Buenas, gurizada!

Hoje a newsletter volta ao seu formato clássico, mais expositivo e menos reflexivo. Bueno, vamos ver coisas que me chamaram a atenção durante a semana.

Às vezes acho que falo muito sobre o Facebook aqui. Mas sempre chego à conclusão de que é inevitável devido ao tamanho da empresa de Mark em nossas vidas – e na nossa profissão. De qualquer jeito, serei rápido para não ser repetitivo.

Leiam este texto publicado na New Yorker pelo professor da Columbia Tim Wu sobre a ideia de que o Facebook deveria nos pagar pelos nossos dados. Ele constrói sua reflexão a partir de um texto da socióloga Zeynep Tufecki – personagem que volta e meia aparece aqui na newsletter – publicado no NYT (ainda não li, mas deixo o link). Embora o artigo de Tufecki sugira o contrário: ela gostaria que o Facebook oferecesse a possibilidade de nós, usuários, pagarmos para não termos nossos dados vendidos a quem pode lucrar com eles. A ideia dela é pagar – uma quantia mínima, alguns centavos – para seguir compartilhando fotos, ideias, textos, etc com nossos amigos e família sem que essas informações sejam vendidas a interessados em criar anúncios personalizados a partir desses dados.

Wu diz que o Facebook nunca vai oferecer uma opção como essa porque os nossos dados, além de uma fonte de receita, são o principal ativo da empresa. “Uma razão pela qual Mark Zuckerberg é tão rico é que o mercado confia que, em algum momento, ele vai descobrir uma nova forma de extrair lucro de todos os nossos dados que ele acumula”, escreveu o professor. Por isso, ele acredita que a maior inovação do Facebook não é ter criado uma rede social, mas sim ter “desenvolvido uma ferramenta que convence milhões a fornecer seus dados por tão pouco”.

Wu diz:

“Assim, o Facebook é uma empresa fundamentalmente guiada por uma oportunidade de arbitragem – a saber, a diferença entre quanto o Facebook ganha, e o que isso custa para simplesmente oferecer às pessoas um lugar para socializar. Esse sistema de arbitragem desapareceria em um cenário racional de pagamento. Se nós fôssemos mais espertos, nós exigiríamos que o Facebook nos pagasse. “

Como bem sabemos, pois trata-se de uma abordagem recorrente aqui na newsletter, o problema é que nós achamos que o Facebook é gratuito. E que por isso é um bom negócio. Para Wu, o Facebook não é gratuito. Mas o pagamento não é feito com dinheiro, e sim com dados. E isso pode ser um problema.

Pagar com dados faz você estar mais vulnerável. Assim como ficamos mais atentos se alguém nos chama pelo nome, ficamos mais receptivos a alguém que nos conhece bem. Quanto mais dados você oferece, mais comercializável o seu mundo se torna. Fica difícil ignorar anúncios ou intrusões. Basta pagar para ser capaz de chamar sua atenção e, em certos casos, explorar suas fraquezas.

Bom o texto de Wu.

Enquanto isso, o Facebook ultrapassou o Google no volume de tráfego direcionado a sites de notícias. Ou seja, as pessoas estão chegando a esses sites mais pelo Facebook do que pelo Google. Não é a primeira vez que isso acontece, mas, segundo a empresa de analytics Parse.ly, nunca como neste mês. Ao colunista da Fortune Mathew Ingram, a empresa afirmou que esse resultado parece indicar que “os mecanismos de buscas chegaram a uma espécie de platô, não estão crescendo tanto quanto as mídias sociais”. Em outra frente, o Facebook planeja lançar sua própria plataforma de publicação ao estilo Medium, segundo o The Verge. Tal como anotou dia desses o colega Pedro Burgos em uma recente postagem no Orbital Midia, seria um Instant Articles para as massas? De qualquer maneira, é mais uma forma de receber dados – e assim fazer o Zuckerberg um pouco mais rico.

Aproveitando o gancho, deixem eu sugerir dois links que tangenciam a discussão acima. O primeiro é este texto do Ezra Klein, do Vox, sobre os veículos jornalísticos se transformando, em um futuro próximo, em agências de notícias. Ou seja, vão trabalhar para fornecer conteúdos adaptáveis a quaisquer plataformas – em geral, de propriedade de empresas não jornalísticas, como, óbvio, o Facebook.

Ele diz que, ao optar por agir como um wire services, os veículos podem ganhar mais audiência, pois tendem a alcançar pessoas que talvez nunca entrassem em seus sites. Por outro lado – e aí está o ponto a ser problematizado -, tendem a perder capacidade de inovação. Porque seus conteúdos vão precisar ser entregues de maneira, digamos, crua para que sejam adaptados a diferentes plataformas. Mais ou menos como acontece com as agências de notícias hoje. Quem já  trabalhou com feeds de textos da Reuters, EFE e AFP sabe do que eu falo.

O segundo texto que eu queria indicar é este, do blog Structure of News, mantido por Reg Chua, atualmente editor executivo de inovação da Reuters. Ele continua a discussão levantada por Klein, e sublinha o fato de que o jornalismo não pode abdicar da inovação. Porque, segundo ele, inovação é o futuro do jornalismo.

“[…] inovação importa. Não porque seja algo legal a se fazer, ou porque é um grande trunfo para a reportagem; mas porque nós estamos apenas começando a descobrir o que é possível em relação a descobrir, analisar e disseminar informação na era digital. E isso está no coração do que o jornalismo é, ou vai se tornar.”

Ok, mudando de assunto.

Andou circulando pelas minhas redes alguns conselhos da ombudsman do NYT a jornalistas. O conteúdo foi traduzido pelo blog do programa de treinamento da Folha. São algumas dezenas de tópicos, divididos entre redes sociais e jornalismo. Algumas dicas são interessantes, outras meio óbvias – mas que precisam ser reafirmadas de vez em quando. Vale a pena dar uma olhada.

Em uma vibe parecida, a diretora do Tow Center, Emily Bell, tuitou pedindo aos seus seguidores conselhos para estudantes de jornalismo que iniciam um novo ano escolar nos EUA. O Nieman Lab reuniu algumas das respostas que ela recebeu. Tem coisa interessante. O Nieman destacou esta, de Roy Greenslade, professor de jornalismo e colunista do Guardian: “atrás de cada tuíte há uma história; atrás de cada post no Facebook há uma história; atrás de cada história há uma história; histórias são o nosso negócio.” Outras que me chamaram a atenção: “Nada de fones de ouvido em público. Ouça os sons da cidade e converse com as pessoas ao seu redor”, disse Suzanne Moore, outra colunista do Guardian; “Aprenda sobre o lado dos negócios”, disse o CEO da Storyful, Rahul Chopra; “Dê a eles [estudantes de jornalismo] alguma esperança”, disse o estudante Matthew Hutching.

Indo adiante, deem uma conferida nesta entrevista feita pelo Poynter com Amber Hinsley, professora da Saint Louis University, sobre como a cobertura de Ferguson foi abordada nas aulas de jornalismo da instituição. Uma das coisas que ela falou foi sobre a importância do Twitter como uma ferramenta capaz de servir à sociedade ao possibilitar a conexão entre vozes de cidadãos buscando justiça social e jornalistas atentos a ouvi-las. Ela disse ter levado para a sala de aula feeds com a ação de jornalistas e de ativistas durante a cobertura, todos envolvidos em atividades parecidas: noticiar o que estava acontecendo e usar a plataforma para incentivar o engajamento, seja da audiência, no caso dos primeiros, seja da comunidade, no caso dos segundos. Segundo Hinsley, um dos resultados da cobertura foi o aumento do número de jornalistas locais no Twitter.

Falando em Twitter, o Pew Research Center publicou uma pesquisa sobre como os americanos usam o Twitter para notícias. Trata-se de um aprofundamento de outra pesquisa divulgada em julho. Este levantamento mais recente, diz o Pew, é uma tentativa de saber como os usuários estão utilizando o Twitter. Para isso, escolheram o comportamento  de 176 usuários para observar mais de perto.

Alguns resultados gerais:

  • 72% da amostra tuitaram ao menos uma vez durante as quatro semanas de análise, 39% mais de 10 vezes, e apenas 12% mais de 100 vezes.
  • 54% tuitaram algo relacionado a notícias ao menos uma vez durante as quatro semanas de análise; dentre esses usuários que tuitaram algo sobre notícias no período, 48% dos seus tweets eram relacionados a notícias.
  • Ainda dentre os que tuitaram algo relacionado a notícias, 49% desses tweets eram retweets; 38% eram postagens originais, e 13% eram replies.
  • Em média, quem tuitou algo relacionado a notícias tem mais seguidores e segue mais perfis do que a amostra como um todo.
  • Ainda dentre os que tuitaram algo relacionado a notícias, os tópicos mais comuns foram entretenimento (28%), esportes (25%) e política (17%).
  • Na maioria desses casos, os tweets não continham opiniões dos usuários sobre o fato – a informação era simplesmente repassada.
  • Dentre os 176 usuários, apenas 9%, em média, seguem veículos de mídia, mas seus feeds contêm 23% de tweets oriundos desses perfis.

Talvez nem precisasse dizer isso, mas a minha tradução não está livre de erros, portanto, sempre sugiro dar uma olhada na pesquisa original e na metodologia – principalmente se for o caso de utilizar esses dados para outros fins. Beleza?

Pra terminar, duas coisas.

Primeiro, vocês viram que o Volt Data Lab lançou um curso de programação básica para jornalistas? Massa, hein! Ele vai acontecer entre os dias 21 e 24 de setembro, em Curitiba. Vai ter 16 horas de duração, o custo vai ser de R$ 250 e a ideia é “dar noções básicas e sobre como utilizar programação em um nível mínimo para realizar um projeto mesmo sem saber nada”. Dá pra se inscrever aqui.

Segundo, gostaria de dar notícias sobre o projeto Hangouts Farol Jornalismo. Quem assina a newsletter há mais tempo deve lembrar que na edição 47 eu convidei os assinantes para trocar uma ideia sobre jornalismo via videoconferência. Pois é. Ao todo foram 11 conversas com gente de Belém, Brasília, Mato Grosso e São Paulo. Cada uma durou, em média, uns 40 minutos. Foi bem legal porque deu pra ter uma amostra de quem são vocês, os assinantes da newsletter: profissionais qualificados em busca de soluções para se virar em uma profissão instável, muitas vezes precária, mas com possibilidades crescentes, especialmente nos últimos tempos.

Como disse na época em que propus o Hangouts Farol Jornalismo, trata-se de um projeto despretensioso cujo objetivo era trocar uma ideia sobre a profissão. Mas quem sabe poderia ser o início de alguma outra coisa. Há algumas ideias. Em especial, penso em uma. Mas ainda não sei bem como executá-la. Então, enquanto não decido o que seria essa outra coisa, os interessados que preencheram o formulário e com os quais, por diversas razões, eu não consegui conversar, podem, se ainda quiserem, retomar o contato. Estou à disposição.

Antes de correrem rumo ao final e semana, deem uma olhada neste conteúdo do pessoal do Infoamazonia sobre o futuro da floresta, especificamente sobre o cenário assustador de destruição caso o ritmo atual de devastação continue. Logo no começo tem um mapa que projeta o tamanho da floresta até 2260, ano em que, caso a coisa siga como está, a Amazônia deixará de existir.

E, por fim, leiam esta matéria do Delayed Gratification sobre o esforço de Phil Balboni, fundador e CEO do GlobalPost, para tentar libertar James Foley, jornalista norte-americano que foi decapitado por terroristas do Estado Islâmico ano passado.

Peraí, ainda não acabou. Leiam a crítica que a professora da UFF Sylvia Debossan Moretzsohn escreveu sobre o documentário Meia Hora e as manchetes que viram manchetes para o blog Objethos, do Departamento de Jornalismo e do POSJOR da UFSC. Vale a pena ler antes ou depois de ver o filme. Um trecho:

O documentário Meia Hora e as manchetes que viram manchete, dirigido por Angelo Defanti, proporciona uma rara oportunidade para se discutir questões éticas, principalmente – mas não só – nesse tipo de publicação. Rara por estimular esse debate através do cinema, quando há tão poucos documentários sobre jornalismo no Brasil, e pela forma como é editado, com mínima intervenção do diretor nas entrevistas: é através da exposição dos depoimentos, confrontados entre si e articulados às reproduções das capas – algumas delas trabalhadas com efeitos gráficos criativos –, num ritmo ágil, que o filme ao mesmo tempo provoca o riso e o questiona. E, assim, levanta dúvidas que permitem ao público desenvolver a sua própria crítica.”

Segundo ela, o filme está em cartaz no Rio, São Paulo e Aracaju. Chega em Porto Alegre dia 27 de agosto, e em Florianópolis no dia 3 de setembro. Feito?

Bueno, era isso então.
Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório