitoso com meus colegas. Devo muito do que sou ao trabalho no Terra. Acho que meus oito anos atuando lá me credenciam para afirmar que seus jornalistas sempre fizeram um ótimo trabalho. Mas o fato de um veículo de internet não adotar o hiperlink para fontes externas até quase o final da primeira década dos anos 2000 por considerá-lo uma porta de saída para o usuário é bem sintomático.

Na época não sobrava muito tempo para refletir, mas lembro de lamentar o fato de que a maioria dos infográficos era construída manualmente, tag por tag, com poucas preocupações estéticas e/ou funcionais em função do foco no page view. Não estou dizendo que a equipe de arte/infografia era ruim. Muito pelo contrário. Assim como o hiperlink, este exemplo serve para ilustrar uma lógica maior, e à qual estávamos todos presos, cada um na sua área e/ou editoria: uma espécie de modus operandi fechado em si e voltado a práticas capazes de dar conta da meta que todo o mês batia à porta. Um senso de urgência nocivo à autorreflexão e à inovação.

Durante um tempo essas práticas funcionaram, mas aos poucos o fio da narrativa foi se perdendo. Quando o Terra percebeu, talvez tenha sido tarde demais.

Enfim, não se trata de uma crítica a um momento pontual, mas sim de uma breve constatação a respeito do percurso histórico do Terra como veículo de internet. Mas não vou me alongar. Talvez outra hora, em outro local. Como eu disse, gostaria muito de ler/ouvir relatos e reflexões de (ex-colegas ou não) sobre o Terra. É uma boa oportunidade para o jornalismo digital pensar um pouco sobre si. O fim do Terra como conhecíamos é o fim de uma era. Precisamos aprender com ela.

Bueno, voltemos à programação normal.

Aproveitando o gancho das reflexões necessárias aos novos tempos, o Eyewitness Media Hub (EMH) está conduzindo uma pesquisa sobre os traumas aos quais estão expostos profissionais que trabalham com conteúdo gerado por usuários (UGC, na sigla em inglês). Neste texto, publicado no canal do EMH no Medium, Sam Dubberley explica a necessidade de se abordar a questão a partir de uma experiência própria: ter assistido ao vídeo da decapitação de um engenheiro americano durante conflitos após invasão do Iraque pelos EUA, em 2004.

“Quando Eugene Armstrong foi decapitado, ainda faltava um ano para o lançamento oficial do YouTube. O vídeo da execução foi publicado na internet, mas era preciso certa habilidade para encontrá-lo. Avance apenas uma década e tudo mudou. Em 2004 nós víamos a situação após a explosão de um carro-bomba em Bagdá quando as equipes de TV chegavam à cena. Hoje, nós vemos a própria explosão. E os vídeos não são difíceis de achar. Eu nunca assisti ao vídeo da morte de James Foley. Eu não precisei. Basta ver a imagem dele com aquela roupa laranja para que eu volte a setembro de 2004” [quando ele assistiu ao vídeo de Armstrong].

O projeto do EMH quer realizar uma pesquisa global para entender os efeitos do que em inglês é denominado trauma vicário (vicarious trauma), ou seja, traumas indiretos, ou estresse pós-traumático sofrido de maneira indireta. Algo historicamente associado a profissionais socorristas, como bombeiros e policiais, mas que, hoje, com a disseminação de UGC, também afeta jornalistas e trabalhadores humanitários que lidam com esse tipo de recurso no seu dia a dia.

Coincidentemente (ou não), o blog do witness.org – uma organização que incentiva o uso de vídeos para que as pessoas lutem por seus direitos – publicou um texto da arquivista Wannet Clyde que também relata um trauma causado por UGC. Clyde narra como foi assistir a vídeos de protestos no Brasil contra a Copa do Mundo.

“Foi difícil traduzir em palavras a inquietação que vivi. Eu senti coisas parecidas – embora talvez de maneira menos intensa – assistindo a notícias trágicas na TV, lendo uma história emocionante ou conversando com amigos sobre memórias traumáticas. Mas o sabor desse sentimento era único. Durante uma conversa em que eu tentei desesperadamente descrever meu estado mental, me perguntaram se eu conhecia o termo ‘trauma vicário’.”

Em uma matéria do Nieman Lab, Dubberley destaca o fato de existir dúvida se essa caracterização de trauma pode ser aplicado a jornalistas que trabalham com UGC, já que, em geral, não se reflete muito sobre isso nas redações – onde muitos profissionais, em especial os que já vivenciaram eventos traumáticos ao vivo, minimizam os efeitos de um trauma indireto. Mas Dubberley disse que eles decidiram assumir que esse tipo de trauma existe, e que a ideia é “entender o que as organizações estão fazendo sobre isso e como as pessoas que trabalham com isso no dia a dia se sentem”. O relatório final deve ser publicado em dezembro.

Falando em UGC, deem uma olhada neste material produzido pelo Mashable sobre a queda de Raqqa, na Síria, para o Estado Islâmico (EI). A equipe de cobertura global do site utilizou dados coletados por cidadãos para contar como a cidade se transformou na capital do EI. O ponto alto é esta bela e sensível animação.

Os conflitos entre rebeldes e tropas do regime Assad e depois a ascensão do Estado Islâmico tornaram a Síria terreno hostil para jornalistas, o que fez crescer o investimento em UGC. Ao Poynter, Louise Roug, editora global do Mashable, disse que em determinado momento já não havia como saber o que estava se passando na Síria. A única possibilidade era contar com a ajuda dos cidadãos do país.

O Mashable quer contar o que está acontecendo em Raqqa, e para isso está (re)organizando materiais originalmente produzidos por cidadãos sírios. Tal movimento traz à tona duas questões importantes. A primeira é o trauma vicário. Embora trabalhando confortavelmente na redação, os jornalistas envolvidos com a composição dessa narrativa sofrem indiretamente o que está sendo vivido no Oriente Médio. A segunda é a responsabilidade do jornalismo (e de algumas ONGs de direitos humanos) em assumir a tarefa de organizar a narrativa desses conflitos.

Tenho a impressão que a preocupação com a memória ainda é pouco presente no jornalismo digital. São poucos os que têm condições de levar adiante um esforço homérico como o Watching Syria’s War, do NYT (que está parado). A maioria sequer consegue manter suas próprias produções no ar com o passar dos anos.

Ao se propor contar a história de Raqqa, o Mashable assume sua fatia de responsabilidade junto à memória. Mas basta uma linha de código modificada, um link quebrado, para tudo ir por água abaixo. Permitam-me usar o Terra como exemplo. Em 2011, a propósito do aniversário do 11/9, a editoria de Mundo realizou um extenso material sobre o terrorismo no século XXI, com entrevistas, reportagens e infográficos. Um desses infos permitia, pelo Google Maps, buscar os locais onde haviam acontecido os piores atentados do século até aquele momento. Bastou um problema na API para jogar todo o esforço fora. E olha que não faz tanto tempo.

Voltando à organização da narrativa, ao mesmo tempo que o tamanho do desafio angustia, é massa saber que iniciativas estão surgindo para dar conta do trabalho.

O Journalism.co.uk fez uma matéria sobre o CrowdVoice.by, uma plataforma open source que pretende ajudar jornalistas e redações a organizarem conteúdos UGC que sejam do seu interesse. A ideia é fornecer ao jornalismo – tanto o praticado por grandes veículos quanto a profissionais independentes – subsídios para um melhor aproveitamento do conteúdo que é gerado em diferentes plataformas.

O sistema funcionaria como um painel de controle (dashboards, lembram?) adaptável às necessidades da cada cobertura. “Um jornalista que está escrevendo uma matéria sobre um protesto em andamento, por exemplo, poderá configurar um tópico ou ‘voz’ no CrowdVoice.by, com hashtags que funcionariam como agregadores trabalhando em background e puxando tudo o que as pessoas estão compartilhando sobre aquele tópico”, diz a matéria do Journalism.co.uk.

Seria um avanço rumo à internet social em relação ao que o crowdvoice.org vem fazendo desde 2010 ao organizar dados publicados nas mídias tradicionais.

Adiante.

Olhem que interessante o kit que o Solutions Journalism Network produziu para ajudar editores a implementar mudanças na redação. Embora mudanças sejam cada vez mais imperativas, são difíceis de colocar em prática. Por isso eles decidiram tentar ajudar. “Nós passamos meses entrevistando editores para tentar identificar as melhores práticas e como elas foram inseridas no dia a dia das redações”, diz o texto de apresentação do kit. O material é gratuito, basta preencher um pequeno formulário para receber o PDF. Eu preenchi, mas ainda não recebi. :/

E adiante.

Interessante texto do Poynter sobre o uso de CMSs inteligentes para facilitar a vida do jornalista na hora da redação. Ele cita o lançamento de um projeto experimental do NYT chamado Editor, um gerenciador de conteúdo que lê o texto enquanto ele está sendo digitado em busca de expressões que possam virar links, como nome de pessoas, lugares, organizações e eventos (vejam este vídeo). Mas as possibilidades vão muito além. “você pode imaginar microsserviços [a serviço do jornalismo] que podem fazer coisas, como identificar aspas de pessoas ou tentar identificar, no texto, relações entre pessoas e organizações”, disse ao Poynter Alexis Lloyd, diretor do laboratório de inovação do NYT, que está à frente do projeto Editor.

Falando em open source, válida a reflexão entre jornalismo e a cultura open source feita por uma jornalista recém graduada que passou um tempo na Red Hat.

Pra fechar, um textinho do Antony De Rosa, editor do finado Circa, sobre transparência e jornalismo digital como processo. De Rosa reflete sobre algo que quem já trabalhou com jornalismo em tempo real na internet deve ter enfrentado: a melhor maneira de atualizar notícias e/ou reportagens. Aliás, taí um aspecto a ser explorado após o fim do Terra. Não foram poucas as vezes em que me peguei pensando sobre qual seria a melhor forma de apresentar uma notícia em desenvolvimento para o leitor, visto que o jornalismo digital trabalha, via de regra, com uma lógica de atualização e/ou correção dos textos herdada do papel.

Sabemos que, numa cobertura digital, o texto de uma notícia vai mudando à medida em que os fatos vão sendo atualizados. A primeira versão pode ser completamente diferente da última, inclusive com informações opostas, ainda que o período de tempo entre uma e outra seja de apenas alguns minutos. Como disse De Rosa, o leitor percebe o processo existente por trás da redação. Como mostrar essa evolução para a audiência? Como deixar claro que você, como jornalista, está acompanhando um evento em andamento e que, por isso, o texto vai mudar constantemente, podendo começar de um jeito e terminar de outro?

Como ser transparente?

Quando o assunto era muito importante, costumava-se adotar uma frase padrão, do tipo “mais informações a seguir” ou “evento em andamento”. Mas são medidas paliativas. Quem está acompanhando a notícia durante o seu desenrolar pode até entender. Mas e quem chegou depois? O artigo final dá uma ideia de que ele sempre foi daquela forma. Isso é ser transparente? No jornal pode ser que sim. No jornalismo em redes digitais, acho que não. Leiam o que escreveu De Rosa:

“O que seria ideal é um jeito de o leitor ativar uma função de correções/mudanças ao clicar em um link que coloca o texto em um modo de “verificação de alterações”, o que permite visualizar os updates ao longo do temo. Inclusive deveria ser permitido ao leitor enxergar como uma matéria estava em determinado dia.”

O que vocês acham? É ou não é tempo de iniciar uma arqueologia séria das práticas jornalísticas digitais realizadas nos primeiros anos do século XXI? É bom começarmos logo, pois não há garantias nenhuma sobre a permanência de conteúdos antigos no ciberespaço. Taí o especial sobre o 11/9 para provar.

Com essa me despeço.
Bom final de semana e até sexta que vem! 🙂
Moreno Osório