Buenas, moçada!

Que tal? Tudo em cima?

Bueno, vamos lá para mais uma sexta-feira-de-newsletter de nossas vidas.

Impossível escapar da repercussão do tiroteio de Virginia.

Parece que estamos diante de mais um caso paradigmático para atuação jornalísticas em tempos de internet social. Passadas apenas 48 horas do evento, temos alguns textos sobre o assunto. O ponto que parece os unir, muito antes de uma condenação veemente pela reprodução dos vídeos do momento do crime, é um convite à reflexão sobre como utilizar esse material. É como dizer “ok, as imagens já estão com o público, por isso não podemos ignorá-las, mas qual é a forma mais adequada de abordá-las?”

O comentarista de jornalismo e mídia do Guardian Roy Greenslade começa seu texto com a pergunta: “a mídia está errada em publicar vídeos e imagens do tiroteio de Virgínia?” Diante de um cenário de muita hipocrisia, diz ele, em que muita gente critica veículos por terem publicado as imagens após terem as retuitado, a abordagem jornalística poderia se resumir a uma questão de taste (resolvi manter a palavra em inglês porque me parece que traduzir como ‘gosto’ é um tanto redutor para este caso) e de diálogo com a audiência de cada veículo. As pessoas precisam ser informadas, mas cuidando para não cruzar a linha da ofensa e do bom senso.

Talvez a opinião de Greenslade não tenha contribuído muito, mas uma frase me chamou a atenção. Acho que ela resume bem o dilema que os editores enfrentam.

“Nesta era digital, com as publicações acontecendo na velocidade de um raio, é compreensível que a decisão inicial de ‘azar, vamos publicar’ possa dar lugar a um segundo pensamento baseado na compaixão e no bom gosto.”

No blog da BBC, Mark Franke, editor-assistente de social news, optou por organizar seu pensamento em tópicos. (Recurso, aliás, que aparece em outros textos. Fiquei com a impressão de que, diante da necessidade imperativa de refletir sobre um assunto polêmico, alguns colegas precisaram justificar suas decisões – talvez para si próprios – elencando prós e contras em bullets. Interessante.) Em resumo, ele diz que cada organização de notícias deve decidir como noticiar o tema, mas que talvez seja a hora de veículos tradicionais (legacy media companies) e empresas de mídias sociais discutirem juntas “um código de ética sobre o uso de filmagens feitas por amadores” para prevenir a disseminação de “imagens perturbadoras”.

Notaram que ele sugere que veículos tradicionais e mídias sociais discutam critérios editoriais? Lembram da discussão – muito abordada aqui – sobre empresas de redes sociais como o Facebook assumirem responsabilidades editoriais? Tema interessante e polêmico. Quais os impactos para o jornalismo?

Bueno, deixemos essa questão de fundo NO FUNDO. Voltando aos tópicos, traduzi os pontos levantados por Franke no seu post no blog da BBC:

  • Há um óbvio interesse em uma história como essa. […] A questão é sobre como abordá-la eticamente;
  • Precisamos pensar sobre como vamos noticiar eventos como o de Virgínia, contextualizando-os rapidamente para uma audiência sedenta pela história;
  • Não podemos fazer as pessoas pararem de assistir aos vídeos porque precisaríamos que as redes sociais agissem de maneira muito mais pró-ativa [no sentido de retirar o conteúdo mais rapidamente, creio];
  • Então, como garantir que a audiência não se incomode com aquilo que vê, em diferentes momentos do dia? Aqui, certamente é preciso discutir a questão do autoplay dos vídeos nos feeds.

Vamos adiante pegando esse último tópico como gancho. Leiam este texto do Guardian sobre usuários reclamando da função autoplay nos vídeos publicados em redes sociais como Twitter, Facebook e Instagram. Samuel Gibbs, o autor, questiona uma configuração que, segundo ele, reflete uma preocupação maior com a publicidade do que com o engajamento, ferindo o direto que o usuário deveria ter de escolher entre ver ou não um vídeo como o de Virgínia.

“Twitter, Facebook, Instagram e muitos outros serviços e sites de redes sociais determinam que os vídeos rodem automaticamente nos feeds das pessoas. A configuração autoplay, pensada para aumentar o engajamento a conteúdos inofensivos, está forçando as pessoas a assistir a vídeos que elas não querem ver ou que talvez não assistissem, se tivessem escolha.”

No Poynter, Roy Peter Clark procura fazer o seguinte exercício (também por meio de tópicos): ok, o evento de Virgínia foi, de fato, significativo, mas seu valor-notícia resiste a uma análise mais fria e cuidadosa, baseada em outras circunstâncias extremas? Clark não chega a conclusões definitivas. Sublinha que é difícil cobrir essa história de maneira responsável devido ao fato “de que as vítimas – e o assassino – são membros da tribo dos jornalistas”. Mas de uma coisa ele tem certeza: veículos de notícias postando GIFs nas redes mostrando a cena em looping não dá. “Isso não me parece uma mera insensibilidade. É simplesmente errado”.

Neste outro post no Poynter, Al Tompkins fornece dados sobre jornalistas mortos neste ano enquanto estavam trabalhando: Alison Parker e Adam Ward foram os 31º e o 32º profissionais assassinados em ação em 2015, segundo o Comitê de Proteção aos Jornalistas. O texto traz também algumas orientações / sugestões de como usar os vídeos nas coberturas. Tompkins parte de ideia de que o vídeo é notícia porque, ao menos no princípio, ele faz parte do o quê do fato. Mas à medida que a história se desenvolve rumo ao por quê, ele tende a perder importância.

“[…] ele [o vídeo] adiciona pouca informação ao que aconteceu. Os fatos são claros sem que precisemos utilizá-lo. […] O vídeo em primeira pessoa mostra uma execução. Levá-lo ao ar serve para encorajar atos parecidos de violência. O atirador pode ter tido como objetivo mostrar o vídeo como uma maneira de punir e humilhar suas vítimas. Pode ter dado a ele uma grande sensação de poder estar no controle, e veicular o vídeo apenas alimenta essa emoção.” 

Voltando ao Guardian, este texto do jornalista Archie Bland é mais incisivo: “não aprendemos nada ao assistir assassinatos em tempo real”. Bland cita declarações do pai de Alison Parker, a repórter assassinada, dizendo que não iria assistir aos vídeos por seria “como ver aquelas decapitações”. Elas servem para traçar um paralelo entre postura dos veículos de imprensa neste caso e diante das ações do Estado Islâmico. Embora sejam situações diferentes, escreve, (assistir aos vídeos de) ambas não traz nada de substancioso ao nosso entendimento sobre o assunto.

E fecha assim:

“Deixando de estar atentos a esses fatos óbvios para fazermos pomposas perguntas a respeito da morte na era das mídias sociais, nós perdemos o aspecto crucial da palavra ‘social’: ela significa não apenas transmitir; ela também significa receber. No fim, esses crimes significam o que nós permitimos que eles signifiquem. Nós deveríamos é fazer com que as vidas das vítimas significassem algo.”

Bueno, encerro por aqui esta primeira rodada sobre críticas à cobertura do tiroteio de Virgínia. Certamente ainda teremos alguma repercussão nos próximos dias.

Mudando de assunto.

Duas semanas atrás escrevi sobre o artigo Além do jornalismo, de Mark Deuze e Tamara Witschge, vocês devem lembrar. Um dos aspectos que ele sublinha em relação ao desmantelamento das redações é uma “escala global de retrocesso no investimento e captação de notícias e em correspondentes estrangeiros”. A respeito deste último ponto, citou um artigo publicado no Guardian por Martin Chulov sobre a situação desse tipo de atuação jornalística. “As organizações de mídia, confrontadas com orçamentos cada vez mais apertados e referências oblíquas para a definição de suas bases mínimas, recorrem a freelances (muitas vezes ansiosos) que trabalham ‘sem nenhuma segurança, sem cobertura de despesas ou mesmo de passagens para levá-los de volta para casa novamente'”.

Pois bem, nesta semana o Journalism.co.uk publicou uma matéria a propósito do primeiro aniversário da morte de James Foley na Síria. O texto traz informações sobre primeiros socorros, plano de cobertura médica, plano de comunicação, treinamento em ambiente hostil, equipamento e segurança digital. Cita também um plano lançado por várias organizações em fevereiro que pede a veículos de notícias que “tratem freelancers trabalhando em situações perigosas como se eles fossem da equipe, e que os freelancers procurem cuidar mais de si e dos colegas”.

Neste texto publicado no blog sobre jornalismo da BBC, Sarah Giaziri, do Rory Peck Trust (organização de apoio a freelancers ao redor do mundo), fala um pouco sobre o trabalho realizado junto à cobertura na Síria. Diz que, embora o mundo tenha voltado os olhos para o assunto principalmente depois da morte de James Foley e de Steven Sotloff, eles atuam desde 2011 oferecendo todo o tipo de suporte a jornalistas trabalhando no conflito. Inclusive a jornalistas sírios – as maiores vítimas da guerra. Segundo Giaziri, “a maioria dos profissionais sírios não tem qualquer tipo de treinamento ou acesso a informações sobre segurança. Embora muitos tenham desenvolvido seus próprios métodos, grande parte não sabe o que fazer para se manter em segurança ou para sumir quando algo dá errado”.

Ainda sobre segurança (física e digital) para jornalistas, o IJNet lançou um kit de segurança no jornalismo na plataforma de dados Silk. Trata-se de uma reunião de conteúdos já publicados pelo IJNet sobre tópicos relacionados ao tema. O interessante é que o Silk reúne tudo em um lugar só, separando os assuntos em cards e em uma espécie de timeline. Ficou massa. E tem conteúdo em português.

Adiante e se encaminhando para o final.

Textinho do Digiday sobre o sucesso das newsletters do NYT. Segundo consta, algumas das dezenas de newsletters mantidas pelo jornal chegam a 50% e até 70% de índice de abertura. Diz o Digiday que esse tipo de conteúdo é estratégico para o NYT porque seria a porta de entrada para novos assinantes – que é de onde vem a maior parte da receita do jornal. Diz ainda que a equipe de newsletters tem 12 pessoas exclusivamente dedicadas. E também que uma das estratégias usadas pelo jornal é “deixar de lado as newsletters ao estilo RSS e adotar um tom mais humano”. Ou seja, deixar que os editores deem seu toque pessoal ao conteúdo.

Provocador texto no European Journalism Observatory sobre o Jornalismo Estruturado (Structured Journalism). Jairo Mejia, um correspondente da EFE, sugere que as grandes agências de notícias precisam abraçar esse conceito para lidar melhor com grandes quantidades de dados jornalísticos. Por jornalismo estruturado entenda-se a fragmentação de conteúdos, como uma matéria, por exemplo, em pedaços menores de informações armazenados em banco de dados capazes de serem lidos não só por humanos, mas também por máquinas. Como isso pode ajudar? Leiam dois parágrafos do texto:

“Desenvolvimentos desse tipo podem também ser usados para criar visualizações em segundos, automatizar processos de verificação, prever quais histórias são mais úteis para os leitores, analisar audiências, acelerar o jornalismo investigativo e, em um futuro não tão distante, permitir que robôs escrevem histórias, libertando jornalistas dos processos mais tediosos.

Imagine uma repórter escrevendo sua história em um CMS integrado com o banco de dados da agência de notícias. Enquanto ela escreve, o software da agência vai dando recomendações sobre dados que talvez ela queira checar, comentários nas mídias sociais relacionados ao assunto ou fornecendo a ela uma verificação automática, como, por exemplo, corrigindo dados de desemprego ao oferecer os números mais atualizados.”

Pra fechar, leiam o texto de estreia do A la fresca, uma publicação mantida pelo jornalista Luís Felipe dos Santos sobre jornalismo e mídia. Em “Nosso título de nobreza não vale nada“, Luís Felipe mostra como, a partir dos protestos de 2013, percebemos que sempre vivemos em uma bolha jornalística que muitas vezes nos tornou incapazes de conseguir perceber qual era, de fato, a agenda do público.

Um trecho.

“Incapaz de acompanhar a agenda do seu público, divulgada nas redes sociais, e de construir um produto de valor, pois a resposta comercial é insuficiente, a tendência de um portal é restringir a abrangência da sua relevância para os nichos dos próprios jornalistas. Assim sendo, o interesse do público passa a ser aquilo que se refere a uma pessoa entre 20 e 40 anos, moradora de São Paulo, curso superior completo, que ganha entre R$ 1,5 e R$ 7 mil mensais. Se você acessar a home de qualquer portal nesse exato momento, vai ver pelo menos cinco pautas muito interessantes para o público descrito acima.”

O raciocínio do Luís Felipe me lembrou o clássico texto de Robert Darnton “Toda notícia que couber a gente publica”. Uma das leituras obrigatórias da profissão.

Falando em leitura obrigatória, fiquem com este link do blog Jornalismo Literário com a análise do livro Hiroshima, um dos maiores livros-reportagem já escritos.

E o Contributoria, que fechou as portas? Assim fica difícil. :/

Mas tá, vamos nessa porque hoje é sexta.

Bueno, era isso então.
Bom fíndi e até a semana que vem! 🙂
Moreno Osório