Buenas, moçada!

Há dias a temperatura supera os 30ºC em Porto Alegre, quando deveria estar abaixo dos 15ºC. Enquanto nas ruas e parques a antecipação compulsória do verão confunde os ipês roxos, que se abrem em flor pensando que já é primavera, nos ambientes de trabalho a impressão é de se estar vivendo em agosto um estado mental típico de fevereiro: certa languidez cognitiva de quem quer fugir para a praia na primeira oportunidade. Mas o cérebro sabe que ainda falta um tempinho para poder diminuir o motor à rotação típica pós-festas. O problema é convencer o corpo, que luta para se manter alerta sob uma pressão atmosférica opressora e enfrentando o nível “fiozinho de suor permanente nas costas” de umidade do ar.

Tá foda.

Mas beleza, tá rolando Masters 1000 de Montreal e logo começa o US Open.

E hoje é sexta, afinal de contas.

Embora o foco da newsletter seja mostrar um resumo das discussões sobre jornalismo e tecnologia que acontecem no mercado, de vez em quando proponho umas leituras mais acadêmicas para entendermos como a prática está sendo pensada na teoria. Trata-se de um movimento importante, porque, como diz Adelmo Genro Filho, “se a teoria na prática é outra, então há algo errado na teoria”.

O texto que eu gostaria de convidar à leitura é o artigo Além do Jornalismo, de autoria dos pesquisadores holandeses Mark Deuze e Tamara Witschge, publicado na última edição da revista Leituras do Jornalismo, da Faculdade de Artes, Arquitetura e Comunicação da Unesp. Nele, Deuze e Witschge exploram o caráter pós-industrial do jornalismo no século XXI, sugerindo que a profissão deve superar uma “(auto)representação consensual” presente em aspectos caros à atividade, como sua cultura profissional e suas estruturas organizacionais, no caso, a redação.

O objetivo dos autores parece ser uma tentativa de ajustar aos novos tempos a maneira como enxergamos o jornalismo, claro, mas também a determinadas características  que talvez sempre tenham existido, mas que só foram (vêm sendo) desveladas nos anos recentes, com avanços tecnológicos de diversas ordens.

Eles afirmam que, de maneira geral, o jornalismo é definido de maneira bastante hermética a partir de consensos profissionais e acadêmicos, o que nos leva a esquecer “o fato de que o jornalismo é feito e refeito a cada dia por jornalistas (trabalhando) e que todas essas definições e teorias assentam-se das construções discursivas e práticas do jornalismo feitas por seus praticantes”.

A definição do que é jornalismo se daria “nas fronteiras” da profissão, um lugar de disputa entre os que estão dentro com os que estão fora, e não no “centro” do território. Trata-se de buscar identidade na volatilidade inerente ao tornar-se em vez de se agarrar na estabilidade do ser. Se o jornalismo fosse um castelo,  sua essência estaria no embate realizado nas muralhas, e não na segurança da torre de menagem, sua parte mais fortificada e último bastião de defesa.

Perdão pela metáfora medieval, mas as talvez as coisas fiquem mais claras se pensarmos nas transformações pelas quais vem passando um dos maiores bastiões do jornalismo: a redação. Vistas historicamente como “glamurosas instituições de elite e prestígio […] que servem para solidificar […] a articulação sobre o que o jornalismo é e sobre quem pode ser considerado jornalista”, como escreveram Deuze e Witschge, hoje vêm sendo consideradas ambientes de estresse, raiva, e desânimo, como mostrou esta matéria da Pública no ano passado.

Questões econômicas e passaralhos à parte, as muralhas da redação vêm sendo derrubadas por um fluxo de trabalho jornalístico que transcende seus limites, tanto no espaço quanto no tempo. Não foram poucas as vezes que comentei aqui sobre o reported.ly, iniciativa jornalística de cobertura global que atua de maneira descentralizada, em várias partes do mundo e em diferentes fusos. Sem redação.

Ao trabalhar basicamente construindo narrativas jornalísticas a partir de narrativas tradicionalmente não-jornalísticas disponíveis na internet social, o reported.ly vai ao encontro do que C.W. Anderson disse no já conhecido relatório jornalismo pós-industrial: “as redações tradicionais ‘não podem servir como o nosso único modelo para o trabalho de campo'” – se me permitem o apud a partir do artigo de Deuze.

Mesmo dentro das redações, os fluxos estão se adaptando a  processos descentralizados que prescindem de um lugar físico. Um exemplo disso é a emergência do Slack, uma mistura de rede social com instant messenger cada vez mais utilizada por equipes jornalísticas pelo mundo. Recentemente o Nieman Lab fez uma matéria sobre como 7 organizações estão usando essa ferramenta no seu dia a dia. Ao Nieman, Alex Madrigal, editor-chefe do Fusion (que tem sedes em Miami, Nova York, Oakland e Los Angeles), disse que o Slack é como se fosse “o nosso escritório nacional na nuvem”. Nessa redação virtual, robôs também podem atuar, ajudando o trabalho dos jornalistas. Outra matéria do Nieman mostra como o NYT desenvolveu um código para decidir quais os melhores conteúdos, dentre tudo o que é produzido pelo jornal, para compartilhar nas redes sociais.

Com a tecnologia e a internet social invadindo nossas muralhas, somos obrigados a descer da torre de menagem para buscar o diálogo. Mas não é fácil: “Mover-se além da redação é difícil porque isso nos empurra contra as fundações do arranha-céu que os estudos de jornalismo e da profissão de jornalista construíram em termos de sua autopercepção dominante”, escreveram Deuze e Witschge, optando por outra metáfora.

À medida em que a redação “derrete”, a profissão se enfraquece e perde a identidade. Na prática, isso significa perda de legitimidade e, em última instância, perda do emprego e/ou precarização do trabalho. Nesse sentido, o artigo relata uma situação na Holanda muito parecida com a nossa e com a de outros países. Não à toa surgem iniciativas como a do Volt Data Lab sobre passaralhos, bastante comentada por aqui, ou esta, de um aluno da City University of New York (CUNY), que lançou um serviço / pesquisa para que os jornalistas informem dados básicos sobre seus rendimentos e lugares onde trabalham. Tratam-se de reações da categoria a um contexto: entendimento é o passo anterior e necessário à ação.

O surgimento de um novo movimento sindical em veículos dos EUA, como o Gawker e a versão norte-americana do Guardian, parecer ser um sinal de compreensão de um tempo em que o capitalismo parece não medir esforços por sua manutenção, embora há quem diga que seja o começo do fim. Durante a semana foi a vez dos jornalistas da Vice decidirem pela sindicalização.

Talvez haja na sindicalização um ensaio de resposta à tendência do empreendedorismo como salvador da pátria da profissão. Até porque grande parte das iniciativas empreendedoras que conheço tem se mostrado, em termos de relações trabalhistas, um passo atrás. E aqui não se trata de um juízo de valor, apenas uma constatação, muito menos de negar o papel de empreendedores e startups na busca de uma identidade pós-redação para o jornalismo / jornalista.

Para concluir e deixar mais claro o meu pensamento passo a palavra a Deuze e Witschge:

“Ampliar a nossa visão […] não é uma mera expansão da nossa amostra: nós temos que repensar a nossa compreensão tanto do papel das organizações (para além das instituições estáveis de notícias) quanto dos indivíduos (para além do empreendedor como um salvador do jornalismo). Precisamos encontrar maneiras de abordar o jornalismo em sua construção através das práticas cotidianas e da variedade de (auto)compreensões do jornalismo que cercam a profissão.”

Passada essa longa reflexão, vamos para o final da newsletter com outras coisas que cruzaram por mim nesta semana e que gostaria de compartilhar com vocês.

Como este post do Online Journalism Blog, mantido pelo jornalista de dados Paul Bradshaw. Nele, Bradshaw compartilhou entrevistas feitas pela estudante portuguesa Inês Rodrigues sobre jornalismo de dados com alguns profissionais que são referência no assunto, como o próprio Bradshaw, Alberto Cairo e Simon Rogers. Todas as entrevistas em vídeo podem ser conferidas neste canal do YouTube.

Falando em jornalismo de dados, deem uma conferida neste texto do IJNet sobre a importância da colaboração entre profissionais de jornalismo e tecnologia a partir de uma experiência queniana. Esse diálogo necessário foi tema de um curso de quatro dias que ocorreu recentemente em Nairóbi para capacitar jornalistas a trabalhar com dados – especialmente depois que o país abriu suas informações, em 2011.

Uma das frases que me chamou a atenção no texto foi esta:

“Se uma fotografia vale por mil palavras, um conjunto de dados bem minerado, devidamente ‘entrevistado’ e apresentado de maneira simples, atraente e interativa, pode transformar uma história meia boca em algo de relevância para o público.”

Ok, nada de novo, comparação um tanto óbvia até, mas acho que segue sendo importante afirmar a importância do jornalismo de dados bem feito.

Mudando de assunto, há tempos quero comentar aqui sobre uma matéria que li na Revista de Jornalismo da ESPM (não achei o link para edição em que está o texto, por isso a url do index da publicação) a respeito do plágio no jornalismo.

A abordagem de Marc Fischer, autor da matéria, busca desnaturalizar a máxima de ojeriza ao plágio. Não no sentido de ser condescendente com quem rouba a produção de outros, mas sim de entender como essa apropriação está se dando em um contexto em que a própria noção de construção intelectual passa por mudanças. Ou seja, o que é claramente plágio para uns, pode não ser para outros, especialmente para as novas gerações, que já nasceram conectadas e com todo o conhecimento disponível na internet a poucos cliques de distância.

No começo da matéria, Fischer faz algumas perguntas pertinentes.

“Tanto o jornalismo como o plágio adentraram uma nova – e turva – realidade na qual não há consenso claro sobre as velhas normas. Até os oráculos que estipulam as regras discordam sobre definições básicas. O que é plágio num mundo no qual um músico sampleia trechos de composições alheias e é chamado de inovador? O que é plágio num mundo que cresceu acreditando que não faz mal baixar – roubar é o termo certo – filmes, músicas e textos da internet? O que é plágio quando juristas renomados e vozes influentes na esfera pública sustentam que o excesso de restrições à reutilização de conteúdo intelectual vai tolher a criatividade do indivíduo?”

Essas questões podem nos levar à curadoria de conteúdo. Embora em geral menosprezada pelo jornalismo que insiste em permanecer na torre de menagem, ela vem, aos poucos, ganhando espaço, tanto na teoria quanto na prática. Trata-se de uma discussão semelhante à do plágio, ou seja, é preciso problematizar verdades intocáveis, reconstruindo novos conceitos para novos tempos.

Sobre isso, sugiro duas leituras. Uma rápida, outra nem tanto. A primeira é um texto publicado no blog do PPG em Jornalismo da UFSC sobre questões éticas envolvendo curadoria digital. Nele, a doutoranda Lívia Vieira faz um exercício simples porém essencial de tipificação de práticas de curadoria. Colocar lado a lado exemplos concretos, analisando-os, permite a identificação de parâmetros e comportamentos mais ou menos aceitáveis eticamente – ou seja, se determinada prática está mais próxima de uma (re)criação ou de uma simples cópia.

Mas o que pode a curadoria criar? Esta é pergunta que faz o segundo texto sobre o assunto, um artigo acadêmico publicado neste ano sobre as possibilidades de criação da curadoria. Nele, Gabriel Menotti Gonring explora a autonomia simbólica do curador, ou seja, sua possibilidade de ser autêntico, para saber se é possível estabelecer uma linguagem curatorial. Para isso começa analisando a curadoria na sua área de origem, as artes, até chegar nas novas mídias. Leitura interessantíssima para compreender de maneira mais aprofundada comportamentos  que muitas vezes adotamos ou condenamos sem maiores reflexões.

Por fim, um texto que citei aqui semana passada, e que ganhou tradução em português no Medium: A Web que temos que salvar. Vão fundo, vale a pena.

Vou ficando por aqui porque vai começar o jogo do Djoko.

Era isso então.
Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório